Uma Noite de Música
9 Capítulo 9 - Theon

Ultimamente nada parecia lhe dar satisfação. A sua banda fez a abertura dos shows daquela noite no Serpentina e a sua agenda estava lotada para os seguintes quinze dias, ele deveria estar feliz com isto, mas não sentia emoção alguma a não ser a de dever cumprido. Havia dinheiro entrando na sua conta e a sua legião de fãs estava aumentando e mesmo assim ele sentia que faltava algo. Sua irmã pensava que era uma companheira e Asha podia estar certa sobre isso. Theon até mesmo procurou uma candidata a esta posição e Jeyne Poole se enquadrava bem as suas escolhas. Ela era jovem, bonita, bem educada, com ensino universitário e de uma boa família, embora não tão poderosa quanto a sua, entretanto isso era indiferente, porque se ele não saísse logo do ramo musical o seu pai, Almirante Balon Greyjoy iria deserdá-lo. Você é uma vergonha para a família, Theon! A voz de seu pai ainda ecoava em sua cabeça com os dizeres da última discussão que tiveram. Seus dois irmãos desapareceram no mar, você deveria fazer como todos os homens Greyjoy fizeram por quatrocentos anos e se alistar à Marinha! Balon tinha razão e ele sabia disso, todavia ele queria mostrar ao pai que existia outra vida além da servidão militar. Ele até tentara por um ano quando fez dezoito anos, mas não se adaptara naquela profissão e Asha o apoiou em suas escolhas. Theon tinha conhecimento que a irmã se enquadraria melhor neste ramo, ela tinha um barco próprio e a cada três meses desaparecia em mar aberto por tempo indeterminado, voltando com histórias fabulosas de suas aventuras. No entanto, o pai de ambos não parecia se importar com o que a moça fazia ou deixava de fazer, afinal de contas ela era apenas uma mulher e faria um bem para a humanidade se se casasse logo. Theon o desprezava por essa mentalidade e secretamente desejava que o Reitor da universidade fosse o seu pai. Desde criança ele passava mais tempo entre os Stark do que com sua própria família e tinha uma relação mais forte com os filhos de Eddard Stark do que com os seus próprios irmãos, mesmo com Asha que era sua dupla na banda que montara alguns anos atrás. Foi por causa da minha irmã que eu não desisti de ser um Greyjoy, pensou.
Não era fácil ser a decepção de sua família e estar levando o seu sobrenome à extinção. Por mais que tentasse não demonstrar, as palavras ásperas e os insultos diários do Almirante Balon Greyjoy tinham efeitos sobre ele e ao invés de culpar o seu progenitor e defender com mais afinco suas escolhas, ele optou por se culpar e tornar aquelas acusações reais. Por isso que desde dois anos atrás, quando o seu irmão Maron tivera o mesmo destino incerto de seu irmão mais velho Rodrik, ele aderira à vícios para aliviar sua dor.
Tudo começou com bebidas alcoólicas. Elas foram boas à princípio, lhe dando felicidade momentânea e uma grande depressão no dia seguinte quando se encontrava sobre efeito da ressaca. Seguindo os passos de sua irmã, ele procurara uma nova forma de distração, o que o levou a substituir o seu velho amigo cigarro por maconha. Entretanto, Asha fumava a erva de vez em quando e ele passara a usar com frequência, mas depois de um tempo o efeito passou a não ter tantas reações e seguindo a ideia de seu fornecedor, que lhe apelidara de Fedor, Theon experimentou a cocaína. O maravilhoso pó branco que fazia com que suas preocupações fossem motivos de risada. Se todos os pães fossem feitos com esta farinha, não haveria pessoas com fome e nem infelizes, ele comentara uma vez durante seus devaneios, o que fez com que Ramsay desse uma gargalhada ardida.
Ramsay... Ele era um dos responsáveis pelo inferno em que vivia. Por mais dinheiro que entrasse na sua conta, muito mais da metade era destinado ao Bolton. Ramsay era o seu fornecedor e o único que conhecia. Suas drogas tinham preço elevado, mas eram de boa qualidade ou pelos menos acreditava que fossem. Theon chegara a pensar que podia vir a lucrar algo se tornasse amigo dele, mas a encomenda saíra mais cara do que o esperado. Ramsay abusava dele e de todos que estavam ao seu redor, tratava Theon como o seu animal de estimação, pois sabia que Fedor precisava do que ele vendia e se não fizesse o que queria, ele pararia de lhe fornecer as drogas, mas antes esconderia uma boa quantidade de pó em seus pertences, fazendo uma queixa ao pai, o delegado Roose Bolton para que o investigasse por tráfico. Era inútil lutar com Ramsay. Ele fora testemunha que o rapaz cumpria o que prometia quando mandou o próprio irmão, Domeric Bolton, para o hospital psiquiátrico depois de adulterar um inofensivo cigarro de maconha. Eu tenho medo dele, confessou para si mesmo. Tinha medo de ficar sem o seu anti-depressivo e de testemunhar o poder do Estado.
Se eu for preso, Robb poderá pegar o meu caso e me tirar da prisão, foi a primeira coisa que pensara quando sofreu aquela ameaça. No entanto, Robb não estava mais tão próximo de si desde que o seu amigo de infância se formara em Direito quatro anos atrás e agora estava ocupado demais sendo o namorado exemplar de Jeyne Westerling. Os Stark são as últimas pessoas que eu quero que saibam sobre o meu problema, constatou. Podia ser uma decepção para o pai, para os irmãos e para a sociedade, mas jamais permitiria sê-lo daquela família que o acolhera tão bem.
Fora Ramsay, sua irmã era a única que sabia de seu vício. Asha vinha tentando de tudo para diminuir o poder de Ramsay sobre o irmão, porém a única coisa que conseguia era falhar com os seus planos. Até Theon desistira de si mesmo, por que Asha não podia fazer o mesmo? Ele não a culparia, de forma alguma, ele sempre se culpara por tudo mesmo que nada mais importava. Isso não é verdade, rebateu. Algo tinha importância agora: Jeyne Poole. A garota entrara na sua vida e, infelizmente, na de Ramsay também. Em uma festa em que os dois foram, Ramsay a estuprara e mesmo com ela dando queixa, nada aconteceu ao protegido do delegado de polícia. Ela estava drogada, Ramsay comentou uma vez, dando de ombros com a banalidade. Theon sabia a verdade e não era aquilo que o amigo dizia. Se tinha alguém que deveria ser salvo, este alguém era Jeyne.
Pobre Jeyne, lamentou o infortúnio da moça, mas isso de nada adiantou quando ela fora até o camarim naquela noite congratulá-lo pelo show. Ramsay a abordara antes que Theon pudesse colocar os olhos em sua paquera e a garota demonstrara sentir tanto medo quanto ele. Não adianta lutar, queria ter-lhe dito, mas nenhuma palavra deste tipo podia ser pronunciada em voz alta, ele nem sequer se atrevia a trocar olhares com ela na presença de Ramsay. Eu devo me levantar, eu devo protegê-la, mas o seu corpo não o obedeceu. Pela graça do Deus Afogado Asha intercedeu pela moça e a tirou das mãos de seu agressor. Secretamente ele amou a irmã por fazer aquilo que ele não tinha condições de fazer.
Jeyne não deveria ter ido até ali, ele ouvira de Robb que Arya e Sansa Stark iriam dormir na casa da amiga, no entanto tudo isso realmente não passava de armação. A sua função era devolver as garotas para a casa delas se a vissem, mesmo ele tendo encontrado só uma das três. A casa de Jeyne era o lugar mais seguro para ela e por mais feliz que ele tenha ficado por ela ter ido até lá assisti-lo, ele não podia demonstrar na frente de Ramsay. Ele não sabe do meu envolvimento com Jeyne e está cismado que ela ainda é a sua garota. Ele precisava se acalmar. Sentia as mãos tremerem e não sabia se era por nervosismo, impotência ou abstinência do vício.
– Você precisa de mais, não é mesmo, Fedor? — Ramsay sussurrou em seu ouvido enquanto Asha e Jeyne saiam do backstage. Era desolador ver elas indo embora para se juntar a multidão enquanto ele ficava para trás com o demônio.
Theon meneou a cabeça em sinal positivo e só então percebeu que o tique de balançar a cabeça voltara. Ele realmente precisava daquilo que lhe estava sendo ofertado.
O demônio abriu um sorriso amarelo.
– Você gosta do que eu tenho, Fedor? — Ramsay perguntou com falsa ingenuidade.
– Gosto — Murmurou. Já havia aprendido a jogar aquele jogo e manter o orgulho resultaria apenas em uma tortura prolongada.
– O quanto você gosta, Fedor? — Theon cravou as unhas na palma da mão. Detestava o apelido e a forma com que Ramsay fazia com que ele se sentisse menos do que de fato o era.
– Eu preciso ir com a minha irmã, se você pud... — Não conseguiu terminar a frase, pois o amigo o interrompeu.
– Veja, não é assim que você terá o que quer. Eu já não lhe ensinei como você deve se dirigir a mim? — Ramsay o repreendeu e a máscara da falsa simpatia foi substituída pela psicótica — Agora me responda: O quanto você gosta do que eu lhe dou, Fedor? — Sua voz não era mais alta do que um sussurro, mas havia uma ameaça naquele tom aveludado que não podia ser disfarçada.
– Gosto muito... mestre– O título que Ramsay o forçava a utilizar saiu arrastado de sua garganta e sua tremedeira pareceu se intensificar.
– Muito bem, Fedor! — O sorriso voltou a surgir em seu rosto — Como estou de bom humor hoje, vou deixar que sua ofensa passe em branco. No entanto, eu não posso lhe dar o que quer assim...: de qualquer jeito. Você já tem uma grande dívida comigo que ainda não foi paga — Ramsay crispou os lábios e meneou a cabeça em sinal negativo, demonstrando estar pensando sobre o assunto — O que eu devo fazer, Fedor?
Era insuportável a quantidade de vezes que Ramsay fazia questão de dizer o seu apelido. Era como se ele soubesse o quanto isso o irritava e se saciasse desse sentimento.
– Eu irei receber em breve e posso quitar uma parte desta dívida — Theon sugeriu. Já tinha mais de três meses que ele não pagava o seu fornecedor; não porque ele não queria, mas porque ele era um adulto que tinha outras contas para quitar, como o aluguel do seu apartamento e o condomínio do mesmo, as prestações do seu carro, as prestações do acordo da faculdade que apesar de já ter se formado há quatro anos em Música ainda não pagara e a compra de uma nova guitarra para substituir a anterior que quebrara em um ataque de fúria. E apesar de sua irmã ter lhe oferecido dinheiro, ele era um Greyjoy e não dependeria de dinheiro de uma mulher, mesmo que ela fosse sua irmã.
– Eu tenho uma ideia melhor, Fedor! — Anunciou com tanta animação que parecia que havia descoberto um continente não registrado no Mapa Mundi — Venha comigo — Passou um braço por trás do ombro de Theon e o conduziu até o próprio camarim com a placa de identificação dOs Bastardos.
Dentro do camarim, Ramsay soltou Fedor e fechou a porta atrás de si, garantindo que mais ninguém iria até ali para atrapalhar o que viria a fazer.
– Muito bem — Virou-se para o seu animal de estimação com brilho nos olhos — Eu não posso perdoar toda a sua dívida, que é muito grande, mas posso perdoar uma parte dela, desde que você me faça um favor — Sem esperar resposta, se direcionou ao armário e lá se pôs a abrir o compartimento que estavam os seus pertences.
– U-um favor? — Gaguejou, sentindo que não seria algo tão simples como comprar uma bebida para ele.
– Na verdade, serão dois — Ramsay sorria como criança — Primeiro quero que drogue Jeyne e depois a leve até a minha casa e espere até eu chegar.
Theon engoliu em seco.
Não podia fazer aquilo com Jeyne, nem com ninguém. Não era preciso ser um gênio para saber o que Ramsay queria com aquilo.
– O que acontece se eu não fizer? — Perguntou em um surto de ousadia.
– Como? — Ramsay não pareceu acreditar no que ouvia — O que disse, Fedor? — Ressaltou o apelido para demonstrar o poder que tinha sobre ele e que um não, não era uma resposta.
– Se Jeyne não colaborar ou se... ou se minha irmã interferir... O que eu faço? — Optou por mudar a pergunta e torceu silenciosamente para que Asha atrapalhasse o plano de Ramsay.
– Mate-as — Respondeu com simplicidade, mas ao ver a expressão de Theon gargalhou abertamente — Se livre de sua irmã e drogue Jeyne. Batize a bebida dela e ela nem perceberá, Fedor.
– Mas e se...
– Sem mas– Ramsay o cortou — Apenas faço o que lhe peço ou terei que me livrar de você.
Theon entendeu perfeitamente o que aquilo significava.
– Eu o farei — Concordou.
Ramsay lhe entregou dois pacotes diferentes que cabiam perfeitamente em sua palma da mão junto com a chave de sua casa. Theon ficou feliz por estar com aquele pequeno pacote que lhe traria felicidade nas mãos, contudo a felicidade foi anulada pelo peso do outro.
– Um é para você e o outro para minha garota — O rapaz voltou a sorrir — Agora vá e não me decepcione, Fedor.
Theon era um homem com histórico de rebeldia e ainda assim, ele sempre fazia o que Ramsay lhe ordenava e temia que dessa vez não fosse capaz.
Sentindo a bílis subir em sua garganta, ele se dirigiu até um lugar onde pudesse ficar sozinho. Ele precisava de seu consolo mais do nunca na vida e saciar os seus desejos era o que ele iria fazer antes de tudo. Pobre Jeyne, tornou a pensar ao deslizar os embrulhos para dentro do bolso de sua calça jeans.
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