Uma Noite de Música

8 Capítulo 8 - Sandor


O que mais tinha no Serpentina eram garotas, mas nenhuma com quem Sandor conversara até aquele momento era bonita o suficiente para tentá-lo, com exceção de uma tal de Ros, uma mulher alta na casa dos seus trinta anos, com cabelos acobreados, olhos castanhos e pele pálida, com um leve sotaque nortenho que tentava disfarçar a todo custo. Contudo ela não estava assim tão interessada nele e ele não pôde culpá-la, afinal de contas era necessário estômago para olhar para a ruína de seu rosto por mais de cinco segundos sem vomitar. Depois do show vou ter mais tempo para a caça, disse a si mesmo. Ele realmente estava disposto a encontrar alguém com quem passar a noite e aliviar sua tensão. Naqueles últimos tempos ele aguentara muita merda e ser chamado para tocar na Guarda Real parecia a menor dentre todas.

Sandor nunca fizera questão de esconder o seu gênio terrível, entretanto ultimamente isso estava lhe causando problemas, fazendo com que em menos de um mês ele fosse chamado a sala do diretor cinco vezes para justificar a sua falta de tato com os seus alunos. Eddard Stark o colocara na lista de observação e se as reclamações não parassem ele seria mandado embora em breve, apesar de ter ficado dezesseis malditos anos trabalhando como professor naquela instituição. E com a ficha suja e já tendo trinta e nove anos, ficará difícil eu arranjar um novo emprego, Sandor amaldiçoou os alunos que reclamaram dele e já que não podia cometer mais nenhum deslize, ele optara pelo método da vingança de quem leciona, que é abaixar a nota dos alunos mesmo que eles se saiam bem nos testes, o que não saciava nem um pouco o seu desejo de repreender aqueles malditos que não conseguiam entender a diferença entre um baixo e uma guitarra.

– Vocês serão os próximos a se apresentarem. Os Nascidos do Ferro já estão descendo do palco. — Anunciou um membro da organização do evento assim que os avistaram no backstage.

– Já é a nossa vez? — Meryn Trant deu dois tapinhas de encorajamento nas costas de Joffrey — Hoje a noite vai ser sua, hein?

Sandor revirou os olhos com a falsa animação do seu colega professor. Fora justamente por ser a vez deles que eles se dirigiram ao backstage enquanto os Nascidos do Ferro apresentavam sua última canção.

– Você não vem, Cão? — Joffrey perguntou, exibindo o seu irritante sorriso infantil que fazia com que os seus lábios finos quase desaparecessem.

– Vou deixar minhas coisas no camarim. Vocês podem ir na frente. — Avisou, revoltado por ter de dar justificativas e sem esperar resposta se dirigiu à porta onde Guarda Real estava escrito em uma plaquinha improvisada.

O camarim do Serpentina não era algo inusitado para Sandor. Ele já tocara ali anteriormente e sabia exatamente onde ficava tudo e como as coisas funcionavam. Sem hesitar, ele foi direto até o armário e esvaziou os bolsos, guardando o seu óculos de sol, sua carteira e a chave de sua casa. Teria guardado também o aparelho celular se o mesmo não tivesse tocado naquele instante. Conferindo o nome de quem ligava, ele atendeu a ligação.

– Fala, Payne — Ordenou ao seu agente.

Podrick Payne era um rapaz de vinte e cinco anos com um forte senso de servitude que há dois anos entrara para o serviço de Sandor. Era incrível pensar que mesmo com a agenda de shows quase vazias ele ainda se dava ao luxo de ter um agente musical, a vantagem era que o salário do rapaz não era muito alto e ele não tinha que entrar em contato direto com as casas noturnas.

– Agendei uma apresentação amanhã no Rei Ajoelhado, as oito horas da noite — Anunciou com satisfação do bom trabalho que desempenhara.

– Você vai me pagar uma bebida, Podrick? — Perguntou com cautela na voz.

– Perdão, chefe? — O rapaz demonstrou não ter entendido.

– Você está querendo me foder, então você tem que me pagar uma bebida antes! — Gritou para o aparelho que segurava nas mãos — A porra do Rei Ajoelhado fica no litoral! Há três horas de distância de onde estamos, seu desgraçado!

Era em situações como essa que ele desprezava o fato de ter um agente.

– O que eu devo fazer, então!? — Seu agente se desesperou do outro lado da linha.

Sandor respirou fundo, fechando os olhos antes de responder e apoiou uma mão no armário à sua frente.

– O que se pode fazer? — Questionou a si mesmo — Não tem nada que se possa fazer. Vou gastar todo o dinheiro que receber amanhã colocando combustível na minha moto.

– Eu realmente sinto muito! — Podrick Payne exclamou — Isso não vai tornar a acontecer!

– Não vai mesmo, porque se acontecer vou te por na rua! — Deu o ultimato, desligando o telefone enquanto a pessoa do outro lado continuava fazendo as suas desculpas.

– Maldito seja... — Murmurou, batendo a porta do armário para trancá-lo e girando sobre os calcanhares para ir para o palco. A esta altura, ele imaginava que seus colegas já estariam adiantados com a montagem do equipamento, principalmente com Boros tendo chego no backstage antes deles.

Porém, assim que ele abriu a porta do camarim ele trouxe uma pessoa junto à ela que a princípio ele não reconheceu, mas a ajudou de qualquer forma, apoiando uma de suas pesadas mãos no ombro daquela criatura que batia um palmo abaixo do seu peito para evitar que fosse ao chão. Com dois metros e oito de altura, era comum encontrar pessoas mais baixas do que ele.

– Eu sinto muito, senhor... — Uma voz doce e suave ecoou nos ouvidos dele e seus olhos se deleitaram com o que viram.

Aquela criatura que ele evitara que caísse era uma garota com brilhantes olhos azuis e lábios levemente volumosos pintados de marrom. Sansa Stark, ele a reconheceu mesmo que ela ocultasse as longas madeixas rubras com uma touca negra.

Sandor abriu a boca para dizer algo, no entanto nenhuma palavra saiu de seus lábios. Sansa assim que viu as queimaduras do lado esquerdo de seu rosto levou a mão à boca para ocultar um grito que saiu da mesma forma e derrubou a garrafa de cerveja e a bolsa que trazia. Imediatamente o rosto dela ficou avermelhado e ela se abaixou, desviando os olhos do monstro que lhe causava horror. Sandor a imitou, ajudando-a a recolher seus pertences que se espalharam aos pés deles.

– Deixa que eu faço isso — Se ofereceu — Ou vai acabar se cortando com os cacos da garrafa — Sua voz estava fria. Ele detestava quando suas cicatrizes eram notadas pelos outros. Isso fazia com que ele odiasse ainda mais o seu irmão e a sua condição que seria carregada pelo resto da vida, que mesmo os melhores cirurgiões plásticos de todo Westeros não conseguiriam consertar.

Mesmo com o aviso Sansa não o obedeceu, recolhendo o máximo de seus pertences que conseguia até que se cortou com um caco e levou os dedos ensanguentados à boca.

Ele nunca entendera porque as mulheres carregavam tantas coisas em suas bolsas. Ele identificara uma meia dúzia de itens de beleza, a carteira da moça e... Sandor segurou uma embalagem prateada de um produto que ele conhecia muito bem. Ele ergueu os olhos para estudar Sansa e percebeu que ela fazia o mesmo, com o medo duplicado em sua expressão. Com o lábio arqueado em um sorriso amarelo ele entregou o pacote de camisinhas para ela.

– Eu te assusto tanto assim, garota? — Perguntou em uma zombaria.

Como um gato assustado, com rapidez ela tomou aquela embalagem prateada das mãos dele o arranhando no processo e voltou a guardá-la na bolsa, envergonhada demais para dizer qualquer coisa.

– Eu não mordo — Zombou — Mas não acho que o seu pai gostaria de saber o que a preciosa filha dele carrega consigo.

– Não conte à ele! — Implorou a moça, ainda sem olhá-lo diretamente no rosto.

Sandor se irritou com ela e colocou a mão no maxilar de Sansa, fazendo com que ela se voltasse para ele.

– Não é educado desviar os olhos só porque não sou tão bonito quanto o seu principezinho – Sibilou com os dentes semicerrados e soube que sua voz saiu tão áspera quanto pedra de amolar.

– Por favor... — Ela pediu, fechando um olho devido a dor que os dedos dele causavam em sua pele sensível.

– Olhe o quanto quiser. Eu sei que você tem vontade de ver esta ruína — Apontou para o próprio rosto com a mão desocupada, tão irritado quanto antes.

Sansa o obedeceu. Sandor acertara. Ela realmente estava curiosa em relação as suas cicatrizes.

– Você sabe quem eu sou? — Perguntou depois de um tempo.

– O Cão de Caça — A moça gemeu — Sandor Clegane.

– E você sabe como eu consegui isso? — Questionou, se referindo a queimadura.

Sansa assentiu.

– Então não é um mistério para você — Ele tornou a crispar os lábios em um sorriso, percebendo que os olhos dela começaram a lacrimejar e a soltou, pondo-se em pé antes de Sansa e ajudando-a a copiá-lo — Joffrey já subiu para o show. Se quiser pode esperar por ele aqui no camarim — Disse, colocando o próprio celular no bolso.

– Obrigada, professor... — Agradeceu em um fio de voz, com as bochechas coradas, voltando mais uma vez a evitar olhá-lo diretamente.

Sandor havia atravessado a porta e estava com a mão na maçaneta, mas se conteve antes de fechá-la.

– Não me chame de professor, porque eu não sou o seu professor — Avisou em tom de ameaça.

Dito isto fechou a porta atrás de si, tendo certeza que seria obrigado a escutar um sermão de Trant por estar atrasado para a apresentação. Aquela criança realmente merece ser desprezada por Joffrey, refletiu enquanto subia a escada em caracol aos saltos. Ele estava errado sobre o diretor deixá-la atender ao evento, mas não estava errado ao pensar que ela sairia dali naquela noite com o coração partido e o que mais o irritava nisso é que ela tinha um pacote de camisinhas consigo, o que indicava que ela e aquele bastardo loiro já haviam avançado uma outra base no relacionamento que somente Sansa achava que tinha. Eu preciso encontrar uma mulher, voltou a desejar.

Notas finais
Mais um capítulo saído do forninho! rs Estou muito grata a todos que favoritaram e estão comentando a fic! Espero que tenham gostado deste PoV. Comentários e críticas são bem vindos! ;)