Uma Noite de Música
6 Capítulo 6 - Jeyne

Talvez ela não devesse se exibir para Theon, mas o que ela podia fazer se gostava dele? Theon era um daqueles que deveria ficar de olho se ela, Sansa e Arya fossem vistas no Serpentina e mesmo assim ela não se importava se ele a dedurasse para a família. Ela queria mais do que tudo vê-lo nesta noite e foi por isso que chegara cedo para assistir a abertura do evento que ocorreria ali naquele dia. Foi só quando a apresentação estava chegando ao fim que ela pensara em procurar por conhecidos e infelizmente isso a levou até Jon e Gendry, o meio-irmão desagradável de sua amiga Sansa e o garoto mais rampeiro que já conhecera e que por um azar do destino estava envolvido com Arya, e para a sua sorte, os dois estavam sozinhos próximos ao palco se a presença de Ygritte fosse ignorada. Do lado certo do palco, pensou, pois um pouco mais longe estava Robb, e se tivesse sido descoberta, com ele era certo que a sua saída teria terminado de forma trágica sem que ela ao menos pudesse dizer ao Theon que ela viera assisti-lo.
– Vamos rápido, Sansa, antes que os percamos! — Jeyne acelerou a amiga, não precisando elevar muito a voz porque a última música havia terminado e os componentes do Nascidos do Ferro estavam dando lugar à próxima banda, sendo que nenhum som se elevava mais do que o murmúrio da conversação dos presentes.
– Você tem certeza que é este o caminho? — Sansa perguntou, segurando com firmeza a mão da amiga para não se perder.
– Tenho sim, é o lado em que vi Theon descendo — Respondeu com um sorriso de orelha a orelha no rosto, tomando mais um gole da cerveja que carregava — Você acha que ele ficará feliz em me ver? — Jeyne conhecia Sansa desde que ambas tinham quatro anos de idade, por esta razão não havia segredos entre elas e há um mês atrás, em sua festa de aniversário, ela contara a melhor amiga e também colega de classe da faculdade que ela e Theon se beijaram e que desde então ela sentia-se cada vez mais atraída por ele.
– O Theon é bem narcisista, ele dará pulos de alegria ao ver que a garota que ele está afim se arriscou por ele — Comentou — No entanto, eu não sei se o Ramsay não estará lá também...
Jeyne diminuiu a velocidade de seus passos. Ramsay era o seu demônio particular e o amigo infernal de Theon. Ele era o guitarrista da banda Os Bastardos que se apresentaria por último hoje e ela tinha certeza que o encontraria no backstage. Ramsay era tão óbvio que não perderia a oportunidade de atormentar o Theon assim que o encontrasse.
– Sansa, eu acho que não devo ir... — Jeyne parou de andar, sentindo borboletas brotarem em seu estômago. Ela desejava ver o seu atual crush com a mesma intensidade que desejava evitar Ramsay. Já tinha um tempo que Ramsay a atacara em um churrasco no campus e mesmo ela negando desenvolver algo mais sério com ele, ele não parecia entender... e tudo piorara quando o pai dele, o famoso delegado de polícia de Porto Real, Roose Bolton, se recusara a anotar o estupro que o filho cometera, alegando que Jeyne estava sob o efeito de drogas quando tudo aconteceu. E eu nunca me droguei, ela ainda se lembrava com vivacidade daquele dia fatídico e de como o seu exame para drogas fora alterado quando chegou nas mãos do juiz Tywin Lannister. Malditos sejam todos eles, amaldiçoou.
– Bobagem, eu estarei do seu lado e impedirei que qualquer mal venha a acontecer com você — Sansa a confortou, tomando-a para um abraço. Sansa também o odeia e o pai dela usará sua influência se isso tornar a acontecer, tentou se convencer e pareceu funcionar.
– Você promete? — Perguntou, afundando o rosto no ombro da amiga e sentiu-a menear a cabeça em sinal positivo — Obrigada — Agradeceu com sinceridade, sentindo os olhos ficarem úmidos por um breve instante e então, respirando e expirando profundamente se afastou do abraço e abriu um sorriso gentil, tornando a tomar o caminho que a levaria até Theon.
Diferente do restante do galpão, a área do backstage era separada por uma enorme porta vermelha de metal batido com maçanetas prateadas e haviam dois seguranças a guardando, não deixando que ninguém não autorizado entrasse. Abrindo mão de algumas regalias, ambas as garotas fizeram suas economias durante o mês e puderam comprar as pulseiras VIPs e foi apenas mostrar aquela cor verde neon que a passagem foi liberada. O backstage por sua vez não estava iluminado com as luzes de discoteca e sim pelas lâmpadas sem-graça padrão de qualquer residência e suas paredes exibiam a coloração preta com orgulho. O número de pessoas ali também era menor e não vendo mais risco de perder Sansa de vista, ambas soltaram as mãos assim que avistaram os seguranças.
Na parte esquerda do largo corredor em formato de estrela de sete pontas do backstage havia pilhas de instrumentos dentro e fora de suas cases coloridas com o nome da banda ou do dono deles, três bancos de couro em verde folha em disposições apropriadas e do lado direito quatro portas diferente, todas com a mesma cor da principal que provavelmente seria dos camarins e na parte central, de frente com a entrada, tinha uma abertura na parede que exibia a escada em caracol que levava até o palco. As pessoas que estavam ali podiam ser dividida em três grupos: o pessoal da organização que eram identificados pela camiseta preta com os dizeres staff em branco e se ocupavam em montar e desmontar os equipamentos além de servir bebidas e petiscos aos músicos; os músicos, propriamente ditos que possuíam uma pulseira azul neon e conversavam ou faziam uso da escada; e, os que compraram o passe VIP com suas pulseiras iguais a que ela utilizava que tietavam sem parar os famosos.
Com a mudança de uma banda para a outra na apresentação, os camarins estavam praticamente vazios. Os integrantes da Guarda Real estavam subindo ao palco e não havia nenhum sinal de Joffrey, que provavelmente já teria seguido os demais companheiros do grupo à essa altura, no entanto Sansa quis arriscar mesmo assim e avisando Jeyne que iria procurar nos camarins a deixou só. Isso não importava para ela, pois assim que adentrara aquele espaço seus olhos encontraram a meia silhueta de Theon oculta por um staff, parado ao lado da irmã, guardando os seus instrumentos musicais.
Jeyne deu um passo à frente, sentindo-se encorajada e então ela empacou. O organizador que estava na frente de Theon se distanciou e ela viu Ramsay, conversando animadamente com ele e exibindo o seu habitual sorriso psicótico enquanto o outro evitava contato visual com o amigo e não demonstrava emoções, algo atípico de seu paquera.. Por favor, que ele não me veja... implorou à qualquer entidade, divindade, criatura viva ou morta, material ou espiritual que pudesse ler os seus pensamentos e realizar o seu desejo. De nada adiantou. Mesmo com o atraso de seu agressor para identificá-la, Jeyne foi imobilizada pelo medo que a levava a acreditar que se não se movesse, não respirasse e nem falasse ela não seria vista. Fuja, Jeyne..., sua voz interior alertara, corra enquanto pode, corra o máximo que conseguir e vá o mais longe que puder, mas o seu corpo não demonstrou entender o comando de sua mente e quando o transe foi quebrado pelo barulho de uma garrafa se quebrando em um dos camarins ela ousou soltar o ar que segurava em seu peito e ver o que havia acontecido, mas já era tarde demais e Ramsay não permitiu que sua atenção desviasse.
– Olha só o que temos aqui! — O rapaz se adiantou e depositou um beijo demorado e molhado em sua bochecha, fazendo com que ela voltasse a ficar estática — Senhorita Jeyne Poole! — Seu nome pronunciado por aqueles lábios soou como uma maldição aos seus ouvidos.
– Afaste-se dela, Ramsay — A voz da irmã de Theon soou como um alerta e Jeyne agradeceu profundamente pela intervenção de Asha Greyjoy.
– O quê? — O semblante do demônio mudou de ecstasy pra puro ódio em questões de segundos e ele cortou contato visual com sua presa para se voltar para Asha — O que foi que disse?
– Eu disse para se afastar de Jeyne — Asha tornou a repetir, caminhando como uma pantera protetora para perto dele — Agora — Ressaltou.
Ramsay gargalhou.
– Eu só quero me divertir com ela um pouco — Deu de ombros como um verdadeiro psicopata descontrolado.
– Mas ela não está se divertindo com isso — Asha apontou.
– Você não está? — Ramsay girou sobre os calcanhares, tornando a se dirigir à Jeyne.
– E-eu... — Gaguejou, sem saber o que fazer. Seus olhos procuraram Theon em vão. O membro do Nascidos do Ferro continuava ocupado com o que estava fazendo e Jeyne concluiu que ele também tinha medo de Ramsay e uma questão sobre o que ambos já passaram juntos veio a sua mente com a velocidade de um relâmpago.
– Você veio me ver, não é mesmo? — Ramsay estava induzindo-a a responder o que ele queria ouvir.
– É claro que não — Asha respondeu por ela — Não é sua hora no palco ainda. Ela está aqui por meu irmão.
Ramsay a estudou, procurando qualquer brecha sobre essa acusação que o desagradava no semblante de Jeyne.
– Isso é verdade? — Perguntou por fim, ao ver que ela não se manifestava. Mesmo assim ela não disse nada e ele se voltou para Theon — Isso é verdade, Fedor? — O ódio voltara de forma palpável no ar. Fedor é o apelido que Ramsay deu ao amigo depois de encontrá-lo chapado e... em situações deploráveis, relembrou da vez em que Theon lhe contara que de tanta maconha que fumara fizera necessidades nas próprias roupas.
– Ela não deveria ter vindo — Theon respondeu com simplicidade e se pôs em pé, juntando-se aos demais. Ainda que tentasse demonstrar coragem, ele oscilava, procurando apoio na irmã — Ela não tem permissão dos pais.
– Ela realmente não deveria ter vindo — Ramsay voltou-se para Jeyne mais uma vez — Vou levá-la para casa, então — Tomou a liberdade, segurando com força o antebraço dela. Jeyne gemeu ao sentir o toque daqueles dedos pegajosos que tanto a machucara no passado.
– Não — Asha pôs sua mão sobre a de Ramsay — Eu a levarei — Os olhos tão claros do demônio que pareciam brancos fuzilaram a mulher.
– Você ainda vai se apresentar esta noite e nós não iremos mais — Theon completou, tentando suavizar o clima de hostilidade criando justificativa para as ações suas e de sua irmã.
Ramsay hesitou por um instante e então abriu o mesmo sorriso que ele exibia antes de Jeyne ser identificada por ele.
– Muito bem, mas tratem a minha garota muito bem — Seus dedos suavizaram a força que exercia na pele frágil de Jeyne e ele tornou a beijá-la na face — Me mande uma mensagem dizendo que chegou bem, sim? — Pediu como um cavalheiro, embora estivesse longe de sê-lo.
– Sim... — A concordância saiu em um suspiro e só então Ramsay se sentiu seguro em libertá-la.
Asha imediatamente passou um braço ao redor de seu pescoço em forma de proteção e a estava guiando para a porta que ela atravessara para chegar ali. Jeyne percebeu que Theon ficou uns minutos para trás com seu agressor e foi só então que ela notou a ausência de Sansa. A sua melhor amiga disse que ficaria ao lado dela e não a deixaria, sendo que assim que entraram no backstage ela a abandonara. O que aconteceu com Sansa? interrogou a si mesma, sem sentir ódio pela amiga. Ela se recordava de ouvir vidro sendo quebrado e checou suas mãos. A sua garrafa continuava inteira e com menos da metade do conteúdo e ela sabia que Sansa carregava uma semelhante. Jeyne arriscou um olhar para trás e tudo o que viu foi a porta de metal batido se fechando as suas costas. Sansa ainda deveria estar dentro de algum camarim e não seria Jeyne que dedaria sua companheira para os Greyjoy, afinal de contas ela fizera uma promessa de silêncio se fosse descoberta e esse era o seu kharma de ter sido pega. Pelo menos ela terminaria à noite próxima ao Theon, embora nada tenha ocorrido da forma que desejara.
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