Uma Noite de Música

24 Capítulo 24 - Sansa


Definitivamente ela não deveria estar indo para aquele lugar estranho com um homem praticamente desconhecido... E para piorar o peso da culpa, ela estava envolvendo bebidas alcoólicas no meio. No entanto, sua falta de opção nesta noite a levou ali e optou em não falar nada durante todo o caminho até o apartamento de Sandor Clegane, nem mesmo quando ele pegou a cópia da chave de sua residência com o porteiro ou quando ela adentrou ao santuário daquele homem.

Não podia negar que se sentiu curiosa em descobrir como era a casa daquele professor tão antipático de Música e ficou surpresa ao ver o quão organizada era a sala e a cozinha com balcão americano que ele possuía.

— Entre – Ele ordenou, mantendo a porta aberta para ela passar, acendendo a luz para iluminar o ambiente.

— Com licença – Pediu, se recordando da educação que possuía.

O apartamento era pequeno, sendo possivelmente o tamanho padrão dos imóveis daquela região. Tinha um sofá de couro marrom de três lugares na sala e uma poltrona que fazia parte da combinação. Na mesa de centro havia um livro de capa dura que aparentava ser antigo e uma televisão de quarenta e duas polegadas que permaneceu desligada. Também tinha um aparelho de som no canto da sala, perto da porta de vidro que levava à sacada. Nas paredes não haviam nenhum adorno que atribuísse personalidade ao ambiente, somente uma pequena estante com todo o espaço ocupado pelos livros que ele possuía. Sansa se sentiu inclinada em estudar os títulos, porém não se sentiu confortável o suficiente para explorar o local sem a autorização do proprietário.

Sandor ao fechar a porta assim que ela entrou, direcionou-se para a cozinha, deixando as bebidas que comprara na bancada. Sansa o imitou, colocando o seu próprio engradado na superfície de mármore e se desfazendo das sacolas da compra.

Deixando os seus instintos ligados, acompanhou todos os passos dele, pronta para fugir caso sentisse que fosse necessário. Ele podia ter as pernas mais largas do que as dela, mas ela estava mais próxima da porta do que ele e gritaria se sentisse ameaçada.

— Eu não irei machucá-la, Passarinho – O homem comentou, de costas para ela, procurando algo na gaveta da pia.

Sansa sentiu o seu corpo endurecer. Ele lera os seus pensamentos, apesar de julgar que estava agindo de forma normal e sentiu-se mal por ter deixado transparecer sua insegurança em relação ao caráter dele.

— Eu sei... – Resmungou em um fio de voz enquanto ele retornava para o balcão com um abridor de garrafas. Tinha motivos para confiar nele, contudo sentia que havia entrado em uma zona hostil.

Com praticidade, retirou a tampa de duas cervejas e tomou uma em sua mão.

— Um brinde por essa noite – Sandor ergueu a garrafa em sua mão e aguardou Sansa imitá-lo.

Os vidros se encostaram emitindo o som típico do brinde e Clegane virou sua garrafa em um único gole, como se estivesse sedento por aquele líquido dourado e imediatamente pôs-se a abrir outra cerveja. Sansa em contrapartida bebera apenas um singelo gole do conteúdo de sua garrafa.

— Beba como um homem – Ele rira com o comentário que fizera.

— Eu não sou um homem, senhor – Rebateu, com uma sobrancelha arqueada, questionando se ele já estaria embriagado.

Sandor meneou a cabeça de forma negativa e soltou um longo suspiro, desapontado por ela não ter acompanhado sua brincadeira.

— Eu não sou nenhum senhor – Respondeu com rispidez — Irei guardar as bebidas na geladeira, fique à vontade para pegá-las – Tornou-lhe a dar as costas, para guardar as garrafas na geladeira, deixando apenas o conhaque para fora.

Sansa pôde observar sobre os ombros dele que não havia muita coisa no estoque da geladeira. Tinha algumas garrafas de água, uma bandeja de ovos e um pacote de pão de forma.

— Você não come em casa? – Perguntou, tendo se julgado imprópria ao ouvir o som de suas próprias palavras.

Honrando o seu apelido de Cão de Caça, o mesmo deu de ombros como se estivesse retirando pulga de seu corpo e retirou sua garrafa do balcão para colocá-la na mesa de centro, despindo-se de sua jaqueta antes de se jogar no sofá e ligar a televisão em um canal qualquer de esporte.

Optou em voltar para o silêncio. Era difícil manter um diálogo com quem não demonstrava estar afim de desenvolver uma conversa sadia. Até Arya conseguia manter um diálogo melhor do que aquele que ela estava tendo.

Preocupada com o que poderia ter acontecido com sua irmã, retirou o celular de dentro da bolsa para ver se tinha alguma mensagem perdida. Nada... Suspirou no balcão, sentindo incômodo na boca do estômago. Ela não podia ficar ali para sempre, só esperava ter um pouco mais de coragem para aturar o sermão de seus pais e de Robb quando retornasse para casa.

— Você está segura aqui, Passarinho. Pode ficar à vontade – A confortou do outro lado do cômodo, sem fazer contato visual com a mesma.

— Eu estou confortável, Cão— O assegurou, com um leve quê de incômodo em sua voz e pôs-se a andar pela sala, interpretando aquilo como um convite para realizar sua tímida exploração na estante, visto que não tinha interesse para o jogo de futebol que ele assistia.

— Então por que continua usando essa toca ridícula? – Zombou, bebericando mais um gole de sua cerveja.

Fingindo não tê-lo ouvido, se abaixou para analisar os títulos das obras que ele possuía. Haviam biografias de músicos na coleção e alguns livros de partitura, nada que particularmente considerasse uma leitura interessante, o que considerou uma pena, pois tinha afeição pela leitura.

— Gostou da minha coleção? – Questionou.

Sansa tomou mais um pouco da bebida que tinha nas mãos e virou-se para o seu anfitrião, encontrando os olhos dele fixo em si na baixa luz que vinha da luminária da sala.

— São interessantes – Mentiu, sentindo-se intimidada e desviou o olhar para a porta da sacada.

— Mentirosa – Acusou com uma gargalhada seca.

A moça sentiu as maçãs do rosto queimarem e demorou mais tempo do que o necessário para retrucar a acusação, tendo aceito no silêncio a verdade do que ele lhe dissera.

— Eles são interessantes, mas não para mim – Complementou a resposta anterior, abrindo a porta de vidro para deixar o vento noturno entrar.

Ali naquele andar era possível ter uma vista parcial da cidade que tinha as luzes acesas. Era uma visão particularmente bonita de se ver, embora não apresentasse uma paisagem da natureza como a vista de seu quarto. Aquele apartamento era bem diferente da sua casa, no entanto tinha os seus encantos.

— Prefere livros de romance e poesia? Não encontrará isso por aqui – Alertou.

Não foi atrás de livros de romance e poesia que vim até aqui. Teria mais chance de encontrar volumes com esses temas em uma biblioteca, pensou com rebeldia, porém sentiu que tais palavras levariam à uma resposta ambígua que poderia resultar em mal entendido.

— Não são os únicos gêneros que gosto – Observou – Gosto de biografias de artistas plásticos também.

Sandor esvaziou sua garrafa e se pôs em pé, caminhando até ela. Havia uma expressão sombria em sua face que ressaltava suas queimaduras.

— Entre, está frio – Comandou, com a mão na fechadura da porta.

Sansa o obedeceu, como a boa educação lhe ensinara para manter quando estava em casas de estranhos, mas se recusou a observá-lo.

— Por que não tira essa toca? – Tornou a indagar o homem – Está parecendo uma moradora de rua que trouxe para casa.

A moça o encarou com o semblante fechado e arrancou com severidade a toca que utilizava, fazendo as madeixas rubras caírem desordenadas e bebeu mais um pouco do líquido que trazia consigo. Ela já tivera uma noite muito ruim e estava ficando pior agora que estava ao lado de Sandor que insistia em implicar com ela.

— Muito bem, Passarinho – Riu como um vencedor e acariciou o cabelo dela, arrumando-o.

— O que está fazendo? – Sobressaltou-se com o contato.

— Um favor – Deu de ombros, indo para a geladeira pegar mais uma bebida – Acabou sua cerveja?

Sansa observou a garrafa que tinha em mãos. Tinha um pouco menos da metade de seu conteúdo e tomada por uma dose de coragem, virou o resto do líquido em sua boca.

— Acabou – Afirmou, seguindo-o, mas parando no balcão.

— Já tomou conhaque alguma vez? – Sandor pegara duas garrafas de cerveja e a bandeja de gelo e os depositara no balcão.

— Não – A moça negou – Só cerveja.

— Quer experimentar? – Questionou, pondo um copo no balcão para preparar a bebida.

Por que não? Ela já estava fazendo coisas que não deveria, não faria diferença se acabasse bêbada. Seria apenas um bônus a mais que não mudaria a sua morte certa no dia seguinte. Estava cansada de seguir as mesmas regras que a pusera nessa situação em ter o coração partido. Talvez um gole de conhaque ajudasse a sarar as feridas que lhe foram criadas ou pelo menos mascará-las.

— Quero.

Sandor ofereceu o seu copo à ela. Sansa analisou o conteúdo que tinha uma cor mais escura que a cerveja e um cheiro mais forte também. Dando um longo gole, deixou a bebida queimar sua garganta enquanto descia. O gosto do conhaque era amargo e caiu pesado em seu estômago vazio, obrigando-a em uma reação involuntária a franzir o cenho e devolver o copo à bancada.

— Vai devagar, Passarinho – Clegane gargalhou – Isso é bebida de homem.

— É tão forte... Como consegue beber isso? – O álcool ficara preso em sua língua, ressecando sua boca.

Em meio a risadas, Sandor virou o resto da bebida do copo em que ela bebera.

— Você é fraca!

— Eu não sou fraca! – Rebatou, tomando alguns goles da cerveja para dissolver o gosto do conhaque, no entanto a mistura de sabores apenas piorou seu paladar.

— É fraca sim, depois de ter sido trocada por outra recusou ir para casa, aceitando ir para o apartamento de um estranho – Acusou.

Sansa mordeu o lábio inferior para não admitir em voz alta que ele tinha razão, pensando em uma resposta para dar que não fosse a concordância.

— E você que aceitou levar uma estranha para sua casa? O que ganha com isso? – Usou a valentia provinda do álcool para se defender.

Clegane deu de ombros, mostrando-se indiferente, mas com os olhos fixos nela. Havia um brilho estranho em suas orbes acinzentadas que Sansa teria percebido se devolvesse o olhar.

— Não sei, Passarinho. Diga-me você o que eu ganho com isso.

A ruiva abriu a boca para responde-lo e ergueu o dedo indicador em uma pose autoritária, mas silenciou-se, mordendo o lábio inferior.

— Não sei... O que você quer?

Sandor se inclinou na bancada de modo a se aproximar mais dela, forçando o seu rosto ao dela.

Em um movimento instintivo, Sansa se inclinou para trás.

— A princípio, um pouco mais de consideração para quem te tirou de situações em que não desejava estar – Bufou o pedido com os dentes cerrados, claramente frustrado.

Suas bochechas deveriam estar vermelhas, pois sentiu o calor subir-lhe a face. Não queria ter sido rude, não depois de tudo o que ele lhe fizera. Por mais que a face dele não fosse um exemplo de beleza e a personalidade deixasse muito a desejar, ela sabia que ele não era uma pessoa ruim, afinal ele podia tê-la ignorado e não vindo socorre-la, ainda mais tendo mais idade do que a dela e ter os favores da família Baratheon-Lannister.

— Espera – Pediu, segurando o tecido da parte de trás da camiseta que Sandor utilizava, quando ele passou por ela para voltar ao conforto do sofá – Eu não quis ofendê-lo – Lamentou com sinceridade ao ter o olhar dele posto em cima de si mais uma vez – Foi instinto – Completou.

O homem crispou os lábios com a justificativa da moça e teria continuado o seu caminhar, se ela não permanecesse segurando sua camiseta.

— Por favor – Implorou – Eu realmente desejo agradecê-lo por ter me ajudado esta noite quando não era o seu dever fazê-lo! Deve ter alguma forma de retribuí-lo.

Sandor manteve os seus pés fixos onde estava e mais uma vez voltou-se para ela.

— O que os cavalheiros dos seus romances desejam quando resgatam a bela donzela? – Satirizou Clegane.

O silencio predominou o ambiente e os dedos dela que o prendiam perderam as forças, deixando-o livre. Sandor estava abrindo a boca para dizer algo, mas Sansa não permitiu que nenhum som viesse dos lábios dele, pois tomada por algo que ela não soube dizer de onde viera, ficara nas pontas dos pés e depositou um beijo suave na face não-queimada dele.

— Isso – Ela sussurrou com timidez.

Sandor riu seco e depositou a garrafa que carregava consigo no balcão e segurou Sansa pela cintura, trazendo-a para si.

— Mas eu não sou um maldito cavalheiro – E sem dizer mais nada, mergulhou sua mão vaga no vasto cabelo avermelhado da garota, beijando-a.

Notas finais
Pois é, mudei a ordem dos capítulos, rs. Espero que tenham gostado! O feedback de vocês é muito importante para mim!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.