Uma Noite de Música

23 Capítulo 23 - Theon


Sua garganta queimava, sua visão estava desfocada e sua cabeça estava tão pesada como se tivesse entrado em uma briga feia com alguém e tivesse perdido. Havia tanta luz naquele lugar que era quase impossível abrir os olhos. As forças de seus braços e pernas o abandonara. Não sabia onde estava e nem como chegara até ali. Suas lembranças estavam fragmentadas como peças de um quebra-cabeça que deveria montar por conta própria para entender o que estava acontecendo.

Se recordava de ter tocado no Serpentina naquela noite com a irmã, mas a dor em sua garganta não parecia ser proveniente do uso excessivo das suas cordas vocais, afinal de contas ele não cantara, apenas tocara.

Conseguia vagamente recordar a conversa que tivera com Robb e a noiva dele antes de subir ao palco. Seu amigo de infância lhe desejara boa sorte, mas estava tão distante de si ultimamente que nada do que conversaram era algo para se atribuir significado naquele momento. Conversado... Sim, ele se lembrava de ter conversado com mais alguém depois do show. Ramsay... Não foi preciso vasculhar as memórias para saber que conversara com Ramsay naquela noite. Ramsay o perseguia todo dia desde que entrara no mundo das drogas, era óbvio que seu fornecedor iria ao seu encalço após o show, principalmente porque ele também teria uma apresentação para fazer.

Bastava forçar os pensamentos naquele que lhe trazia tanto desespero para sentir os velhos tiques habituais voltando, mesmo na situação a qual se encontrava. Fugindo de seu controle, seus dedos tamborilaram velozmente na superfície macia na qual estavam apoiados.

Tão macio... Apalpou o que quer que fosse que estivesse deitado em cima. Só agora percebera que estava deitado em algo. Que lugar é esse...? Forçando-se a abrir os olhos e mantê-los abertos, estudou com muito custo onde estava, tendo de fechar várias vezes as pálpebras para umedecer as pupilas e assim ser mais tolerável forçar a visão.

Sobre a sua cabeça, só conseguiu enxergar o branco do teto e das paredes. Estava em um quarto inteiramente neutro, diferente dos locais que frequentava. Na sua frente tinha uma pequena televisão desligada presa à parede. Ao lado da cama que estava deitado tinha o que parecia ser um criado mudo com uma bandeja, uma jarra de água e alguns copos descartáveis. No chão ao lado do criado era possível visualizar um suporte de metal que continha uma bolsa de soro quase vazia e fios que a conectavam à ele.

— Hospital... – Gemeu, mesmo sem sentir dor alguma no corpo.

Aquilo era um hospital, definitivamente, e ele fora internado por algo que não se lembrava. Sua cabeça nesse ponto estava ainda mais pesada desde que acordara do sono sem sonhos. Sentia-se frustrado e nitidamente abalado por não ter ideia de como chegara ali.

— Theon! – A voz familiar de sua irmã o chamara do outro lado do quarto.

Asha... Chamou por ela em pensamento, economizando palavras devido sua exaustão. Talvez ela tenha me internado em uma clínica de reabilitação, ela sempre me ameaça de fazê-lo... Constatou. Talvez aquele lugar não fosse um hospital e sim uma clínica para pessoas com os mesmos problemas que ele. No entanto, essa seria uma atitude atípica de sua irmã. Ela não o internaria quando estivesse incapaz. Asha era o tipo de mulher que buscava confronto e não teria prazer em se livrar de um Theon vegetal, sem todo o escândalo que os viciados fazem ao serem separados de seu vício à força.

— Theon, você acordou finalmente! – Uma segunda voz, mais delicada do que a anterior demonstrou alívio em suas palavras por vê-lo acordar.

— Jeyne... – Chamou pela dona daquela melodia que preencheu seu coração com mais dúvida e angústia ainda. De alguma forma, sentiu-se aliviado ao saber que ela estava ali.

— Theon, não se esforce! – As mãos de sua irmã se fecharam ao redor de seu ombro para que o comando que dava fosse de fato cumprido.

— Onde estou...? – Indagou, tentando visualizar melhor o rosto da irmã e tentar ler suas expressões.

Asha estava pálida. Theon nunca a vira assim, com os olhos esbugalhados e cheio do que pareceu terror. Esse era o rosto que ele costumava fazer na presença de Ramsay.

— Seu idiota, você não se atreva a me abandonar! Você é tão idiota, Theon! – Sua irmã o repreendeu, o envolvendo em um abraço esmagador, umedecendo seu pescoço com o que jurava ser as lágrimas dela.

— ...Eu estou bem... – Gemeu, estranhando aquela estranha demonstração de afeto de alguém que sempre fora uma muralha impenetrável as emoções – ...Onde estou...? – Tornou a questionar.

— Você está no hospital – Foi Jeyne que respondeu por Asha estar no meio de soluços – Parece que você exagerou na bebida e teve que ter uma lavagem estomacal... – Havia dúvida na afirmação da moça.

Bebida... Não se lembrava de ter ingerido álcool naquele dia. No entanto, um fragmento de memória de uma carreira de cocaína na tampa de um vaso sanitário de um banheiro público e dois pacotes da substância química lhe veio à mente. Cocaína... Sim, aquilo fazia mais sentido. Podia ver o sorriso amarelo de Ramsay com tanta nitidez quanto via as duas moças à sua frente. Mais uma vez Ramsay lhe vendera droga, mas por que dessa vez ele exagerara na quantidade?

— Eu estou bem, Asha... – Tornou a assegurá-la.

— Vou chamar a enfermeira – Asha anunciou, afastando-se do irmão com muito custo, secando as lágrimas no dorso da mão e sem fazer contato visual com ninguém, saiu do quarto.

— Sua irmã ficou muito preocupada com você – Jeyne contou, tomando coragem para se sentar na cama ao seu lado e envolver a mão mais próxima de si nas suas – Eu também fiquei – Confessou – Não sabia o que estava acontecendo. Asha foi me encontrar onde me deixara no Serpentina e me disse que você havia sido levado por uma ambulância... Você não pode nos deixar, Theon. Sei que não tenho nenhum direito em exigir algo de você, no entanto gostaria que confiasse em mim e me contasse o que está acontecendo... – Lágrimas teimosas pairavam nos olhos da garota e aquilo quebrou o coração de Theon de uma forma que ele julgava não ser capaz.

As duas mulheres mais importante na sua vida estava ao lado dele no hospital, preocupadas com sua saúde. Naquele instante ele foi dominado por um sentimento de vergonha tão extremo que se tivesse qualquer droga, até mesmo álcool, ele teria tomado para fugir dessa sensação tão constrangedora.

Queria poder dizer à elas que tudo ficaria bem, que estavam imaginando coisas e que não havia necessidade para tudo aquilo, contudo sabia que não podia dar garantia alguma nessas coisas. Se dependesse só de si, ele poderia procurar ajuda para se livrar do vício, mas ele tinha Ramsay em sua vida e o seu fornecedor não o deixaria em paz. Seu destino estava selado. Era inútil envolver mais pessoas em sua estúpida vida.

— Sinto muito, Jeyne... – Murmurou com todas as forças que encontrou, apesar do nó na garganta que formava e que com muito custo ele continha — ...Você merece coisa melhor na vida do que se afundar comigo. Deveria estar curtindo a noite com os seus amigos ao invés de estar no quarto de um hospital comigo – Ousou a rir no final dessa observação.

Uma lágrima solitária escorrera pelo rosto da moça, que adotou o silêncio para ganhar autocontrole.

É melhor assim, pensou consigo. Era melhor vê-la derrubar uma lágrima agora do que dezenas no futuro. Ela já era um alvo do Ramsay, se ficasse circulando ao seu lado, as coisas poderiam ser muito piores e ele não teria força alguma para protege-la por estar preso àquele bastardo. É melhor assim, tornou a repetir para si mesmo, sentindo-se ser envolto por uma onda de cansaço repentino que o forçou a fechar os olhos.

Ainda estava consciente quando ouviu sua irmã voltar para o quarto acompanhada de uma enfermeira que mediu sua temperatura e conferiu o seu soro, também estava consciente quando sua irmã mencionou que Robb estava vindo visitá-lo assim que deixasse as irmãs em casa e mesmo depois de ter perdido a consciência ao ser embalado pelo sono, ainda assim podia sentir as mãos de Jeyne envolvendo a sua.

Notas finais
Por que a demora para postar? Bem, perdi TODA a história que tinha salvo e meio que me desanimei depois disso... Também fiquei 2 anos sem computador (só com o do serviço) e não conseguia mais inspiração... Contudo, encontrei o que me faltava e resolvi terminar essa história. Sinto muito mesmo se os capítulos não acompanharem o ritmo dos anteriores, mas gostaria de receber a sincera opinião de vocês mesmo assim (se tiver alguém que ainda leia essa história).