Uma Noite de Música

22 Capítulo 22 - Sandor


Sua mão estava dolorida. Não pensava que o rosto de Joffrey pudesse apresentar resistência à sua força, mas isso foi irrelevante porque no fim ele quebrara o nariz do filho do Reitor da instituição em que ele lecionava. Agora sim ele era um homem fodido. Tantas vezes tentou se controlar, tantas vezes julgou ser capaz de fazê-lo e quando posto a prova falhou vergonhosamente.

Tudo culpa daquele bostinha, lamentou.

Não se importava com o que o rapaz estava fazendo com a garota Stark. Talvez até se importasse, porém o verdadeiro estopim de sua fúria foi quando o maldito o inseriu no contexto. Era óbvio que Joffrey estava falando aquelas coisas e agindo daquela forma para impressionar Margaery Tyrell. Bom, ele que se fodesse. Sandor tinha trinta e cinco anos e já havia passado da idade de servir como meio para um garoto mimado conquistar a namorada.

Após selar o seu destino com a marca de seu punho exposta no rosto do rapaz Baratheon, Sandor decidiu que não tinha mais nada o que fazer no Serpentina. Sua apresentação terminara com o sucesso que esperava e por mais que desejasse virar a noite no bar do estabelecimento enchendo a cara com bebidas baratas enquanto tentasse encontrar uma mulher, naquele momento ele não podia mais ficar ali. Em breve seguranças viriam ao seu encalço e como não tinha tanta sorte, era bem possível que até mesmo a policia fosse chamada se Joffrey resolvesse dar queixa de violência. Como um homem fugitivo, Clegane abandonou a cena do crime, levando Sansa Stark consigo.

Não era plano seu ter arrastado a moça pela saída dos fundos do backstage, entretanto Joffrey ordenara que ela fosse levada para fora. Aquela de fato fora uma ação inconsciente, mas se fizera isso como forma de arrependimento ao seu aluno mais renomado ou para polpar a garota Stark de uma humilhação pior, ele nunca saberia dizer.

Assim que a pesada porta de aço com abertura apenas na parte de dentro fechou as costas dele, Sandor tragou o ar gelado e amaldiçoou o seu temperamento. Em seu bolso, o pacote de cigarros formigava como reflexo de sua ânsia em acendê-lo. Durante meses ele lutava contra o vício alimentado por uma década. A batalha contra o tabaco não era tão fácil quanto pensou que seria, principalmente quando saia para a vida noturna. A cerveja despertava o gosto da nicotina encalacrada em seu organismo que clamava por mais. O sabor do alcatrão no fim da garganta era um tormento. Fora estúpido em ter trazido o maço consigo. Na verdade, se fosse mais forte não deveria tê-lo comprado, porém a tranquilidade era maior quando sabia que vinte cigarros intactos esperavam por ele em seu bolso. Aquela era uma sensação de poder tão grande que quase o excitava.

Tratando a situação como uma digna de um fumo, entregou-se a fraqueza e retirou o pacote do bolso. O maço estava lacrado e após romper o lacre, selecionar um cigarro e o acendê-lo com o isqueiro, deixou a fumaça queimar um pouco mais o pulmão antes de expeli-la.

— Você não deveria fumar — A filha mais velha do Diretor do Instituto Baelor recomendou.

Ele pensara que ela já teria ido embora, tendo sido uma surpresa ver que ela continuava ali.

— Você é um passarinho para ficar repetindo o que lhe foi ensinado pelos pais? — Zombou, voltando a dar mais uma tragada.

— Isso foi rude da sua parte — O repreendeu.

Sandor a estudou dos pés a cabeça. Ela era uma mulher que fora substituída por outra sem aviso prévio. Antes dela aconselhá-lo sobre o mal do tabagismo, deveria resolver os próprios problemas. Além do mais, não conseguia esquecer o diálogo que Sansa tivera com Ramsay Bolton. O rapaz membro da banda Bastardos era uma peste em todos os sentidos. A má fama o precedia, seja a forma como tratava as mulheres ou sobre o negócio com drogas que ele tinha. Quando viu a garota sendo mantida pelo Bolton contra a vontade, o seu instinto foi salvá-la dele e se amaldiçoou por isso. Se soubesse que ela se tornaria um pé no saco, teria a abandonado a mercê daqueles dois idiotas.

— O passarinho não deveria voltar para o ninho? — Questionou.

Sansa cruzou os braços em resposta ao frio noturno e olhou para os lados, como se buscasse algum conhecido ou tentasse descobrir onde estava.

— Não posso dirigir. Consumi álcool esta noite — O informou, com lástima na voz.

Sandor riu.

A garota não demonstrava estar bêbada ao ponto de estar incapaz de dirigir, contudo se fosse parada por um policial, apenas o teste do bafômetro a entregaria. Claro que ela podia se negar a fazê-lo, era o seu direito, mas ser levada para a delegacia de polícia e esperar por um mandato para testar o nível de álcool no sangue seria mais um constrangimento que ela com toda a certeza tentaria evitar naquela noite depois de tudo o que passara em um único dia de sua vida.

— E nenhum de seus amigos poderia levá-la para casa? — Sugeriu, tornando a fumar o seu cigarro.

Como se tivesse se lembrado de algo, Sansa tateou no interior da bolsa a modo de encontrar o celular. Sandor a estudou pelo canto dos olhos. Era hipnotizante o modo de vida dos alunos bem nascidos. Por mais que não desejasse aquela vida e sentisse desprezo pela superficialidade deles, havia um certo prazer culposo naquilo.

— Não acredito... — Sansa murmurou em reação ao que via no celular.

Se fosse Meryn Trant, seu pescoço teria se esticado para poder ver o que estava sendo exibido na tela, entretanto ele era um Clegane e só se importava com o que os seus ouvidos capitavam. Aquela moça não era mais problema seu, na verdade, nunca o fora e jamais o seria. Jogando o que restara de seu fumo no chão e apagando a pita com a sola do sapato, enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta de couro.

— Tenha uma boa noite — Desejou em despedida.

Com os planos arruinados, o seu ideal de sucesso naquele momento era passar na mercearia perto de sua casa, comprar algumas bebidas e ir para o seu apartamento encher a cara. Era algo simples e muito bem vindo. Praticamente um ritual que era executado quando nada parecia dar certo. O supra-sumo para um solteiro na casa dos trinta anos.

— Espera... — Sansa o deteve — Aonde você vai?

Sandor estranhou a pergunta, mas respondeu mesmo assim.

— Comprar bebidas — Contou a verdade.

— Posso ir junto? — Ela se ofereceu.

— Não deveria encontrar os seus amigos? Ou seu único amigo no Serpentina é aquele pedaço de merda? — Rebateu em uma provocação.

— Meu irmão encontrou os meus amigos... — Sansa murmurou — E não quero que ele me encontre também. Não quero ouvir um sermão do Robb. Sinceramente, essa é a última coisa que quero.

— E o seu plano é ir comprar bebidas comigo? — Abriu um sorriso no canto dos lábios, incrédulo com aquilo.

— Se não tiver problemas...

Sandor deu de ombros.

— Se é o que quer, não irei impedi-la.

Ele podia estar enganado, porém julgou ver a sombra de um sorriso se formar no rosto da garota. O Passarinho — Sandor decidiu chamá-la assim -, parecia estar deslocada e por mais que detestasse garotas daquela idade e daquele mundo de contos de fadas, permitiu que ela o seguisse.

Desde que mudara há dezesseis anos atrás de Rochedo Casterly, ele se abrigara na Baixada das Pulgas quando viera para Porto Real. O bairro não era um dos melhores da cidade, mas Sandor se adaptara muito bem ali. O maior núcleo comercial se encontrava naquele local. Pessoas de todos os lugares de Westeros compuseram o lugar. Era normal entrar em uma rua e encontrar as características de Dorne estampadas nas pinturas das casas e assim que dobrasse a esquina ser arrebatado pelo sotaque carregado dos nortenhos. Para os habitantes de bairros mais privilegiados, aquilo poderia ser um caos completo, mas para quem morava ali era o paraíso. Dava para se fazer praticamente tudo a pé e estar a par de todas as novidades dos Sete Estados sem ir muito longe. Bancos, mercados, casas de show, lojas de importados e até mesmo os portos se localizavam naquela região. A única coisa precária eram os restaurantes que serviam pratos muito estranhos, como um ensopado marrom composto de sabe-se-lá o quê.

A duas quadras de distância do serpentina havia uma mercearia. A mais próxima de onde Sandor morava e a única que sabia que estava aberta até essas horas. O estabelecimento era administrado por um tal de Janos Slynt. O homem não tinha uma boa índole nem um bom caráter, mas sabia como administrar o negócio e fazê-lo funcionar. Por mais dinheiro que tivesse, jamais pensara em expandi-lo, o que na vista de um homem como Clegane, sugeria que ele estava envolvido com coisas a mais, como drogas ou prostituição. Isso explicaria o fato do comércio estar sempre aberto e quase não haver clientes e funcionários. Contudo, as bebidas eram baratas e não pensou duas vezes em levar Sansa até lá. Ele estava fazendo isso para si mesmo e não para o entretenimento da garota.

— Boa noite, Slynt — Cumprimentou o homem e foi cumprimentado de volta assim que adentrou a mercearia.

Sabia de cor onde se encontrava as bebidas e caminhou até o devido expositor. As cervejas estavam em sua maioria na geladeira e os destilados em uma prateleira ao lado da mesma.

— O que vai comprar? — Sansa perguntou, analisando com curiosidade as opções, que eram poucas.

— Cerveja e conhaque — Respondeu, sem dar muita atenção, pegando os itens e os ajeitando em seus braços.

Um engradado de cerveja long neck e uma garrafa de conhaque seriam os seus companheiros pelo resto da noite.

— Devo pegar um também? — A garota indagou, julgando corretamente que Sandor não pretendia dividir seus espólios.

— Se quiser beber — Observou — Há leite no final desse mesmo corredor se desejar algo mais leve — O sarcasmo foi inevitável.

Em desafio ao comentário maldoso, o Passarinho decidiu comprar um engradado de cerveja, da mesma marca que Clegane selecionara. A garota fora mais inteligente do que ele, tendo pego uma cestinha de compras na entrada do estabelecimento.

— Não vai comprar nada para comer? — O Passarinho piava como uma maldita ave. Sempre tinha algo para perguntar e agora que parara para pensar, até que não seria uma má ideia ter algo para forrar o estômago.

Colocando suas compras na cestinha dela, tirou o fardo das mãos da garota e a conduziu até a sessão de snacks e selecionou um pacote grande de batata ondulada, dois de amendoim japonês salgado e uma barra de chocolate meio amargo. Aquilo deveria ser o suficiente. Não podia tirar o foco do ingrediente principal que era o álcool.

Em silêncio, os dois foram para o caixa para efetuar o pagamento.

— Está acompanhado essa noite, Cão? — Slynt observou a garota que acompanhava Sandor — Ela é bem bonita, mas não é nova demais?

— Meta-se nos seus próprios assuntos, Janos — Sandor o repreendeu. Não estava com pique para lidar com as gracinhas do homem. Ele não era Trant para se interessar por menores de idade e Sansa definitivamente não era sua companheira para uma noitada. Tinha que admitir que a garota Stark possuía uma beleza encantadora, porém não era o seu tipo ideal. Sempre que saia com uma mulher, escolhia uma de idade próxima a sua e menos dependente dos homens. Ele não tinha planos para fazer ligações no dia seguinte, nem procurava novos encontros. Se ele saísse com alguém como o Passarinho, acabaria arranjando problemas que não teria vontade de resolver.

— Quanto ficou? — Sansa perguntou ao atendente com delicadeza desnecessária na voz. Sandor ao estudá-la, notou que a face da menina estava corada.

— Oitenta reais e trinta e sete centavos.

Clegane meneou a cabeça em sinal negativo e estalou os lábios. Teria conseguido bebidas de graça se tivesse continuado no Serpentina e mediante a crise financeira, oitenta reais era muito dinheiro, principalmente para quem corria o risco de perder o emprego na segunda-feira. Definitivamente ele teria de ir realizar o show que Podrick arranjara para ele, independente da distância do lugar.

— Deixa que eu pago, Passarinho — Ofereceu-se. Sentia-se responsável em arcar com o prejuízo, mas não encontrou a carteira em bolso algum de suas vestes. — Maldição! — Exclamou, recordando-se então que havia guardado ela junto com outros de seus pertences no armário do camarim antes de se apresentar e esquecera-se de pegá-los na saída do evento. Amanhã quando fosse buscar sua bateria e o cachê, teria de encontrá-los. Por sua sorte, o porteiro de seu prédio possuía uma cópia da chave do seu apartamento.

Sansa riu baixinho. Para ela, aquela era uma vitória sobre o homem bruto ao seu lado.

— Passa no débito, por favor — A garota pediu, entregando o seu cartão ao Slynt.

— Depois eu lhe darei o dinheiro — Sandor não se deu por vencido. Por mais grosseiro que fosse, entendia que era a sua responsabilidade pagar a conta.

— Aceite isso como um presente de agradecimento.

— Agradecimento? — Estava confuso em relação a frase.

— Por ter esbofeteado o Joffrey — Explicou.

— Não fiz aquilo por você — Bufou a resposta, segurando a alça das sacolas e deixando um dos dois engradado de cerveja para Sansa carregar.

A moça ficou sem jeito. Ela havia visualizado o ocorrido de um modo errado. Talvez fosse por isso que o seguia como um cão abandonado. Se tivesse dito as palavras que ela gostaria de ouvir, conseguiria facilmente manipulá-la para que ela fizesse o que ele quisesse, mas ele não era esse tipo de homem.

Pegando o cartão de volta junto com a nota da compra, ambos saíram da mercearia, recebendo um boa noite encorajador de Janos.

— Seu irmão deve estar preocupado com você, Passarinho. Deveria voltar para junto dele — Ousou. Sansa havia se oferecido para ir comprar bebidas com ele e a missão chegara ao fim. O galpão de eventos não era longe dali e ela poderia muito bem voltar para lá e encontrar Robb que a levaria em segurança para casa.

— Ainda não desejo vê-lo... — A timidez a dominou e Sandor não precisou ouvir a continuação da frase para entender o que ela queria.

— Você quer ir para o meu apartamento, não é mesmo? — O convite saiu com uma grosseria.

Sansa tornou a ter a face vermelha. As intenções dela foram descobertas com facilidade e Sandor teve de rir da obviedade.

— Minha mãe disse que não devo ir na casa de estranhos, muito menos desacompanhada — Sansa mencionou como se fosse um lembrete para si mesma.

— Sua mãe é uma mulher esperta e você também seria se voltasse para junto de sua família — Ajeitou o peso das sacolas nos pulsos e deu as costas para ela. Naquela distância, ele podia ver a sombra do apartamento que morava localizado na próxima esquina.

Mal havia dado meia dúzia de passos ele percebeu que estava sendo seguido. Ao virar o rosto para trás, percebeu que Sansa o acompanhava, com os olhos fixos no chão.

— Não quero ser esperta essa noite... — Disse a si mesma em um sussurro captado pelos ouvidos de Sandor.

O homem tornou a olhar para frente, revirando os olhos. Seus planos para aquela noite foram por água-abaixo e relembrou de uma frase que ouvira há muito tempo atrás: se quiser fazer os Deuses darem risada, crie planos. De fato, os Deuses riram muito naquela noite às suas custas.

Notas finais
Já faz um tempo que não atualizo a fic, mais eis que surge mais um capítulo, rs. Este era para ser o último do Sandor, mas como ele ficaria muito grande e cheio de informação, resolvi dividi-lo em duas partes. Faltam mais quatro capítulos para a história chegar ao fim! O próximo será do Theon, depois do Sandor (a segunda parte), o outro do Gendry e então finalizarei com o PoV da Sansa. Espero que tenham gostado! Comentários são bem-vindos e muito apreciados! ♥