Uma Noite de Música

21 Capítulo 21 - Sansa


Tantas pessoas aglomeradas na entrada do palco dentro do backstage impedia que ela se aproximasse da banda que descia. Era com muito custo que o pessoal do Staff mantinha o corredor livre para os artistas saírem e entrarem com seus equipamentos musicais. Por sobre o ombro de meia dúzia de pessoas Sansa viu a cabeça de Sandor Clegane e apenas porque aquele era o homem mais alto que ela já vira em toda a sua vida. Se alguma vez tivesse visto o irmão dele, então ele seria o segundo mais alto, contudo por enquanto a ordem era essa.

Tentando não ser indelicada, Sansa evitava dar cotoveladas a toa e usava a sua delicada voz para pedir licença com educação. Claro que as pessoas não a ouviam. Apesar de não haver uma música de fundo, o coro de gritos do nome dos integrantes dOs Bastardos e da Guarda Real imperavam no local abafado. Quando fora a vez dos Nascidos do Ferro descer, não tinha tantas pessoas lá. Poderia ser um paraíso comparado com agora. Sansa lamentou de não ter procurado Joffrey mais cedo. Agora seria difícil ele se tornar consciente de sua presença pela quantidade de atenção que recebia.

— Deixe-me passar, por favor — Pediu, passando na frente de mais uma pessoa com um leve empurrão.

O seu bom-senso lhe recomendava para retornar ao camarim e aguardar Joffrey lá, mas o rapaz gostava de ser paparicado e ver o seu esforço para chegar até ele funcionaria em seu favor. Só mais um pouco, pensou ao ver que restava apenas três pessoas a sua frente e então chegaria até a muralha criada pelo pessoal com a camisa preta do Staff. Quando eu chegar lá, eu poderei gritar pelo Joffrey e ele me verá. Isso se ele ainda estivesse lá. Tomada pelo desespero de ser notada, empurrou as últimas pessoas que o separavam de seu campo de visão sem utilizar sua cortesia.

Um filete de suor escorria por sua testa quando alcançou a posição que almejava. Imitando os demais presentes, ergueu uma mão para o ar enquanto segurava firmemente sua bolsa contra o corpo com a outra e gritou o nome de seu amado.

— Joff! — Por mais força que usasse para elevar o som de sua voz era inútil o esforço.

Ela nem mesmo sabia aonde ele estava. Pelos ombros do funcionário que impedia a sua entrada naquela área, ela via muito pouco. O homem a sua frente era um armário truculento, não sendo alto e sim largo. Sansa o reconheceu. Era amigo de Jon. O nome dele era Samwell, se não se enganava, mas a maioria o chamava de Sam.

— Sam — O chamou e por estarem bem próximos, o rapaz arregalou os olhos ao reconhecê-la. Sem ver necessidade em continuar com o braço erguido, abaixou a mão ao lado do corpo.

— Sansa, a irmã de Jon... — Murmurou mais para si mesmo — Veio ver o seu irmão?

— Meio-irmão — Ela o recordou — E não, vim ver o Joffrey, ele é o meu namorado — Mentiu. O Príncipe ainda não havia deixado claro o que eles tinham, todavia ela receberia em breve uma proposta de namoro, não havia dúvidas. Talvez seja hoje, apesar dele não ter feito isso durante o show, a noite não estava terminada — Pode me deixar passar, por favor?

— E-Eu... — O rapaz gaguejou — Eu não posso. Se eu liberar o caminho para você, toda essa gente terá o mesmo direito e eu poderei ser demitido.

— Se você for demitido eu estarei te fazendo um favor. Quem quer ser membro da organização do Serpentina para sempre? — Questionou em voz alta a maldade que nunca deveria ter deixado os seus lábios.

Samwell Tarly corou em resposta.

Sansa não o conhecia muito bem, mas pelo o que ouvira do meio-irmão, o rapaz era inteligente e estava desperdiçando os talentos naquele emprego. Se usasse o diploma de Historiador que tinha, poderia facilmente se tornar professor no Instituto Baelor, mesmo que fosse dando aula apenas para o Ensino Médio já que não possuía um Mestrado, que era requirido para lecionar nos cursos universitários da instituição.

— Deixe ela entrar — Uma mão masculina pálida passou por debaixo dos braços de Sam e segurou com firmeza a mão livre de Sansa, puxando-a para si.

Em um movimento rápido que Sansa julgava ser incapaz para uma pessoa daquele tamanho, Sam impediu que ela atravessasse para o lado dos artistas.

— Eu não posso. Apenas os membros das bandas e seus acompanhantes podem estar aqui.

— Então que ela seja a minha acompanhante — O riso zombeteiro de Ramsay revelou a identidade do homem que a estava tirando do meio da legião de fãs com pulseira VIP.

Sem poder debater aquilo, Sam permitiu que ela passasse.

— Ela é a acompanhante dele! — Gritou para que todos os presentes entendessem a justificativa de sua ação.

— Eu não sou sua acompanhante! — Sansa exclamou, separando a sua mão da do segundo guitarrista dOs Bastardos na primeira oportunidade que teve ao saber que era Ramsay.

O homem riu.

— É assim que me agradece? — Havia um brilho maligno nos olhos quase brancos de Ramsay Bolton embora sua voz soasse divertida.

— Não pedi sua ajuda — Rebateu, procurando Joffrey agora que conseguia enxergar com clareza quem entrava e saía do palco.

— Eu não acho que terminamos a nossa conversa de mais cedo — O sorriso morrera nos lábios dele.

Em uma circunstância normal, Sansa poderia ter alimentado a discussão que caminhava para um começo, mas naquele momento ela estava ocupada com outra coisa.

Joffrey não era um rapaz muito alto, mas era chamativo por sua vasta cabeleira dourada e foi os cachos loiros de surfista que ela enxergou vindos de trás de Meryn Trant. Com aquela visão um sorriso de orelha a orelha surgiu em seu rosto.

— Bom show — Desejou a Ramsay com toda a simpatia que teria desejado a um amigo, estando dominada por suas emoções para com Joffrey e esquecendo-se completamente de quem Ramsay era e o que ele fizera à Jeyne Poole.

— Ainda não terminamos — O homem segurou o braço dela, impedindo que Sansa fosse se juntar ao filho do Reitor.

Sansa o fuzilou com o olhar, se recordando de quem estava ao seu lado.

— Me solte — Ordenou.

— Estamos no meio de uma conversa — Ramsay meneou a cabeça em sinal negativo, mostrando estar decepcionado com uma atitude teatral.

— A garota pediu para que a soltasse — Uma mão pesada com dedos longos pousou no ombro do homem.

Sansa ergueu os olhos para aquela figura com os lábios levemente entreabertos. A fúria momentânea foi substituída pela surpresa. Sandor Clegane estava exigindo que Ramsay a liberasse. Ramsay crispou os lábios e estudou o homem ao seu lado. Clegane tinha um ar de poucos amigos e Ramsay parecia que sempre estava disponível para encomendar o sofrimento de alguém. Sansa sentiu o ar se tornar hostil ao redor dos três e sabia que precisava fazer alguma coisa para romper o clima, só não sabia exatamente o quê agora que estava dominada pelo instinto de ir até o Joffrey.

— Ramsay, nós temos que ir para o palco. O Jon e o Gendry ainda não chegaram e se dependermos deles vamos nos atrasar mais ainda com a preparação dos nossos equipamentos — Mya Stone, a baterista dOs Bastardos fora a responsável por instaurar a paz.

A mulher tinha uma vasta cabeleira negra e intensos olhos azuis. A roupa que ela trajava tinha o estilo punk, toda rasgada com apenas o colete de couro negro cheio de broches intacto. Em sua opinião ela era uma beleza desperdiçada e em breve poderia ser o futuro de sua irmã, Arya.

Com relutância, Ramsay tirou os dedos viciosos do antebraço de Sansa e sorriu inocentemente para Sandor.

— Ei, cara. Não precisa se preocupar. Eu não iria machucá-la — Voltou-se para Sansa — Sinto muito se a assustei, moça. Eu tenho algo para fazer agora e teremos outra oportunidade de terminarmos nossa conversa que foi interrompida duas vezes — No fim da frase, Ramsay deu um beijo perigoso na bochecha de Sansa como uma despedida e promessa. Acompanhando sua companheira de banda, subiu a escada para o palco, acenando para os fãs que gritavam o seu nome.

Como alguém pode gostar de um ser tão desprezível quanto Ramsay? Se questionou e então percebeu que ela havia lhe desejado um bom show enquanto estava fora de si. Presa em meu próprio mundo, recordou do que Arya costumava dizer quando Sansa ficava na presença de Joffrey e então viu que não estava só. Sandor Clegane continuava parado ao seu lado, assistindo o homem desaparecer para sua apresentação. O lado queimado do rosto dele estava voltado para si e a garota teve de se controlar para não franzir o nariz em desgosto com a visão.

— Obrigada — Agradeceu com honestidade. Se ele não tivesse aparecido, teria ficado presa na presença de Ramsay. Não que o Bolton fosse lhe fazer algum mal com tantos telespectadores, mas ainda assim era um alívio ter se despistado dele.

— Deveria ser mais prudente e não andar com pessoas como aquele bastardo — Sandor recomendou em tom de repreensão.

Eu não ando com o Ramsay! Desejou exclamar, indignada com aquela ofensa, mas apenas revirou os olhos e voltou-se para onde Joffrey estava um momento atrás. O seu Príncipe ainda estava lá e isso lhe trouxe o sorriso de volta. Em uma pequena corrida, chegou até ele. Havia passado tanto tempo esperando e procurando por ele que desejava se fazer notada.

— Joff — O chamou assim que ficou apenas dois passos de distância dele e foi só então que percebeu que um braço feminino estava passado ao redor da cintura dele e ele fazia o mesmo com aquela mulher de longos cabelos castanhos claro com leves ondas que trajava um vestido branco curto e justo de látex.

— Sansa? — O rapaz voltou-se para ela e a estudou dos pés a cabeça. Naquele instante Sansa se sentiu muito mal vestida em comparação com a parceira que ele tinha. E para coroar o seu vexame, ainda utilizava aquela ridícula touca de crochê — Você veio mesmo! — Ele riu.

Joffrey podia estar falando com ela, porém os olhos dela não desgrudavam da mulher ao lado dele. Margaery Tyrell, ela a reconheceu das festas que frequentava na casa dos Baratheon. A mulher até um tempo atrás havia sido noiva de Renly, mas de acordo com os rumores o noivo a trocou pelo irmão dela, Loras.

— É um prazer revê-la, Sansa! — Margaery a cumprimentou, soltando Joffrey para depositar dois beijos de saudação em cada face dela.

— Vocês... — A pergunta nunca chegou a ser formulada por completo antes de ser lançada ao ar — Estão juntos? — Finalizou conforme as palavras lhe vinham a mente.

Margaery sorriu com inocência e pesar e Sansa soube que ela se sentia mal por aquilo de verdade. Se a mulher ainda não sabia dos sentimentos da garota pelo filho mais velho de Robert agora tinha certeza.

— Estamos namorando. Acabei de propor para ela — Joffrey voltou-se para a namorada e a beijou de leve nos lábios.

— Vamos sair para comemorar, gostaria de se juntar a nós? — Margaery a convidou tentando reparar os fatos.

— Eu... — Não sabia o que dizer. A noite estava terminada para ela. Seu coração estava partido e ainda assim nenhuma lágrima se formou em seus olhos. Deveria chorar como qualquer garota que tem os seus sonhos arruinados, entretanto não conseguia — Eu devo retornar para casa, já fiquei muito tempo fora e meus pais não podem saber que eu vim aqui hoje — Não conseguia pensar com clareza e soltou a primeira desculpa que lhe veio a mente. Não queria voltar para casa, nem se juntar as suas companheiras daquela aventura. Para Jeyne e Arya ela deveria ter a noite que planejara. Porém a pior opção de todas seria sair dali para ir comemorar o namoro de Joffrey com Margaery em algum restaurante ou bar elegante de Porto Real. Sansa agora se sentia ridícula por ter um pacote de camisinhas dentro da bolsa e ter acreditado que Joffrey era o rapaz ideal para ela entregar sua preciosa virgindade.

— Mas o seu irmão vai tocar agora, não irá assisti-lo? — Margaery a questionou.

— Eu... — Estava confusa e sua ação demonstrava isso. Inconscientemente, girava sobre os calcanhares de um lado para o outro em busca de algo que ela não sabia ao certo. Dentro de si pensava que estava procurando alguém que pudesse testemunhar a sua humilhação, todavia a maioria das pessoas estava apenas tentando ser notada por seus ídolos locais — Jon é o meu meio-irmão... — Explicou o que parecia ser o mais óbvio ou mais fácil de usar a coerência.

— Cão, parece que a Sansa precisa de um pouco de ar, por que não a leva para fora? — O conselho de Joffrey era mais uma ordem do que uma sugestão.

— Por que você mesmo não a leva? — Sandor disparou de volta.

Sansa não notara que o tempo todo Clegane estava as suas costas depois de terem se livrado de Ramsay. Se eu soubesse, teria conversado com Ramsay, parecia ser melhor trocar ideia com o estuprador de sua melhor amiga do que com o rapaz que partira o seu coração.

— Como pode ver, estou ocupado com a minha namorada e você não tem nada para fazer mesmo — Joffrey respondeu, voltando a enlaçar a cintura de Margaery, dando de ombros.

— Para sua informação, eu tenho minhas próprias coisas para fazer — Cada vez mais as palavras de Clegane soavam mais ríspidas.

— Como o quê? Coçar suas pulgas? — Joffrey riu. Era óbvio que o que ele estava tentando fazer era ser engraçado para impressionar a namorada. Sansa já não aguentava mais isso. Se ela fosse embora por conta própria, isso acabaria.

— Está tudo bem. Eu posso ir sozinha — Informou o grupo, mas já era tarde demais.

Em um movimento inesperado, Sandor dera um soco no rosto sorridente do rapaz, atirando-o nas costas de um membro da organização do evento antes de cair sentado no chão. Margaery soltou um grito histérico e levou as mãos em forma de concha aos lábios. Filetes de sangue escorriam do nariz quebrado do rapaz de cabelos dourados.

— Estou cansado de aturar suas merdas, rapaz! — Sandor esbravejou.

— Você não pode fazer isso comigo, Cão! Eu sou o Príncipe do Instituto Baelor! Sou o líder da sua banda! — Joffrey não acreditava o que acabara de acontecer com ele. Devido a dor, não se levantara do chão e um caos começava a acontecer entre os presentes.

Com o alvoroço dos músicos, alguns membros do Staff voltaram-se para a ação e descuidaram da multidão. Vários fãs invadiram o corredor dos artistas. Alguns ajudavam Joffrey e outros se dispersaram para procurar os seus favoritos.

— Bem, foda-se o Príncipe! Foda-se o Instituto Baelor e foda-se a Guarda Real! — Cuspiu no chão do backstage como um bárbaro — Você ainda quer sair daqui? — Perguntou a Sansa que sem entender muito bem o que estava acontecendo, meneou a cabeça em sinal positivo.

Aquilo foi o suficiente para Clegane, que segurou a mão de Sansa e a levou para fora do backstage em direção a porta dos fundos. Conforme iam passando, os fãs fervorosos abriam caminho para eles e em seguida o mar de gente voltava a se fechar as suas costas. Sansa estava surda para os gritos da multidão, porém conseguia ouvir os gritos histéricos de Joffrey que agora tinha um nariz quebrado. Diante daquele caos, a garota permitiu-se gargalhar, pois sabia que de certa forma fora justiçada.

Notas finais
Penúltimo capítulo da Sansa! Fiquei a semana inteira pensando em como seria esse capítulo e no fim só cheguei a conclusão quando sentei para escrevê-lo. Espero que tenham gostado e muito obrigada a todos que chegaram até aqui! Comentários são bem-vindos. ;)