Uma Noite de Música
19 Capítulo 19 - Arya

O arrependimento a consumia. Tinha agido de forma impensada ao comentar com Sansa que Gendry sempre estaria lá ao lado dela independente se o relacionamento de ambos evoluísse para um namoro ou continuasse na amizade. Ela não fora hipócrita ao confessar o que sentia, mas a consciência a repreendia por saber que Gendry não a perdoaria tão cedo por ter ouvido em primeira mão suas palavras que o feriram.
Em uma atitude desesperada, ela procurou pelo rapaz no backstage lotado de fãs da Guarda Real e dos Bastardos, lançando a irmã antes de deixá-la a culpa por aquilo ter ocorrido. Arya era egoísta demais para assumir sozinha a responsabilidade de ter destruído a sua melhor amizade em questões de segundos. Antes que desse tudo como perdido ela tentaria resolver a situação do seu jeito. Explicaria para Gendry como ela se sentia e esperaria que ele a compreendesse. Talvez se abrisse o seu coração dizendo como ele a pressionava pelo afeto que tinha por ela ele lhe daria um tempo para reflexão.
Quem estou querendo enganar? Mordeu o lábio inferior em uma atitude de nervosismo.
Gendry a vira beijar Jaqen mais cedo, logo depois deles terem se beijado — e ela tê-lo esbofeteado — e agora a ouvira mostrar seu lado sombrio.
Eu sou pior do que a vadia que ele me acusou de ser. A verdade a machucava e acreditava que o rapaz estava sentindo algo pior do que isso.
Ter menos de um metro e sessenta era terrível quando se procura por alguém em um ambiente repleto de pessoas mais altas do que si. Dependendo do seu sexto sentido de localização, percebeu que as pessoas se movimentavam para um lado e o nome de quem ela procurava era gritado. Diferente dos outros membros da banda Bastardos, Gendry não estava indo em direção ao palco e sim da saída do backstage. Puta que o pariu! blasfemou. Ela não havia estragado apenas o relacionamento como também o show daquela noite. Com o estado de espírito abalado, parecia que a última coisa que o baixista queria naquele momento era pegar em seu instrumento musical e adotar seu ar de performance.
— Gendry! — Gritou, tentando fazer sua voz se sobressair no meio das demais. Sua ação foi em vão, pois nem ela mesmo se escutara.
Não se preocupando em dar cotovelas e empurrões, espremeu-se para fora do local ao encalço do amigo.
Mal havia cruzado a porta quando bateu o queixo nas costas do rapaz que estava parado ao lado dos leões de chácara que restringiam o acesso dos demais presentes.
— Aí! — Exclamou, massageando a região dolorida do rosto.
Gendry girou sobre os calcanhares e a encarou. Arya nunca vira o rapaz com aquela expressão tão severa. Naquele momento ele demonstrava ser mais velho do que de fato o era, com rugas de mau-humor concentradas no centro de sua testa.
— O que quer? Veio me humilhar ainda mais? — A acusou — Não bastava tudo o que já foi dito, não é mesmo?
— Você me interpretou errado — Rebateu na defensiva.
— Eu te interpretei errado? — Ele zombou — Você tem razão. Eu pensei que fosse mais madura. Que não fosse uma garotinha repleta de arrogância.
Arya tinha o peito inflamado perante aquela frase.
— Tem certeza que eu que sou a arrogante? — O questionou.
A conversa estava seguindo por um rumo contrário ao que planejara. Ela queria consertar o que acontecera e não estragar ainda mais, porém não ouviria o que ele tinha para lhe dizer com ar de contrição. Isso estava além de suas capacidades.
— Veio até aqui para dizer que eu estou sendo arrogante? Se enxerga, garota! — A aconselhou, empurrando a testa dela com o dedo indicador — Eu sou um homem adulto e não é porque eu me permiti gostar de uma adolescente como você que perdi o bom senso!
A jovem agarrou o dedo dele, puxando-o com força para baixo. Não aceitaria sofrer o começo de uma agressão física sem agir da mesma forma.
— Eu também gosto de você! — Disparou.
— Você nem sabe o que é gostar! — Gendry puxou a mão de volta para si, todavia Arya não o liberou — Quando se gosta de alguém você respeita essa pessoa!
— Eu te respeito! — Mentiu descaradamente. Sabia que não havia agido de forma digna para com o rapaz naquela noite.
— E você demonstra isso beijando um desconhecido na minha frente? Não... Isso você não faz. O que você faz é informar a idiota da sua irmã que eu sou um otário! Quer saber? Pra mim chega! Como eu disse lá no camarim, por mim que você vá para o inferno! — Em um movimento brusco, ele se viu livre da garota.
Foi inevitável conter as lágrimas que escorreram por sua face. O choro lhe veio tão naturalmente que a jovem se assustou com isso. Ela não era de se entregar as emoções e detestava as mulheres que o faziam em uma situação como aquela. Pare de chorar, ordenou a si mesma e não sendo dona de si não acatou ao comando.
— Pronto! Agora você chora como uma mulherzinha... Para com isso! — O rapaz revirou os olhos sem paciência para com o drama.
— Gendry? — A voz rouca de Jon ecoou as costas do rapaz.
Sem que se dessem conta, Jon Snow se aproximara dos dois. O meio-irmão de Arya era o guitarrista da banda Bastardos e o líder da mesma. Com todos os membros organizando suas posições no palco agora que a Guarda Real guardava os seus instrumentos, a garota não entendia o que ele fazia fora do backstage.
— O que está acontecendo aqui? — Os olhos acinzentados quase negros de Jon vagavam do rosto de um para o outro.
Arya secou as lágrimas com os dorsos da mão. Era inútil fazer aquilo, pois quanto mais as secava, mais água vertiam de seus olhos.
— Nada — Respondeu na ameaça de um soluço.
— Isso não parece nada! — Seu meio-irmão exclamou, afastando as mãos dela do rosto a modo de vê-la melhor — O que está acontecendo com você, irmãzinha? — Havia ternura em sua voz e Arya sentiu que iria desmoronar se ele forçasse a gentileza para com ela. A jovem não merecia aquilo no momento. Não na frente de Gendry. Como poderia se mostrar forte e madura quando estava sendo consolada por Jon?
— Ela bebeu demais — Gendry interveio.
Aquilo não era de tudo mentira. Ela realmente exagerara na dose de álcool, todavia isso não justificava as suas ações anteriores.
— Robb vai ficar furioso... — Jon murmurou, passando os polegares nas maçãs do rosto da irmã.
— Hah! Pode ter certeza que eu vou mesmo! — A voz de Robb chegou aos seus ouvidos no mesmo instante em que ele entrara no campo de visão da mais nova.
— Robb! — Arya se sobressaltou, afastando das mãos de Jon e encostando as costas contra a pesada porta de aço do backstage. Quando ela pensou que nada poderia ficar pior os Deuses riram de sua cara entendo aquilo como um desafio. O mais velho dos Stark não era tão gentil quanto o bastardo de seu pai e era dele que ela se escondera durante toda a noite.
— Pensou que podia vir a este show sem que eu soubesse? Só pode estar de brincadeira... E ainda por cima encheu a cara de bebida alcoólica! Pelo amor de Deus, Arya, você ainda é uma criança! Deveria abrir um processo contra esse estabelecimento que vende bebidas para menores de idade! — Era difícil dizer quem entre Gendry e Robb estava mais furioso com ela naquele momento. Provavelmente Robb, constatou. Gendry parecia ter um prazer proibido perante sua humilhação — E você, rapaz — Seu irmão voltou-se para Gendry com o dedo acusador apontado para ele — Não se atreva a chegar perto da minha irmã novamente! Antes dela te conhecer ela era uma boa moça de família com um futuro promissor pela frente. Agora ela só pensa em se vestir como uma mulher de rua e frequentar espeluncas como essa!
Quando ela disse a si mesma que não queria a gentileza de Jon ela não estava necessariamente implorando pela rudeza de Robb. Seus soluços se intensificaram com a acusação do irmão e agarrou o antebraço de seu meio-irmão para tentar ocultar a sua vexação pública.
— Robb, eu não acho que isso seja necessário... — Jon começou assim que a meia-irmã buscou apoio nele.
— Não se preocupe — Gendry respondeu de imediato — Eu não tenho interesse em andar com crianças que não sabem maneirar no álcool.
— Eu não sou uma criança! — A garota ergueu os olhos para procurar os do rapaz, porém ele não se dignificou a encará-la de volta.
— Então não aja como uma — Gendry recomendou com indiferença — Jon, nós temos que subir ao palco — Recordou o membro de sua banda.
— Tem razão... Ygritte deve estar louca a minha procura.
No palco quase todos os membros já haviam se posicionado. Ramsay estampava um sorriso hediondo no rosto, empolgado pela apresentação. Com a ausência de Tyrion no vocal, caberia à ele naquela noite ocupar a vaga enquanto agia como o segundo guitarrista da banda.
— Você vai ficar bem, Arya? — Jon perguntou à meia-irmã.
— Ela vai ficar muito bem, Jon. Irei levá-la para casa assim que encontrar Sansa — Robb o informou, segurando a irmã pelo antebraço — Antes de ir embora com Asha, Jeyne me disse que ela veio ver o Joffrey.
Jeyne... Arya mastigou o nome da melhor amiga de sua irmã como se fosse uma maldição. Ela prometera que se vingaria de quem quer que fosse que dedurasse sua presença ali para o Robb. Pode ser que Jeyne estivesse fora de seu alcance por hora, mas ela manteria sua palavra. Sua noite já estava arruinada antes do seu irmão tê-la encontrado, contudo isso não justificava o fato de ter sofrido uma humilhação final na frente de Gendry.
— Quer que eu diga alguma coisa se eu a encontrar? — Jon se ofereceu.
— Não é preciso, eu mesmo o farei — Havia um brilho maligno nos olhos do mais velho dos Stark.
— Como quiser — Jon se despediu de Arya com um beijo em sua testa e caminhou para dentro do backstage acompanhado de Gendry que nem mesmo um olhar de despedida lhe dera.
Arya sentiu o seu coração se partir naquele instante e não podia culpar a ninguém se não a si mesma. Se o conhecia tão bem quanto pensava, dentro de alguns dias eles voltariam a se falar se ela insistisse em procurá-lo, mas com Jaqen em sua vida, não sabia se teria tempo de fazê-lo.
— Vamos seguir eles, Arya — Robb comentou com ela, dando um passo em direção a porta de metal que separava aquela área das de mais do Serpentina.
Mal Gendry que seguia atrás de Jon cruzara a soleira do espaço os leões de chácara detiveram a entrada dos outros dois. Sem compreender o que estava acontecendo, Robb voltou-se para o segurança do seu lado direito.
— Sem pulseira VIP, sem entrada — O brutamontes o informou.
— Pulseira VIP...? — Ele mostrou-se confuso.
— Ela tem — O leão de chácara do lado esquerdo apontou para o pulso de Arya.
A garota havia se esquecido de que era necessário ser preferencial para adentrar o backstage.
— É sério isso? — Robb apelou — Jon Snow que toca no Bastardos é o meu irmão. Você me viu conversando com ele. Eu só quero buscar a minha irmã que está aí dentro.
— Sem pulseira, sem entrada — O segurança do lado direito tornou a repetir.
— Ela pode entrar — O brutamontes do lado esquerdo avisou.
Arya sorriu para ele. A tentativa fora boa, mas era impossível que Robb permitisse que ela fosse sozinha lá para dentro em busca de Sansa. Ela e Jeyne poderiam ter se dado mal naquela noite, mas talvez a irmã tivesse o seu final feliz. Mesmo tendo posto a culpa de seu desentendimento com Gendry em Sansa, não desejava que ela fosse prejudicada. Não tanto, pois uma hora ela teria que sair por ali e seu irmão parecia dividir essa opinião. Dando a noite como terminada, os dois ficaram de campana na porta do backstage. O álcool que ingerira mais cedo atribuía um gosto amargo em sua boca e em silencio desejava que quando acordasse no dia seguinte em sua cama as memórias daquela noite de música não passasse de um pesadelo.
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