Uma Noite de Música
17 Capítulo 17 - Sansa

O show ia a todo o vapor. Na televisão em que transmitia no camarim o que estava acontecendo do lado de fora, Sansa podia ouvir o grito da multidão que cantava junto com Joffrey. Era inevitável constatar que quando o coro ocorria favorecia a habilidade do vocal da Guarda Real. Por mais que ela estivesse obcecada pelo principezinho, estava além das suas capacidades favorecer o talento do dono de sua afeição. Por outro lado, a garota não conseguia tirar os olhos do baterista todo o instante em que ele aparecia em cena. Sandor Clegane estava roubando a sua atenção. O Cão de Caça tinha um fervor dentro de si que o transformava em um animal em cada nota que executava em seu instrumento. Ele toca tão bem, observou, mas fala tão mal, se recordou do momento em que tiveram.
Próximo a porta não havia mais a mancha de cerveja no chão e nem os cacos que vidro, que foram limpos e recolhidos por um membro da staff. Ambos se solicitaram para juntar os cacos e no fim nenhum dos dois o fizeram. Sansa agora tinha outra cerveja e um machucado na mão. Consciente da dor que sentia, abriu e fechou a mão algumas vezes e culpou Sandor por isso. Se ele não tivesse dito que eu me machucaria, então eu não teria me cortado. Aquilo não era tudo que a irritava a respeito daquele homem. Ele a deixara sem uma promessa de que não contaria aos pais dela o que ela trazia na bolsa. Em aflição, mordeu o lábio inferior.
Já fazia mais de quarenta minutos que ela enviara a mensagem para a irmã dizendo que Arya deveria ligar para os pais. Agora sabia que havia cometido um erro ao ligar antes da hora e ainda por cima longe da caçula. Seu irmão Robb e o Jon estavam no Serpentina e se algum deles suspeitassem que as irmãs estavam no mesmo local iriam levá-las de volta para casa. Talvez não Jon..., ponderou. O meio-irmão era mais maleável, já Robb por outro lado era tão rígido quanto a mãe. E se ele olhar a minha bolsa eu terei mais problemas do que se os nossos pais olharem, o pensamento a fez remoer-se no sofá.
Estava tão presa em seus pensamentos, que sobressaltou-se quando a porta do camarim foi escancarada. Do outro lado dela, encontrou a imagem sorridente de Ramsay Bolton. Como pude me esquecer dele? revirou os olhos em desgosto. Não aprovava Jon tê-lo como um membro de sua banda, ainda mais depois do que aconteceu com Jeyne, mas haviam coisas que não podiam ser facilmente desfeitas. Se o seu meio-irmão preferia o prestígio de que o sobrenome Bolton carregava era um problema dele. Sansa a todo o custo evitava aquela criatura maldita.
— Sansa — O homem fez uma reverência exagerada ao cumprimentá-la, levando-a a revirar os olhos mais uma vez.
— Ramsay... — Murmurou o nome dele, retribuindo o cumprimento ao seu modo.
— Pensei que ficaria feliz em me ver — Ele riu e Sansa lhe lançou um olhar incrédulo.
Desejava poder acusá-lo abertamente do que ele fizera com sua amiga de infância, todavia não se atrevia. Aquele assunto era considerado um tabu por toda a sociedade de Porto Real já que perante a lei ele foi inocentado.
— Nunca lhe dei intimidade o suficiente para que pensasse tal coisa — O semblante do Bolton se fechou.
Sansa arqueou uma sobrancelha ao ver a mudança de expressão e por um instante se permitiu sentir-se mal. Por mais que detestasse alguém e tivesse motivos para isto, não gostava da sensação anti-natural que uma inimizade declarada lhe causava.
— Eu lhe fiz alguma coisa para me tratar com tanta hostilidade? — Perguntou.
Mordeu o lábio inferior, escolhendo as palavras certas para dizer.
— Para eu não, mas para uma amiga — Aquilo era o suficiente a ser declarado. Jeyne era como uma extensão sua e ofendê-la também a ofendia. Eu prometi que a defenderia de Ramsay e isto é o melhor que eu eu posso fazer, incentivou-se a continuar.
Ramsay moveu os lábios de um lado para o outro antes de crispá-los em escárnio.
— Refere-se a Jeyne Poole, não é mesmo? — Questionou, apesar da resposta ser clara.
Sansa meneou a cabeça em sinal positivo.
— O que eu faço ou deixo de fazer com ela não lhe diz respeito — A avisou com a voz perigosamente mansa.
Suas bochechas coraram a tal ponto que conseguia sentir o calor emitido naquela região.
— Ela é minha amiga. Conheço Jeyne desde que era criança e por isto digo que eu tenho intimidade o suficiente com ela para saber que a forma que você a trata é indigna — Comentou.
Ramsay cruzou os braços e apoiou o ombro esquerdo no batente da porta, com os olhos fixos em Sansa que estava encolhida em cima do sofá e virada em sua direção.
— E qual seria a forma digna? — Ironizou na intenção apenas de manter o diálogo.
Sansa percebeu que ele não tinha interesse no assunto e meneou a cabeça em sinal negativo, dando de ombros.
— Esquece, você é incapaz de entender a gravidade do assunto.
O membro do Bastardos abriu a boca para lhe dizer algo, mas foi empurrado e obrigado a engolir o que ia rebater.
— Sai da frente! — Arya apareceu por trás de Ramsay, encarando Sansa com um olhar assassino — Você! — Apontou para a irmã — Está. Fodida — A ameaçou, apontando o indicador como se fosse lhe dar um sermão.
— Arya! — Sansa se pôs em pé de imediato — O que aconteceu?
— O que aconteceu!? — A caçula rebateu — Você não pensa, não é mesmo!? Ferrou legal com os nossos esquemas por ser uma linguaruda!
Suas bochechas tornaram a queimar e tinha a sensação que até o seu pescoço ficara avermelhado. Detestava a sua irmã mais nova estar lhe dando um sermão, ainda mais na frente de Ramsay, que ria silenciosamente da conversa entre elas. Percebendo que elas não estavam sozinhas, Arya voltou-se para ele e apontou a porta.
— Fora! — Ordenou.
Havia tanta fúria naquele comando que Sansa desejou que ela também pudesse sair. Lançando um olhar incriminador para a mais velha das Stark, Ramsay as deixou só.
— Arya! — Sansa tornou a exclamar o nome da irmã, desta vez descontando sua frustração na caçula — Você não deveria falar comigo deste jeito! — A repreendeu.
— E você não deveria ter ligado para os nossos pais sem antes falar comigo! — Esbravejou a pequena.
— Você falou com a mãe? — Podia sentir um incômodo no estômago. Não queria ir embora agora que o show da Guarda Real estava terminando. Havia tanto que ela queria dizer e fazer com Joffrey antes que a noite terminasse... Tinha tantas promessas ali e precisava se focar na tv. Talvez ela estivesse certa e com a aproximação da última música a qualquer momento o seu amado poderia chamá-la para subir ao palco e propor namoro à ela.
— Claro que eu não falei e nem vou falar! Se você não tivesse sido burra o suficiente para ligar, eu diria que você deveria ter feito a mesma coisa!
— Por que você está tão brava!? — Sansa perguntou. Conhecia a irmã o suficiente para saber que aquele escândalo não estava relacionado apenas à ligação que ela realizara.
Arya mordeu o lábio inferior.
— Aquele conselho maldito que me deu... — A irmã desabou no sofá, encarando a outra com olhos desesperados.
— Qual? O de fazer o que te deixa feliz? — Conseguia plenamente se recordar do que dissera na mensagem que enviara pelo celular. Eram tão poucas as vezes que tinha a oportunidade de aconselhar a irmã que podia contar nos dedos as vezes que o fizera.
A caçula meneou a cabeça em sinal positivo.
— Você falou com Gendry? — Sansa se animou e sentou-se na mesinha de centro de frente para Arya.
Arya meneou a cabeça em sinal negativo.
— O que você fez então? — Estava confusa.
— Eu... — Mordeu o lábio inferior mais uma vez — Lembra do rapaz da fila? — Quando Sansa disse que se recordava, apesar de ser mentira, a irmã continuou — Ele me beijou...
Sansa arregalou os olhos, incrédula com o que ouvia. Até onde sabia, a irmã não havia beijado ninguém até aquele dia e ter dois homens atrás dela era algo que nem ela experimentara.
— Mas você já havia beijado o Gendry! — Acusou.
— Eu sei... Mas eu não sabia que o Jaqen iria me beijar... — Os lábios de Arya estavam inchados, Sansa percebeu. Talvez fosse pelo excesso de beijo ou pela mesma mania sua que ela tinha de mordê-los.
— E você retribuiu? — A curiosidade a estava consumindo. Gostava tanto das histórias de amor quanto gostava da profissão que escolhera.
— Eu não sei... Foi tão rápido... — Arya estava corando. Era tão divertido ver a irmã com timidez que Sansa sentiu-se inclinada a continuar o questionamento.
— Como pode ter sido rápido? — Até onde experimentara, os beijos eram longos, exceto os selinhos, no entanto estes ela nem contava como beijos de fato.
— Ele só encostou os lábios nos meus... Por um instante... — Tocou os próprios lábios com os dedos onde os de Jaqen a tocara.
— Então nem foi um beijo! — Deu de ombros. Se recusava a acreditar que a irmã se dera melhor do que ela nas conquistas.
— Mas o Gendry olhou pra mim como se eu tivesse feito algo muito errado...
— E de fato você o f... — Parou a sentença ao entender o que a caçula lhe dissera — Pera, o Gendry viu você beijando outro!?
— Você disse que não valeu como um beijo! — Rebateu.
— Você o beijou na frente do Gendry!? — Tornou a questionar, ignorando a sua incoerência.
Arya concordou com a cabeça e Sansa tampou os lábios com as mãos em concha.
— Esta cerveja é sua? — A caçula perguntou, apontando a garrafa cheia que estava ao lado da irmã sobre a mesa de centro.
Em uma atitude que não dizia respeito a sua personalidade, entregou a garrafa para Arya. Com toda a certeza ela precisaria do álcool circulando pelo organismo naquele momento.
— O que você vai fazer, irmãzinha? — Sansa continuou com o seu inquérito depois que Arya tomou três longos goles da cerveja e pôs a garrafa de lado com o conteúdo pela metade.
— Não sei — Deu de ombros — Eu deveria falar com o Gendry, mas se eu o fizer, então eu não poderei mais ver o Jaqen...
— E quem disse que você o verá novamente? — Sansa conhecia os casos de uma noite apesar de nunca ter experimentado um. Pelo jeito este tal de Jaqen que a irmã tanto falava era um homem que ela conhecera naquele dia e que provavelmente não voltaria a vê-lo novamente. Agora que o assunto estava se prolongando, ela se recordava de que o homem que Arya conversara na fila era mais velho do que elas, tendo uma idade próxima a de Jon e de Robb com um acento estrangeiro.
— Ele mesmo — Arya sorriu com timidez. Era um sorriso bonito típico de uma mulher apaixonada. Ela nunca sorriu assim enquanto falava do Gendry, constatou.
— E você prefere ele do que o Gendry? — Sansa preferiria ver a irmã com qualquer um que não aquele amigo estranho que ela tinha.
Gendry tinha uma paternidade incerta e nenhuma recomendação por parte da mãe. Era um músico quando tinha trabalho e vivia de bicos realizados em bares locais, o que ela repudiava.
— Não sei... — A voz da caçula saiu em um sussurro — Eu gosto do Gendry, Sansa. Gosto muito dele, mas eu não quero entrar em um relacionamento sério, sabe? Eu ainda sou jovem e quero curtir a vida. Eu o vi tanto tempo como um amigo que não sei como reagir a ele se ele for meu namorado... Tenho medo de estragar o que já temos, apesar de eu gostar dele — O gostar foi ressaltado tantas vezes que Sansa tinha certeza do quanto a irmã o considerava.
— E você não acha que pode estragar isso se sair com este tal de Jaqen?
— Não — Arya estava decidida sobre aquilo — O Gendry é o meu melhor amigo e entenderá tudo o que eu fizer. Se ele gostar realmente de mim, ele estará lá quando eu cansar do Jaqen.
Aquela frase criou uma onda de hostilidade no ar. Por mais que Sansa não gostasse de Gendry, não podia evitar de sentir pena dele. Arya podia não perceber, mas o que acabara de dizer não passava de uma grande crueldade.
— Então é isso o que pensa de mim? — Uma voz masculina ecoou na porta do camarim.
Os olhos das duas garotas voltaram-se para a porta.
Parado na soleira estava um Gendry com uma expressão furiosa no rosto.
— Gendry — Arya o chamou, pondo-se em pé.
Sansa imitou a irmã, sem saber exatamente o que fazer, olhando de um para o outro.
Arya deu um passo cambaleante para a frente.
— Você acha que eu vou ficar te esperando enquanto você conhece vários homens? Acha que só porque eu te amo já faz alguns anos eu sou obrigado a te aceitar sempre que você enjoar de alguém? — O rapaz continuava parado no local em que estava. Sansa não podia culpá-lo por isso.
— Gendry, eu não sabia que voc... — Arya começou.
— Cala a boca! — Ele gritou a beira das lágrimas, o que surpreendeu Sansa que se mantinha como uma telespectadora daquela briga — Eu pensei que você fosse mais madura do que as garotas da sua idade, mas não pensei que você fosse uma vadia! Por mim, você pode ir para o inferno!
A última frase saiu com tanto impacto que Sansa a sentiu em seu coração. Olhando imediatamente para Arya, percebeu que a caçula ficara ainda mais afetada do que ela. Sem mais nada para fazer ali, Gendry saiu com uma sutileza brusca do camarim.
— É tudo culpa sua! — Arya a acusou antes de sair na disparada atrás de seu amigo na esperança de que pudesse consertar as coisas entre ambos.
Sansa tornou a se sentar na mesa de centro com a sensação de que a qualquer momento poderia ser traída por suas pernas. Definitivamente não é culpa minha, tentou em vão acalentar a sua consciência. Ela só havia encorajado Arya a fazer o que ela queria, não o que Sansa queria, no entanto, aquela cena a afetara a ponto de realmente se julgar culpada. Se eu soubesse o que iria acontecer, eu teria evitado esta saída idiota, contudo o pensamento só a fez se recordar do motivo de ter aceitado vir ao show desta noite. Girando sobre a mesa, virou-se na direção da tv. A Guarda Real estava finalizando a última música. Havia acontecido tantas coisas nos últimos minutos no camarim em que estava que se esquecera de acompanhar a apresentação. Pelo jeito a sua ideia de que Joffrey a pediria em namoro em público estava arruinada, porém ela ainda teria a sua chance de ser feliz. E talvez Jeyne também tenha encontrado Theon. Pensou em pegar o celular na bolsa para enviar uma mensagem a amiga, mas mudou de ideia. Aquilo só a atrasaria para receber o seu amado assim que ele descesse do palco.
Com a consciência pesada e o coração leve, deixou o camarim e percebeu que várias pessoas lotavam o backstage. Não é pra menos, observou, a banda Guarda Real é a mais popular desta noite. Decidida a encontrar um lugar privilegiado próximo a escada que ligava aquele local ao palco, embrenhou-se no meio da multidão aglomerada.
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