Uma Noite de Música

15 Capítulo 15 - Arya


Jaqen H'ghar esperava que ela lhe dissesse alguma coisa, mas nada lhe via em mente. Estava estasiada por vê-lo parado à sua frente. Ele era tão bonito e tinha exatamente o estilo que ela apreciava em homens. Era engraçado, porque Gendry Waters também lhe apreciava a vista, apesar dele ser bem diferente de Jaqen de uma forma drástica. Jaqen era baixo para a estatura de um homem no fim dos vinte e início dos trinta, esguio, ruivo e grunge, enquanto Gendry era alto, forte, escuro e mais para o punk. Internamente ela gritava, por fora exibia uma expressão impenetrável.

— A garota fica sem palavras — Jaqen satirizou.

Arya fechou o semblante.

— Bela camiseta — Comentou a primeira coisa que lhe veio a tona.

Jaqen sorriu.

— A garota está familiarizada com a filosofia braavosiana? — Questionou, puxando a bainha da camiseta, como se tivesse esquecido o que estava trajando.

Meneou a cabeça em sinal positivo. Não entendia tanto sobre aquela filosofia quanto entendia de trash metal, mas o que sabia era o suficiente para entrar em uma conversação.

— É a minha preferida! — Respondeu com entusiasmo — Valar Morghulis — Leu os dizeres — Todos os homens devem morrer.

— Valar Dohaeris, todos os homens devem servir — Ele acrescentou — Sabia que estas são as leis de uma religião que se originou desta filosofia?

Arya não imaginara que havia uma fé envolvida. Seu professor apenas disse que esta teoria fazia parte da cultura dos habitantes das Cidades Livres, um lugar que ganhou o nome por ser um paraíso fiscal. Braavos¹ que se localizava naquele país estava no topo de sua lista para uma viagem futura. Havia até mesmo comentado com Gendry de irem juntos e o rapaz se animara com esta perspectiva e agora ela entendia que era por uma razão diferente da dela. Ele pensava que com esta viagem teria a chance de ficar a sós comigo em um lugar diferente, aquilo a fez se arrepiar e sentir borboletas no estômago. Sentia-se tão ingênua que era impossível não se irritar consigo mesma e com o seu amigo por estar tendo vantagens sobre ela.

— O que eu sei é que ela faz parte da cultura das Cidades Livres — Disse o que sabia.

— Isto também. Faz parte da cultura deste homem — Jaqen era só sorrisos, o que de certa forma incomodava Arya.

Arya absorveu aquela informação com surpresa. Havia percebido que aquele homem tinha um sotaque, mas Westeros era grande e ela não chegara a conhecer pessoas de todo o país.

— Você é de Braavos!? — Repetiu o que ele dissera em uma exclamação.

Ele confirmou com cabeça.

— Estou aqui a trabalho já tem um mês — Avisou.

— Em que trabalha? — Cada vez mais sua curiosidade aumentava.

Se Sansa soubesse disso, iria tratá-lo de uma forma diferente por ele ser estrangeiro, mas não Arya. Ele era um ser humano como ela, talvez não igual à ela, contudo não merecia um tratamento especial só por ser de outro país.

— Este homem é modelo — Respondeu, apontando para si mesmo — Atualmente estou ligado à empresa Crescendo Forte.

Crescendo Forte... Arya conhecia este nome apesar de não estar por dentro da indústria da moda. Aquela era a empresa dos Tyrell. Um nome ridículo, ela pensava e tinha certeza que outras pessoas concordavam com ela, entretanto era um negócio de mais de seis gerações, o que significava que o nome não poderia ser mudado se não quisessem perder o prestígio que conquistaram durante anos de atividade. Está profissão combina com ele, seria um desperdício se ele tivesse seguido outro ramo, se assustou com a análise que fizera. Arya havia acabado de se render a futilidade, algo que ela condenava. Se ele ao menos fosse músico, sua observação poderia ser válida, mas no ramo da moda... não, aquilo estava errado. Desapontada com seus princípios, mordeu o lábio inferior em desaprovação.

— A garota desaprova a profissão deste homem? — Jaqen inquiriu.

— O quê? Não, eu só acho que... — Não sabia o que dizer. Ela era Arya Stark, pelos Deuses! Sempre tinha uma resposta inteligente na ponta da língua e nesta noite ela se sentia uma outra pessoa — ...Bem, não é na área da música — Acrescentou.

Jaqen riu.

— Mas eu toco também; violão e guitarra.

O maxilar da garota ficou frouxo por alguns segundos. Aquele homem era perfeito... Tinha a idade certa dos homens que ela gostava, era bonito, inteligente, diferente e sabia tocar.

— Você faz apresentações? — Entusiasmou-se novamente. Queria saber o quão bom ele realmente era com um dos instrumentos que ele citara.

— Não, eu toco por prazer e não por compromisso. Eu já tenho meu trabalho e não misturo o meu hobbie com ele — Aquele era um ponto definitivo, Arya percebeu.

— É uma pena, gostaria de poder ouvi-lo tocar... — Lamentou em voz alta.

— E a garota pode — Jaqen sugeriu — Podemos marcar um dia, se quiser.

Aquilo a animou, fazendo com que um sorriso fosse estampado em seu rosto.

— Sim, eu quero! Que dia é melhor?

— Este homem está livre amanhã.

— Amanhã é perfeito! — Não tinha planos para o dia seguinte e acrescentar Jaqen era o mais desejável naquele momento.

Jaqen retirou o celular do bolso e passou para Arya, indicando para que ela fizesse o mesmo. Em uma digitação rápida, ambos trocaram seus respectivos números telefônicos. Quando o seu celular voltou para sua mão, a garota sentia-se especial por ter mais um contato em sua escassa agenda telefônica.

— Tem uma mensagem para a garota aí — Jaqen lhe contou, apontando para o celular que ela ainda tinha em mãos.

Arya levou os olhos até Jaqen e depois para o celular. Ele me escreveu alguma coisa? perguntou a si mesma e sentiu borboletas em seu estômago. Porém, quando abriu a mensagem notou que era de Sansa.

A mãe está desconfiando de nós.

Eu acabei de ligar pra ela, mas ela insiste em falar com você.

Ligue para ela o mais rápido que puder.

E não se esqueça de fazer isso em um lugar silencioso!

— Puta que pariu! — Exclamou quando terminou de ler.

Sansa havia fodido com o rolê dela. Mas também, quem mandou Arya inserir sua irmã boca aberta naquilo? Os seus pais não queriam que as duas ligassem, por mais que dissessem o contrário. Eles esperavam que ambas estivessem dormindo na casa de Jeyne hora marcada. O plano delas estava tão cheio de furos que as únicas coisas que tinham para consertá-lo eram as próprias mãos e a vontade de continuar onde estavam.

— A garota está com problemas? — Jaqen questionou.

— Esta garota tem de procurar a irmã chata dela antes que ambas acabem ficando de castigo durante um século! — Esbravejou, fazendo Jaqen rir.

— Este homem teme que não a vera mais esta noite, então. Contudo, até que me seja dito o contrário, ficarei esperando sua ligação para marcarmos o melhor horário amanhã e o local.

Aquilo fez Arya sorrir.

— Ok! — Disse, fazendo um gesto com a cabeça para se despedir e deu as costas à Jaqen, mas antes que ela tivesse dado um passo na direção do backstage que é onde ela julgava que sua irmã estava, ele a segurou pelo braço e a fez se virar.

— Isto é uma promessa, garota — Jaqen encostou os lábios dele no de Arya antes que ela tivesse tempo de dizer qualquer coisa — E é assim que se sela uma promessa de onde eu venho — Dito isto, foi ele quem lhe deu as costas.

Arya não conseguiu sair do lugar em que fora deixada, hipnotizada pelas costas de Jaqen que ia para longe dela e desaparecia na multidão. Quando perdeu o contato visual com ele, ela sentiu-se livre para seguir o seu caminho, embora ainda atordoada pelo fato de ter sido beijada duas vezes na mesma noite, sendo que anterior ao dia de hoje, ela nunca havia beijado ninguém.

Ao virar a cabeça para a esquerda, no entanto Arya parou mais uma vez. Gendry estava ali, no meio da multidão, olhando diretamente para ela com o semblante mais fechado que ela já vira. Ela abriu a boca para chamá-lo, mas nenhum som deixou seus lábios. Até onde ele vira? Aquela expressão que ele ostentava podia ser a resposta. Jaqen a beijara e ela não o repelira, nem mesmo o xingara, diferente do primeiro beijo que ela recebeu.

Eu deveria me desculpar com ele, fazer o que Sansa me aconselhou, dizer que eu gosto dele, só não estava preparada para ser correspondida, no entanto, se eu fizer isto, ele vai perguntar o que eu estava fazendo beijando o Jaqen e se eu responder, eu não poderei vê-lo amanhã como foi o combinado... analisou suas alternativas. Ela queria ouvir Jaqen cantar amanhã e Gendry sempre estaria lá para ela quando ela quisesse. Decidindo que encontrar sua irmã era mais importante do que enfrentar aquele confronto inevitável, se embrenhou no meio da multidão indo para a direção do backstage antes que Gendry pudesse alcançá-la.

Notas finais
¹- Decidi fazer de Braavos um Estado dentro do país das Cidades Livres, que é vizinho de Westeros. Espero que tenham gostado do capítulo! Comentários, críticas e sugestões são bem-vindos! ;)