Uma Noite de Música

14 Capítulo 14 - Theon


Suas mãos tremiam. O que ele mais queria era dar o fora dali. Ele pagara um mico no banheiro e pelo o que pôde notar, somente Gendry Waters sabia a razão disto. Ele cheirara sua cota de cocaína que Ramsay lhe dera e um pouco mais da metade da parte de Jeyne. Não porque ele sentia a necessidade de ficar mais chapado, mas porque se ele fizesse isso, ele não teria que drogar aquela garota e entregá-la ao seu fornecedor. Jeyne é uma boa garota, dizia a si mesmo para justificar os seus erros. Aquela era a única maneira que ele encontrara para salvá-la. Seu vício acabou se tornando sua forma de mostrar bravura mediante a tarefa que foi ordenado para cumprir.

Mal havia dado uma dúzia de passos cambaleantes quando fora afrontado por sua irmã que viera ao seu encalço.

Asha estava furiosa, era fácil ler sua expressão. Para um leigo, Asha sempre estava brava, com o semblante carrancudo que vivia a ostentar com orgulho. Suas roupas largadas mais masculinas do que femininas desencorajavam metade dos homens e a outra metade se sentia fascinada pelo espírito da mulher. E quão cheia de espírito ela é, Theon comentara isso uma vez para a irmã e recebera um cascudo como resposta.

– Onde diabos você se meteu!? — A mulher esbravejou.

– E-eu... — Gaguejou. Estava sentindo dificuldades para pensar com coerência. A droga subiu mais rápido do que o de costume em seu cérebro.

– Não importa — Asha meneou a cabeça em sinal negativo, compreendendo a ausência do irmão — Jeyne está nos esperando para a levarmos para casa.

– Tá — Respondeu em monossilaba. Era mais fácil quando não precisava forçar tanto a elaboração de uma frase.

As luzes de festa do galpão brilhavam de uma forma engraçada em sua visão alterada. Até mesmo sua audição estava afetada, sendo capaz de sentir-se longe de todo aquele barulho, preso em uma conversação com a irmã como se estivesse na beira de uma praia. Eu até posso ouvir o barulho das ondas... constatou e olhou ao redor. O barulho de água que ouvia vinha das bebidas que eram despejadas em copos descartáveis no bar próximo à eles. Theon gargalhou nervosamente.

– Theon, você está bem? — Sua irmã agarrou os seus ombros e fixou os olhos nos dele.

Bem? Sim... estou muito bem! desejou dizer, mas o máximo que conseguiu fazer foi rir. Entretanto, ao fazer isso o seu estomago se agitou e sentiu o amargor do álcool dos coquetéis que ingerira subir à garganta. Queria vomitar e com muito custo conseguiu segurar o vômito dentro de si. A última vez que passara por algo semelhante à isto foi quando exagerou na quantidade de maconha consumida. Se eu passar mal agora, será que Ramsay me dará um outro apelido? Em situações normais isto o teria feito estremecer, porém agora tudo parecia um motivo para risos.

Ao seu jeito, confirmou com a cabeça.

O rosto de Asha estava distorcido. Conseguia enxergar ora dois e ora três pares de olhos castanhos. Se quisesse ir até Jeyne, ele teria que ir logo enquanto conseguia controlar o próprio corpo.

Sua irmã segurando sua mão, o puxou no meio da multidão. Pelo o que ela lhe dissera durante o percurso, ela deixara Jeyne mais próxima do backstage.

Não haviam feito metade do percurso quando os joelhos de Theon o traíram, levando-o a se ajoelhar em uma perna. Ele gargalhava enquanto Asha gritava com ele em um tom mais alto do que a música tocada. Tinha tantas pessoas ao seu redor que ao verem o que estava ocorrendo com ele, abriram uma pequena roda em volta de Theon.

– Você é ridículo, Fedor — Ramsay apareceu do lado de Asha, de braços cruzados assistindo ao seu espetáculo com ar de desagrado.

Theon cessou o riso instantaneamente.

– Levanta! — Asha exclamava, forçando-se a colocá-lo em pé novamente.

O esforço que a irmã fazia era inútil. Ele estava decidido a permanecer no chão. Sentia que se estivesse naquela posição Ramsay não podia lhe fazer mal.

– Ramsay... — Murmurou, indicando com o olhar onde o seu fornecedor estava.

Asha voltou-se para a direção que ele apontava, mas não viu nada.

– Não tem ninguém aqui, Theon! — Berrou, com a preocupação estampada nas linhas de suas sobrancelhas.

O rapaz piscou algumas vezes de forma lenta e quando tornou a fixar a visão onde Ramsay estava não viu ninguém conhecido. A pessoa que estava ali estava de costas para ele, assistindo ao show com grande euforia.

– Eu o vi... — Rebateu, julgando-se louco por estar tendo este tipo de alucinação.

Com a ajuda da irmã, permitiu-se levantar. Estava fraco da cintura para baixo e precisou apoiar-se nela para manter a sustentação dos membros inferiores. Procurando uma explicação do que estava acontecendo com ele no rosto de Asha, viu as sobrancelhas dela ganharem vida própria e se rastejarem de um lado para o outro como se fossem duas taturanas castanhas.

– O que é isto no seu rosto? — Perguntou, apontando o rosto da irmã. Seu dedo indicador tremia... ou melhor dizendo, seu braço tremia. Sua mão parecia pesar dezenas de quilos e mantê-la suspensa no ar requeria mais energia do que o habitual — O que está acontecendo com a minha mão!?

– O que disse? — Asha o chacoalhou.

Aparentemente, as suas frases não saíram tão coerente quanto pensara e ao repetir, concentrou-se em sua própria voz:

– O ou isss roouto! Miin maan sssta strainn na!

Havia algo muito errado com ele. Não entendia a gravidade do que estava sofrendo, apesar de esperar algo semelhante a isto quando decidira cheirar todo aquele pó. Seus olhos se arregalaram inconscientemente. Sua língua inchara em sua boca e tinha um gosto estranho na boca. Mediante à este fato, imitou um cachorro, deixando a borca aberta e colocando a língua pra fora. Tentou olhar para ela, mas não conseguiu enxergar nada a não ser a ponta do seu nariz.

– Theon, o que você fez!? — Asha estava desesperada.

Não queria contar à ela que cheirara cocaína. Como uma criança repreendida, abaixou a cabeça, encarando os próprios pés. O movimento rápido fez com que seu estômago embrulhasse e dessa vez não conseguiu evitar o vômito, despejando uma substância de cor ocre espumante nos pés da irmã. Asha saltou para trás, fazendo com que Theon se desequilibrasse e caísse sobre a sujeira que fizera. Enojado pela sua condição, vomitou ainda mais.

Sua irmã estava horrorizada. Era uma situação muito rara ver aquela mulher destemida nesta posição. Estava com remorso de forçá-la a lidar com ele daquele jeito. Ninguém deveria ser obrigado a cuidar de um drogado miserável.

– Vou chamar ajuda! — Imediatamente ela retirou o celular do bolso e discou um número que ele não sabia qual era.

– Fedor. O seu nome é Fedor. Você é repugnante, Fedor — Ramsay voltara a aparecer e estava acocorado à sua frente, trazendo um sorriso zombeteiro nos lábios.

Lágrimas ameaçaram escorrer de seus olhos. Sua visão alterada agora estava embaçada.

– Você não a terá... Eu não farei o que me mandou fazer! — Disse para Ramsay e o rapaz o compreendeu com exatidão.

– Aí que você se engana, Fedor. Ela já é minha, assim como você é meu — O rapaz ria preguiçosamente — Eu a terei sempre que eu quiser com ou sem a sua ajuda. Enquanto você e Asha estão aí, Jeyne está sozinha no meio dessa gente. Parece que eu mesmo terei de levá-la para casa.

– Não... — Ele não podia permitir que isto ocorresse. Usando toda a força que lhe restava, esticou as mãos para segurar Ramsay naquele lugar, mas ao invés de segurar o seu demônio pessoal, agarrou as pernas de sua irmã.

– A ajuda já está vindo, Theon! — Asha o informou, acariciando os seus cabelos.

Sem saber de quem veio a ajuda, foi levantado por dois homens e carregado para fora do Serpentina. Do lado de fora do galpão, o ar cheirava a fumaça de cigarro e o frio do outono podia ser sentido em seus ossos fragilizados, sofrendo com um ataque de tremores em todo o corpo. Com os olhos fixos no céu que estendia sobre sua cabeça, notou a aproximação de uma nuvem de chuva que se multiplicava enquanto ele via tudo girar.

– Ele está convulsionando! — A voz histérica de sua irmã invadiu os seus ouvidos.

Com uma semi-inconsciência, só conseguiu sentir que aqueles dois homens que o carregaram e o puseram deitado na calçada seguravam os seus braços enquanto Asha enfiava um pedaço de pano em sua boca. Quando os tremores finalmente passaram, ao longe ouviu a sirene de uma ambulância.

Foi essa ajuda que Asha se referiu... constatou.

Enquanto estava sendo atendido por uma equipe de paramédicos, voltou-se para a irmã.

– Jeyne... Fique com Jeyne! Jeyne! — No tom mais alto que conseguiu encontrar, deu a ordem para Asha e sabia que ela tinha entendido pelo menear de cabeça que recebeu em troca.

Ele salvara Jeyne do destino que Ramsay reservara para ela. Ramsay nunca poderia condenar um viciado por ter cedido ao vício. De certa forma a punição dele não seria tão severa se ele saísse com vida desta e sinceramente, ele não se importava com isto. O que ele queria naquele momento é que Jeyne fosse protegida das garras daquele monstro.

Estando aliviado por sua irmã acatar o seu pedido, foi abraçado pela escuridão da inconsciência.

Notas finais
Pensei, pensei e pensei e esta foi a melhor escapatória que pensei para o Theon não cumprir com a promessa que fizera ao Ramsay! Espero que tenham gostado, comentários são bem vindos! ;)