Uma Noite de Música
13 Capítulo 13 - Gendry

Era inadmissível o fato de ter até fila para o banheiro masculino. Ninguém sabia pelo o que ele estava passando e mesmo assim ele era obrigado a esperar a boa vontade daquelas criaturas malditas para entrar no toilete.
A ânsia de vômito durante a espera se transformara em sudorese. A cada minuto que passava o beijo que dera em Arya se tornava mais real. Ela me odeia... Não queria pensar naquilo, no entanto nada conseguia substituir o sabor de sua paixão. Se eu soubesse que ela agiria daquela forma, não a teria provocado, pensou. Contudo ela retribuíra o beijo e esta era a única segurança que possuía para justificar sua ação. A fuga dela não ocorreu porque ela não gostava dele e sim porque ela talvez estivesse lutando com os próprios sentimentos.
Arya é uma garota impulsiva e Gendry sabia muito bem disso. Se ela não gostasse dele, teria esbofeteado logo na primeira investida. E não me beijado como ela fez... a sensação dos lábios dela nos seus era uma lembrança tentadora. Tentadora demais para ele manter-se na abstinência. Amaldiçoou a si mesmo pelos seus desejos. Ele precisava urgentemente lavar o rosto e graças aos Sete Deuses a vez dele havia chego.
Saltando até a pia, abriu a torneira, encheu as mãos de água e jogou na face. A água era o melhor remédio para a febre interna que ameaçava consumi-lo. Tinha bebido mais do que o recomendado. A noite dele estava sendo uma merda e ainda por cima estava longe de terminar. Depois da Guarda Real seria a vez dele de subir no palco e quando descesse, provavelmente Arya já teria ido embora para despistar dos irmãos, embora somente Robb a entregaria de volta para a família. Jon no máximo lhe daria uma reprimenda e permitiria que ela ficasse até a hora dele ir embora.
Mesmo que ela gostasse de mim, ela nunca ficaria comigo, comentou para si mesmo, olhando o seu reflexo no espelho. O homem que o olhava de volta era alto, forte, com cabelos curtos e negros repicados, olhos azuis ressaltados pelo delineador negro que utilizava, pele pálida, regata branca cheia de furos que atribuíam estilo e calça preta de couro. Nos pés Gendry calçava botas militares. O estilo de Arya era semelhante ao dele, mas no fundo ele sentia que aquilo era só uma fase dela enquanto pra ele era sua vida. Ele não tinha nada para lhe oferecer a não ser o que ela via. Todos os seus pertences cabiam em uma mala. Riu para si mesmo. Ele era uma piada ambulante.
– Muito bem, Gendry — Se cumprimentou com sarcasmo, ciente que outros usuários do banheiro o observavam. Ele era o mais famoso dali.
As suas costas um porta do banheiro sofreu um estrondo. Aparentemente um dos usuários sofrera uma queda.
– Está tudo bem aí, cara? — Ouviu um rapaz perguntar para a direção de onde veio o barulho.
Nenhuma resposta foi dada.
Gendry se alarmou e caminhou até a porta daquele banheiro ocupado. Sua curiosidade foi maior do que o seu senso de justiça. Eles esperam isso de mim, era incrível como várias coisas eram esperadas dele por ele ser um dos mais conhecidos da cidade, embora menos respeitado entre os do seu ramo. Enquanto Jon Snow¹ era convidado para fazer apresentações solo em restaurantes e bares nas áreas mais nobres, ele ficava responsável pelos de baixa categoria, como o Serpentina. Já havia tocado tantas vezes neste galpão que se sentia em casa.
– Meu, que porra está acontecendo aí!? — Exclamou a questão para quem quer que fosse que estivesse do outro lado da estrutura de plástico resistente.
Mais uma vez, nenhuma resposta foi recebida. Gendry ouviu passos do outro lado, como se a pessoa estivesse se levantando do chão. Aquela criatura estava esbaforida, embora ele soubesse que não estivesse falando com um maratonista.
– Cara, abre a porta! — Esmurrou o plástico. O primeiro pensamento que passou em sua cabeça era que aquele cidadão estava tendo um ataque cardíaco.
Quando estava a ponto de arrombar a porta, o trinco cedeu e a cabine foi desocupada.
Seus olhos se arregalaram ao identificar o rosto pálido de Theon Greyjoy. Houve um leve murmurinho de quem estava na fila para usar o banheiro. Para eles era um privilégio verem dois membros de duas bandas diferentes naquele lugar pequeno. Para Gendry, aquilo foi estranho.
Theon agia como se estivesse sendo assombrado por algo. Os olhos castanhos do vocal de Nascidos do Ferro o olhavam, sem o enxergar. O rosto apresentava gotículas de suor e a pele estava mais branca do que o normal. Tinha algo errado com aquele homem.
– C-com l-licença — Theon gaguejou, buscando espaço para sair de onde estava.
Gendry hesitou, estudando o semblante do Greyjoy e entendeu tudo quando identificou os restos de um pó branco próximo a narina dele. Cocaína, constatou. Em outras épocas aquilo podia chocá-lo, contudo com tantos anos naquela vida, já estava acostumado com as drogas, ainda que nunca tivesse experimentado nenhuma além do álcool e dos cigarros. Realizando uma pequena gentileza, apontou para o próprio nariz.
Theon entendeu na hora o que aquilo significava e limpou o resto da droga com o dorso de sua mão. Sem esperar que Gendry lhe liberasse o caminho, empurrou o rapaz para longe e saiu quase correndo do banheiro.
Pensei que ele tivesse parado com isso... Lembrava-se que da última vez que ficara sabendo das aventuras de Theon fora quando ele ganhou o apelido de Fedor. Pensava que com este apelido ridículo ele tivesse criado coragem para abandonar o vício. Aparentemente não, lamentou. Aquele caminho que o Greyjoy estava traçando era uma via de uma mão. Não tinha como ele acabar feliz, principalmente com ele já ter chego no ponto de cair dentro de um banheiro público que mal tem espaço para se mexer.
– Vai usar? — O próximo na fila perguntou à Gendry que continuava parado de frente à porta do cubículo desocupado.
– É todo seu — Deu de ombros, retirando-se da área comum do banheiro masculino.
Não sabia dizer quanto tempo ficou fechado dentro de seus problemas. Pelos gritos da multidão, a banda Guarda Real já estava há algum tempo no palco. Engoliu em seco. Não importava quantas vezes já se apresentara, antes de um show a sensação de vermes rastejando em seu estômago era habitual. Como em breve seria a sua vez de subir no palco, buscou o celular dentro do bolso frontal de sua calça. O couro era tão apertado que teve dificuldade de retirar o aparelho de lá.
Falta quanto tempo para ser a nossa vez?
Enviou a mensagem para Jon que instantaneamente o respondeu.
Cerca de 45 minutos.
Ainda tinha algum tempo livre. Poderia gastar algum tempo com Arya. Já havia dado tempo o suficiente dela se recuperar do momento que dividiram. Olhando ao redor, ele viu que Theon encontrara a irmã próximo ao bar. Menos mal, pensou. Seja lá o que tivesse acontecendo com ele, os dois Greyjoy poderiam resolver juntos. Porém Arya não estava ao alcance de sua vista. Ele teria que se aventurar no meio daquele mar de gente para encontrar. Que seja, ela vale a pena. Deu de ombros mais uma vez e partiu em sua busca, sabendo que cada minuto gasto procurando por ela, era menos um minuto junto à ela.
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