Uma Noite de Música
11 Capítulo 11 - Sansa

Faça o que te deixa feliz. ;)
Pelo menos Cara-de-Cavalo estava se dando bem naquela noite. Mesmo que a iniciativa não tivesse vindo de Arya, a sua irmã conseguiu avançar um passo no relacionamento com o Gendry enquanto ela estava sozinha ali no camarim, balançando os pés que não atingiam o chão devido o formato de berço do sofá em que estava sentada. Na TV fixa na parede ela assistia a apresentação ao vivo da banda Guarda Real.
Sansa se questionara se não seria melhor ela ir lá para a frente do palco e se misturar com a multidão, no entanto isso não lhe daria prazer se estivesse sozinha e por um lado era bom estar ali por conta própria. Nunca gostara de rock e mesmo Joffrey a incentivando a escutar as músicas do gênero ela só escutara por respeito ao rapaz e não adquirira o gosto.
– Não importam o que digam, as músicas da tia Lyanna são as melhores — Meneou a cabeça em forma positiva com firmeza ao dizer isso para si mesma.
Ela nunca compreendera porque o sucesso musical da irmã de seu pai não podia ser mencionado em casa. Está certo que Lyanna abandonara a família ao escolher um destino diferente do que lhe fora traçado pelo seu pai, Rickard Stark, quando escolhera a carreira musical ao invés da Licenciatura, mas ela não deveria ser culpada por isso se conseguiu alcançar o seu objetivo. Claro que isso não era tudo. A desonra maior que resultou a proibição de seu nome ser mencionado em casa estava relacionado ao affair que ela teve com o vocalista do Último Dragão, Rhaegar Targaryen que era casado com Elia e tinha filhos pequenos deste relacionamento enquanto ela era noiva do atual Reitor do Instituto Baelor. E eles pagaram um preço alto por isso, se recordou do fim trágico que Lyanna e Rhaegar tiveram ao morrerem em um acidente de carro depois da última apresentação da banda dele no Serpentina, vinte anos atrás.
Sansa sabia que o que a tia fizera não era correto e jamais escolheria a vida de Lyanna para si. Em seu caráter já fora traçada a separação do que é certo e do que é errado e sair com um homem comprometido estando ela mesma comprometida era extremamente errado em seu ponto de vista, ainda mais quando a conduta dos respectivos pares fosse inquestionável. Eu jamais trairia Joffrey, pensou. O rapaz tinha várias fãs e até mesmo um fã clube, contudo ele nunca demonstrara interesse em nenhuma delas, pelo menos não nesse mês em que eles estavam saindo.
Joffrey a havia levado para um encontro apenas uma vez e passava o máximo de tempo possível com ela na faculdade, mas eles não fizeram nada além de trocar um dúzia de beijos nesse tempo todo em que estavam se vendo. Ele deve pensar que eu sou muito imatura, caso o contrário já teria tentado algo a mais, ela estava determinada a tirar esta impressão dele esta noite. Queria acreditar que o motivo dele tê-la chamado para comparecer ao evento seria para pedi-la em namoro e em sua cabeça já idealizara a cena. Logo na última música Joffrey diria que precisava fazer um anúncio e chamaria Sansa para o palco e então, diante de todo aquele mar de gente se ajoelharia aos seus pés e segurando a mão dela na sua a pediria em namoro com um par de alianças de prata. Sansa aceitaria o pedido com lágrimas nos olhos e um sorriso amável no rosto e então Joffrey diria que a última música é dedicada à ela e quando ambos descessem do palco Sansa iria dar o seu presente para ele, que seria convidá-lo para o quarto de um motel próximo, onde só sairia na tarde do dia seguinte. Vai ser perfeito! se animou, elevando as mãos no rosto em formato de concha para ocultar sua felicidade vergonhosa.
Acho que o seu pai não gostaria de saber o que a preciosa filha dele carrega consigo. A frase do Cão de Caça ecoou em sua cabeça.
Realmente Eddard Stark não gostaria de saber nem um pouco o que ela estava planejando. Se meu pai ou minha mãe tivessem vasculhado a minha bolsa eu ficaria de castigo até terminar a faculdade... Sansa gemeu e por um instante viu-se ridicularizada. Aquele homem que não permitiu que ela o chamasse de professor havia descoberto o segredo que ninguém a não ser ela sabia. E ainda por cima riu da minha cara! exclamou internamente, com o sangue congelando nas veias. O sorriso amarelo que ele lhe dera adquiria um tom grotesco devido as cicatrizes de queimadura que exibia na face. Dizem que foi o irmão dele quem lhe fez isso... Havia outros rumores sobre a história por trás do incidente, mas nenhuma fazia tanto sentido quanto a do irmão dele tê-lo envolvido em um experimento no palco. Fora o seu professor de História da Arte I e II quem lhe contara o fato. Petyr Baelish conhecia o podre de muitas pessoas e nada que ele já lhe dissera mostrara-se falso.
O professor Baelish pode saber que eu estou aqui e pode contar para os meus pais... Constatou o risco que corria. Naquela noite a sua família programara jantar na casa da irmã de sua mãe, Lysa, que estava casada com Petyr. Contudo esse era o menor dos riscos que corria. Se os seus pais realmente descobrissem isso do cunhado, então o seu telefone estaria carregado de ligações perdidas. Por via das dúvidas, Sansa ligou o celular e para a sua felicidade ninguém lhe ligara, nem mesmo Jeyne retornara a mensagem em que perguntava onde ela estava e Arya não parecia ter uma resposta para o conselho que a irmã lhe dera.
– Então é isso... — Sansa suspirou e estava prestes a guardar o aparelho quando seus olhos se fixaram nas horas exibidas no visor do celular. 20h47m.
Ainda faltavam uma hora e treze minutos para que tivesse que ligar para os pais para dizer que tudo estava bem. Por volta desse horário o Joffrey estará finalizando o seu show, percebeu, e quando eu me juntar à ele eu me recuso a ligar para o papai! Ela queria mostrar que era adulta e dar satisfações para Eddard era demonstrar dependência na família, algo que apenas crianças fazia.
Decidida ao que fazer, procurou na lista de contatos o número da sua mãe e ligou para ela. Seria muito mais fácil convencer a mãe que estava em segurança na casa de Jeyne do que fazer o mesmo com o pai. O camarim estava relativamente silencioso em comparação com o murmurinho incessante do público misturado com a cantoria da banda e o som dos instrumentos musicais. Até mesmo o show que era apresentado na TV estava mais baixo e com a porta fechada a conversa e o vai e vem de quem estava no backstage não podia ser ouvido.
– Sansa? — A voz de Catelyn ecoou do outro lado da linha.
– Mãe? — Sansa respirou fundo. Mentir não era a sua habilidade natural — Estou ligando para dizer que tudo está bem por aqui. — Não era uma mentira se ela apenas omitisse os fatos.
– Quero falar com Arya — Sua mãe pediu. Ela desconfia de algo, Sansa mordeu o lábio inferior, um hábito que os filhos daquele casal adquirira por sempre terem de saber o momento de falar e o de ouvir, por mais vontade que tivessem de inverter a ordem.
– Arya está tomando banho e Jeyne está fazendo mais pipoca para nós — Falou com pressa.
Catelyn ficou um momento em silêncio do outro lado, como se tentasse ouvir algo além das palavras da filha mais velha.
– Que barulho é esse que estou ouvindo? — Perguntou a matrona.
– Que barulho? — Uma onda fria desceu por sua coluna.
– De música — Catelyn a repreendeu — Sansa, eu juro que se você estiver no show que eu e o seu pai a proib...
Sansa a interrompeu, mesmo sabendo que não era o correto.
– Não, mãe! — Exclamou com a voz histérica — É a TV! Arya até poderia desobedecer a senhora, mas não eu!
– Com quem você está falando, querida? — Sansa ouviu a voz de seu pai no fundo da ligação.
– Sansa — Catelyn respondeu com amabilidade e depois voltou a se direcionar à filha — Peça para Arya me ligar assim que sair do banho — A mãe ordenou.
– Pra quê? — Perguntou com nervosismo. Arya poderia dar com a língua nos dentes. Sansa confiava na irmã tanto quanto Arya confiava nela.
– Não cabe à você me questionar, Sansa! — Catelyn gritou — Fale para sua irmã me ligar!
– Desculpa, mamãe... — Disse com humildade — Pode deixar que eu aviso Arya.
Sem mais nada para acrescentar ao diálogo, Catelyn desligou a ligação e Sansa ficou um tempo olhando para o aparelho celular com a mente distante.
– Eu estou ferrada... — Murmurou depois de o que pareceu um longo tempo de abstração e então, com os dedos trêmulos, enviou uma mensagem para Arya.
A mãe está desconfiando de nós.
Eu acabei de ligar pra ela, mas ela insiste em falar com você.
Ligue para ela o mais rápido que puder.
E não se esqueça de fazer isso em um lugar silencioso!
Selecionou a opção enviar e desligou o celular, o enfiando na bolsa. Não queria ter maus pensamentos naquele momento. Queria apenas prestar atenção no show que Joffrey estava realizando. Pelo o pouco que entendia de música, todos estavam desempenhando bem o seu papel, no entanto Joffrey parecia não ter harmonia em sua voz em algumas estrofes das músicas que cantava e acreditava que até terminar a apresentação só tenderia a piorar a afinação. Ele é tão lindo... Suspirou ao admirar a beleza do rapaz, como se isso fosse o suficiente para desculpar a sua falta de talento musical.
Mesmo que meus pais desconfiem e até cheguem a comprovar que eu os desobedeci, nada e nem ninguém irá me impedir de me tornar mulher esta noite. Decidiu ao observar o quão longe já havia ido por Joffrey e o quão mais distante iria antes da escuridão do precipício em que se jogara a engolisse por completo.
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