Uma Noite de Música
1 Capítulo 1 - Sansa

O dia que Sansa Stark tanto esperara finalmente chegara. Naquela sexta-feira em Porto Real iria ocorrer o maior show de rock dos últimos vinte anos, desde que O Último Dragão se aposentou. Diversos folders avisando o evento foram espalhados por toda a cidade e o Instituto Baelor não foi exceção; tendo mais de três cartazes colados em cada quadro de aviso da instituição, tanto na área universitária quanto na educação básica. A razão para toda essa publicidade exacerbada era o vocalista da banda Guarda Real, Joffrey Baratheon, filho do reitor, Robert Baratheon, e patrono do Instituto Baelor, que se apresentaria naquela noite.
Foi a presença confirmada de Joffrey que motivara a estudante universitária matriculada no segundo ano de artes plásticas à ir assistir a apresentação musical do mesmo. No último mês, o estudante mais popular e cobiçado da faculdade a chamara para sair e quando ele fez questão de convidá-la para o grande show que iria realizar no galpão Serpentina localizado na Baixada das Pulgas, Sansa não conseguiu dizer não, mesmo que rock não fosse o estilo de música que gostasse. O seu gênero musical favorito sempre fora e sempre seria o soul.
– Sansa, você tem que ir! — Jeyne Poole a avisou quando finalmente puderam conversar sobre o assunto.
Jeyne além de ser a amiga mais antiga de Sansa, também era a sua colega de turma. Jeyne desconfiava que o fato de Joffrey fazer questão que Sansa fosse assisti-lo estaria relacionado com uma oficialização do relacionamento deles, o que Arya demonstrou discordar.
– Ele só quer te exibir para os amiguinhos! — Arya Stark, sua irmã mais nova e aluna do último ano do ensino médio da mesma instituição de ensino na qual estava matriculada, alertou.
Sansa se sentia dividida entre as razões do convite de Joffrey, ela tinha as suas próprias suspeitas também, mas era a ideia de Jeyne que mais lhe agradara, ainda que um pedaço de seu coração estivesse inclinado a aceitar as palavras de Arya. Joffrey Baratheon era o aluno do terceiro e penúltimo ano de música, sendo conhecido por sua vaidade e arrogância nas más línguas e pela sua riqueza por todos. A única coisa que o rapaz de lábios finos e espessos cabelos dourados não era conhecido era pelo talento musical, e não era porque ele era o integrante mais novo da Guarda Real, que era composta pelo guitarrista Jaime Lannister, tio do vocal, pelos baixistas Meryn Trant e Boros Blount, pelo tecladista Aerys Oakheart e pelo baterista Sandor Clegane, todos eles professores do Instituto Baelor.
Independente de qual fosse o motivo de Joffrey fazer questão que ela fosse, Sansa estava determinada a ir ao show, a única coisa que faltava fazer era pedir permissão ao pai, Eddard Stark, que ocupava a cadeira de diretor na instituição que estava matriculada. O que parecia o menor dos problemas se tornou o maior de todos eles. Ned estava decidido a não deixar Sansa participar daquele evento, alegando que a Serpentina estaria lotada de pessoas perigosas. Drogados, alcoólatras, pessoas violentas e volúveis, ela conhecia aquele discurso de cor.
– Mas pai, o Jon irá tocar, também! — O recordou.
Jon era o seu irmão mais velho e fruto de um relacionamento extraconjugal de seu pai. Sendo o único dos irmãos que se formara há cinco anos atrás na mesma área em que seguia carreira, Jon montara uma banda ainda no ensino médio e dera o nome de Bastardos, apenas para provocar a fúria do pai e a da madrasta, Catelyn Stark.
– Não quero ver você se comparando com o Jon! — A mãe a repreendeu — Além do mais, Arya já fez o mesmo pedido e negamos, não vejo porque deveria ser diferente com você.
Sansa podia fazer uma lista de dez páginas explicando porque seria diferente com ela. Sua irmã tinha um gênio terrível, e também era dois anos mais nova que ela, tendo dezessete anos completos em contrapartida aos seus vinte anos incompletos. Arya era apaixonada por rock, não pelo rock propriamente dito, mas do metal, com ênfase no trash metal. Era praticamente insuportável nos finais de semana quando a caçula cismava em ouvir as suas bandas favoritas com o som no último volume. Como se a gritaria incompreensível dos vocalistas não fosse ruim o suficiente, o fundo musical era realmente um trash.
– Sinto muito, Sansa, mas não vou te levar — Foi a resposta que obteve de seus irmãos, Jon e Robb, e também de Theon Greyjoy.
Robb Stark era alguns meses mais novo do que Jon, e escolhera se formar em Direito, assim como o pai, e não demonstrava interesse algum na música. Já Theon Greyjoy, um enteado da família, montara uma dupla com a irmã Asha chamada de Nascidos do Ferro, e seriam eles quem abririam o evento naquela noite. Aparentemente todos tinham medo de Eddard Stark, a única que se mostrava inabalada com a decisão dos pais era Arya, e foi com ela que Sansa bolou o seu mirabolante plano de fuga. Dando a desculpa de que se ambas não podiam participar do show em que os irmãos iriam, então que elas tivessem a noite das garotas na casa de Jeyne Poole, onde iriam assistir aos últimos lançamentos do cinema, comendo doces e pipocas, e que no dia seguinte na parte da tarde estariam de volta em casa.
Eddard não se importou com a ideia que Sansa lhe apresentou, ainda que Catelyn desconfiasse de que havia alguma armação por de trás dessa história. Mesmo assim, os pais concederam a permissão para elas e pediram para que entre as 22h e a 00h ligassem para eles, apenas para dizer se estava tudo bem. O horário era inapropriado, porém era a garantia que a sua mãe queria para saber que não haviam desobedecido às suas regras. O comando demonstrou ser justo, Sansa só precisaria encontrar um lugar silencioso no evento por volta desse horário, não parecia ser problema algum.
Quando o relógio anunciou as dezoito horas, Sansa e Arya saíram de casa. Jeyne Poole provavelmente já teria feito o mesmo. Ambas combinaram de se encontrar na Serpentina, uma dando a desculpa de que dormiria na casa da outra. Nenhuma pensou onde iriam depois que as bandas terminassem de tocar, entretanto isso não pareceu ser importante na elaboração do plano. Os fôlders afirmaram que o galpão abriria a partir das dezesseis horas, contando com o pleno funcionamento do bar e de stands com produtos do submundo do rock, ainda que as bandas só fossem subir ao palco às dezenove horas.
– Deveríamos ter pego o ônibus — Arya resmungou, sentada no banco de passageiro. Era Sansa quem estava no volante de sua Mercedes-Benz A200 fumê — Você é péssima no volante e tenho certeza que vai querer sair cedo de lá, ou então ficar com aqueles seus amiguinhos nojentos!
– Já disse para manter o vidro fechado! — A motorista reclamou, tornando a fechar o vidro automático. Não podia correr o risco de serem vistas enquanto estivessem em campo aberto – E se está achando ruim, tire a sua carteira de motorista e pare de reclamar.
Jon e Robb saíram de casa havia menos de duas horas com suas respectivas namoradas, Ygritte Wild¹ e Jeyne Westerling. Sansa sabia perfeitamente que o destino deles era o mesmo lugar ao qual estava indo. Para evitar chamar atenção, a mais velha das irmãs decidiu ocultar o seu chamativo cabelo ruivo acobreado com uma toca de crochê assim que chegasse no evento, ela também decidira por não sair de casa com a roupa que pretendia utilizar naquela noite, por isso colocou tudo o que seria necessário na mala de mão que aprontara com o pretexto de ser o seu pijama e que agora se encontrava no banco de trás do carro que estava dirigindo. Arya por outro lado já estava vestida conforme pretendia, com uma camiseta branca sem manga com os dizeres I Prefer the Drummer e um short jeans de lavagem escura. A irmã não julgou apropriada a vestimenta, por revelar a parte lateral do sutiã da caçula, contudo nada o que dissesse teria algum efeito na decisão da outra, pelo menos a garota de dezessete anos teve a consciência de levar uma jaqueta de couro que combinava com a sua bota de cano longo e sem salto.
– Algum amigo seu vai também? — Perguntou Sansa, quebrando o longo silêncio que se formara entre elas no trânsito.
– Acha que só você tem amigos? — Rebateu a mais jovem — Claro que todos eles irão! — Sansa sentiu que a irmã estava corando — ...Gendry irá tocar esta noite... — Sua voz saiu tão infantil quanto a de seu irmão Rickon, que tem apenas seis anos.
– Ah, é mesmo... — Abriu um sorriso no canto dos lábios.
Apesar de Arya não confessar, era evidente a atração que ela sentia pelo baixista da banda Bastardos, que tinha o seu irmão Jon como guitarrista, assim como Ramsay Bolton no mesmo instrumento, Mya Stone como baterista e Tyrion Lannister como vocal.
– Você deveria ter comprado uma camiseta com I Prefer The Bass ao invés dessa daí — Provocou.
– Eu não gosto dele! — Arya exclamou, mas sua voz a traiu — Você que deveria usar uma camiseta com I Prefer The Jerk!
– Joffrey não é idiota! — Defendeu.
– Não disse que era o Joffrey, você quem achou isso! — A caçula desatou a rir.
– Se você não calar a boca eu vou bater o carro! — Ameaçou, sentindo a raiva subir pela espinha dorsal.
– Deveríamos ter ido de ônibus — Tornou a reclamar.
Sansa sabia que de certa forma ela tinha razão sobre isso. Se elas tivessem ido de ônibus, Sansa poderia beber sem preocupações e não ser a careta do grupo, como ela estava sendo chamada, tinha certeza disso. Entretanto, se tivessem optado pelo transporte coletivo elas ficariam a mercê do horário da condução e correriam riscos para onde quer que fossem depois do show. Com o carro, se não encontrassem lugar algum para irem, poderiam dormir ali mesmo. A ruiva teve de fazer grande esforço para não rir desse pensamento. Sentia-se uma verdadeira adulta agora, graças a essa primeira atitude rebelde que cometia, mas também sentia o medo de que a qualquer hora poderia ser pega e punida por isso. Eu sou uma moça de família, se recordou, desejando profundamente que a moral dela continuasse intacta depois do que poderia acontecer hoje.
A Serpentina ficava quase uma hora de distância da residência dos Starks. Era incrível como tudo ficava longe de onde morava, esse era um dos malefícios de viver em uma mansão no meio do mato, como gostava de se referir à Winterfell, o bairro que habitava. Quando finalmente chegaram no galpão, a noite já havia se firmado e a iluminação que vinha da rua dava a impressão de ainda era dia. O logo do Serpentina estava ligado e as letras brilhavam em luzes azul, verde, vermelha e amarela, mais posters sob a apresentação dessa noite estavam estampados nas paredes do lugar, uma longa fila se formara na bilheteria e as ruas estavam lotadas de carros. Vários grupos de pessoas optavam por ficar na calçada, fumando e bebendo, ou então esperando a misericórdia de alguém para lhes pagar o ingresso; era fácil distinguir este último grupo, eles não possuíam nem a pulseira laranja nem a verde neon.
– Arya, fica de olho enquanto eu troco de roupa — Alertou a irmã depois de ter conseguido encontrar uma vaga em uma quadra longe do galpão.
Desatando a fivela do sinto de segurança, passou com facilidade para o banco de trás do carro onde estava sua mala e ali encontrou conforme havia guardado a camiseta preta de banda do Último Dragão e o short jeans que usaria. Com um pouco de dificuldade pelo pouco espaço que tinha dentro do carro conseguiu trocar de roupa e por fim vestiu a touca que havia separado, optando por não levar consigo a sua jaqueta de frio. Sentia que o calor predominaria dentro daquele lugar e o clima outonal estava até que ameno.
– Você está com os ingressos, né? — Arya perguntou, fazendo a vigília para que ninguém se aproximasse do veículo enquanto a irmã se trocava.
– Estão na minha bolsa — Respondeu Sansa, saindo do carro pelo banco do passageiro e acionando o comando da chave que trancaria o carro.
Arya estudou a irmã, passando os olhos dos pés a cabeça de Sansa e por fim lançando o seu olhar desaprovador.
– Você é uma verdadeira poser — Comentou — Você não pode ir à este evento utilizando a camiseta do Último Dragão, é como uma ofensa as bandas que irão tocar hoje, cara! E ainda por cima sua camiseta está toda engomada, ela revela que você realmente acabou de comprá-la! — A repreendeu — E esta touca está ridícula! Parece que você é uma dessas traficantes que o pai diz para evitarmos!
A mais velha sentiu as bochechas corarem. No fundo ela sabia que a mais nova tinha razão. Ela não entendia nada sobre esses eventos e o que não desejava naquela noite era ser ridicularizada por Joffrey. E não o serei, garantiu a si mesma, afinal de contas ela era uma Stark e o seu nome significava alguma coisa naquela cidade.
– O que eu devo fazer, então? — Abriu-se à sugestões. Em situações normais ela não daria ouvido ao que a irmã dizia, mas esta não era uma situação normal.
– Tesoura — Arya esticou a mão para receber o objeto que pedira.
– Eu acho que tenho uma no carro — Essa era a vantagem de cursar Artes Plásticas; tesoura, cola, uma variedade de papéis e de lápis, além de tinta acrílica e a óleo eram materiais básicos que guardava em seu carro por ser usado com frequência durante as aulas.
– Entra lá e senta no banco de trás e me dê sua camiseta que eu vou aprimorá-la– Havia um sorriso amarelo no rosto da garota que se divertia com a ideia de destruir algo da irmã.
Sansa fez conforme lhe fora ordenado e se despiu da parte de cima de sua roupa e a entregou junto com a tesoura para Arya que havia se sentado no banco do passageiro e sem pensar muito em como faria o aprimoramento, começou a recortar e a dona daquela peça só descobriu o que havia sido feito quando a vestiu novamente.
– Você estragou a minha camiseta! — Sansa esbravejou ao ver o resultado e Arya desatou a gargalhar.
A camiseta do Último Dragão havia perdido tecido nas costas. Arya a cortara em tiras horizontais e depois as uniram formando algo semelhante a uma trança. As mangas também haviam sido removidas a ponto de se assemelhar com o modelo que ela mesma utilizava. E eu ainda critiquei o fato dela estar revelando a lateral do sutiã, relembrou, sentindo que estava pagando a própria língua. A gola de sua camiseta também havia sido removida, ganhando um decote em 'v'. Essa foi a única alteração que Sansa gostou, embora preferisse que os cortes tivessem sido feito de forma padronizada. Até mesmo a estampa não fora esquecida nos ajustes. Arya passara a tesoura para remover o nome da banda e dar um aspecto envelhecido à sua obra.
– Você está perfeita agora! — Exclamou, admirando o trabalho feito.
– Parece que eu a peguei em uma doação aos pobres! — Lamentou. Por mais estilosa que pudesse estar parecendo, ela ainda preferia o modelo antigo. Não estava acostumada com roupas personalizadas. Até em questão de arte Sansa preferia o Clássico ao invés do Contemporâneo.
– Pare de reclamar e anda logo! — A irmã a apressou, batendo os pés do lado de fora do carro.
Sansa novamente deixou o seu veículo, porém dessa vez optou por vestir a sua jaqueta jeans. É melhor passar calor do que vergonha, optou. Se lá dentro ela encontrasse pessoas mais mal vestidas do que ela, então de bom grado ela removeria seu agasalho.
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