Uma Noite

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Trilha sonora para acompanhar a história (opcional): http://www.youtube.com/watch?v=8zdw-zubV0U

Mais uma vez eu via esse corredor escuro. Ele não tinha fim e meus instintos me diziam para andar e andar. Eu não conseguia enxergar meus passos. Não sabia para onde a escuridão estava me guiando.

– Eu lhe avisei uma vez! Não terá perdão. – uma voz masculina e grossa veio do corredor. Parei um instante de andar. Prendi minha respiração e parei meus pensamentos. “Não pode ser ele.”, pensei. Minhas mãos começaram a suar frio, mas continuei andando. Com o coração na mão, avistei uma porta de madeira no lado esquerdo do corredor. Fui até ela e paralisei. Parado a sua frente não sabia o que fazer. A voz… Era-me muito familiar, mas não me trazia conforto algum. Apenas medo e angústia. Arrependimentos. Decidido a entrar, pus a mão na maçaneta e tirei ela imediatamente. Estava congelada. Olhei para meus dedos e então percebi que pedaços de pele tinham sido arrancados quando puxei minha mão. Uma ardência começou a aparecer nas pontas dos dedos. Tirei minha camisa e então abri a porta com minha mão enrolada. Meus olhos arderam devido a claridade da sala. O lugar era enorme. Todo branco, com sofás, cadeiras e mesas. Nunca tinha visto aquele lugar antes e não sabia o que poderia encontrar ali dentro. Andei em meio as cadeiras e esbarrei num vaso de cerâmica que se espatifou no chão de vidro. Sim, só percebi que o chão era de vidro nesse momento. Olhei para baixo e precisei me agarrar a uma cadeira pra não cair. Abaixo de mim haviam sombras. Sombras revoltadas, que se movimentavam de um lado para o outro. Também tinha fogo. Muito fogo. “Isso não estava aqui quando entrei.”, pensei. Ouvi um barulho e percebi que uma cadeira da sala havia caído no buraco. Quando olhei por onde ela caiu, percebi que o chão estava se derretendo. As sombras riam e me olhavam com prazer. Desesperado, corri para a porta que entrei, mas ela estava trancada. Puxei, chutei, bati, soquei e nada. Não abria. Comecei a ficar nervoso e meu coração parecia querer saltar do peito. Uma saída… Corri pela sala procurando alguma saída. O chão ainda se derretia e as sombras se movimentavam mais rapidamente. Os risos estavam mais altos e maléficos. Milagrosamente consegui achar um buraco atrás de um sofá. Era um escorrega. Me joguei ali e deslizei para o corredor. A escuridão novamente tomou conta de mim. Continuei a andar e cheguei ao fim dele. Não tinha nada além de uma mesa com um cinto em cima. Me aproximei e peguei o cinto. Olhei mais de perto e então… Eu lembrei. A voz, a sala, o corredor, o cinto. Tudo fazia sentido. Meus olhos se arregalaram de medo e gelei. Era ele.

– Ursinho, cade você?, ele disse. Olhei para o corredor e a voz se aproximava. Eu precisava me esconder. Ele não podia me achar. Entrei debaixo da mesa e me encolhi. O som de passos foi aumentando e ficando cada vez mais perto. Até que eu o vi. Ele parou um pouco a frente da mesa e começou a andar pelo lugar. Usava a mesma bota enlameada de sempre.

– Alguém andou mexendo no meu cinto. Quem foi, ein?– disse. Meu coração parou, minha respiração acelerou e meus olhos começaram a lacrimejar. Não podia ser verdade. Ele não podia estar ali. Isso não podia ser real.

– Ursinho, apareça. Papai sabe que você está aqui.– Eu só conseguia pensar em uma coisa. Medo. Meu pai era o maior monstro da história. Ele batia em mim toda vez que voltava da rua bêbado. Com aquele cinto. Mas eu não o via a anos… Ele tinha se mudado para uma casa na Flórida e eu e minha mãe nos mudamos para bem longe dele. Fiquei em silêncio e de repente ele abaixou e pude ver seu rosto. Um sorriso estampado nele, com olhos lunáticos.

– Papai achou. – e veio me agarrar. Mas antes de sua mão segurar meu pulso eu acordei. Olhei para o relógio e ainda eram três da manhã. Tudo não passava de um pesadelo. Desci para a cozinha para pegar um copo d’água. Enquanto relaxava sentado na cadeira da mesa de jantar, olhei para a porta da frente. Congelei. O copo caiu da minha mão e comecei e tremer. As botas. Elas estavam do lado de fora da porta. Sujas de lama, como sempre ficavam. Meu coração disparou.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Aguardo críticas!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!