Uma Moldura Prateada
1 O quadro
“Quadro bonito”,o homem pensava, olhando para aquela foto, enquadrada por uma pesada moldura prateada, carregada por um homem de uniforme. Era uma foto do anoitecer da Cidade, vista de cima, tirada de um dos zeppelins que cruzavam os céus, levando os ricos e privilegiados de um lado a outro. O homem nunca tinha entrado em um deles, mas morou sob uma estação, onde eles paravam, e tinha visto o suficiente.
Mas não parecia exatamente uma foto, estava mais para um traço à caneta-tinteiro feito com um cuidado espantoso. O velho desabrigado não percebeu isso, mas o empregado de um velho depósito de arte teve tempo para admirar a peça, e aquela elaborada moldura prateada, enquanto seu parceiro dirigia a velha van pelas ruas movimentadas da Cidade. Não deixava de ser uma imagem estranha, a do quadro: Um homem, com o rosto oculto pelas sombras, entrando em um quarto onde uma mulher estava deitada com um gordo burguês que acendia um cigarro com um daqueles novos acendedores automáticos com roldanas. Ficou feliz em chegar ao depósito, pois poderia chegar mais cedo em casa, como uma surpresa à sua mulher.
“Esses artistas novos e suas pinturas sinistras...” O chefe pensou. Como de costume, desceu de seu escritório para apreciar o novo quadro. Estava acostumado com pinturas de outra era, quando os artistas pintavam heróis épicos, o Deus cristão e sonhos do futuro. Gostava dessa nova onda de pinturas sobre as máquinas e seus lindos sistemas de engrenagens e rebites de bronze. Mas os outros pintores, que desenhavam a morte em tons tão sóbrios, sempre o surpreendiam. Uma colina, um padre de preto ao lado de uma cruz acinzentada, tudo com um realismo que era só o suficiente além da capacidade das camerae obscurae que os artistas carregavam consigo, cercado da realidade por uma elaborada moldura prata, certamente moldada por uma dessas novas máquinas automáticas.
O chefe achou muito interessante a seleção de pessoas que cercava aquela cena não-exatamente-fotográfica, em especial uma jovem de cabelos vermelhos, novidade nessa época de mudança e rebeldia. Parecia sua filha. Era uma pena ter de parar de olhar aquilo e subir para sua sala e tomar suas pílulas, seu peito não parara de doer desde a manhã.
O ladrão tinha, finalmente, encontrado a situação perfeita para entrar no depósito: muitos empregados saíram do lugar, logo depois de um daqueles novos, extravagantes “Ambulomóbiles” carregar alguém para longe. Parecia grave, não que o jovem ladino se importasse. Entrar no prédio foi fácil o suficiente, e apenas um guarda o patrulhava, cantarolando para si mesmo. Esperou ele passar, e parou em frente a uma cara moldura que delimitava uma foto inspiradora: um jovem, saltando de uma janela carregando algo quadrado e segurando uma lâmina curva. Um filete vermelho escorria da lâmina, um único traço de cor contra a obra em preto-e-branco. O jovem ouviu o guarda terminar a volta pelo depósito, e se escondeu nas sombras mais uma vez.
O guarda não conseguia tirar aquela melodia da cabeça, e a cantava para as paredes e estátuas do depósito. Era um homem disciplinado, mas teve que parar para apreciar a mais nova aquisição desse quase-museu: um quadro elaborado, que mostrava um homem caído de bruços no chão, ao lado de um kinotrope brilhando de novo. Um traço vermelho traçava seu caminho, começando sob o homem e correndo até o quepe de segurança que jazia ao seu lado. Não teve tempo de pensar na imagem sombria: uma dor fria passou pelo seu peito, e o homem caiu, tentando recuperar o ar que corria pelo corte de faca no seu peito. “O Ambulomóbile terá outro passageiro hoje”, pensou o jovem ladrão, tirando o quadro do chão e revelando um moderno kino, que venderia por um preço assustador, se o jovem pudesse o carregar.
O velho mendigo estava quase dormindo quando viu um jovem passar por ele, carregando um quadro grande sob o braço. Um quadro grande e familiar. O jovem parecia cansado de correr, mas mantinha um caminhar rápido. O velho podia ver, sob a luz de uma lâmpada a gás, uma foto do amanhecer da Cidade, como se tirada de um zeppelin.
“É um quadro bonito, mesmo.”
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