Cheguei em casa batendo os pés no tapete grosso de entrada.

Segurei a maçaneta, fazendo uma careta de tensão e constrangimento. Olhei para o relógio em meu pulso, e não fiquei mais animado quando vi o sol aparecer e clarear os degraus do batente.

Pelas cuecas de Merlim... Hermione ia me matar.

Mas eu ia adivinhar que Shacklebolt me obrigaria a ficar cinco horas a mais correndo atrás daquele Comensal maldito? Ou que, na volta para casa, um imbecil na Piccadilly ia arrumar briga com outro motorista, causando um engarrafamento maravilhoso de cinco quilômetros de comprimento?

Ela ia parir uma ninhada de tronquilhos em cima de mim, assim que eu entrasse. Será que ainda tinha tempo para comprar uma passagem para o Afeganistão?

"Ah, dane-se", pensei. "É melhor enfrentar a fera logo."

Entrei após destrancar a porta, rezando para não encontrar Hermione enquanto passava pelo corredor.

Passei de fininho pela sala de estar. As cortinas estavam abertas. Mau sinal.

Foi quando dei de cara com uma mulher morena no canto da sala, olhando fixamente para a janela, sentada numa poltrona e com o pé calçado num salto apoiado no batente do vidro. Ela nem fez menção de ter percebido minha presença.

Ih, rapaz.

Pior que os berros de Hermione, só o seu silêncio.

Para piorar a situação, ela estava um tanto provocante com o conjuntinho de saia branca e blusinha listrada que vestia, que deixava suas pernas à mostra. Isso só me deixava mais irritado comigo mesmo. Com a cara de poucos amigos de Hermione, se eu encostasse nela, provavelmente pararia no St. Mungus.

- Oi, amor... — murmurei, com as mãos entrelaçadas.

Hermione piscou, mas não se virou.

- Oito horas da manhã — era disse enfim, ainda sem olhar para mim.

- Bom... — arfei, engolindo em seco — tive uns... contratempos... tive que fazer hora extra... e um tapado na Piccadilly conseguiu engarrafar o trânsito...

Eu podia entender sua irritação. Fazia duas semanas que eu começara como auror e, além de Hermione morrer de preocupação por eu ficar naquele "emprego perigoso", eu também não conseguia voltar para casa no horário. Mas aquela noite foi demais, e parecia ter gastado a última gota de paciência da minha esposa.

Mas aquela frieza dela já estava me revirando o estômago. Será que eu tinha feito algo errado além disso? Será que tinha torrado a última tirinha de sanidade de Hermione?

- Casseta, Rony... — ela bufou — Você não consegue fazer algo certo uma única vez na vida?

- O que você queria? — indaguei, tímido, tentando me defender — Que eu chutasse a bunda do cara na estrada?

Hermione virou o corpo para mim, em todo seu esplendor profano, e fez algo que eu nunca imaginei que veria: um dedo do meio, com a unha pintada e bem feita, ergueu-se imperiosamente em minha direção. Ela não tirou os olhos da janela.

Será que meu rim um dia se recuperaria daquela imagem?

- Qual é! — ergui os braços, começando a ficar chocado — desculpa, Hermione! Você sabe que eu tentei voltar para casa o mais rápido possível!

Ela abraçou o corpo, olhando levemente em minha direção, sem virar o rosto.

- Rony... — Hermione murmurou lentamente — se for por causa de outra mulher, eu prefiro que diga de uma vez no lugar de dar desculpas esfarrapadas.

Quando finalmente captei o que ela dissera, um ataque de risos se apossou de mim. Tive que me apoiar na cadeira da mesa para não cair de tanto rir. Hermione achou que eu estava me atrasando por causa de uma amante??

Minha risada pareceu tira-la do cubo de gelo em que Hermione se aninhara. Ela finalmente se virou completamente na minha direção, me fuzilando com os olhos.

- Hermione... — mal conseguia falar depois de gargalhar — você acha mesmo... que cheguei nesse horário por causa de outra mulher? — voltei a rir, mesmo sabendo que aquilo só irritaria Hermione ainda mais.

Ela se levantou, e me forcei a engolir o riso quando ela avançou um pouco. Voltei a ficar com medo — afinal, Hermione ainda era muito boa em feitiços de azaração.

- E por que não? Há tantas mulheres bonitas por aí... sua secretária da noite, por exemplo...

- Aquela russa magrela? É contra isso que você acha que está competindo? — ergui a sobrancelha, segurando para não ter outro ataque.

Hermione fechou a cara para mim, e decidi ficar calado.

- Ela e mais um punhadinho de aurores que andam com você nas buscas... — ela inclinou a cabeça, soturna.

Finalmente decidi acabar com aquela ilusãozinha boba.

- Por que eu iria reparar em outras mulheres se eu tenho tudo isso aqui? — gesticulei para ela, de baixo para cima — eu casei com a senhora por um motivo, Sra. Weasley.

Hermione não se enterneceu nem um pouquinho. Continuou de braços cruzados, impassível.

- E como vou adivinhar que você está satisfeito com "tudo isso aqui"?

Até eu fiquei surpreso comigo mesmo quando avancei em Hermione e a puxei pela cintura. Sua varinha — olhe só, estava escondida no cós... previsível — caiu no chão com um estrépido.

Ela virou o rosto, marrenta, quando fiz menção de curvar o pescoço para beija-la. Tentou empurrar meu peito, mas sua força não era nada para a minha. Com tantas qualidades que me superavam, Hermione tinha como defeito ser pateticamente fraquinha em aspecto físico.

- Você quer saber como estou satisfeito com você? — puxei o colete preto que Hermione usava, prendendo-a pela cintura enquanto se debatia — quer mesmo saber?

Hermione bufava enquanto eu desabotoava sua blusa, mas não parecia estar se esforçando tanto quanto antes para fugir de mim. Me olhou com uma mistura e timidez e raiva enquanto eu jogava sua blusa no chão.

Puxei-a para meu colo e a levei até o quarto. Hermione tentou fugir assim que eu a deitei na cama, como um camundongo acuado por um gato, mas prendi seus pulsos no travesseiro, fazendo questão de dar uma risada maquiavélica.

Finalmente vi, em seu rosto, a sombra relutante de uma risadinha assustada. Ela tentava cobrir o sutiã, parecendo loucamente envergonhada.

- Ah, não, Hermione — deslizei meus lábios por seu ombro; senti ela tremer de má vontade com o contato — você quis que eu provasse o como você é suficiente.. agora aguente.

Continuei trilhando beijos pelo seu corpo, passando no meio de seu sutiã até chegar em seu umbigo. Senti seus pulsos se afrouxarem em minhas mãos e seu corpo relaxar no colchão.

- P-para, Rony — ela murmurou, quase como um choramingo.

- Você quer que eu pare? — indaguei, erguendo o rosto, acariciando sua perna.

Hermione abriu os olhos, parecendo ter raiva de si mesma.

- Não...

- Tem ideia de como fica bonita assim? — puxei a sainha que Hermione vestia, jogando-a no canto da cama — tão linda... — afaguei sua barriga, rindo quando ela gemeu sonolentamente, se espreguiçando na cama.

- Seu bruto manipulador pervertido... — ela ciciou..

Apesar de tudo, vi um traço de humor em sua voz. Sorri quando ela revirou os olhos.

Calei seus resmungos com um beijo. Hermione retribuiu, primeiro com relutância, depois um pouco mais conformada. Soltei seus pulsos, pressentindo que o perigo já havia passado.

Erro meu.

Hermione saltou como uma pantera e ficou em cima de mim. Atordoado, só pude observar, aterrorizado, ela desabotoar avidamente os botões da minha camisa.

- Putz... — arfei, tímido — pra onde foi a Hermione de cinco segundos atrás?

- Morreu — ela brincou, dando um inesperado sorriso malicioso. Senti arrepios elétricos quando ela passou a mão pelo meu peito, arranhando levemente meu tórax.

Daquele ponto em diante, tudo foi muito rápido, prazeroso e maravilhoso. Como duas peças de um quebra-cabeça, nos enlaçamos num só corpo, enquanto eu pensava, maravilhado, em como não havia coisa mais incrível e perfeita do que aquilo. Nada devia ser melhor do que poder sentir e ouvir como aquela garota fantástica reagia a mim... e apenas a mim.

Alguns momentos depois, me ergui na cama, ainda arfando, para admirar o corpo arfante e estonteante de Hermione.

Ela sempre fora tão linda assim?

Era um prazer e uma honra imensuráveis poder ver Hermione do jeitinho que ela viera ao mundo.

- Será que... — ela murmurou, sem fôlego — nós nunca vamos... resolver nossas brigas... sem pararmos na cama?

Dei risada, beijando sua testa.

- Acho que não — pisquei — respondi a pergunta? Aquela de meia hora atrás...

Hermione arregalou os olhos, pondo os braços cruzados sobre o peito.

- Com certeza.

Nós dois rimos. Colei minha boca na dela de um jeito travesso.

- Que manhã estranha... — Hermione franziu as sobrancelhas, retribuindo meu beijo e acariciando meus cabelos.

- Imagine... — brinquei — é só uma manhã como qualquer outra.

Hermione sorriu, e ficamos lá por um bom tempo, olhando para o teto, abraçados.

- É — ela sorriu — uma manhã como outra qualquer...

Notas finais
O que acharam?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!