Uma Jornada Ao Resgate
47 Uma nova descoberta
Notas iniciais
O dia amanhecia mais uma vez, e para Tabita era apenas mais um dia de sofrimento e agonia. Não sabia por que milagre ainda não morrera.
Talvez fosse melhor assim.
Mas, espera...! Por que pensava isso? Não podia se permitir pensar tamanha bobagem! Não podia permitir que as agruras pelas quais Tavius e os demais passavam fossem em vão!
Por mais que dissessem que os quatro fugiram covardemente, Tabita sabia que eles não eram disso. Eles não eram de desistir, chegaram bem longe, estavam bem perto. Eles não desistiriam agora.
Não. Não deveria deixar que pisassem mais uma vez em suas esperanças. Ainda mais que acabara de ver algo por Tavius, pelos olhos dele.
Um tímido sorriso se desenhou nos lábios da jovem. Seu irmão nunca desistiria de resgatá-la. Nunca.
*
Olhos determinados percorriam atentamente aquela área onde estivera no dia anterior. Ouvidos apurados estavam atentos a qualquer barulho que se fizesse ali no local. Procurava respirar de forma quase inaudível para não ser notado. Sua mão esquerda já estava ali na bainha da espada, enquanto a mão direita segurava firmemente o cabo.
Aproximou-se lentamente dos arbustos que o separavam do local que observava. Enquanto isso, passos pesados e ruidosos se fizeram ouvir, e se aproximavam aos poucos.
Avistou aquelas aberrações demoníacas se aproximando.
Perfeito! Era hora de ir ao ataque!
Tavius irrompeu dos arbustos que o ocultavam, com espada em punho, na direção do primeiro demônio que via à sua frente. Quando ia golpeá-lo, errou o ataque e acertou apenas o ar, fazendo com que a aberração se afastasse dele e lhe desse abertura.
Outro demônio apareceu para acertá-lo, porém o espadachim esquivou-se magistralmente do golpe que lhe seria infligido. Precisava evitar, a qualquer custo, que o atingissem. Não queria, sob hipótese alguma, que Tabita sofresse mais do que já estava sofrendo nas mãos de outros demônios, mas em forma humana.
– Vocês não vão me impedir, malditos! – vociferou. – Ninguém vai me impedir de conseguir resgatar a Tabita!!
Saiu correndo mais uma vez de encontro à outra criatura, e quando se pensava que ele poderia causar algum dano, o golpe mais uma vez foi errado e, em seguida, o demônio procurou revidar. Tentou acertá-lo com suas garras, porém Tavius conseguiu rolar pelo chão, saindo ileso novamente.
*
– Mas... O que esse idiota está fazendo? – Mabel perguntava enquanto assistia à “performance” de Tavius.
– O que você acha, Mabel? – Soraya questionou com ironia. – Esse pateta está tentando não ser atingido para conseguir uma brecha para resgatar a mimadinha.
Fabian disse:
– Ele está perdendo seu tempo com algo tão patético.
– Isso é porque ele mais uma vez perdeu a cabeça. – Servia afirmou. – E sabemos muito bem no que isso vai dar.
– Claro que sabemos... – a líder daquele quarteto disse. – Porque aquele idiota é realmente muito previsível.
*
Tavius prosseguia aquela estranha batalha, torcendo para convencer aqueles feiticeiros de que estava mesmo possesso de ódio e tentando fazer tudo sozinho. Até agora, estava completamente ileso e pretendia continuar assim, para levar aquele plano adiante.
No entanto, garras vinham ao seu encontro e alguém o puxou, evitando que fosse golpeado.
– Tavius, tá ficando louco? – era a voz de Samira. – Desse jeito você e a Tabita podem morrer!
– Eu não vou morrer, Samira! – Tavius respondeu como “ensaiado de improviso”. – Eu preciso tirar a Tabita das mãos daqueles malditos!
Tavius saiu dali e correu novamente na direção daqueles seres, brandindo mais uma vez sua espada de forma destemida. A encenação tinha que ser extremamente convincente, para ganhar tempo para Valery e Thales.
*
Caminhavam com muito cuidado pelo mato, a fim de não fazer qualquer barulho, pois isso poderia ser mortal. Nessas horas, Valery se maldizia por não ter tanta habilidade para flutuar.
Thales ia à frente, apontando para a maga o caminho para o esconderijo inimigo, que Mabel e os demais nem se importavam mais em esconder. Estava ali bem à vista dos dois, que tinham sorte de não precisar ter o trabalho de transpor uma barreira mágica.
Eles estavam realmente muito confiantes. Tão confiantes, que achavam que seus demônios “adestrados” iriam trucidar tanto a Thales, como Valery e os demais. A dupla sorriu ante essa constatação de prepotência da parte daquele quarteto.
Realmente eles não eram tão invulneráveis assim. Pelo jeito, estavam dando sinais de cansaço devido às tentativas seguidas de resgate dos quatro amigos.
Caminharam, pé ante pé, até se aproximarem o máximo possível daquele local. De repente, ouviram um farfalhar suspeito de um arbusto próximo, o que fez com que Thales e Valery estacassem onde estavam e prendessem a respiração.
“Thales, será que nos descobriram?”, Valery perguntou por telepatia.
“Tomara que não”, Thales respondeu da mesma maneira. “Mas vamos ficar de olho. Se forem eles, vamos correr o quanto pudermos. Não temos condições de uma luta direta.”
“Entendido”, a maga assentiu em resposta ao alquimista e rezando para que fosse outra coisa se mexendo ali.
*
Ao ouvir o ranger da porta, Tabita já sabia o que iria lhe acontecer. Precisava suportar mais uma vez o que vinha ao seu encontro.
Quando essa rotina cruel teria fim? Esperava que o mais breve possível.
Se não fosse o fato de estar tão fortemente ligada a Tavius, certamente suas esperanças teriam se esvaído definitivamente. Era disso que tirava suas forças para suportar tudo o que passava.
Sabia que ainda seria salva, de uma forma ou de outra.
Mas, agora, era suportar mais uma maldita sessão de tortura...
... Que começava a partir de agora!
Fabian já foi logo segurando o rosto dela com a mesma brutalidade de um troglodita:
– Há quanto tempo, “amorzinho”...! Eu estava com saudades de você. Principalmente de torturá-la, porque isso me deixa muito mais vivo!
– Nada disso, Fabian! – Servia o afastou de Tabita com ar possessivo. – Hoje é a minha vez.
A mais sádica do grupo não perdeu tempo e logo foi acertando uma esfera negra de energia na jovem refém, que urrou de dor. Evidentemente, o choro após isso foi inevitável.
– Pra que chorar? – ironizou. – Estou sendo boazinha hoje com você, nem estou com raiva. Com aquela magia de sangue, nem precisamos nos preocupar com mais nada, apenas com o tempo que aqueles nossos demônios levarão para devorar aqueles quatro idiotas!
– Eles... Eles não vão ser devorados...! – Tabita murmurou com um fio de voz. – Eles vão me salvar...!
Uma bofetada calou a jovem.
– Não seja tola! – Servia disse. – Esse tipo de magia só pode ser anulado com outra magia de sangue! E aquela sua amiga maguinha nem sabe isso... Na verdade, nem se arrisca a fazer, por ser fraca e medrosa! Magia de sangue é para quem tem coragem, mimadinha!
*
“Servia, eu vou te matar, desgraçada!!”, Valery esbravejou mentalmente.
“Fica calma, Valery.”, Thales advertiu. “Qualquer deslize pode ser fatal. Tivemos sorte que àquela hora o que estava atrás de um arbusto era um inofensivo esquilo.”
“Tem razão. Eu só não fiz essa magia de sangue porque desde há muito tempo eu aprendi que ela é uma magia proibida. Ela não é pra qualquer um pelo grande perigo de dar errado.”
“E o que pode acontecer se der errado?”
“A morte, tanto de quem faz essa magia como de quem cede seu sangue, voluntária ou involuntariamente. Mas, neste caso, eu estou disposta a correr o risco.”.
Os dois, mesmo ouvindo os urros de Tabita, decidiram sair dali o mais rápido possível. Pesarosos, não tinham outra opção a não ser essa. E não se permitiam ficar ali, sabiam que não tinham muito tempo, pois Tavius e Samira ainda corriam risco desafiando aqueles demônios, mesmo sendo apenas um “teatrinho”.
*
O “teatro” de Tavius e Samira prosseguia, com os dois quase levando golpes dos demônios medonhos invocados por Mabel e os outros. O mais perigoso era fingir o ataque e errar tudo de propósito, para não atingi-los e causar dano a Tabita.
Porém, um aviso telepático chegou a eles. Era Valery, que acabava de dizer que já haviam descoberto o que era necessário.
Hora da retirada estratégica.
Tavius fingiu deixar-se atingir por um dos demônios que se aproximava dele, e Samira correu para acudi-lo. Rapidamente, os dois saíram correndo, parando apenas quando encontraram um lugar considerado seguro.
Nesse momento, Tavius literalmente estacou. Mais uma vez, via pelos olhos de sua irmã, uma nova sessão de tortura à qual ela era submetida. Era terrível ver aquilo.
– Tavius? – Samira perguntou preocupada.
O espadachim imediatamente despertou do transe:
– Precisamos dar um jeito de salvar a Tabita, Samira! Cada vez mais aquele maldito bando está passando dos limites! Se eu pudesse, acabaria com um por um!
– Eu sei, Tavius. Mas precisamos passar por aqueles demônios primeiro, e é por isso que o Thales e a Valery foram procurar descobrir alguma forma de passarmos por ele.
– E já sabemos como fazer isso, Samira! – Thales acabava de chegar acompanhado de Valery.
– E o que vai ser feito? – a arqueira perguntou.
– Só outra magia de sangue pode anular o que eles fizeram. – a maga respondeu.
– Magia de sangue? – Tavius indagou surpreso.
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