Uma Jornada Ao Resgate
16 Tortura
Notas iniciais
O sorriso que Tabita tinha em seus lábios logo desapareceu, ante a presença de Sérvia que, obviamente estava de mau humor devido à morte das quimeras de Mabel. Mas, apesar do sorriso de seus lábios ter desaparecido, ainda sentia-se feliz por seu irmão e suas amigas estarem bem, ainda estava feliz por eles terem conseguido matar aquelas quimeras horríveis. E agora, a pequena chama da esperança havia se reacendido em seu coração, e esta chama lhe dizia que, não demoraria muito para Tavius, Samira e Valery aparecerem ali para salvá-la e livrá-la de toda sua dor e sofrimento.
Confiava em Tavius, confiava em Samira e Valery e sabia que eles jamais a abandonariam a própria sorte, sabia que os três não a deixariam nas mãos daqueles três demônios em forma de mulher. Sabia que Tavius a salvaria de um destino cruel que Mabel, Soraya e Servia haviam traçado tão injustamente para ela.
Tavius apareceria ali a qualquer momento e a salvaria. Ele sempre a amou e faria isso em nome do amor fraternal inabalável que sempre os uniu, desde que eram crianças, e não por causa de uma promessa que ele havia feito a seu falecido pai. Ao contrário do que aquelas três bruxas não cansavam de dizer, Tavius a amava e jamais deixaria de tentar resgatá-la, e Samira e Valery eram suas melhores amigas, nenhum deles queria se livrar dela.
Servia olha irritada para sua prisioneira, pois conhecia bem a razão daquela criatura patética ter tido, por alguns instantes, um sorriso em seus lábios. Pelo visto, a inútil achava suas sessões diárias de tortura poucas, visto que ainda conseguia sorrir.
Mas, estava prestes a ter uma lição que a faria esquecer para sempre o que era um sorriso.
– Pelo visto você deve estar achando que o mongo do seu irmão e as patetas das suas amiguinhas conseguirão chegar até você porque conseguiram acabar com as quimeras da Mabel, não é, mimadinha?
Tabita não responde, quer guardar suas esperanças só para si. Não vai deixar aquela bruxa lhe tirar tudo o que ainda lhe resta. Não a deixará lhe tirar a única coisa que lhe dá forças para suportar todo o sofrimento, dor e humilhação que sofre desde que foi sequestrada por aquelas três. Preferia mentir, preferia dizer para elas e se fazer acreditar que não tinha mais esperanças. Preferia guardar aquela pequena chama de esperança bem fundo em seu coração, em um lugar onde só ela teria acesso, mais ninguém. Preferia deixar ser tomada por dor e desespero... Preferia dizer que não tinha esperança... Preferia pedir pela morte... Preferia qualquer coisa a deixar aquelas três lhe roubarem a única coisa que ainda a mantém viva.
– Eu não sei do que está falando... – diz Tabita, com a voz tremula, o medo começando a dominá-la devido a iminente sessão de tortura.
– Não sabe mesmo, mimadinha? – Servia sorri sinistramente – Você acha mesmo que os três patetas conseguirão chegar até você para livrá-la de mim, Soraya e Mabel? Você acha mesmo que aqueles três ridículos conseguirão nos vencer? Já esqueceu o que aconteceu com Tavius quando ele tentou impedir que nós te sequestrássemos? Esqueceu como ele te viu, caído no chão como um cão imundo? Esqueceu que enquanto ele estava caído no chão nós te levávamos embora? Se ele gostasse realmente de você, teria dado um jeito de se levantar e te tirar da gente, não acha?
Os olhos de Tabita se enchem de lágrimas ate as palavras repletas de veneno de Servia e a jovem não consegue segurar suas lágrimas. Servia assiste ao espetáculo com um sorriso tétrico em seus lábios, louca para continuar com sua tortura psicológica.
– Devo deduzir que essas suas lágrimas indicam que você finalmente percebeu que eu estou certa, não é, mimadinha? – continua a bruxa – Se o idiota do seu irmão gostasse realmente de você, ele teria dado um jeito de impedir que nós te sequestrássemos. Mas ao contrário, ele não fez nada e resolveu fingir que estava machucado e sem condições de te defender.
– Isso é mentira...! – diz Tabita aos prantos – O Tavius tentou sim me proteger...! Eu sei que ele tentou...! Eu vi...! Eu vi o Tavius lutando para me proteger...!
Servia dá uma forte bofetada em Tabita, manchando sua mão com o sangue da jovem, para em seguida, levar sua mão a boca e lamber de sua mão o sangue de Tabita.
– Pra que você quer se enganar, mimadinha? – continua a bruxa seu discurso cruel – Seu irmão não te suporta, e finge que está te procurando, e, o mesmo vale para suas amiguinhas. Lembra quando você tentou fugir e encontrou aquela maguinha de quinta categoria? Lembra-se do que aconteceu? Ela não conseguiu te salvar, quando você acordou, inútil, estava novamente em nossas mãos. E o que a maguinha fez pra te tirar de nós? Absolutamente NADA. Ela ficou caída no chão enquanto nós trazíamos você de volta. Se ela realmente gostasse de você, acha que ela não arranjaria um jeito de se levantar e te tirar da gente?
As lágrimas de Tabita continuam caindo compulsivamente por seu rosto, não quer acreditar nas palavras de Servia, por outro lado, simplesmente não consegue deixar de sofrer ao ouvir cada palavra carregada de veneno dita por Sérvia.
– Para...! Por favor, para...! Eu não quero mais ouvir isso...!
– Parar? – a bruxa sorri mais uma vez – Por que, mimadinha? A verdade dói? Até agora eu não disse nenhuma mentira, e você sabe disso. Seu irmão não gosta de você, e não moveu um único dedo para te salvar e digo o mesmo para aquela criatura que se diz uma maga. E, isso sem contar a arqueira imunda. Lembra-se do que aconteceu quando ela lutou conosco? Ela acertou em mim, na Mabel e na Soraya vários golpes, mesmo sabendo que eles seriam automaticamente revertidos para atingirem você. Isso significa que ela não estava nem aí para você, mimadinha, ela ouvia seus gritos, sabia que estava atingindo a você e mesmo assim não parou.
– É MENTIRA...! É MENTIRA...! TUDO ISSO É MENTIRA...! POR FAVOR, PARA COM ISSO...! EU NÃO QUERO OUVIR MAIS...! EU NÃO QUERO OUVIR MAIS...! EU SEI QUE TUDO ISSO É MENTIRA...!
Tabita simplesmente não consegue parar de chorar enquanto é obrigada a ouvir as palavras cruéis de Servia. Mesmo sabendo que todas essas palavras são mentirosas, a dor que transpassa seu coração ao ouvi-las não diminui. A dor é tanta que pode ser comparada a dor de uma facada em seu peito. Não quer mais ouvir... Não aguenta mais isso...
Servia sorri satisfeita ao ver o resultado de sua tortura psicológica, mas, ainda acha pouco. Quer se divertir mais com o sofrimento de sua prisioneira. Quanto mais lágrimas, mais desespero, mais dor e mais sangue, melhor. A bruxa começa a murmurar palavras em um idioma desconhecido, e, em suas mãos, surgem duas esferas negras rodeadas por chamas de coloração roxa.
– Não gostou de ouvir essas palavras, mimadinha? – diz a bruxa de forma cruel – Vou parar com elas por enquanto, mas agora vou brincar de outra coisa. E seus gritos de dor me servirão de diversão.
E, ao dizer estas palavras, a bruxa começa a jogar as esferas negras na jovem prisioneira. Tabita imediatamente começa a gritar, ao sentir seu corpo sendo atingido pelas esferas. A dor de ter seu corpo queimado só faz com que grite ainda mais, e seus gritos são misturados com as risadas de prazer de Servia, enquanto a bruxa não para de atingir sua prisioneira com esferas de energia.
***
Tavius, Samira e Valery acharam outro lugar para se esconderem e tentarem passar a noite seguros. Samira ascende uma fogueira e os três se aconchegam perto dela, para se aquecerem do frio da noite. Samira e Valery alegres e otimistas pela última vitória, e, Tavius, parecendo preocupado e perdido em seu próprio mundo.
Samira não deixa de notar a preocupação de Tavius e cutuca Valery disfarçadamente, para que ela também veja o amigo.
– Qual o problema, Tavius? – pergunta Samira.
– Tabita. – responde o guerreiro – Estou preocupado com ela.
– Nós sabemos que você está preocupado com ela, Tavius. – diz Valery – Mas, assim, você não poderá ajudar em nada a sua irmã. Você precisa fortalecer seu corpo e sua mente para nossas próximas batalhas.
– Isso aí, Valery! – continua Samira – Não pense que aquelas três nojentas deixarão o caminho livre para que nós cheguemos com facilidade até a Tabita. Acho que daqui para frente elas dificultarão cada vez mais o nosso caminho.
– Eu sei, meninas. – diz o espadachim – Mas é porque há uns minutos atrás senti uma pontada em meu coração, como se a Tabita estivesse sofrendo.
Samira olha o amigo com pena, pois fica completamente sem palavras. Ela tem absoluta certeza de que a amiga está realmente sofrendo, vira isso claramente quando lutou contra aquelas três malditas. Porém, não pode dizer isso a Tavius e deixa-lo pior.
– Tavius, tanta não ficar assim. – diz a arqueira – Eu não vou te dizer que a Tabita tá bem neste momento, porque seria muita hipocrisia de minha parte. Mas olha, nem por isso você precisa ficar triste assim. Acha mesmo que a Tabita ia gostar de te ver assim?
– Tenho que concordar com a Samira. – diz Valery – O que você tem que pensar agora é em se fortalecer para resgatar a sua irmã daquelas três malvadas. A Tabita está contando com você. Tente se animar, Tavius! Nós vamos resgatá-la custe o que custar!
Tavius sorri para suas amigas, sabe que elas têm razão no que dizem. Seu coração lhe diz claramente que Tabita está sofrendo, mas, seu coração também lhe diz que ela jamais deixará de acreditar que ele aparecerá para resgatá-la. Tabita com toda certeza sabe que, mais cedo ou mais tarde ele acabará com aquelas malditas bruxas para tê-la sã e salva em seus braços novamente.
– Vou tentar melhorar meu ânimo. – diz o espadachim.
– Assim é que se fala, Tavius! – diz Samira. Preparando seu arco e sua aljava de flechas.
– Aonde você vai? – pergunta Valery.
– Caçar nosso jantar! – diz a arqueira – Não se preocupem, não vou me afastar de vocês, já tivemos algumas lições de que não devemos andar por aí sozinhos. Eu já volto!
***
No esconderijo das bruxas, Mabel está deitada tranquilamente em sua cama, enquanto escuta os gritos de Tabita sendo torturada por Servia. Os gritos de sua prisioneira são como músicas para seus ouvidos. Sente-se mais feliz a cada novo grito de dor e sofrimento de Tabita, cada grito é uma forma de fazer o velho moribundo parar, no inferno o que lhe fizera no passado.
A única coisa que ainda lhe incomoda é o fato da mimadinha ainda ter esperanças, ainda acreditar que o mongo do irmão irá resgatá-la. Isso sim, a irrita profundamente. Quer que Tabita perca de vez as esperanças, para se entregar totalmente ao desespero e seus gritos serem os gritos de alguém totalmente sem esperança.
Quer tirar dela até a última gota de esperança que ela tiver. Quer fazer com que ela pare de uma vez por todas de acreditar que os três patetas aparecerão para salvá-la. Pois quando a partir do momento que a inútil parar de acreditar nos três, seu sofrimento será ainda maior. Quer que essa mimada infeliz perceba que para ela, os únicos caminhos que restam são o da dor e o do sofrimento em suas mãos.
Soraya entra no quarto e senta-se na cama ao lado, contemplando o sorriso maldoso de Mabel. Ao ver tal sorriso, Soraya rapidamente percebe que sua líder está pensando em algo e que, muito provavelmente, este algo fará Tabita sofrer ainda mais.
– Em que está pensando, Mabel? – pergunta Soraya.
– Já deve imaginar. – responde a líder – Estou pensando em uma forma de acabar de vez com todas as esperanças daquela mimadinha.
Ao ouvir as palavras de Mabel, Soraya sorri de forma sinistra.
– Conte-me o que planeja. – pede Soraya.
***
Na escuridão e na penumbra do quarto onde está aprisionada, Tabita olha, totalmente exausta, para o chicote nas mãos de Servia. Como ainda não havia perdido a consciência, sabia que a bruxa iria continuar, e que a tortura só iria acabar quando a escuridão a tomasse por completo.
Seu corpo, repleto de queimaduras, cortes, hematomas... E dele, o sangue de novas feridas pingando no chão. Seus cabelos desgrenhados e seu rosto tomado de lágrimas mostram o quanto sofre nas mãos daqueles demônios em forma humana.
Servia continua sorrindo e está pronta para mais uma vez começar a flagelar sua refém, quando a porta do cômodo se abre e surge Mabel e Servia, ambas sorrindo.
– Viemos brincar com esta inútil mimada também, irmã. – diz Soraya – Espero que não se importe.
– De forma alguma. – diz Servia – É justo que vocês se divirtam também.
Tabita olha desesperada para aquelas três mulheres, até quando elas iriam tortura-la desta forma? Até quando a farão sofrer deste jeito?
Mabel faz aparecer um chicote em suas mãos e, em um rápido movimento, o lança contra o pescoço de Tabita, e o apertando com tamanha força que o pescoço da jovem refém começa a sangrar.
– Eu quero que você olhe bem pra mim enquanto eu estiver falando, mimadinha. – diz Mabel, colocando mais força no chicote – Pois eu vim aqui para provar que o idiota do seu irmão e aquelas duas patetas não se importam nem um pouco com tudo o que você sofre em nossas mãos. Eles querem que você morra.
Tabita olha com seus olhos encharcados de lágrimas para a líder das bruxas, a respiração dificultada pelo chicote enrolado a seu pescoço.
– É... É mentira...! – diz a jovem em meio às lágrimas.
– Tem certeza de que é mesmo mentira, mimadinha? – pergunta Soraya, de modo cruel – Pois temos uma coisa para te mostrar que provará de uma vez por todas que você não passa de uma idiota inútil por confiar em um mongo que não está nem aí para você.
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