Uma Jornada Ao Resgate
29 Nova humilhação
Notas iniciais
Dor. Raiva. Ódio. Essa mistura de sentimentos tomou conta do trio, enquanto enfrentava seus inimigos.
Samira tirou de sua aljava três flechas de uma só vez, as mais afiadas de que dispunha. Seus olhos injetados da mais pura fúria não se desgrudavam de Soraya e estavam atentos a qualquer movimento dela. Suas mãos ainda trêmulas retesaram com força o arco até esticá-lo ao seu limite. As gotas de suor se misturaram ao sangue que escorria de sua testa. A arqueira procurou ignorar a dor do golpe que havia levado de Fabian, porém não era uma tarefa fácil. Rangeu os dentes devido à grande raiva e estreitou os olhos como se quisesse ajustar sua mira com precisão milimétrica.
Não podia desperdiçar essas flechas. Não devia se dar ao luxo de perder. Tinha que cravar as três no peito de Soraya e dar-lhe a morte e, em seguida, arrancar-lhe o coração como troféu.
– Morra, sua maldita...! – rugiu.
Disparou as flechas, que percorreram a grande velocidade o trajeto definido por Samira. Seu instinto clamava pelo sangue daquela bruxa desprezível. Exigia a morte de Soraya. Era a morte certa, se não fosse por um detalhe: um escudo invisível fora formado, barrando duas das flechas. Porém, a outra flecha conseguira ser mais rápida que a barreira formada pela bruxa, perfurando-lhe o braço.
Soraya não esperava que aquela arqueirinha fosse capaz de atingi-la daquela forma. Não poderia deixar barata aquela mácula. Com grande velocidade, arrancou a flecha cravada em seu braço, desfez seu escudo invisível e foi pra cima de Samira.
A pouquíssima distância, a bruxa colocou sua mão aberta à frente do rosto da arqueira, disparando um raio de energia contra ela, que não teve como se defender de um ataque tão próximo. O ataque fora à queima-roupa e Samira, sem defesa e sem forças, acabou caindo completamente inconsciente.
– Vi nurvekismian tutanmalamo. Nurrompi launuansigelonde miapovo! Nunporti miankoleron!*
Valery estava diante de Servia e de Fabian, completamente possuída pela ira. Os olhos mais uma vez se iluminaram de azul, porém com mais intensidade. Ventos fortes emanaram da maga, que abriu também o terceiro olho. Não se importava com mais nada à sua volta a não ser com os seus dois adversários, tanto que esses ventos eram direcionados a eles.
Alguns instantes depois, os fortes ventos cessaram e o terceiro olho de Valery se fechou, permanecendo apenas o forte brilho azul dos olhos. Mesmo com tal demonstração de fúria, Fabian e Servia não se abalaram. Aliás, Servia resolveu atrever-se a debochar:
– Quer dizer que ficou nervosinha agora, maguinha?
– Cale a boca, maldita! GRANDA STORMO!**
Valery fez um amplo movimento de abertura dos braços, que gerou uma fortíssima lufada de vento contra Servia e Fabian. Porém, eles não saíram ilesos, receberam inúmeros cortes pelo corpo, mesmo se defendendo de tamanha força de ataque. Não contente com esse ataque, a maga ainda aproveitou o túnel de vento para, com sua espada em punho, literalmente voar pra cima dos dois adversários, a fim de tentar perfurar o peito de pelo menos um deles.
Fez um novo movimento com a espada, gerando com grande velocidade várias lâminas de vento consecutivas, mal dando tempo dos dois se esquivarem. Soltou um grito de fúria ao aproximar-se de Servia e preparou-se para cravar-lhe a espada no peito sem dó nem piedade. Porém, num rápido movimento, Fabian entrou na frente da bruxa e em um único movimento desarmou Valery.
Valery não se deixou abalar com isso e com os olhos ainda brilhando fez com que as mãos ficassem com o mesmo brilho. Deu um potente soco no rosto de Fabian, que recuou um passo, mas não caiu. Pelo contrário, ele conseguiu agarrar-lhe fortemente os pulsos e acertar uma fortíssima cabeçada.
Atordoada, a maga perdeu a concentração e os olhos pararam de brilhar, fazendo assim com que o túnel de vento acabasse sendo desfeito. Servia não perdeu tempo e lançou correntes contra ela, que a aprisionaram pelos braços e pelo pescoço. Deu um sorriso cruel e, através dessas correntes, mandou fortíssimas ondas de eletricidade contra Valery, que não conteve um urro desesperado de dor. E, para finalizar, Fabian deu a ela o golpe de misericórdia: um forte soco no estômago e um poderoso chute em sua face, deixando-a inconsciente. Após isso, Servia simplesmente fez desaparecer as correntes e a maga caiu por inércia no chão.
Tavius estava já em seu limite. Isso, se já não estava extrapolando demais esse limite.
O limite do corpo.
O limite da dor.
O limite emocional.
O limite do ódio.
Suas mãos trêmulas segurando a espada sinalizavam que ele estava juntando todas as suas últimas forças para esse ataque. Estava determinado a arriscar tudo. Qualquer coisa para tirar Tabita das garras de Mabel, mesmo isso podendo lhe custar a vida.
Aquela era a chance de ouro. Mabel estava com a guarda aberta. Era agora ou nunca! Tinha que esquecer a dor de seu corpo completamente ferido e ensanguentado. Tinha que pensar apenas em tirar sua querida irmã dali a qualquer custo.
– É agora...! – murmurou, segurando a espada com mais força.
Tavius saiu correndo de forma alucinada com a espada em punho, com toda a velocidade que podia nas atuais condições. Estava determinado a cortar Mabel em duas partes e dar um fim àquilo tudo. Era tudo o que queria.
Assim que conseguiu uma proximidade, o espadachim deu um salto para acertar a líder das bruxas por cima. Mabel, no entanto, foi mais esperta e com a telecinesia levantou Tabita, que ainda estava inerte, e a colocou em sua frente como um escudo. Isso obrigou Tavius a se deter a tempo de não cortar a pessoa errada e, no mesmo instante, a jovem refém voltava a si com um grito de puro terror.
– Por que parou, pamonha? – Mabel zombou. – Tá com medo de cortar a própria irmã em duas?
– D... Desgraçada...! – Tavius grunhiu completamente frustrado. – Você e seu jogo sujo...!
– O que importa é vencer, Tavius. E dar o castigo merecido ao pai de vocês, por ter nos humilhado!
– Você receberá o castigo das minhas mãos! – o espadachim disse com firmeza, embora soubesse que estava em seu limite.
– Me castigue se puder, pamonha.
Tavius atacou novamente, mas Mabel criou uma barreira invisível ao seu redor. Tavius a golpeou dezenas de vezes, sem sucesso. Era uma barreira intransponível. O espadachim insistiu nos ataques, mas de nada adiantava. Por mais que tentasse qualquer coisa, não adiantava.
No entanto, Mabel fez desaparecer propositalmente a redoma. Tavius, pelo impulso de mais um ataque, por muito pouco não acertou Tabita, que novamente estava servindo como escudo para a bruxa.
Mabel estava explorando seu ponto fraco de forma humilhante. Sabia que Tavius era incapaz de infligir qualquer ferimento na própria irmã e usava isso a seu favor. E isso não só a favorecia, como também a divertia.
Essa brincadeira era humilhante demais. A cada ataque que Tavius tentava, era obrigado a se deter no meio do caminho. E a cada ataque frustrado, Mabel se divertia mais e mais, brincando com os dois irmãos.
– O que foi, Tavius...? – Mabel ironizava. – Está com medo de matar sua querida irmãzinha mimada? Ah, tadinho...!
Nisso, a voz trêmula de Tabita ecoou:
– Tavius... Por favor, pare com isso, não quero que você morra...! Para com essa loucura...!
Mabel acertou um chute nas costas da jovem, que caiu de bruços no chão e não conseguiu se levantar.
– Cale essa maldita boca, sua peste! – a bruxa disse com asco. – Não suporto mais a sua voz!
Aquela cena doeu em Tavius. No entanto, mesmo se sentindo tão humilhado, mais uma vez segurou fortemente a espada.
– Me perdoe, Tabita... – ele murmurou. – Não posso deixar essa maldita impune!
Partiu pra cima de Mabel mais uma vez, mas a bruxa ameaçou, com uma das mãos, atingir Tabita com uma esfera negra de energia. Diante disso, e sentindo-se cada vez mais humilhado, Tavius mais uma vez parou o ataque. Não conseguia continuar, não com Tabita o tempo todo sob a mira daquela maldita.
O instante de vacilo de Tavius desta vez lhe custou caro. Com a defesa aberta, Mabel jogou contra ele a própria irmã e arremessou contra os dois um poderoso raio de coloração roxa. Não houve tempo para se reagir, e os dois caíram inertes, cada um para um lado, ainda mais feridos do que já estavam.
Mabel olhou para Servia, Soraya e Fabian e sorriu triunfante para eles. Haviam vencido, mesmo recebendo alguns ferimentos. Em seguida, deram simplesmente as costas para o trio derrotado e carregaram Tabita novamente rumo ao tormento. Alguns passos depois, sumiram em um passe de mágica.
O trio jazia desacordado e ferido após mais uma derrota humilhante. Mais uma vez, estiveram perto de uma vitória, mas... Ao mesmo tempo, estiveram tão longe...
Uma sombra se projetou sobre eles. Uma sombra humana, de alguém que acabava de chegar ali e contemplava, frustrado, a cena com a qual se deparara:
– Cheguei tarde demais... – murmurou.
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