Uma Jornada Ao Resgate
4 Cárcere e contratempo
Notas iniciais
O terror estava estampado em seu rosto. Dominava-a por completo naquele local onde estava confinada. As correntes apertavam mais e mais seu pulso, fazendo até que suas mãos ficassem dormentes. Por mais que se movesse, não conseguia ao menos uma posição em que os pulsos ficassem menos doloridos.
Só isso já era torturante o bastante para aquela prisioneira, mas não era suficiente para suas raptoras. Principalmente para Servia. Ela não se contentava em ver Tabita sendo torturada psicologicamente.
Isso era pouco para aquela mulher. Queria satisfazer seu lado sádico, matar sua sede de sangue.Encarou a prisioneira com ar zombeteiro e disse:
– Eu sinceramente queria saber o que aquele idiota do seu pai vê de tão especial e valioso numa garota tão inútil como você. Não sabe lutar, não sabe magia, nem nada... Só sabe gritar por socorro. Quem vai vir atrás de um traste inútil como você?
Tabita não respondeu. Sabia que alguém iria resgatá-la, mas preferiu guardar toda a sua esperança para si mesma, a fim de que não a destruíssem. No entanto, isso não era suficiente para que Servia parasse seu discurso.
– Seu irmãozinho só te protege por uma promessa idiota. Se não fosse por essa promessa, acha que você teria aquele sonso te protegendo? Ou aquelas duas ridículas como guarda-costas? Os fracos não sobrevivem sozinhos, são apenas fardos carregados pelos fortes. Pessoas fracas como você não passam de fardos para os outros. Apenas fardos.
Tabita sabia que isso era mentira, mas tentava suportar as palavras destrutivas em silêncio. Porém, não adiantava. Servia não se contentou apenas com palavras e partiu para o que mais queria.
Murmurando palavras em um idioma desconhecido, Servia materializou diante de si uma esfera negra envolvida por descargas elétricas de coloração roxa. Sem pestanejar, lançou essa esfera contra Tabita, que gritou ao receber o ataque. Seu corpo se contorcia de dor, devido ao choque violento que recebera. Junto com os gritos de dor, as gargalhadas da bruxa ecoavam como gargalhadas de prazer. Um insano prazer sádico, aquele que só vem à tona ao ver a agonia de sua vítima.
E aquela era só a primeira parte da sessão de torturas promovida por Servia. Uma longa sessão que estava longe de terminar.
E só terminaria quando Tabita perdesse a consciência de vez, após muitos hematomas, gritos e sangue derramado.
***
Tavius continuava completamente perturbado. O fracasso que tivera ainda estava bem vívido em sua memória. E sentia, através de uma nova pontada em seu coração, que Tabita estava em perigo. Na verdade, sentia muito bem que ela estava em grande perigo.
Precisava encontrá-la logo, de qualquer maneira. Precisava, mas ainda não estava em condições para uma nova batalha. Não tinha condições físicas e nem psicológicas para tanto. Mas teria que passar por cima disso se quisesse reencontrar Tabita ainda com vida. Caso contrário, jamais se perdoaria.
Vestiu outra roupa, pegou sua espada e jogou uma capa por cima. Iria atrás de Tabita, estivesse recuperado ou não. Aquelas pontadas que sentia em seu peito não o deixavam em paz.
– Você não tem jeito mesmo, hein, Tavius? – Samira disse em tom de bronca.
– Samira, não importa o que você diga, nada me fará mudar de ideia. Vou atrás da Tabita.
– Nós vamos juntos. – Valery acabava de aparecer ali.
– Vou sozinho. – Tavius rebateu. – Se há um culpado nisso tudo, esse culpado sou eu.
– Tudo bem, tudo bem... Mas por um acaso você sabe onde aquelas três bruxas estão escondidas?
Tavius não respondeu à pergunta de Valery. Obviamente, nem sabia por onde começar a busca.
– Vai ter que levar a gente junto, Tavius. – Samira disse com um sorriso triunfante. – Eu sei onde é o esconderijo daquelas bruxas.
O jovem suspirou. Não tinha outra escolha a não ser ir acompanhado.
***
– Mas já cansou...? Eu queria brincar mais um pouco...
Tabita havia acabado de desmaiar, não suportara a longa sessão de tortura a que acabara de ser submetida. Estava ferida, o vestido salpicado de sangue e rasgado pelos cortes gerados pelos golpes que recebera. Recebera golpes por todo o corpo, principalmente de um chicote. Além de chicotadas, fora violentamente agredida com socos, pontapés, tapas e magia negra.
Naquele cômodo iluminado apenas por uma tocha, seu algoz contemplava seu rosto desfalecido com um sorriso tétrico e perturbador. Sorriso esse gerado por uma satisfação obscura que sentia ao infligir-lhe diariamente tamanha dor e sofrimento.
Servia não deixava mais ninguém fazer esse serviço de torturar a refém, era “hobby” favorito. Torturar pessoas até a morte era sua especialidade, desde o tormento psicológico até o dano físico. Sentia um prazer absurdo em fazer isso e adorava ainda mais quando via grossas gotas de sangue pingar de suas vítimas.
Contemplou Tabita mais de perto. O sangue que escorria de um corte na testa e do canto da boca da refém começava a parar de pingar. O vermelho do sangue, a seu ver, apenas embelezava a pintura de um perfeito retrato de um rosto horrorizado, do jeito que gostava.
Depois tanto se divertir com Tabita, esta só iria acordar no dia seguinte. Era fraca demais para suportar por mais tempo. Além disso, não era uma tola esperança de ser resgatada que a faria resistir ainda mais.
Esperanças eram inúteis, assim como quem as tinha.
Com esse pensamento, saiu dali, deixando Tabita inconsciente e ainda dependurada pelas correntes, que prendiam seus pulsos na parede fria e úmida do local. Deu uma última olhada e fechou a porta.
***
– É aqui! – Samira apontou para uma casa já decadente, a alguns metros de distância do trio. – Provavelmente elas estão aqui, foi onde eu as vi da última vez.
– Eu imaginava que era um lugar feio, mas nem tanto. – Valery comentou. – É impressão minha, ou à primeira vista essa casa dá arrepios?
Tavius não opinou e seguiu direto ao local. Samira e Valery o seguiram, pois sabiam que ele estava determinado a fazer o possível e o impossível para resgatar sua amada irmã.
Chegaram à porta, que estava trancada. Antes que fosse decidido arrombá-la, Valery disse:
– Malfermu en silento!*
A porta se abriu silenciosamente, após a frase. Valery era uma maga iniciante, na verdade estava em um nível entre iniciante e intermediário. Adentraram-se no local escuro e com janelas fechadas, onde se podia sentir uma aura maligna impregnada em cada parede.
O trio não avançou muito. Uma parede ruiu, fazendo com que a construção caísse por completo. Tavius, Samira e Valery conseguiram sair a tempo. Haviam escapado por pouco de uma armadilha.
Mas não escaparam de outra, pois da terra surgiram três criaturas aladas. Eram gárgulas que, com suas garras afiadas, partiram logo para atacar os três.
Tavius não quis saber de enrolação e foi pra cima de um deles, fazendo um corte no peito da criatura. O ser quase acertou suas garras no jovem, que foi rápido o suficiente para perfurar seu peito com a espada. A criatura nem teve tempo de reagir, apenas caiu pesadamente sem vida.
Samira colocou uma flecha em seu arco e o retesou, mirando atentamente na cabeça de outra gárgula que voava em sua direção. Quando a criatura se aproximava, disparou a flecha envenenada, que acertou a testa. Teve tempo de lançar outra flecha mortal nas costas e por fim matá-la.
– Transformi polvo!** – Valery disse ao mesmo tempo em que fechava a mão direita com o rosto demonstrando esforço.
A última gárgula foi envolvida em uma aura azul e, segundos depois, se tornava apenas pó. Fora uma vitória relativamente fácil. Mas que não aliviou ninguém, visto que não havia sinal das três bruxas, muito menos de Tabita.
– Ah, que ótimo... – Samira resmungou. – Elas não estão aqui, mas deixaram uma armadilha pra nos distrair!
– E conseguiram, porque se havia algum rastro delas, agora já sumiu.
– Bem, Tavius... – Valery disse. – Pode ser que não tenha sumido ainda. Talvez com uma magia de localização possamos encontrar as bruxas e, com elas, encontraremos a Tabita.
– Mas esse tipo de magia é mais avançado, Valery. Você disse uma vez que ainda não a domina.
– Não totalmente, Tavius. Mas eu dei uma melhorada e pode ser que eu consiga.
– Se você tentar, pode ser que dê certo! – Samira apoiou.
– Ok, vou tentar, nem que eu consiga apenas em parte.
Valery fechou os olhos em sinal de concentração e deixou-se envolver por uma aura azul. Os outros dois apenas a olhavam na expectativa de dar certo.
– Supernaturaj fortoj, kiuj estas surla bonaflanko, donu al mi antauxpretermiajokuloj povasvidi!***
Notas finais
** Transforme-se em pó!
*** Forças sobrenaturais que estão do lado do bem, deem-me a visão além do que meus olhos podem ver!
Para escrever as invocações de Valery, recorri ao tradutor do Google e fiz a tradução do português para o esperanto. Sempre vou procurar colocar nas notas finais a tradução em português, ok?
Espero que tenham gostado e até os próximos capítulos!
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