Uma História Sobre Toritora

1 Prólogo: A Mata dos Uivos


Notas iniciais
Olá pessoas! Eu sou a Asuuki e estou postando a versão remasterizada de Kenome, do autor Kingas (ele saiu do Nyah!).
Espero que gostem. Até mais!

Links: Mapa de Toritora

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O equipamento já começava a pesar nas costas da garota. Duas espadas longas. Um arco de madeira de carvalho e a aljava de flechas da alma. Era um equipamento pesado, sim, mas útil nas diversas situações.

Os cabelos brancos da menina a deixa­vam quase albina sobre a pele pálida. Os olhos prateados leitosos observavam a tudo atentamente. Ela começava a suar sob a cota de malha e a calça de couro fervido. equipamento já começava a pesar nas costas da garota. Duas espadas longas. Um arco de madeira de carvalho e a aljava de flechas da alma. Era um equipamento pesado, sim, mas útil nas diversas situações.

O sol começava a subir sobre a Mata dos Uivos e fazia as árvores lançarem sombras pontiagudas para dentro da mata escura. O vento também contribuía para que as som­bras se jogassem para a escuridão. Quando soprava, as árvores se curvavam ao máximo, até beijarem o chão com suas copas. Quando cessava, elas voltavam à posição original.

Os sons também eram diferentes, sons do verão. Dúzias de pássaros diferentes asso­biavam sua canção para os ares. Os homens do rei que estavam reunidos na clareira grita­vam e falavam mal, com música alta ao seu redor. Kenome preferia fechar seus ouvidos a esses sons e simplesmente cumprir sua mis­são, mas as outras eram praticas. O uivar dos ventos ao passar pelas árvores e a resposta dos lobos a eles.

Jaq’Rar mantinha seu palácio, a Casa Sagrada, lar de bruxos e alquimistas, rodeado por bosques, fora da muralha negra do reino de Sei’Ria. Como ela sentia saudades do lugar do qual ela saíra há dez dias. Depois de passar a vida inteira lá, acabava se acostumando aos sons e hábitos. Quando andava pelos corredo­res e escadas, não se encontrava nada hu­mano por lá, exceto os quadros de rituais de sacrifícios e funerais, que não tinham muito de humano. Era sempre inverno e as matas ficavam sob trinta centímetros de neve. Os lobos brancos uivavam como loucos ao pres­sentirem a chegada de um estranho. Era tudo tão bom.

— Dandriel. – o mentor a indicara – Vai para Dandriel. O rei Dandria está organizando uma festa na mata dos uivos.

— Mande as Sombras para cumprirem essa missão – a menina retrucou.

Em troca, recebeu um tapa do mentor, Sai’Sha. Ela olhou para ele e viu as lágrimas correrem o rosto.

— Me desculpe flor de sakura – ele segu­rou as mãos dela entre as suas – É neces­sário. Zanthor ira com você.

Isso não a animara muito, mas mesmo assim saiu pisando forte da sala do mentor. Caminhou até seu quarto e juntou tudo o que iria precisar. “Partes ainda hoje”.

Ela se lembrou levemente do capitão Zanthor e seus soldados no acampamento nas entranhas da Mata dos Uivos. O pensamento foi rápido e desinteressante. “Nada pode acontecer a eles. E, além do mais, eu não ligo. Não é mesmo?”

Kenome retirou o arco das costas e pegou uma flecha. Engatilhou-a na corda e puxou até encostar-se a sua bochecha direita. Antes de largar a corda ela observou a flecha. Era praticamente invisível, a não ser por pe­quenos pontos azuis evaporando de sua su­perfície.

Ajustou a mira. Fechou os olhos. Fe­chou a mente.

— Darutra! – abriu repentinamente os olhos e viu um rastro azul avançar na direção do peito do rei.

“Certeiro.”

De repente a flecha parou e um ho­mem se viu cravejado por ela. Entrou em combustão e a menina se escondeu rapida­mente em um tronco.

“Errei?”

A respiração dela parou por um ins­tante, enquanto as donzelas gritavam e os soldados grunhiam. “Sim, errei.”

— Investiguem a área agora! – ela escu­tou uma voz semelhante a uma correnteza – Quero esse bruxo morto!

Vários passos vieram até a moita onde ela estava. “Pena. Vocês são ingênuos.” Ke­nome tocou a bolsa que estava presa ao seu antebraço esquerdo.

— Sharadoru – sussurrou. Imediata­mente a bolsa virou um monte de fumaça e ela retirou de lá duas adagas escondidas sob a fumaça.

“Concentre-se.” Novamente os olhos fechados. A respiração foi se acalmando. “Só mais um pouco.”

Então ela viu. Na mente dela, uma visão aérea da Mata dos Uivos se formou. Conseguia ver tudo. O acampamento de Zan­thor ao norte. A festa do rei à suas costas. E, pior de tudo, seis soldados vindo até a árvore onde estava.

Um salto para o lado, duas adagas em duas gargantas, um rolamento, de pé nova­mente atrás de outra árvore, mais duas ada­gas na mão. “Fique calma.”

— Que diabos? – escutou uma voz rouca.

— Toraverssum – jogou as adagas atra­vés da árvore e elas a atravessaram como fantasmas. Um baque, um suspiro. “Só mais três.”

Puxou uma das espadas das costas. “Dragão do Sul”, ela observou o metal azul e frio em suas mãos, martelado e encantado seiscentas vezes para lá da Cordilheira de Prata.

Saltou para fora da árvore e correu. Uma flecha. Duas flechas. Uma de cada lado de seu rosto. Saltou, brandiu a espada sobre a cabeça e partiu ao meio o crânio de um sol­dado. Largou a espada ali e puxou a outra. “Dragão do Norte”, a espada alaranjada des­feriu um golpe poderoso sobre o peito do outro soldado. Entre a festa do rei e seus súdi­tos aterrorizados e a menina, apenas um sol­dado.

— Cergelarum! – ela gritou e puxou o arco das costas. A flecha atingiu o peito do menino e atrás dele um tapete de gelo se es­tendeu. Muitos tentaram escapar, mas ne­nhum deles conseguiu.

“Agora Zanthor”, ela lançou um último pensamento para o bruxo. Os olhos piscaram, as pernas fraquejaram e a mente desligou.

Os primeiros sonhos eram os menos piores. Ela sonhou com seu pai, Salanderon, expulsando ela de sua casa por tentar matar seu amigo mais leal. A mãe ajoelhada aos pés dele implorando por misericórdia à sua filha. Outras milhares de mães que tiveram suas filhas enforcadas, para que não seguissem os seus passos.

Então tudo mudou. Sonhou com o dia em que chegara à Casa Sagrada, há sete anos.

Iriam se iniciar testes para ver quem seria aprovado como bruxo. Ela estava ner­vosa, até que um menino mais velho a acal­mou.

— Toma – ele entregou um boneco ve­lho de palha para ela – Seque suas lágrimas e me siga. Meu nome é Thalo.

Ela seguiu o menino até uma fila enorme. Ele a reconfortou durante todo o tempo em que ela esperou ser chamada.

— Kenome – o juiz chamou.

A menina avançou e pegou uma das espadas que estavam apoiadas na parede. A ergueu um pouco tremula e se jogou contra os bonecos de palha. Golpeou furiosamente, imaginando seu pai. Então um golpe na ca­beça de um dos bonecos, uma explosão hori­zontal. As cabeças dos outros bonecos caíram de seus pescoços. Ela caiu no chão.

— Já está dormindo? – Zanthor estava de pé ao seu lado. Ele era alto e musculoso. A espada pendia de sua cintura e o arco apare­cia sobre a sua cabeça sem cabelos.

— Claro – Kenome se sentou – Minhas espadas, por favor.

O homem ergueu Dragão do Norte e fez um sinal para um de seus homens, que tirou Dragão do Sul do crânio do soldado e a trouxe para Zanthor.

— Belo trabalho o que fez aqui – Zanthor entregou as duas espadas para a menina e a ajudou a se levantar – Quer ficar com a ca­beça dele?

Ela olhou para a direção que o dedo dele apontava. Uma mesa de gelo, coberta de comida de gelo e rodeado por pessoas de gelo. Numa das pontas, o rei estava surpreso. Congelado e surpreso. “O sol irá derretê-los mais cedo, mais tarde.”

Mas o sol já estava se pondo atrás das Montanhas Alabard e o céu escurecia lenta­mente.

— Quero sim.

Ela foi até uma fonte na clareira e usou o pouco da água que não tinha congelado para limpar as espadas. Depois foi até o rei congelado e tirou uma adaga da bolsa.

— Darutra – ela encostou a ponta da adaga no rosto do rei e o gelo derreteu imedi­atamente.

O rei arfou e olhou incrédulo ao redor – Quanto tempo?

— Algumas horas – Kenome respondeu – Quero saber o que você planeja com o rei Salanderon.

— Tem os cabelos dele, Kenome – ele pareceu tentar fazer um movimento, mas percebeu que o corpo dele estava congelado – Faz tanto tempo, mas é impossível não te reconhecer.

— Cale a boca – ela encostou a adaga no pescoço do homem e abriu uma pequena fenda de onde escorreu água – e me diga o que quero saber.

— Ameaçando-me com morte querida? – ele riu e se contorceu, sentindo a adaga espetar mais fundo sua garganta – Estou morto há anos. Minha última esperança era meu irmão, seu pai. Desgraçado. – ele cuspiu sangue no chão – Seu pai e aquela Seita. Val­ton não quis assumir partido contra o irmão, Sei’Ria. Imagine se mamãe estivesse viva.

— Que Seita é essa? – a menina estava sonolenta. A voz do tio, rei Dandria, era como uma correnteza leve e às vezes aumentava para uma corredeira intensa.

— E com o que me ameaça menina? – ele gargalhou alto.

— Cale a boca – com um movimento rápido da adaga a cabeça rolou do pescoço para o chão – Está feito, Zanthor.

Kenome se virou e não enxergou nada. Parecia que eles nem estiveram ali. Nenhum sinal deles.

— Não está nada minha querida – a garota se virou e onde estava a cabeça e o corpo do rei só existiam um liquido negro.

Um vento frio percorreu sua espinha e num movimento involuntário ela se virou e baixou a adaga. Ela foi de encontro a uma espada e o choque provocou faíscas.

— O... O que?

Um homem com cabelos loiros lisos segurava a espada. O rosto dele completa­mente coberto por bandagens azuis-escuras. Olhos grandes e verdes a espreitavam por entre duas orelhas pontudas.

— Não... Não pode ser... – ela olhou incrédula para a espada do homem. O gume da espada era ondulado e escorregava a cada vez que ele pressionava a espada contra a adaga, ameaçando cortar a perna de Kenome.

— Surpresa? – ele soltou uma das mãos da espada e a colocou sobre o seio de Ke­nome – Vargarian Sagithum!

A menina foi arremessada para longe do homem e caiu no chão. As risadas cínicas do homem não a preocupavam mais que as costelas quebradas. “Elfos...”, os olhos esta­vam trêmulos nas orbitas, “Eles... Mas... Não era uma lenda?”.

A sua ama de leite costumava contar histórias sobre eles. Sua língua estranha, seus símbolos esquisitos, armas demoníacas. Os rituais dos bruxos eram uma coisa de criança perto do que aqueles seres faziam.

O rei Valton veio visitar seu irmão, o rei Salanderon, em Salafar. Entre as filhas, Salanderon sempre preferiu Sala à Kenome. Durante a ceia, Kenome se sentou longe do pai, na cabeceira da mesa ao lado do trono, e foi se sentar ao lado dos soldados no fundo do salão. A todo momento os homens contavam histórias sobre elfos, necromantes, yetis e todos os tipos de coisas que faziam. Taças de vinho e cerveja, às vezes aguardente, passa­vam de mão em mão, boca a boca.

A menina, que tinha apenas catorze anos, saiu de lá embriagada e pediu à mãe permissão para viajar com os cavaleiros por toda Toritora. A mãe lhe deu um tapa e após a ver no chão, colocou-lhe o bico do sapato no estomago.

— Podias ser como Sala, uma verdadeira dama que há de casar com um de seus primos ou irmãos. Não és minha filha.

E a mãe, rainha Erma, a deixou ali vomi­tando toda a bebida. Durante a noite, Kenome foi até o quarto da irmã e tentou a matar com um punhal, mas um guarda a im­pediu. Ela foi levada para o pai, que estava nervoso por terem interrompido seu sono, e lhe contaram a história. Ele permitiu que Ra­posa, seu guarda-costas a espancasse e depois a mandou ir dormir, pedindo para que a ama tomasse conta dela.

Naquela noite, Kenome disse que prefe­ria as histórias de terror, mas adormeceu aos soluços sobre o colo da ama.

O elfo correu na direção dela e Ke­nome se levantou desembainhando Dragão do Norte. Concentrou-se no elfo. Fechou os olhos. E os abriu.

O elfo se abaixara e impulsionara o corpo, por sobre a garota, usando a mão. “Um demônio...” Quando caiu do outro lado tentou passar uma rasteira, mas Kenome fora mais rápida e saltou para longe. “Eu não consigo.”

Então o elfo já estava à sua frente e lançou uma estocada que arranhou seu braço esquerdo. “Ele vai brincar comigo.” Os olhos da menina se arregalaram.

Notas finais
Bem, gostaram?
Imajinari - Interativa: http://fanfiction.com.br/historia/616426/Imajinari_-_Interativa/
Kenome (história original): https://fanfiction.com.br/historia/560759/Kenome
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.