Ela trazia uma faca. Escondida debaixo das saias, amarrada às coxas grossas.

Doce, mas ao mesmo tempo rude, não amava e não era amada por ninguém. Era almejada e invejada, mas não amada.

"Depois que obtiver a vingança que tanto desejava, verá o quão duro é o osso que rói", é o que lhe dissera o velho sábio Maven.

Ela não compreendia o real sentido daquilo mas, assim como os homens, era seu dever levar a devida justiça àquele que matou seu irmão.

Sua faca, mais parecida com uma adaga, era leve, esguia e afiada, assim como quem a empunhava. A mulher a afiava todas as noites, enquanto pensava nas diversas maneiras em como poderia matar o jovem Rei das Cataratas.

Sabia que era arriscado, mas o plano já estava sendo manejado há diversos meses, somente à espera do momento apropriado.

A jovem de 15 anos, perdera o pai pouco depois de nascer. A mãe, como muitos acreditam, enlouqueceu, fugira para floresta, e foi encontrada morta, na beira de um riacho duas semanas depois. O bebê fora deixado aos cuidados de um garoto de 8 anos que, apesar de sustentar a ambos por alguns dias, acabou na casa de Maven, onde foram criados e cresceram ouvindo os conselhos do sábio, conhecido e procurado em diversas vilas próximas. "Nunca se esqueçam da maldade do Homem. Mas também é necessário perceber que há aqueles que têm bondade no coração." Era uma das muitas frases que ouviam algumas vezes a cada dia.

Marlyn, assim era chamado seu irmão, protetor e por mais esquisito que fosse, seu pai. Podia ser severo, mas estava sempre a disposição às brincadeiras e travessuras da irmã quando mais novos. Ao crescerem Marlyn deixara a irmã na vila para tentar ganhar a vida como ferreiro na cidade e voltara três anos depois com esposa e filho, mas além disso, sua vida não havia mudado muito. Marlyn mudou-se para casebre não muito longe da casa onde cresceu, mas deixou a irmã na casa do velho Maven, onde era útil limpando e ajudando.

Vida simples, mas feliz era aquela a qual a moça vivia. Com o irmão de volta, era difícil que algo a deixasse de mal humor. Ia e vinha, não importava quantas vezes fosse necessário. Queria passar o máximo de tempo ao lado do irmão, mas não deixaria Maven na mão.O velho dormia mais de dois terços do dia e sempre continuava cansado. Era acordado de quatro em quatro horas para ser alimentado e se precisasse, aliviava-se. Não fazia muito mais do que ir da cama a uma cadeira, onde ficava para receber aqueles que desejavam seus conselhos. Ele normalmente não cobrava por seus serviços, mas no final das contas, a caixa de gorjetas acabava cheia de moedas, o suficiente para sustentá-los.

O sobrinho, mesmo com a ausência do pai, crescia e seu físico e personalidade ficavam cada vez mais fortes e definidos. Mahhym, o nome que lhe foi concebido, relacionava os dias que o homem foi criado aos deuses, dizia a mãe "talvez venha a ser alguém importante, este meu filho." ela podia crer nisso, mas no mundo em que vivia, ser reconhecido era quase impossível.

Como queria ela, que o irmão vivesse? Queria, mas o que já estava feito, não podia ser desfeito. Morreu. Foi-se para sempre. Não houve um pingo de pena. E também não haveria rancor. Seu irmão era um simples ferreiro. A moça guardou o remorso dentro de si.