Notas iniciais
Ana vai embora após a maior decepção de sua vida: sua irmã, sua melhor amiga, e seu grande amor foi flagrados juntos. Para ela nada mais faz sentido, por isso se mudou de cidade e tentou tocar sua vida... Mas o passado ainda é recente e a dor fala mais alto!

Um despertador toca às sete e dez da manhã e uma mão rapidamente bate no mesmo. Então uma rádio local começa a tocar alguma coisa sem sentido e isso faz com Ana se levante rapidamente e irritada desliga o radio relógio. Ela olha em volta e ainda percebe que aquilo foi mais um sonho, mais um terrivel sonho que ela presenciou. A voz de Robson ecoava em sua cabeça que mal despertou, Eu amo a Mariana, sempre foi ela. Enquanto olhava seus pés balançando perto do chão, Ana sentia uma enorme dor e não era carnal e sim era saudades que sentia principalmente dos pais, ela então observa o porta retrato onde estava abraçada entre eles na sua colação de grau. Eu estava tão feliz, pensou, então sentiu o sol invandi seu pequeno quarto-cozinha. O pequeno comodo que ficava nos fundos da galeria na 136 foi arrajando pela sua colega, onde a mãe dela era dona do espaço. O comodo ficava erguido por quatro colunas onde havia uma enorme janela que dava uma boa visão da avenida, lá fora havia uma mistura de sons de carros com suas buzinas, vozes e passaros parecia até uma disputa para ver quem emitia o som mais alto. Ana finalmente foi a cozinha e preparou uma xicara de leite com café soluvel, e teve sua atenção chamada para o piscar da secretaria eletronica, com um longo suspiro ela apertou o botão e enquanto olhava pelo basculhante da cozinha começara a ouvir as mensagens.

"Oi friend!" — era Carol, sua unica e melhor amiga naquela cidade — "Tô te ligando pois abriram um nova casa perto do Flam e eu quero que você venha comigo. Não é um pedido é uma ordem! Vai ser na proxima sexta-feira. Beijos!" Ana sorriu melancolicamente. Fazia muito tempo que ela não sorria de coração e alma leve, eram sempre forçados e dolorosos como seu passado. A proxima era de sua mãe:

"Ana, meu amor, é a mamãe... Seu pai e eu estamos morrendo de saudades suas e aguardando você para as bodas. Já fazem dois anos que não nos vemos, sei que nos pediu para respeitar seu espaço, mas por favor... Te amamos. Fique com Deus."

Ela então se lembrou que em duas semanas seria o aniversario de trinta e cinco anos dos seus pais, e sinceramente ela não estava afim de rever todos. Enquanto ela tomava outro gole uma mensagem a fez ficar com o coração agitado:

"Ana? Sou eu Mariana... Precisamos conversar, sei que ainda deve estar com muita raiva, mas realmento preciso lhe dizer que..." Antes de terminar, rapidamente ela pausou a mensagem e para não correr o risco de querer ouvir o restante, apagou a mesma. Com o coração batendo na garganta ficou quieta olhando o aparelho foi quando viu uma gota sobre ela então percebeu que era uma lagrima, justo agora alguem tinha que reabri as feridas? Percebeu então que o seu dia não havia começado nada bem.

Após um banho gelado, Ana ficou de frente ao espelho: sua expressão cansada se igualava aos seus cabelos sem brilho e desarrumados, seus olhos castanhos nem tinham mais cor e como um ritual dizia pra si mesma, sempre:

-- Você é ridicula, sem graça, vazia e sem beleza. Ninguém te ama, ninguém te quer. Você não é pareo para a Mariana.

Sempre fazia isso, desde que chegou a cidade há dois anos, mas em trinta minutos apos um pouco de pó, blush, sombra e gloss ela se montava em uma simpatica funcionaria da galeria. Sempre vestia seu impecavel uniforme: um vestido de malha azul marinho com um colete preto, sapatos peep toe na mesma cor e arrumava seu cabelo em um belo coque e sempre tentava esforçar o sorriso para aparecer amigavel aos clientes. Há dois anos Ana sofria por dentro o que não queria demonstrar por fora, depois de um longo suspiro, ela desceu a estreita escadaria do comodo e foi em direção a porta de saida da galeria, abriu-a indo em direção a porta principal onde levantou as enormes persianas da parede de vidro da entrada deixando a luz do sol entrar como uma esperança tentando aliviar mais um dia de batalha em uma trincheira. Comprimentou as funcionarias que terminavam a limpeza do local e de pé ficou observando o movimento que acontecia do lado de fora. Como sempre em sua rotina, arrumava seu espaço onde todos os objetos deveriam ficar sempre em linha reta, posicionados em sua direção, por ser canhota tudo deveria ser posto ao seu lado esquerdo. Organizava as revistas por ordem alfabetica e as deixavam assimetricas no suporte e sempre que fazia algo se olhava para o grande espelho da parede lateral e ajeitava seu uniforme para não ficar com nenhum amarrotado ou desalinhado e observava se seu cabelo não estava com um fio fora do lugar. E mais uma vez ensaiava seu esforçado sorriso.

Passava das dez, quando a dona da galeria chegou. Era uma belissima mulher perto dos quarenta e cinco anos, cabelos acobreados longos e soltos. Chegou em um belo vestido florido e sandalia com um sorriso espontaneo. Adriana Gomes, esse era seu nome.

-- Bom dia, Ana! — comprimentou com seu exagerado bom humor.

-- Bom dia, Adriana. Agenda? A proprietaria ficou perplexa.

-- Sim... Ana foi abrindo a pagina de compromissos de sua patroa.

-- Bem, na parte da manhã sem compromissos. Mas você tem um almoço ao meio-dia e meia com a dona Soraia Castro para ver como ficarão os arranjos de sua nova exposição e as...

-- Ana querida -disse puxando a agenda pra si — há quanto tempo estar aqui?

-- Entrei no meu horario de sempre.

-- Não, eu digo há quanto tempo aqui em Goiania, aqui na galeria comigo?

Ana engoliu seco.

-- Precisamente, amanhã fará dois anos.

-- E você sabe o que irá acontecer daqui duas semanas? Ana apenas olhou para o lado, não queria responder.

-- Ana? — Adriana insistiu puxando seu rosto.

-- As bodas de meus pais... Não quero falar sobre isso Adriana.

-- Mais eu quero — ela ficou fitando com seus olhos verdes e depois sorriu — Há dois anos você trabalha aqui, sem férias, sem uma vida social.

-- Gosto dessa vida.

-- Vida? Chama isso de viver? Finge ser a pessoa mais amada e feliz do mundo na frente dos clientes, mas tanto você como eu sabemos que não é isso. Por isso vou te dar ferias daqui duas semanas.

-- Não preciso disso, preciso ficar aqui.

-- Ana eu digo isso como sua chefe, você vai tirar essas férias, vai para a casa dos seus pais. Fique somente para comemorar as bodas, depois volte e continue levando essa sua vida 'feliz'.

-- Não sei se eu quero ver-los novamente.

-- Meu bem se tem uma coisa que infelizmente aprendi foi devemos aproveitar nossa família enquanto está sobre nossas vistas. Perdi meu pai aos dez anos e minha aos vinte e cinco e me arrependo todos os dias de não ter ficado próximos deles. Não cometa o mesmo erro que eu cometi. Você irá sim. É uma ordem. Ana apenas consentiu enquanto Adriana pegava a agenda e subia ao seu escritório deixando- a pensando se era certo voltar a rever todos. A rever e reviver o passado.

Depois de mais um dia de trabalho, ela retornou para o seu pequeno quarto com os sapatos em mãos, sentou-se a beira da cama olhando para a enorme janela onde a noite já caia na avenida e as pessoas voltavam para casa. Casa, lembrava da sua enquanto desmanchava seu coque e lembrava do que Adriana lhe disse mais cedo: Fique somente para comemorar as bodas, depois volte e continue levando essa sua vida 'feliz', ela sentiu, sabia que aquilo era uma simples e dolorosa ironia. Como teria conseguido sobreviver por tanto tempo assim? Como conseguiu trabalhar, conviver com outras pessoas? Dormir e acordar todos os dias?

-- Como eu consegui? — sussurrou. Voltou a olhar o porta retrato onde estava com seus pais, sentia falta deles, principalmente do pai no qual era sempre mais aberta e conversava sobre tudo com ele. Fechou seus olhos e uma vaga lembrança veio em mente. Ana estava no estabulo acariciando o Areia, tinha dezesseis anos. Estava usando uma jardineira com uma camiseta lilás e seus longos cabelos castanhos presos a um rabo de cavalo firme. Ela carinhava delicadamente o pescoço de seu amigo chegando a sua cabeça, as vezes beijava entre seus olhos. Areia retribuia com sua respiração tranquila. Seu pai vendo aquilo chegou calmamente.

"É um belo animal."

"É sim. Meu belo e querido Areia. Foi o melhor presente que me deu, pai."

"Que bom que gostou" — respondeu agora carinhando o animal junto com a filha — "Tinha que ver o jeito como olhava para ele quando nasceu. Tive a certeza que ele deveria ser seu."

"Engraçado, as vezes parece que ele me entende. Sente quando estou triste, alegre, preocupada... Se existe realmente alma gemea, pai, com certeza é ele."

"Aninha" — disse depois de sorrir do comentario inocente dela — "Alma gemea tem de ser entre um homem e uma mulher, entre amigos e melhores amigos ou até mesmo entre pessoas do mesmo sexo. Não com animais, não digo que eles sejam companheiros extraordinarios e as vezes são até melhores que uma companhia humana, mas sua alma gemea tem de ser aquela pessoa que faz você a mais feliz de todos. Que possa te abraçar e dizer que tudo ficará bem, mesmo debaixo de uma tempestade."

"A mamãe é sua alma gemea?" — perguntou apos pensar por um tempo.

"A Luciana, sua mãe... Eu sabia que era ela desde o primeiro dia que a vi e eu sabia que ela me daria a familia mais linda que poderia querer. Todos os dias agradeço a Deus pelos seus irmãos, por você e por ela. Não queria outra vida."

"E eu? Terei essa alma gemea?" Seu pai segurou seu rosto com as duas mãos e com um olhar que emetia extrema bondade, respondeu:

"Com certeza terá tudo o que quiser, meu anjo. Tudo."

Ana estava novamente olhando a janela questionando o que seu pai havia lhe dito sobre encontrar alguem que a fizesses feliz, que seria sua alma gemea e sua metade. Ela sempre acreditou que Robson era essa pessoa, porem se ele não era, quem deveria ser? Se jogou na cama e ficou observando a mancha de mofo no teto e pensava como seus pais eram felizes, estavam juntos e felizes por trinta e cinco anos. Nunca havia ouvido uma queixa por parte de sua mãe e nenhuma palavra dura de seu pai. Eles são felizes! Pensou. Mas ela não sentia isso e com isso chegou a conclusão que ela era uma das poucas que nunca irão sentir esse tipo de felicidade.

Notas finais
Será que Ana poderia ser tão feliz quanto seu pai é hoje?
Aguardem novos capítulos dessa historia...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.