Uma História em um Outro Universo.

1 Ainda assim pouca coisa muda.


Alguma pessoa sem bom senso algum resolver colocar um cartaz prometendo dinheiro que não tinha a quem o ajudasse a derrotar o presidente. Bem, se não tivesse escrito “contrato assassinos de presidentes” e colocado, ao invés disso, “contrato desempregados”, teria funcionado. Funcionou no outro mundo. Infelizmente essa versão de Xupa Cabrinha não sabia disso. Essa versão de Xupa Cabrinha esperou dia após dia para que alguém viesse. Ninguém veio. Essa versão de Xupa Cabrinha tinha alguns parafusos a menos do que aquele que somos mais familiares.

Mesmo se tivesse visto o cartaz, Robin teria ignorado ou digo à Frota “O que?” e Frota respondido “É a vida”. Não viu porque estava preso e não conhecia Frota. Sua amizade acontecia no universo que é usual para nós, não nesse universo alternativo. Robin estava preso e teria muitos anos de prisão. Frota vivia com um tio chamado Molly, um tira aposentado que era velho demais.

Frota tinha cumprido 7 dos 15 anos de prisão que fora confinado. Não fugiu. O sistema carcerário desse universo funcionava muito bem. Frota era um detento exemplar, mostrou aos superiores da prisão que realmente tinha sido reeducado por aquela instituição. Posou para algumas fotos de publicidade daquela prisão privada e foi liberado para viver a vida que não vivia há tanto tempo. Como estaria o mundo? Não muito diferente, concluiu depois dos primeiros sete minutos na rua. Carros continuavam quase te atropelando e você continuava sendo xingado apesar da culpa de sua quase morte tenha sido de quem te xinga.

Tinha um emprego arranjado pelos comandantes do programa de re-“alguma coisa” de ex-carcerários. Iria preparar cachorros quentes. Nunca tinha feito isso antes e não se importava em fazer, também não estava ansioso. Moraria num apartamento compartilhado com um tira velho. Molly era como o Molly que estamos acostumados, só que com alguns pelos faciais. Um bigode muito gracioso e uma barba muito bem tratada.

Depois de um longo dia colocando salsichas entre fatias de pães, retirou seus óculos e colocou sob a mesma mesa que o Molly sentava-se à frente. Lia o jornal. Alguma coisa estava acontecendo no mundo, provavelmente.

— Estou de volta, velho.

— É, sou velho... Quem dera ter sua idade. – Molly continuou lendo sem nada melhor para continuar com a conversa. Gostava da companhia do jovem.

— Me aposentei hoje – acrescentou Molly, após lembrar que não tinha visto o rapaz hoje e por isso não tinha o avisado.

— Ah – disse Frota. Vestia-se com estilo. Estava frio, muito frio. Usava um cachecol bege e um sobretudo roxo escuro. Tão escuro que quase era negro. – O que vai fazer da vida além de resmungar, beber e ler jornal?

Molly olhou-o por cima do jornal, sentindo-se julgado. Fez a pergunta a si mesmo antes de responder o companheiro. – Poderia comer um cachorro quente seu. Estou curioso pra conhecer suas habilidades de cozinheiro.

— Não tenho qualidades assim... – Retirou as suas luvas com certa dificuldade, eram luvas pequenas demais para as suas mãos grossas. – Mas posso fazer para você, se esse for um de seus desejos. Não quero deixar um velho que nem você morrer sem provar o meu podrão.

— Fico feliz, então – respondeu automaticamente. Alguma coisa estava acontecendo em algum muito distante com um passado de exploração por países mais ricos e estavam culpando os que já foram explorados. Na outra página anunciavam que o time de baseball dos Moby Dick Yankees tinha ganhado o campeonato com destaque para o batedor Hama.

O presidente estava bem. Seu nome era Francisco Xavier Pereira. Não seria assassinado, morreu sem saber que estava com câncer de próstata aos 104 anos. Estava só com 59 agora... Tinha muitos anos pra viver e infelizmente só mais 3 de presidência. Não foi um presidente muito popular, a população era contra ele apesar de tê-lo elegido. Não tinham motivo nenhum para isso, só precisavam liberar seu ódio em alguma coisa. Francisco dizia na manchete: “Vamos fazer alguma coisa sobre isso”. E esse era o título da manchete dessa terça-feira.

— Eu gosto desse presidente – disse Molly.

Frota não sabia nada de política e nem desse presidente. Não tinha votado nele. Ficou meio perplexo sem nenhum motivo em especial e murmurou alguma coisa qualquer. Naquele mesmo instante, algumas quadras dali, um alienígena andava disfarçado entre humanos. Estava voltando do trabalho.

Seu nome era 3924U20394OKALAKSPDAS´PDSAODSAPO, mas seu nome terráqueo era Betty. Ele preferia 3924U20394OKALAKSPDAS´PDSAODSAPO. Dizia aos terráqueos que esse era seu apelido, mas eles levavam isso como uma piada por algum motivo que não entendia. A verdade era que gostava de ser chamado pelo seu nome alienígena, era seu fetiche. Sentia um certo prazer sexual ao pensar que estava para ser descoberto pelos humanos. Sentia-se frequentemente sexualmente frustrado porque os humanos eram burros demais para perceber as pistas que deixava por aí. Queria ser descoberto mas não queria.

Não podia ser descoberto porque tinha uma missão. Percebeu que os humanos nunca descobririam os alienígenas entre eles porque não conseguiam usar bem a lógica ou qualquer forma de pensamento mais avançado. Estavam ocupados demais escolhendo as cores das roupas que passariam no ano-novo, que seria amanhã. Comprou uma camisa vermelha para a sua esposa sabendo que ela não gostaria da camisa. Não gostaria de qualquer coisa que ele comprasse então não tinha motivo para se esforçar, comprou a primeira que viu. Seus filhos gostariam da camisa verde porque eram feliz e alegres demais para ficarem tristes com presentes. Eles não sabiam que eram alienígenas. Os filhos provavelmente tinham percebido que tinha alguma coisa estranha crescendo onde não devia estar crescendo ou alguma coisa não crescendo onde deveria estar crescendo.

Pediu para que um conhecido que encontrou na calçada da rua vazia àquela hora da tarde, três, o carteiro Smiller, que entregasse esses presentes junto com a correspondência. A verdade é que Smiller não trabalhava mais como carteiro faz dois anos, mas as pessoas continuavam pedindo essas coisas e ele não conseguia dizer não, era uma pessoa que pensava muito nos outros e no sistema político corrupto daquela nação.

Ele não voltaria para casa naquela noite e nem nunca mais. Tinha chegado a hora e a data. Estava no lugar certo. Ligou para seus superiores do outro lado de uma galáxia muito distante e os avisou que era a hora. Sabiam que era a hora, mais ou menos, essa coisa de hora é muito diferente de um lugar pro outro, imagina de uma galáxia pra outra, né? Confirmada a hora, revelou-se em sua forma alienígena e algumas pessoas gritaram correndo da rua, derrubando as barracas e as sacolas de verdura de uma feira de comida verde que estava acontecendo ali perto.

— Chegou a hora. – Sua voz alienígena, sua verdadeira voz, não era tão amedrontadora quanto deveria ser. Não era muito amedrontadora sua aparência também. Era verde e tinha asas de borboleta nas suas costas. Era musculoso e flutuava por aí com elegância. Isso era apavorador para as senhoras que estavam indo comprar as verduras antes que a feirinha terminasse.

Uma nave alienígena chegou sem que fosse convidada por ninguém e ofuscou qualquer luz que conseguisse passar pelos arranha-céus e prédios do subúrbio. 3924U20394OKALAKSPDAS´PDSAODSAPO estava feliz e triste. Pensou que ser descoberto seria mais excitante, mas pareceu normal demais.

Muitas coisas aconteceram dois anos depois da invasão alienígena. Inclusive a chegada de um exército de máquinas que invadiram a invasão alienígena. A invasão alienígena já estava bem arrumada. Tinha sido formado um governo alienígena, estavam começando a explorar os recursos minerais, energéticos e biológicos da Terra. Fazendeiros alienígenas estavam feliz por poder plantar cana de açúcar na América do Sul e vender pra outros lugares da galáxia. Ganhariam muito dinheiro com isso.

Pouco depois de terem dividido o Brasil novamente em Capitanias Hereditárias o recém-formado governo alienígena foi invadido pelas máquinas vindas de um outro quadrado, de um outro universo, você sabe de quem são essas máquinas, não sabem? Ninguém mais que o Primeiro Cidadão, ou Shepard, porque foi ele que deu essa ordem e era só uma ordem usual. Destruir toda a vida em todos os universos era uma ordem bem comum e esse universo fazia parte do conjunto “todos os universos”.

Existe uma grande rocha, um grande geoide, maior do que qualquer geoide que você consegue imaginar. E nele tem uma casa bem grande também. Todo mundo nesse Sistema Solar gira ao redor desse geoide e dessa Casa Grande. Os alienígenas que moravam nesse Sistema Solar foram obliterados pelas máquinas invasoras, mas as máquinas não ousaram tocar nessa Casa, apesar de terem sentido que existia vida presente. Inteligente, inclusive.

Mestre do Universo estava adormecido faz uns anos até que alguém o acordou. Não se lembrava muito bem quem era ou o que estava fazendo, a primeira visão que teve foi aquele homem de óculos que parecia muito inteligente, acompanhado de um outro da mesma espécie de Mestre do Universo, vestido num design noir bem detetive.

As primeiras palavras que foram ouvidas por Mestre do Universo depois de acordar de seu longo mas não definitivo sono foram as seguintes.

— Olá, meu caro, eu sou o Doutor Mario, formado em muitas coisas na Universidade Quimio-quântica Temporal de Binglton. Mas você pode me chamar, se preferir meu caro, só de Mario mesmo. Eu tenho um recado pra você, meu caro. Você se chama Mestre do Universo, meu caro, porém acalme-se... Isso não significa que você tem o universo em suas mãos, meu caro. Na realidade, meu caro, esse universo em que você vive está sofrendo um ataque poderoso de uma ameaça externa, de outro universo. Não há nada que você possa fazer para destrui-los, mas você deve sobreviver, você deve conseguir levantar-se, isso eu tenho certeza, meu caro. Suponho que você consegue ouvir-me bem e entender o que eu falo, meu caro?

Mestre do Universo disse que sim, estava enjoado de tanto ouvir “meu caro” isso, “meu caro” aquilo. Estava se sentindo violentado de tantas informações recebidas em um pouco espaço de tempo.

— Onde estou? – perguntou, desnorteado.

— Está em alguma casa e algum lugar desse vasto mundo, meu caro. Não é aqui que você deve estar, meu caro. Se quiser continuar sobrevivendo até o dia que seu sistema vascular não funcione tão bem quanto em sua juventude, meu caro, é isso que eu recomendo que faça. Se quiser viver mesmo... Eu espero que... Eu espero que você me entenda aqui... O universo... Depende de você. Vários universos, meu caro, vários, várias vidas. Sua espécie foi extinta se não por você.

— Eu sou da sua espécie, mas sou de outro universo – revelou 1145. – Prazer, 1145. Por favor, respire e ouça atentamente o que o doutor tem a dizer. Ele não pode explicar muito bem porque tem pouco tempo. Se puder falar mais lentamente também, doutor, seria melhor. Não sei se ele consegue engolir tanta informação assim.

— Ok... meu caro. – Mario olhou para os cantos e olhou para o dispositivo portátil que carregava. Era uma edição única daquela mesma máquina do tempo que o outro Mario fajuto e falecido carregava, aquele Mario que era do mal e que morreu porque os leitores e o próprio autor estava cansado dele. Ele não tinha lugar na história, convenhamos. Tinha feito alterações naquele dispositivo para que não tivesse que apostar tanto na sorte.

— Eu não vou revelar muito, ok, meu caro? Você... Precisa ir para aquele lugar que você consegue ver bem pelo telescópio da janela de cima. Precisa encontrar um homem chamado Frota. Eu não sei onde ele está ou como encontrá-lo. Acredite, eu faria isso eu mesmo, meu caro, se não fosse a minha falta de tempo. É engraçado um viajante no tempo falar sobre falta de tempo, não é mesmo, meu caro? Mas não é tão fácil assim...

— Acalme-se também, doutor. – 1145 percebeu que Mario estava ansioso. Tinha percebido esse hábito de falar demais sem chegar a lugar nenhum que o Doutor tinha ao ficar nervoso. – Eu falo a próxima parte.

— Você precisa encontrar esse tal de Frota, ele é importante – enfatizou o detetive. – Depois, entregue-lhe essa fita de música. Ele vai saber o que fazer depois. Não ouça, ela só vai tocar uma vez por motivos pessoais dela mesma.

Mestre do Universo recebeu a fita e guardou-a no bolso esquerdo inferior do seu macacão confortável de astronauta.

— Temos algum tempo de sobra, perguntas...? – disse 1145, olhando pro relógio. Mario estava vidrado na tela digital do dispositivo, indicando alguns segundos.

Mestre do Universo não sabia o que perguntar, simplesmente levantou-se e foi até a janela de encontro com o telescópio. Terra. Sem mover seu corpo voltou para olhar os visitantes e pensou em perguntar alguma coisa, mas não sabia o que. O próximo passo era sair dali e chegar até a Terra, então perguntou:

— Como chego até lá?

— É só usar o mesmo foguete que você usou pra chegar até aqui, meu caro. Está estacionado na porta.

Molly sobreviveu esses duros anos quando quase toda a humanidade foi exterminada. Primeiramente escravizada, depois exterminada. Ele resistiu à invasão alienígena de uma forma bastante violenta de início. Seus poderes de Imperador Solar não eram o suficiente para conseguir derrotar uma invasão daquele tamanho então se escondeu com quem podia ajudar. Eram umas dezenas que se tornaram em poucos. Ele não via Frota desde o dia depois da invasão. Ele saiu pra comprar pão logo cedo, sem saber que o mundo estava acabando. Não voltou depois. Molly mesmo só soube que o mundo precisava ser salvo quando ficou impaciente demais pela demora de mais de uma hora de Frota e foi ele mesmo comprar pão e o jornal na banca da esquina. A invasão foi bastante silenciosa no primeiro dia. Depois começou o tiroteio, exércitos etc. essa parte que ninguém se importa porque qualquer resistência é inútil.

Em dois anos, quase vinte humanos, o grupo inicial, se reduziu à quase dez. Não era fácil conseguir se esconder dos alienígenas escravitas de monocultura. Ele tinha seus poderes, mas não conseguia proteger aquelas pessoas de tanta perseguição. Noite após noite lamentava a morte de cada um que tinha conseguido salvar inicialmente. Não tinha conseguido realmente salvá-los. Não tinha nada que podia fazer para ajudar aquelas pessoas.

Os alienígenas foram dizimados pelas máquinas, que eram piores. Não conseguia mais salvar ninguém. Estava com apenas alguns deles com ele.

Então um dia ele encontrou Frota. Um Frota de um outro universo, aquele que estamos mais acostumados. Salvou esse rapaz e depois teve seus últimos momentos numa tempestade de gelo em qualquer dimensão aleatória por aí, depois de se reunir com Don Ramon e Xupa de outro universo.

Antes disso Molly recebeu uma fita que deveria entregar para Frota, caso o encontrasse. Não entendeu muito bem o homem azul. Ele entregou a fita sem que Frota percebesse.

A Anciã também faz parte dessa história, se você consegue ainda se lembrar dessa personagem secundária, assim como o cadeirante que se jogou do Confins do Universo. Ele estava no Universo e ela acima de Shan Grila, que agora trabalhava pelo entretenimento dos outros dragões. Ela percebeu que não estava mais onde pensava que estava quando sentiu a rajada poderosa vindo da boca de Shan Grila. Ela estava cega demais para se importar com onde estava e deixou que as coisas a levasse. Ela se tornou um dragão e saiu voando por aí, o que não faz nenhum sentido como muitas coisas dessa história.

Mestre do Universo não soube nos seus restantes momentos de vida se a fita de música foi realmente entregue à Frota. Na verdade ele não viveu o suficiente para que esse momento acontecesse. Com sua roupa confortável de astronauta e com as mãos no bolso, sem ter ideia do que estava acontecendo e do que aconteceria, sentiu um estranho sentimento de conclusão. Que tinha feito o que devia fazer e o que devia fazer estava feito. Estava completa, sua vida.

Não soube responder quando um estranho armado naquele mundo morto e controlado por máquinas o abordou sobre Mario. Ele sabia quem era Mario, afirmou isso, mas não sabia onde estava. Morreu. O estranho não teve êxito em encontrar o Doutor futuramente, mas o Doutor estava brincando com os planos de Shepard. Shepard tinha preparado coisas especiais quando um problema como esse, como Mario, aparecesse. Mario estava fazendo muitas coisas para atrasar o Plano. E só conseguia fazer isso porque Caos e Ordem tinham morrido...

Logo depois de comer um cachorro-quente, nosso Frota usual percebeu que tinha algo estranho no bolso. Estava com o pênis ereto e percebeu que tinha um dispositivo pequeno no seu bolso incomodando seu pênis que estava crescendo. Era uma fita de música. Ele precisava de um tocador de fitas pra poder ouvi-la, seja lá o que fosse. Sem mais detalhes na narrativa, alguns símbolos estranhos começaram a sair da fita de música e ele entendeu algumas coisas que não conseguia entender. Entendeu a Vida.

Ainda assim, era o mesmo Frota quando pediu para que Molly pagasse seu cachorro-quente. Ele entendia agora a Vida, mas isso não mudava a sua vida. A Vida estava distante demais da sua vida para que a alterasse.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!