– Gahmyn,venha cá! Imediatamente!
Maven precisava ir à cadeira, pensou ela. Chegando no quarto, o velho segurava um pergaminho nas mãos.
–Por que me chamou? — disse ela ofegante, devido às escadas.
–Preciso de meus óculos. Deixei-os na mesa.
Gahmyn entregou-lhe os óculos. Curiosa, sentou-se na única cadeira do cômodo, e ficou observando-o ler. Quando fechou o pergaminho, perguntou-lhe:
–Quando você acha que haverá cenouras para meu jantar?
–Sinto-lhe dizer, senhor, mas não há cenouras no mercado há meses. Depois... Daquilo, não chega quase nada no mercado. Posso até procurar, mas duvido muito que ache uma.
–Pois bem. Milho?
Ela apenas balançou a cabeça, negativamente.
–Hm. Nem uma maçã?
–Talvez haja, mas terei que pedir a Linas. O senhor sabe que não me dou bem com Linas. Ele irá cobrar uma fortuna.
–Tudo bem. Sopa de arroz será suficiente por hoje. Novamente.
Gahmyn sabia que não estava satisfeito. Ela queria agradar-lhe, mas não tinham muito dinheiro. Preferia que sobrevivessem, do que morressem de fome por avidez. Aquela foi mais uma noite em que comeram observando o silencio da tempestade que caia aquela noite, naquele mesmo pequeno quarto. Depois de recolher a louça e lavá-la, oviu-se uma batida na porta. Quatro batidas, rápidas, fortes e, desesperadas.
Ao abrir, Aurion estava desmaiado no chão. Reparando em seu corpo ferido, Gahmyn tenta vagarosamente trazê-lo para dentro da casa. Não sabia o que havia lhe acontecido, mas certamente cuidaria dele até que acordasse. Tirou o que restava de sua camisa suja e rasgada, e limpou os cortes de Aurion. Ele tinha dois grandes e profundos cortes no peito, profundos, e tivera que derramar água quente para que não não infeccionase. Teve certa dificuldade para atar os ferimentos. Não achou que seria necessario tirar as calças do homem. Estavam suficientemente inteiras. Aurion também perdera certa quantia do couro cabeludo do lado esquerdo, e ela decidiu cortar-lhe o resto dos cabelos para que não ficasse desigual. Acho que já está mais apresentável, pensou ela ao acabar de passar um pano úmido pelo rosto. Tão solene com os olhos fechados, mas tão rude de olhos abertos. Mesmo assim não podia deixá-lo incosciente no meio da rua. Colocou uma manta por sobre ele e pegou outra para si. Sentou-se na parede oposta e dormira, facilmente, cansada.
Quando acordou, Aurion não estava mais aonde ela o havia deixado e a manta estava dobrada em seu lugar. Maven estava na segundo dos cinco degraus que a casa tinha e ela foi ajudá-lo.
–Você não apareceu quando chamei. Teve um bom descanso?
–Tive — ela não sabia se contava a ele sobre Aurion, mas achava que não devia esconer-lhe isso — Ontem depois do jantar, urion apareceu na porta incosciente e ferido. Cuidei dele o melhor que pude, mas não está mais aqui. Devia pelo menos ter ficado para o café e para agradecer. — contou ela, quase resmungando.
Aurion? Qual deles?
Havia três Aurions na pequena vila, e talvez tivesse mais um, mas o bebê ainda estva na barriga da mãe, podenso ainda ser uma Sajja.
–O filho de Mirka e Drei. Que trabalha na plantação dos Morron.
–Se a memória não me falha, ele veio aqui em companhia da mãe há algum tem atrás. Estou certo?
–Sim ele mesmo.
–Aurion Amargo. Devia aprender um pouco de educação antes de sair assim sem agradecer-lhe. Descobriu o que aconteceu com ele?
–Não descobri. Ele não acordou em nenhum momento. Tinha cortes principalmente no peito e alguns nas costas. E tive que cortar seu cabelo também. Pareceu-me que alguém os arrancou.
–Hoje você irá até a cidade e tentará descobrir. Mas não pergunte a ele. Ele provavelmente não vai lhe dizer.
–Eu irei.

E foi. Na tarde daquele mesmo dia ela já havia passado por meia dúzia de casas e perguntado a todos os conhecidos e não conhecidos por quais passava na rua. Conversava e depois os perguntava se alguma coisa havia acontecido na vila noite passada. As respostas que lhe eram dadas eram sempre parecidas:

– Não. Acho que não. Nada de meu conhecimento. Nada que me envolva.

Ela não queria mencionar diretamente Aurion em sua pergunta, mas sua vontade era ainda menor de ir falar com Aurion Amargo.
Numa vila como a qual Gahmyn morava, conhecer os idosos, os adultos, as crianças e até aqueles que estavam por vir não era muito difícil. Se alguma coisa tivesse acontecido de relevante, em poucas horas era esperado que todos já soubessem. Mas esse não era o caso e por tanto, ela teria que se contentar com o que descobrira, o que equivalia nem mais, nem menos que nada.

O sol já havia se posto quando desistiu de perguntar às pessoas. Ela tinha quase certeza que conversara com quase todos os seres com a habilidade de falar daquela vila. Ainda teria que preparar o jantar para Maven, então passou no mercado, comprou uma ameixa para deixá-lo alegre e voltou para casa.

Depois do não tão satisfatório jantar,Gahmyn teve vontade de visitar seu sobrinho. Mahhym, agora com cinco anos ficaria feliz ao vê-la, disso tinha certeza, mas a mãe nem tanto. Mesmo assim, colocou uma capa de chuva debaixo do braço e saiu. A lua já estava alto no céu, a brisa fria e a rua vazia. Grande parte das pessoas se recolhia ao cair da noite. Os perigos que as noites ofereciam se tornaram mais ameaçadores com os acontecimentos recentes.

Como esperado, Vrita não ficara muito contente com a visita. Abriu a porta e logo botou uma carranca na cara.

– O que faz aqui?

– Vim visitar o meu sobrinho, se me permitir vê-lo.

Ela olhou para dentro da casa.

– Entre, mas não ficará muito. Ele já deveria estar dormindo.

Mas não estava. Gahmyn estava sentado na pequena sala brincando com um boneco de palha coxo.

– Olá Mahhi! Lembra-se da tia? – o pequeno menino olhou para cima e ao ver a moça, abriu um sorriso de iluminar a noite de qualquer um e veio correndo para abraçá-la.

– Por que não veio antes, tia?

– Eu tinha que cuidar do vovô, e ele esteve bastante ocupado esta semana.

– Ocupado com o que? – queixou-se Vrita. A mulher se tornara uma pessoa triste e agora não se importava com nada além do filho. Não travava ninguém propriamente e era descuidada até com si própria. Após a perda do marido, toda sua bela e jovialidade esvaiu-se, assim como sua felicidade e seus bons modos — A única coisa que aquele velho tem que fazer é falar...

– Com o final desta lua, as pessoas começam a se preocupar com o que farão. Não é em vão que o fazem. Maven os dá bons conselhos e consegue dar esperança àqueles que a perderam.

– “Case-se e terás uma vida que a contente”. Está aí um ótimo conselho. – disse ela sarcasticamente.

– E não a contentou? Não foi feliz?! – Ela tentou manter a calma – Marlyn viveu seus últimos anos para lhe fazer feliz. E conseguiu, não foi? – uma lágrima escorreu de seus olhos – Ele... Ele queria que você tivesse tudo que desejasse, trabalhava duramente. Eu via o... o quanto vocês se divertiam juntos. Vocês sorriam! Eu sei que sim! – já não se segurava mais. As lágrimas escorriam livremente – Não foi culpa dele! Ele não morreu por que quis. Ele queria continuar aqui, pra construir uma vida, uma família com você! E você... você...

– Chega, menina! Não quero ouvir seus lamentos. Acho que você deveria voltar para casa. Já. – A mãe pegou Mahhym no colo e o levou para o quarto.

Gahmyn saiu, e sentiu no rosto pequenas gotas que caiam do céu. Ela não queria voltar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.