Uma História Nada Perfeita.
11 Capítulo 13
Notas iniciais
Me arrependo de ter acordado. Péssimo dia.
Enquanto dormia sonhei algumas coisas estranhas, minha mãe me falava para confiar somente em mim, e em mais ninguém. Seria isso um aviso?
Enfim, levantei, olhei o relógio e marcava 8:10. Já havia perdido duas aulas, não faria sentido chegar na terceira aula. Então fiz minhas higienes e desci para o café.
—Bom dia bela adormecida —Andressa disse, do canto da sala olhando Fê brincar no quintal.
—Ah Dê, to exausta.
—Que isso mulher, você acabou de acordar!
—Não exausta fisicamente, e sim psicológicamente sabe? Minha tia me disse umas coisas ontem sobre meus pais, e... —Parei por um instante, lembrei do aviso de minha mãe em meu sonho —Enfim, deixa pra lá. Cadê minha tia?
—Ela saiu, disse que ia fazer umas compras.
—Hum...
—O que sua tia disse?
—Ah, sobre... Hum... O cemitério aonde minha mãe está. —Foi a primeira coisa que pensei.
—Puts, entendi... Lu, que tal nós sairmos hoje? Sei lá, você faltou e tal, seu namoradinho não pode "atrapalhar" ... Vamos no centro!?
— hahaha, ok Dê... Só que temos que voltar na hora que bater o sinal do colégio, quero passar lá e buscar o Pablo, preciso contar uma coisa pra ele.
Terminei de tomar meu café da manhã e depois fui tomar banho e me arrumar. Não parei de pensar naquele sonho... Eu confio na Andressa, mas fiquei abalada. Sempre fui de sonhar, mas nunca sonhei com a minha mãe, e ainda menos com ela me dando um "aviso".
O passeio com a Dê foi ótimo, fomos em lojas, praças, bares, e por fim achei que já devíamos voltar para casa, daqui a pouco o sinal bateria.
Não quis vir pelo caminho mais longo, preferi ir pelo que dava na parte de trás da escola. Era com certeza o mais perigoso, porém se eu quisesse chegar à tempo de falar com Pablo deveria ir por lá.
O caminho mais curto era apelidado carinhosamente de "caminho da perdição" pelos moradores do bairro, apelido melhor só se fosse "Atalho da descórdia" porque né, era tensa a coisa. Havia de tudo, bêbados, malucos falando sozinhos, moradores de rua vasculhando os lixos à procura de comida, e principalmente drogados. Eu sentia um pouco de repulsa misturado com receio, mas Dê estava muito estranha, só olhava pro chão como se estivesse se controlando.
—Luna —Ela sussurrou.
—Oi...
—Preciso te contar uma coisa, urgente!
—Ãhn? Mas tipo, tem que ser agora? Quanto mais rápido fomos embora melhor.
—Não cara, é sério. —Ela parou na minha frente, me impedindo de andar.
—Andressa, olha, não sei o que é, mas fala depois! Agora vamos embora logo daqui. —Falei sussurrando e virando ela para continuar andando.
—Puta merda, vem aqui!
Dê me puxou com força para trás de uma caçamba de lixo que estava na calçada.
—Eu... Eu preciso de pó. —Dê disse.
—O quê!? Você tá de brincadeira, não é possível.
—Não, não to. Há uns meses eu não uso, mas vendo isso tudo aqui, tantos tipos de droga… EU NÃO CONSIGO CONTROLAR! PELO AMOR DE DEUS, ME DÁ 5 REAIS!
—VOCÊ TA MALUCA!? Eu não vou alimentar seu vício, vamos embora daqui —Falei e puxei ela pelo braço.
Dê se debatia, implorava por dinheiro, gritava. Mas mesmo assim resisti, puxei ela por uns 500 metros até sairmos na rua da escola. Subi um pouco a rua, e percebi que Dê chorava, mas não lutava mais para se soltar.
—Andressa... Você ta bem?
—Eu falhei! Não acredito, falhei! Sou uma inútil, não consigo resistir… —Ela disse e chorava mais ainda.
—Dê, olha pra mim. —Falei e levantei sua cabeça. —Você não é uma inútil, você é uma vitoriosa! Hum, tu poderia ter pegado minha carteira e sair correndo, ou me bater até eu entregar o dinheiro. Mas você fez isso? Não. Então enxuga essas lágrimas, e vamos buscar o Pablo... Tá pertinho da escola, só terminar a subida. Quando voltarmos para casa você me explica direito isso tudo ok? Olha só, estamos atrasadas cinco minutos. —Falei e sorri, e ela retribuiu o sorriso.
Continuamos subindo, até que na parte de trás da escola vi um garoto... Era Pablo. Mas o que ele estava fazendo ali atrás? Uma pessoa surgiu... Eu não pude acreditar, era a Lívia! Fiquei aonde estava, dava para ouvir a conversa.
—E a Lunática?
—Hum... O que tem ela?
—Como vocês estão?
—Me sinto mal, não pensei que ela fosse de fazer essas coisas... Confiei nela, e ela faz isso! —Então Lívia deu um beijo demorado em Pablo, assim que me percebeu ali e então impediu ele continuar a falar.
Eu não acreditei… Pablo... Como... Como pôde!? Fiquei ali, sem reação alguma, não sabia o que fazer, minha vontade era pular no pescoço dele e matar aquele desgraçado!
De repente Andressa me puxou, com uma cara de piedade, me fez descer a rua em silêncio. Se descêssemos a rua e virássemos à direita, caminharíamos em direção às ruas paralelas à minha. Mas se virássemos à esquerda estaríamos dentro do caminho da perdição. Dê com muito esforço tentou ignorar o cheiro de droga, e virou à direita me levando para casa. Fiquei quieta e perplexa o caminho inteiro, e em casa também, até que Dê resolveu falar comigo.
—Você desconfiava?
Não respondi, estava com o pensamento longe demais.
—Ah, ok, não precisa responder.
—Desculpa, não tava prestando atenção.
—Entendo... Você desconfiava?
—Não. Olha, desculpa, mas você se importa de me deixar pensar um pouco? Preciso por meus pensamentos no lugar...
—Claro que não! Sem problemas... Mas Luna, você percebeu qu...
Sai, nem ouvi ela terminar de falar. Fui direto para o quintal, aonde o Fêfe ainda estava, desde que acordei. Me arrependo de ter posto o apelido daquele ridículo no meu cachorro.
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