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Pov. Nessie

Morta. É assim que me sinto. Não tem como definir a dor dentro de mim. Ela simplesmente me tomou por inteiro. Não finjo que está tudo bem como fazia antes. Simplesmente joguei a toalha. Choro todas as noites deitada em minha cama. Agora, tão vazia sem a presença de Jacob. Parei de dormir no quarto dele todas as noites. Não quero que ele me ouça chorar. Se é que ouve.

Todos os dias é a mesma rotina. Eu acordo, coloco qualquer roupa, e vou para o quarto de Jacob. Comer, andar, respirar... Faço tudo automaticamente. Como se não tivesse mais um motivo pra viver. Como se não fosse eu. Sinto-me um fantasma andando dentro de casa. Não falo mais com ninguém, nem mesmo com Jacob. Eu só sento ao seu lado, seguro sua mão, faço carinhos em seu rosto... Sempre desejando que ele volte. Só converso com ele em silencio, através de meu dom. Tentando que por algum milagre, ele me responda apertando minha mão... Ou fazendo qualquer gesto. Só queria saber se ele realmente está ali.

Se eu tenho esperança? Sim, eu tenho. Mas também sou realista. Aceitei. A vida não é justa, mas é possível seguir em frente. Com o tempo a dor... Diminui. Não desaparece completamente, mas não é tão massacrante. Pra mim, a dor permanece. Mas aprendi a conviver com ela.

Talvez Jake nunca acorde. Talvez tudo esteja cada vez mais destruído pra mim. Talvez eu pare de respirar a qualquer segundo. Chego até pensar que Jake está morto. Afinal, não é como se ele estivesse falando, sorrindo, se movimentando. Ele só fica ali. Parado. Inerte. Como se só o corpo estivesse naquela cama. Mas a alma estivesse vagando por aí. Procurando uma saída talvez. Ou simplesmente se escondendo, aceitando, assim como eu, que nunca irá voltar.

Parei de fazer a maioria das coisas que fazia antes. Não faço mais nada. Tudo me faz lembrar o Jake. Ele sempre esteve em todos os momentos de minha vida. Iluminava todos os dias com sua voz rouca, seu sorriso, seu perfume... Parece que tudo isso não passa apenas de memórias distantes e borradas por lagrimas. Aliás, parece que tudo não passou de um bom sonho. E que a realidade estava lá pra me derrubar.

Lembro-me de um dia que eu disse algo que provavelmente sempre foi verdade. Tudo o que vivi... Eu... Jake... Nós... Tudo isso não passou de um sonho. E com um movimento rasteiro, alguém me acordou. E esse alguém me acordou me tirando a pessoa mais preciosa que eu tinha na vida. Jacob.

Eu até tinha tomado a decisão de fingir de que todas as coisas que até então haviam entrado na minha mente não eram mais verdadeiras. Só as doces ilusões de meus sonhos. Afinal, faz uma semana que sonhei com Jake. E foi muito real. Ele disse que ia voltar pra mim. Na hora, acreditei. Até aquele doce sonho ser interrompido pela imagem de Jake sendo atacado. Não conseguia ver o rosto da criatura. Mas vi Jake sendo machucado. E desde o sonho, tenho até medo de dormir de vez em quando. Não aguentaria ver a imagem de Jake sendo literalmente espancado, sem acordar gritando e suando frio.

Respirei fundo. Nem percebi e já estava chorando. Todos os dias eram assim. Eu aguentava o dia todo, sem derramar uma lagrima. Não queria que minha família me visse chorando. Nem que Jake me ouvisse chorando. Mas às vezes acontece. As lagrimas simplesmente saem sem nem eu mesma perceber. Saem como se fosse uma coisa do dia a dia. E no momento, chorar é uma das coisas que mais faço. Eu choro pra tentar lavar a alma. Não sei se é isso ao certo. Mas chorar me ajuda um pouco. Às vezes eu olhava o céu, e me perguntava se tinha alguém no mesmo estado que eu. Que havia perdido um grande amor. Mas não aguento, e choro mais ainda.

Acho que a fé é o tanto de dor que a gente pode suportar. Eu acredito que TALVEZ um dia Jake acorde, eu tenho fé de tudo voltar a ser como era antes. De sentir os beijos, e os toques dele novamente. Mas cada pensamento me faz sentir mais dor. E o pior é que eu gosto dessa dor. Faz com que uma parte bem pequena de mim acredite que tudo foi real. Eu trocaria todas as memórias dos beijos de Jacob, por um só beijo. Queria só sentir novamente seus lábios nos meus. Suas mãos nas minhas. Seus dedos entrelaçados com os meus.

Acho até estranho achar alguém tão importante que, sem ela, você se sente como um nada. Ninguém nunca vai entender como dói. Me sinto sem esperança de vez em quando, como se nada pudesse me salvar. E então, eu até desejo ter todas aquelas coisas ruins de volta, pra que assim, eu pudesse ter as boas.

Se enfrentar os Volturi novamente fosse a condição pra ter meu Jake de volta, eu enfrentava. E de bom grado. Faria qualquer coisa pra tê-lo de novo ao meu lado. Porque a saudade dele aumenta e fica sempre nas lembranças, e em algumas fotos, que no momento, não tenho coragem de olhar. Mas as memórias dele, em parte, é uma das coisas que me sustentam e torna tudo o que vivi verdadeiro. E há tantas outras coisas. Quando fecho os olhos, vejo o rosto dele, quando caminho, é quase como se conseguisse sentir sua mão na minha. Essas coisas ainda são reais pra mim, mas antes elas traziam conforto. Agora trazem dor. Uma dor que virou minha amiga. Companheira de todos os dias.

Antes eu possuía uma arma, um escudo, uma armadura, um disfarce. Eu possuía um sorriso. Mas agora que eu aprendi a viver com a dor, com a falta, com a perda, com a ausência... Eu não ligo mais pra nada. A única coisa que me importa é a volta de Jacob.

***

Fiquei sentada na sacada de casa, olhando a floresta. Lagrimas saíam involuntariamente, lembrando-me da partida de Jacob. Quem diria não é? Ele disse um Até logo pra mim. E aquilo soou como um Adeus. A última imagem que tenho dele, foi ele correndo pela floresta com sua bermuda surrada, e uma camisa preta.

Tinha uma época, logo depois da briga com minha mãe, que eu inutilmente fiquei com raiva do Jake. Se ao menos ele tivesse me escutado? Se ao menos tivesse ficado somente uma noite sem ir naquela maldita ronda, ele estaria aqui. E nesse momento, nós provavelmente iríamos estar nos beijando, conversando e sorrindo. Sorrir. Uma coisa que não faço a um bom tempo. Mas também não tenho motivo pra isso. Não tenho mais um motivo pra viver.

Ouvi passos atrás de mim, e suspirei. Não queria conversar com ninguém. Até queria, mas a dor me consumia, e não me lembro a ultima vez que falei uma única palavra.

– Oi baixinha. – Ouvi a voz animada de Seth. Continuei olhando pra floresta. Seth suspirou. – Não vai me responder não é? – Ele perguntou bufando. Dei de ombros. – Pelo jeito não. – Ele disse e se sentou ao meu lado. Me afastei um pouco. Não estava a fim de ser abraçada ou qualquer coisa do tipo. Só queria o Jake. – Como vão as coisas?

O olhei incrédula. Ele ainda vem me perguntar? Eu mereço. Seth me olhou assustado. Desde aquele fatídico dia, ninguém mais da matilha veio aqui, ou se veio, eu nem prestei atenção. Seth olhava assustado o meu rosto. Eu sabia que eu estava abatida. Não caçava mais. Só comia a comida humana que minha vó fazia, e comia obrigada. Se não fosse por isso, eu morreria de fome. Não tinha perdido peso, mas estava abatida. Eu sabia disso.

– Você está...

– Eu sei. – Falei sem vontade. Minha voz saiu falha e baixa.

– Não come mais, é? – Ele perguntou divertido. Nem respondi, o olhando seria. – Desculpe. – Ele disse sem jeito. Assenti. – Só o Jake te faz sorrir, não é mesmo? – Ele perguntou sorrindo abertamente. Seth sempre disse pra mim que achava o meu romance com Jacob, o mais lindo de todos. – Sei como é isso. – Ele disse. O olhei confusa. – Não. Eu não tive um imprinting. Mas eu conheci uma garota. Ela é muito legal. Estamos juntos faz um mês.

– Hum... – Exclamei sem vontade.

– Eu falei de você pra ela. Ela tem vontade de te conhecer.

– Não lhe aconselho a trazer alguém pra me conhecer nesse momento. – Falei olhando pra floresta.

– Eu sei. – Seth disse meio triste. – Só queria minha amiga de volta. – Ele disse olhando pra mim. Virei o rosto. Seth bufou. – Não pode ficar assim pra sempre, Nessie.

– Você ama essa garota? – Perguntei me referindo a sua nova namorada. Eu queria mudar de assunto. Só isso.

– Eu acho... Sei lá. – Ele disse desconcertado. – Como se sabe quando está se amando alguém? – Ele perguntou confuso. Suspirei. Acho que Seth foi a única pessoa com quem eu estou conversando nas ultimas semanas. É até estranho falar. Eu queria só falar o necessário, mas já que Seth insiste, tenho que responder não é mesmo? Minha família nem insiste. Quando eu respondo um não, eles já saem. Seth é o mais chato por ficar insistindo. Dá raiva. Eu só queria ficar um pouco sozinha.

– Não tem definição concreta, Seth. – Falei olhando o horizonte. Ele continuava me encarando. – É quando seu coração dispara só de pensar na pessoa. Quando ela te abraça, você sente como se uma corrente elétrica estivesse passando por você. Você presta atenção até no jeito como ela te olha, e fala seu nome. Repara no tom de sua voz. Repara em seu perfume. – Eu falava tudo se lembrando de Jake. Como se ele ainda estivesse aqui. – Ri a toa quando se lembra da pessoa. Sempre quer andar mais devagar, só pra passar mais tempo ao lado dela. Lê e relê todas as mensagens que ela te mandou. Quando o telefone toca, você já pensa que é ela. E quando desliga, já sente falta. Quer agradar sempre a pessoa. – Falei e comecei a sentir lagrimas querendo vir à tona. – Quando ouve a pessoa falar com você, você automaticamente sorri. Começa a se perguntar toda a hora, o que será que a pessoa está fazendo. – Falei com a voz embargada. Virei o rosto. Não queria que ele me visse chorar. – Não sei... Acho que você simplesmente sente tudo isso e mais um pouco. E você sempre vai querer ver a pessoa feliz, Seth. Não importa se pra isso, a sua felicidade tenha que ficar em segundo plano.

– Desculpa. – Seth disse triste.

– O que? – Perguntei o olhando confusa.

– Não queria te fazer chorar. – Ele disse meio sem jeito.

– Ultimamente é a coisa que mais faço. – Falei dando de ombros. Seth suspirou. – Ta tudo bem, Seth.

– Tudo bem... – Ele disse desconcertado. – Acho que não estou amando ninguém agora no momento. – Ele disse pensativo. –As únicas mulheres que eu gosto mesmo são da minha família. Então... Não rola.

– É... – Falei limpando minhas lagrimas com a manga da blusa. – Um dia você vai encontrar alguém Seth.

– Dificilmente eu terei um imprinting. – Ele disse com obviedade.

– Não estou falando de imprinting. – Falei sem vontade. – Não é questão de ter imprinting ou não, é questão de sentir algo por alguém. – Falei lembrando-se da vez em que meu amado disse isso. Seth se surpreendeu com minha fala. – Você não precisa de imprinting pra ser feliz Seth. Desde que você a ame, você será feliz. E você só fala isso porque é um lobo.

– O que?

– Pensa Seth. Se você fosse um humano, e nem soubesse da existência do nosso mundo, você ia saber do imprinting? – Perguntei sem paciência.

– Não.

– Então. – Exclamei dando de ombros. – Não se baseia num imprinting pra poder dizer se ama a pessoa ou não.

– É verdade. – Seth disse pensativo. – Nossa Nessie!

– O que?

– Você ta conversando comigo! – Ele disse animado.

– Tanto faz. – Falei dando de ombros. Seth suspirou.

– Por que quando as coisas estão melhores, você desiste? – Quando ele perguntou aquilo, perdi minhas armaduras, e comecei a chorar. Cobri meu rosto tentando me esconder. Seth se aproximou, mas não me abraçou. O agradeci mentalmente por isso. Não sei por que, mas mesmo estando triste, não quero contato físico com outras pessoas.

– Eu desisto porque me sinto culpada de ficar melhor com algo, justo quando Jake está numa maca. – Respondi chorando. Seth abaixou a cabeça triste.

– Eu vou embora. – Ele disse se levantando. – Desculpe por isso.

– Ta tudo bem. – Respondi soluçando.

– Não, não está. E o problema não é nem o que eu falei. – Ele disse serio. – Só acho que passou tempo demais, Renesmee. Não pode ficar assim pra sempre. – Ele disse e saiu. Chorei mais e mais.

Não sabia o que fazer. De um lado, nunca vou me acostumar a viver num mundo onde Jake não está, e do outro, estou cada vez mais me afastando de minha família. Mas eu não consigo voltar ao normal. Eu só preciso de uma coisa. Um alguém. Jacob. E nada mudará isso.