Não sabemos de onde viemos; não sabemos quem nos enviou; sequer sabemos se um dia existimos. Cada pessoa considerada ‘merecedora’ é presenteada com um anjo-da-guarda. O nosso objetivo é proteger e ajudar o nosso protegido no que ele precisar.

Eu era apenas um anjo novato e estava em minha terceira missão. E, pela primeira vez, meu protegido era um adolescente. No momento que saímos do jardim, onde todos os anjos se reúnem, até o primeiro contato visual com a pessoa, um anjo não sabe nada sobre o mesmo. Até porque indiferente de como o indivíduo seja é nossa obrigação ajuda-lo.

A única coisa que eu sabia sobre a missão era que eu me passaria por um estudante chamado Jean, também sabia sobre minha história de vida e que eu morava a caminho da escola, e, por isso, encontraria meu protegido no caminho.

Normalmente um anjo consegue perceber seu protegido só de olhar, outras vezes ele consegue sentir à distância. Quanto mais fácil um anjo o reconhece, mais fácil será a relação entre os dois. Mas há casos que ele não é reconhecido. Quando isso acontece, o anjo fracassa na missão e ninguém sabe o que acontece com ele.

Enquanto eu observava da janela aquela rua movimentada e cheia de alunos da escola, ia me dando um frio na barriga — o medo de não o reconhecer era grande. Como estava em um corpo humano, eu também possuía sentimentos humanos. O que poderia ser considerado algo muito perigoso.

Já estava quase na hora da aula e o fluxo de pessoas passando ia diminuindo. Havia um grupo de três garotas passando, mas nada de sentir o protegido. Um rapaz de óculos andando, e ainda não era ele. Um rapaz sério ia passando e... finalmente! Tomei um susto, mas não era ele.

Quero dizer, não era somente ele. Esse era um dos casos raros onde se tem dois protegidos. Ele e uma das três garotas — a de cabelos castanhos eram meus protegidos. Então tudo veio em minha mente: o garoto era Kane Goldenberg e a garota era Ariana Fernandez, e minha missão era juntá-los.

Bom, a missão parecia fácil. Seria, se o principal obstáculo não fosse eu mesmo.

Chegando à escola logo vi que os dois não se conheciam de vista e eram de classes diferentes. Isso dificultava um pouco as coisas. Então percebi que ela não tinha amigos do sexo masculinos. ‘Não pode ficar pior do que isso’, eu pensava.

Observei-a durante a aula inteira, cada detalhe... Seus olhos eram azuis-claros e sua pele bem branca, provavelmente era descendente de europeu, apesar de que estávamos na América do Norte. Ela tinha a mania de enrolar a ponta de seus cabelos lisos como o dedo indicador quando estava feliz. Batia a caneta centena de vezes na mesa enquanto estava nervosa. Ela ajudava todos os colegas de classe com problema.

Ariana era meiga, seu sorriso era lindo, seu carisma tomou conta de mim, e quando menos percebi... Tinha me esquecido da missão. Meu coração batia rapidamente enquanto a olhava, um frio no estômago tomou conta de mim — um frio diferente de qualquer outro que já havia sentido. Eu me sentia com vontade de abraça-la.

‘Porque uma criatura tão encantadora está sozinha?’, questionava a mim mesmo.

Quando me dei conta já era final da aula e ainda não tinha saído do lugar quanto à missão. Mas rapidamente recuperei o foco. Não podia deixar emoções humanas tomarem conta de mim! Eu precisava descobrir mais sobre ela e depois virar amigo de Kane e finalmente juntá-los.

Então foi no final da aula que resolvi falar com ela:

— Ei, Senhorita Fernandez! — chamei.

Aproximei-me com um pouco de timidez, mas para minha surpresa ela estava sorrindo. Fiquei alguns segundos (que pareciam uma eternidade) observando aquele sorriso. Era uma sensação melhor do que estar no jardim.

— A Senhorita se saiu muito bem respondendo aquelas perguntas. — continuei.

— Não precisa ser tão formal. — respondeu com uma voz fina e delicada que me fez ter calafrios confortantes — Mesmo assim muito obrigada.

Pela primeira vez desejei ser um humano. Eu a queria pra mim. Mas a missão... ‘Não posso abandonar a missão!’, gritava mentalmente comigo mesmo.

— Mas certamente você não veio só me elogiar, não é mesmo? — sua voz veio como um sussurro junto à brisa do fim de tarde. Isso me fez ter os calafrios confortantes novamente.

— Ah, sim... A minha casa também fica para lá, gostaria de lhe fazer companhia. — respondi meio sem-jeito.

— Será um prazer. — eu explodi de alegria — Por acaso Lilian e Clarice estão fazendo aulas-extras hoje, então você pode me fazer companhia.

Segundos que demoravam uma eternidade, um sentimento que explodia dentro de mim. O que mais eu poderia desejar?

— Então Jean, você veio de outra cidade, não é? — perguntou ela.

— Sim. Vim de Nova Iorque. — respondi.

— Porque veio a Leesburg, uma cidade tão pequena? — seu olhar de interesse me fez dar saltos mortais por dentro.

— Bem, eu moro sozinho e a pensão dos meus pais não dá para me sustentar em uma cidade tão grande quanto Nova Iorque.

Estava muito feliz com a conversa, mas muitas vezes minha consciência pesava.

‘A missão’, dizia a mim mesmo, ‘não fuja da missão’. ‘Vocês não podem ficar juntos’. ‘Descubra algo que possa que lhe ajudar com a missão’. ‘Pergunte a ela algo útil’. ‘Pergunte a ela’. ‘Pergunte!’

— Que tipo de homem que você gosta? — acabei deixando escapar essa pergunta, que acabou soando com brutalidade.

Pela primeira vez vi algo que não me agradou nela. Ela tinha um olhar de quem estava horrorizada. Será que a pergunta foi tão ruim assim? A resposta veio imediatamente.

— Então é isso? Quando pensei que tinha encontrado um homem decente, tudo o que ele quer é isso... — sua voz parecia fria.

— Ei, desculp...

— Nunca mais se aproxime de mim! — ordenou. Logo em seguida saiu correndo.

Eu, com certeza, deveria imaginar que havia algo por trás dela não ter amigos homens. Mas isso sequer passou pela minha cabeça. Fiz essa pergunta tão de repente que até a garota mais preparada teria medo. ‘Sou um idiota’, pensava.

Se ela me odiasse, a missão acabaria e eu seria punido. Eu não sabia o que era a punição, mas não era algo bom, isso eu tinha certeza.

Então continuei caminhando para minha casa. Estava com muita fome, pois, em um corpo humano eu tenho necessidades biológicas. É criado o corpo no momento em que descemos, então já devia fazer quinze horas que não comia.

Quando tudo parecia estar perdido, eis que uma luz cai sobre mim: aquela figura estava embaixo de uma árvore, e estava me esperando.

— Desculpe por isso. — pediu Ariana, toda envergonhada.

— A culpa foi minh... — tentei responder.

— Não. Eu tenho um trauma quanto a esse tipo de pergunta, então me descontrolei. Mesmo percebendo que você falou aquilo por impulso, não consegui me segurar. Perdoe-me.

Eu não sabia o que responder então, simplesmente, sacudi a cabeça positivamente.

— Vamos começar do zero amanhã... — dizendo isso, mais uma vez ela saiu correndo.

Eu fiquei ali admirando o céu estrelado daquela noite. Porém eu não podia mais voltar atrás, eu já estava cometendo o pecado de amá-la. Então me veio à dúvida: entregar a pessoa que eu amo para outro ou tentar viver com ela e receber a punição dos céus?

Notas finais
Espero que alguém goste.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!