Uma Flecha para Nêmesis
1 Único - A deusa e a ninfa.
Notas iniciais
Nêmesis sabia o que a flecha significava.
Desceu o olhar ainda atônito para a haste projetando-se diretamente de seu peito. Inicialmente, a surpresa não lhe arrancou mais do que um suspiro estarrecido. Então, a realidade caiu sobre ela, e era arrebatadora. Por um curto instante, que arrastou-se através dela como eras, apenas encarou o objeto em seu peito. Pela primeira vez, suas mãos tremeram. Não de medo, não, nunca de medo. Suas mãos tremiam de raiva. Nêmesis as fechou em punhos, porque mesmo sendo a deusa da vingança e conhecendo de perto a raiva, não gostava de ser traída pelo próprio corpo agindo sem seu controle, mesmo que daquela forma inofensiva.
Nêmesis sabia o que a flecha significava.
Mas nunca esperou ser um de seus alvos.
Num ímpeto enraivecido, inadvertidamente ergueu os olhos, procurando seu algoz.
— Eros! – gritou. – Como ousa?!
Não o encontrou sob os galhos do bosque. O traiçoeiro era um arqueiro habilidoso, não precisava estar perto de suas vítimas, e mesmo que estivesse, frequentemente ocultava-se, invisível. A raiva impulsionou seus pés, e ela continuou procurando por ele, mesmo com a certeza de que era inútil e que se passava por tola. Sequer pensou em retirar a flecha, evitava tocá-la como se fosse banhada em veneno. De certa forma, talvez fosse.
A raiva apenas cresceu ao pensar que ele poderia mesmo ter disparado a flecha do alto do Olimpo, rindo com a mãe e outras companhias extravagantes, mas mesmo assim, não parou. Não encontrou Eros, como sabia que não encontraria. Mas encontrou outra pessoa. Uma ninfa ajoelhada à beira de um lago, e ela estava chorando.
Nêmesis sentiu o corpo se curvar. No momento seguinte, sentiu a grama verde sob suas mãos banhada pelo brilho dourado do sol, mas não conseguiu apreciar nenhuma dessas coisas. Algo queimava dolorosamente dentro dela, uma dor tão forte que a derrubara. Ela, a própria vingança, que se achava imparável, observou o icor dourado dos deuses escorrer pelo corpo da flecha e rorejar sobre a grama. Não imaginou que doesse tanto, mas talvez fosse a consequência de não ter sido feita para aquelas flechas. Nêmesis não era feita para o amor. Algo violento a acometia, e não sabia o que era, porque nunca havia sentido. Agarrou-se aos sentimentos familiares que se misturavam à novidade. Ainda trazia no peito a profunda mágoa de Eros, e agora, daquela ninfa que chorava diante do lago, de costas para ela. O corpo frágil e delicado tremia com o pranto, e ninguém imaginaria que a ninfa possuía tanto poder. Nem ela mesma, afinal, pôs de joelhos uma deusa imortal e sequer sabia do que tinha feito. Nêmesis quis odiá-la. Manteve o olhar baixo, na grama que bebia de seu sangue dourado, e alguma voz soou em seu íntimo.
Levante o rosto, Nêmesis. Ao menos conheça o rosto de quem fez isso com você.
Não sabia se a voz era sua, ou Eros sussurrando em sua mente, ainda querendo se divertir. Balançou a cabeça, tentando espantar seus pensamentos. Levantaria dali e iria embora. Ela não era feita para isso, e essa dor que nunca sentira antes a assustava. As mãos ainda tremiam, mas não tinha mais certeza se era de raiva. Nunca havia sentido medo antes, e nem entendia o que exatamente temia.
A voz soou novamente, um tanto ácida, e soube que era ela mesma. Eros não estava em sua mente.
Levante o rosto, Nêmesis. Se ela conseguiu lhe derrubar, merece ser vista e conhecida. Lembrada e enaltecida.
Aceitando a ordem como uma espécie de autopunição, e sentindo a dor se esvair e o corpo voltar a lhe obedecer, ergueu o olhar.
Nêmesis se aproximou, lentamente. Ocultando-se como Eros tanto fazia, e a ninfa nem mesmo ouviu seus passos ou percebeu quando se sentou ao seu lado. Geralmente, jovens garotas choravam por desilusões pueris e corações partidos, mas havia algo mais profundo no pranto dela, algo quase como desespero. Mais profundo, mais antigo. Por ser quem era, Nêmesis soube que ela já tinha passado por muita coisa. Sentiu algo deslizar por seu rosto e se surpreendeu com as lágrimas. A deusa nunca havia chorado antes, e mesmo com as lágrimas descendo suavemente, seu rosto expressava apenas confusão. Então, entendeu. Eram as lágrimas dela. Nêmesis estava chorando as lágrimas de outra pessoa. De alguém que nem conhecia, mas por algum motivo, a dor daquela garota ressoava nela, por todo o seu corpo, e por um momento se perguntou que monstro a teria machucado tanto.
Estava à mercê de uma garota cujo rosto ainda não conhecia.
Nêmesis a encarou, curiosa, e em todo seu orgulho, procurou apenas defeitos naquela beleza, que mesmo chorando, não havia sido maculada. Ela era bela. Mas Nêmesis preferiu mentir para si mesma.
— É só isso então, Eros? – E não fez questão de ocultar sua voz, o que assustou a garota, que pensava estar sozinha. – Não achei nada demais.
— Nada demais… – murmurou ela, num tom frágil. O olhar ainda perdido sobre o lago. – Nada demais…
Nêmesis revirou os olhos, mas, até para si mesma, o ato pareceu ensaiado.
— Ah, entendi, eu sei quem é você…
A ninfa lentamente se virou, encarando-a com raiva por ter sido interrompida por alguém que carregava na voz tanto desdém.
— Quem é você?! – repetiu o que Nêmesis dissera, mas o tom era acusatório.
Aquilo incomodou Nêmesis mais do que gostaria de admitir. O desconforto cada vez que ela repetia o que ouvia. A ninfa era Eco, amaldiçoada por Hera para que apenas pudesse repetir o que ouvia, sempre as últimas palavras em uma conversa. Nunca antes teve vontade de se voltar contra a rainha dos deuses. Mas abriu um sorriso seco ao pensar em que belo desafio teria, caso se permitisse se afeiçoar a essa garota. “Aonde esse caminho me levaria?”
E, bem, não era disso que Nêmesis gostava? Se pudesse ver diante de si o seu próprio fim, apenas por mirar alto demais, que escolha tomaria?
— Eco… – Diferente de antes, sua voz saiu com uma suavidade que desconhecia. – Eco, diga-me quem lhe machucou. Confie em mim. Eu sou Nêmesis, a deusa da vingança.
— Vingança…? – Ela fechou os olhos, mas se impediu de voltar a chorar. Por um instante, apenas a observou, curiosa. Queria saber o que Eco faria com a própria dor, pois tinha a impressão de que eram parecidas. “Você suportará sozinha ou devolverá ao mundo um pouco do que o mundo lhe ofereceu?” Quando Eco abriu os olhos novamente, Nêmesis teve sua resposta. Ali estava o olhar de alguém que sabe que merece muito mais. Eco apontou para o outro lado do lago, onde um jovem caçador descansava. – Vingança!
Nêmesis observou a ninfa, e depois o rapaz. E soube o que ele fez, soube como a desprezou e como a machucou. “Nada demais.” Nêmesis se odiou por ter dito aquilo. Eco não estava repetindo, estava concordando. A garota já aguentara tanta coisa, e se sentia cada vez mais destruída. Pelos deuses, pelas outras ninfas, e por aquele rapaz, que, apesar de toda a mágoa em seu olhar, ela ainda desejava. O ferimento em seu peito ardeu um pouco mais forte. Como não tinha mais sentido em hesitar, Nêmesis arrancou a flecha em um movimento rápido, sentindo como se ela tivesse criado raízes dentro dela. Girou a flecha entre os dedos, perguntando-se como algo tão pequeno e insignificante podia lhe afetar dessa forma. A ninfa amara aquele rapaz. A ninfa amava aquele rapaz. Talvez, se Nêmesis procurasse o suficiente, poderia enxergar até alguma ternura sob aquela mágoa. Não procurou. Desviou o olhar para o caçador, pois não o machucaria se achasse que Eco ainda queria seu bem, e agora, que sabia sobre ele, era Nêmesis quem queria machucá-lo. Ninguém era obrigado a retribuir sentimento algum. Mas, no momento, achou o maior dos pecados que ele a tivesse tratado com tanto desprezo, brincando com suas emoções para no fim descartá-la daquela forma. Fazendo com que ela acreditasse que não era, de fato, nada demais para ninguém.
“Nós duas sabemos o que é amar sem ser retribuída. Por que ele deveria escapar de ter a mesma sina?”
Ocultou-se novamente, deixando Eco sozinha. Aproximou-se do rapaz, ainda girando a flecha entre os dedos. Será que Eros sabia a arma que havia lhe entregado? Será que tudo era por causa daquele rapaz, que também desprezava o deus do amor, negando todos os tesouros que ele colocou em seu caminho? Toda bela jovem que se apaixonara por ele fora cruelmente rechaçada.
— Narciso – chamou. Ele não a ouviu, porque Nêmesis falava com ele de outra forma. Não era vista ou ouvida, mas ele a sentia. – Narciso. Deixe-me lhe mostrar algo.
Narciso foi atraído à margem do lago. Era um tolo tão egocêntrico que nem mesmo viu Eco do outro lado, observando-o. Viu apenas o próprio reflexo no lago. Nêmesis o instigou a olhar mais de perto, ajoelhou-se ao lado dele, sussurrando-lhe palavras doces que o seduziam. Nêmesis olhou uma última vez para Eco, certificando-se de que era isso o que ela queria. Eco não desviou os olhos dele, sem dúvida ou hesitação em seu rosto, e Nêmesis sorriu. Eram parecidas.
Narciso não entendia o que acontecia. Ele se via sozinho, mas algo fazia seu coração se aquecer, como uma mão sobre a sua, e uma voz que expressava tanta doçura. Se não havia ninguém perto dele, devia ser o belo rapaz que o encarava nas águas do lago, e quando inclinou-se para observá-lo melhor, Nêmesis perfurou seu peito com a flecha de Eros. O sangue vermelho gotejou nas águas, agitando o lago que antes parecia um espelho. E Narciso nunca sentiu pânico maior do que aqueles momentos em que o reflexo desapareceu nas pequenas ondulações da água.
— Espere! Volte!
Nêmesis se afastou. Estava feito. O rapaz estava apaixonado pelo próprio reflexo, jamais seria retribuído nesse amor, e o perderia de vista toda vez que tentasse alcançá-lo. Se ninguém era digno de sua atenção, ele também não seria digno da própria companhia.
Enquanto voltava para Eco, perguntou-se o que acontecia quando um amor morria de forma tão miserável. Ainda tinha a flecha em mãos, e encarou Eco, pensativa. Por que Eros tinha colocado essa arma em suas mãos, se não para usá-la? Usou a flecha para castigar Narciso, mas podia usá-la para ajudar Eco, e a si mesma no processo.
“Que perigo… Achar que tenho o direito de decidir sobre isso.”
Nêmesis deixou a flecha afundar no lago. Por mais que tivesse desavenças com Eros, era o dever dele unir as pessoas, como o dever dela era puni-las. As coisas ficavam estranhas quando um tentava interferir nos deveres do outro. As punições de Eros sempre perdiam o foco e atingiam inocentes, como Dafne.
“Imagine a catástrofe que seria se eu tentasse interferir no amor?”
Sentou-se ao lado de Eco novamente, e ficaram em silêncio, observando o rapaz tentar conversar com o reflexo como um louco. Eco não podia dizer nada se não falassem com ela primeiro, mas Nêmesis não queria falar e submetê-la à maldição novamente. O que tinha para dizer podia ser sentido. E talvez Eco tenha entendido bem, pois olhou em sua direção com um olhar agradecido, e sorriu, como há muito tempo não fazia.
Nêmesis não estava acostumada a ser vista dessa forma. Sua presença não causava conforto. As pessoas a reconheciam, mesmo que não tivessem conhecimento de quem era, de alguma forma, sempre sabiam. Mas ali, sua presença trouxe calma ao coração de Eco.
Quando a ninfa sorriu, não foi dor que Nêmesis sentiu. Nêmesis percebeu que gostava de estar perto dela, gostava que Eco a quisesse por perto, e gostava do silêncio que era capaz de dizer tanto. Talvez Eco nunca lhe amasse como havia amado Narciso, mas isso não a assustava mais, deixara de ser importante. Nêmesis a amava o suficiente para se afastar, caso Eco assim quisesse. E apenas quando chegou a essa conclusão, percebendo que o que Eco desejava era tão importante quanto o que ela mesma queria, foi que viu Eros entre as árvores. Ele sorriu, satisfeito, erguendo uma flecha para que Nêmesis a visse. Cumprimentou-lhe rapidamente antes de voltar a desaparecer.
“Uma flecha para Eco, mas não para agora.”
Nêmesis entendeu a mensagem. Não era uma promessa, era uma possibilidade. Era muito cedo para Eco, cujo coração havia sido tão maltratado. Mas, um dia, Eco se apaixonaria novamente.
“Talvez por mim. Talvez não.”
A incerteza não a preocupou. Sendo por ela ou por outra pessoa, já era o bastante saber que o coração de Eco não teria marcas permanentes.
Notas finais
Espero que tenham gostado! ♥
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