Uma Família Feliz...
5 A espectadora
O quarto já estava pronto.
E Bella ainda não tinha completado cinco meses de gestação.
As paredes eram de um tom suave entre bege e rosa pálido. A poltrona de amamentação ficava ao lado da janela. O berço, montado com cuidado excessivo, tinha um móbile delicado girando lentamente sempre que o vento entrava pela fresta.
Edward estava orgulhoso daquele quarto.
Bella evitava entrar.
A gravidez começara a pesar no corpo antes de pesar na mente — mas logo as duas coisas se misturaram.
Os enjoos não cessaram no primeiro trimestre como todos diziam que cessariam. Vieram tonturas. Fadiga constante. Uma sensação de peso nos ossos, como se o próprio corpo estivesse pedindo pausa.
— Você precisa descansar mais — Edward dizia, sempre atento.
Ele acordava mais cedo para preparar o café de Anthony. Levava o filho à escola. Voltava mais cedo do escritório sempre que podia.
Ele estava tentando.
Sempre tentando.
Mas quanto mais ele fazia, mais Bella sentia que estava sendo substituída dentro da própria função.
O corpo que já não parecia seuNuma tarde particularmente fria, Bella ficou parada em frente ao espelho do banheiro por tempo demais.
A barriga começava a aparecer. Não era grande ainda, mas já modificava sua silhueta.
Ela tocou a própria pele como se estivesse tocando algo estrangeiro.
“Isso é meu?” pensou.
Anthony batera à porta minutos depois.
— Mamãe, você está bem?
Ela abriu, forçando um sorriso.
— Estou sim, amor.
Mas não estava.
Ela sentia que sua identidade tinha sido diluída. Antes, era advogada brilhante. Depois, mãe dedicada. Agora… apenas um corpo grávido sendo conduzido por expectativas externas.
Edward, o incansávelEle levava flores para casa.
Comprava livros sobre paternidade de meninas.
Assistia vídeos sobre como fazer tranças.
— Quero aprender antes dela nascer — dizia, empolgado.
Uma noite, entrou no quarto com uma caixa enorme.
— Você não vai acreditar no que eu achei!
Bella estava sentada na cama, exausta.
— O quê?
Ele abriu a caixa: um berço portátil importado, cheio de funções modernas.
— Isso vai facilitar tanto pra você!
Ela assentiu.
— Obrigada.
Era sempre “obrigada”.
Nunca entusiasmo.
Nunca brilho.
Edward começou a perceber.
Mas interpretava como cansaço.
A primeira discussão realO nome voltou à tona durante um jantar na casa de Carlisle e Esme.
Anthony corria pela sala com os primos. Emmett discutia futebol com Jasper. Rosalie comentava sobre escolas particulares. Tudo parecia normal.
Até Edward dizer, sorrindo:
— Nossa pequena Charlie já tem mais roupas do que Anthony teve no primeiro ano.
Risos.
— Charlie é tão lindo — Alice comentou.
Bella colocou o garfo no prato.
— Podemos parar de chamá-la assim?
O silêncio foi sutil, mas perceptível.
Edward olhou para ela.
— É só um apelido, Bella.
— Não é só um apelido pra mim.
A tensão pairou.
— É o nome do seu pai — Edward disse, ainda calmo. — Eu achei que isso te tocaria.
— Toca. Justamente por isso.
Ele franziu o cenho.
— Você disse que aceitava.
— Aceitei o nome. Não o apelido.
— Bella…
— Edward, eu perdi meu pai aos quinze anos. Eu vi o que a depressão fez com ele. Eu vi o que a perda de controle fez com ele. Toda vez que vocês dizem “Charlie”, parece que estão arrancando algo que ainda dói.
A sala estava quieta demais.
Esme interveio com delicadeza.
— Talvez possamos usar Charlote até Bella se sentir confortável.
Edward respirou fundo.
Mas no caminho de volta para casa, o clima era diferente.
— Eu só queria homenagear algo que foi importante pra você — ele disse, segurando o volante com firmeza.
— Eu sei.
— Então por que parece que eu estou sempre errando?
Bella virou o rosto para a janela.
— Porque você está feliz demais.
Ele piscou, confuso.
— O que isso significa?
— Significa que você não percebe que eu não estou.
As palavras ficaram suspensas no ar.
Ele não tinha resposta para aquilo.
A espectadoraAs semanas seguintes trouxeram mais distância.
Bella passou a dormir mais cedo. Ou fingir que dormia.
Edward conversava com a barriga dela. Contava como seria ensinar a filha a andar de bicicleta. Como Anthony seria protetor. Como ele estaria sempre ali.
Ela ouvia.
Mas parecia assistir a tudo de fora.
Como se sua vida estivesse acontecendo sem sua autorização.
Numa consulta de rotina, a médica comentou:
— Está tudo bem fisicamente. Pressão normal. Exames ótimos.
Bella quase riu.
Fisicamente.
Por dentro, algo estava desmoronando.
O primeiro pensamento que a assustouNuma madrugada, sentada sozinha na sala enquanto Edward dormia, Bella pensou algo que a fez sentir culpa instantânea.
“E se eu não amar essa bebê como amo Anthony?”
Ela cobriu o rosto com as mãos.
Era um pensamento horrível.
Injusto.
Mas era real.
E a culpa começou a se misturar com a tristeza.
Edward começa a perceberEle a encontrou sentada no chão do quarto do bebê certa tarde, olhando fixamente para o berço.
— Bella?
Ela não respondeu de imediato.
— Você entra aqui todos os dias… mas parece que não gosta de ficar.
Ela demorou a olhar para ele.
— Eu me sinto deslocada.
— Deslocada?
— Como se todo mundo estivesse esperando algo de mim que eu não sei se consigo entregar.
Ele se ajoelhou à frente dela.
— Eu não espero nada além de você.
Mas ela pensou:
“Você espera que eu esteja feliz.”
E isso parecia impossível.
A gravidez avançava.
A barriga crescia.
O quarto estava pronto.
As roupas estavam lavadas.
O nome estava escolhido.
A família estava animada.
Edward estava radiante.
E Bella estava cada vez mais silenciosa.
A tempestade já não era invisível para ele.
Mas ainda não tinha nome.
E ninguém, nem mesmo Edward, estava preparado para o que viria quando aquela menina finalmente nascesse.
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