Uma Estranha No Meu Quarto

2 Capítulo 2 - O recomeço


Notas iniciais
Capítulo mais leve, sem muito suspense. Primeiro dia de aula de Christian, que meio perdido conta com a ajuda de uma garota um tanto misteriosa.

02 de Março, segunda-feira.

Diário de Christian

A noite de ano novo ficou para trás, pareceu que não foi verdade, que nós nunca estivemos lá, que foi um sonho.

Mas não foi um sonho, eu sei disso. E eu sei que os outros também sabem. Porém ninguém disse uma palavra sobre isso desde que entramos naquele carro e fomos para o mais longe dali. É como se tivéssemos combinado mentalmente de não falar nada. Nós não voltamos lá e nada mais de estranho aconteceu nesses dois meses que se passaram. E o engraçado disso tudo é que eu fiquei esperando acontecer alguma coisa.

Nós até voltamos lá no dia seguinte para pegar a mochila de Nick (ou seria a mochila era de Michael?), morrendo de medo. Mas nada aconteceu. Melhor assim, não sei se eu conseguiria salvar todo mundo. Mesmo fazendo artes marciais desde os oito anos…

Eu nem deveria estar pensando nisso.

Hoje é meu primeiro dia no ensino médio e eu estou muito ansioso. Não sei o que me aguarda… ou quem me aguarda, mas sinto que é algo bom. Por isso coloquei a melhor roupa e o melhor perfume que consegui encontrar nesse monte de caixas…

Ah sim, eu não contei nesse diário ainda. Eu saí da casa dos meus pais e fui morar com meus amigos numa casa mansão enorme e linda por ser mais próxima da escola. Embora eu confesse que esse não é o verdadeiro motivo. Nós poderíamos muito bem ir estudar em outro lugar, mas esse… tinha se ser aqui. Eu não sei por que. E então tivemos de comprar esse lugar por sermos muito espaçosos. E é uma linda casa…

Como a casa é muito grande não conseguimos desempacotar tudo ainda e está meio difícil de achar as coisas por aqui, de andar sem tropeçar em nada. Acho que até o final do ano conseguiremos arrumar tudo. Não estou com pressa, não pretendo me mudar daqui até começar e terminar a faculdade.

Começo esse ano solteiro, minha namorada do ano passado me traiu. Aliás, esse foi um dos motivos para termos ido na floresta… Enfim, começo o ano solteiro e pretendo terminar o ano solteiro. Nada de compromissos sérios, a não ser que eu encontre um amor verdadeiro…

Nossa, meus amigos já acham ter diário coisa de menina, imagina se eles lerem isso! Eu, Christian Randall, falando de amor verdadeiro e todas essas coisas de garotinha.

Meus amigos estão me chamando, tenho de esconder isso logo e ir tomar café da manhã antes que briguem comigo. Hoje sou eu quem dirige.

Entrar no ensino médio sempre foi para mim algo surreal. Nunca imaginei que fosse chegar tão longe. Tudo parece impressionante, desde as pessoas até o lugar em si.

Basicamente a Washington XIV high school é bem parecida com minha escola antiga; o prédio comprido e fino de três andares, a bandeira dos Estados unidos e de NY erguida no mastro em cima do telhado, o enorme pátio… O que me faz perceber que não estou na escola antiga é a vida que flui desta. Na outra o pátio era de cimento, nesta é de grama. Na outra não tinha nem sequer vestígios de vida vegetal, e aqui é coberto de árvores. Tem até passarinhos cantando nos galhos. Se tivesse um passarinho na escola antiga algum idiota tacaria uma pedra nele.

As pessoas aparentam ser mais maduras e receptivas do que as da escola antiga. Elas sentam em grupos no chão, embaixo das árvores e conversam espontaneamente. De vez em quando uma pessoa muda de uma árvore para outra e é bem recebida pelas pessoas de lá. Deve ser mais fácil construir uma popularidade aqui.

Eu era muito popular na escola antiga. Nem queira saber como eu me tornei popular lá…, e como tudo foi por água abaixo no último ano.

Não devo pensar nisso.

Quando o sinal de entrada tocou percebi que estava sozinho. Comecei a andar, sem saber aonde exatamente ficaria a sala de história, minha primeira aula nesta manhã. Tentei perguntar para alguém, mas todos fingiram que não me viram. Os corredores ficaram vazios e eu comecei a me virar para ir embora para casa, mas uma voz me fez parar.

— Chato ser invisível, não é?

Eu me virei para vê-la. Uma menina loira parada no corredor, encostada preguiçosamente em um dos armários, bem distante de mim. Vestia uma saia de pregas preta, blusa de frio branca com desenhos de flores em rosa e bota de salto alto. Não se encontrava muito longe de mim, entretanto sua imagem se mantinha muito embaçada, mais uma fumaça colorida do que a imagem de alguém.

— Oi.

— Oi. — a voz dela soou assustada, depois voltou ao normal. — Algum problema?

— Eu não consigo achar a sala de história… — Eu pisquei umas vezes para ver se a imagem dela se solidificava, sem sucesso. — As pessoas daqui não parecem gostar de novatos.

— Realmente…— Ela parou por um momento. Ela tem uma voz muito doce e delicada, percebi. — Na hora da entrada do primeiro dia as pessoas daqui matam as saudades umas das outras e esquecem dos novatos, mas no segundo tempo melhora. Eles costumam ser muitos receptivos com novatos, principalmente as meninas com os garotos. Se bem que tem muito tempo que eu não venho aqui, então não posso afirmar com muita certeza…

— ah… Você parou de estudar?

— Digamos que sim.

Eu comecei andar na direção dela, com a intenção de vê-la melhor. Ela virou de costas e começou a ir para longe de mim, enquanto falava comigo.

— Entre a direita e bata na terceira porta. Peça desculpas ao professor, se for o Marconny. Ele tem pavor de gente que se atrasa, principalmente alunos novos. Seja bem vindo, Christian.

— Obrigado!

Ela apenas acenou e continuou andando.

— Ei?

— O que foi? — Ela não parou de ir.

— Qual é o seu nome? — Eu gritei.

— Ainda iremos nos ver muitas vezes. — Ela falou em um tom normal e virou numa entrada à esquerda. — Até mais…

Eu esperei parado até o eco da voz dela sumir e segui pelo caminho a direita até chegar a terceira porta, exatamente como ela mandou. Mesmo estando afastada, como ela dissera, acertou com precisão. Eu entrei na sala e um professor me encarou furioso por trás de seus óculos de lentes quadradas.

— Com licença…

— Ah, claro! Você já atrapalhou minha explicação mesmo. — Seu tom era puro sarcasmo. —Vejo que é aluno novo, então relevarei. Mas as coisas aqui não funcionam assim,… hum… Como se chama mesmo?

— Christian.

— Christian, vou direto ao ponto. Três simples regras: Não chegue atrasado, não atrapalhe minha aula e faça os trabalhos quando pedidos. Entendeu?

— Sim.

— Vá sentar.

Sentei na fileira do meio, não muito no fundo, ao lado direito de Kevin. Por algum milagre inexplicável Michael e Nick estavam sentados lá na frente, junto à mesa do professor. Não demorou muito para que Kevin me desse um papel dobrado. Eu desdobrei e li:

Onde Você estava?

Eu rabisquei a resposta e entreguei a ele:

Vocês me deixaram sozinho! Então tive de me virar, mas achar a sala de história quando não se conhece a escola é difícil.

Ele devolveu após um tempo:

Nós não te deixamos sozinhos, você é que desapareceu do nada. Estávamos indo pra sala e quando percebemos você tinha evaporado!

O professor me olhou com uma cara suspeita. Eu esperei ele voltar a escrever no quadro para devolver o papel:

Ok, esquece! Mas escuta… Por que eles estão sentados lá na frente? Resolveram virar estudiosos depois de anos e anos de farra?

Kevin Riu:

Como se você não conhecesse aqueles dois. O que aconteceu é que eles atrapalharam a aula e o professor colocou eles lá. Nick deu em cima de uma garota aqui da sala. E Michael mandando sms no celular. O mesmo de sempre...

Eu balancei a cabeça:

Nick… Ele não perde tempo mesmo! Temo pelas mocinhas indefesas daqui, suas virtudes estão ameaçadas.

Dessa vez Kevin arqueou uma sobrancelha:

Não só as virtudes como outras coisas… Se bem que com Marconny por perto elas estão a salvo. Ele já está na lista negra de Nick e Michael, disseram que vão aprontar alguma coisa com o coitado.

Eu fiquei surpreso:

O nome do professor é Marconny?

Kevin me lançou um olhar confuso:

Sim, é horrível >.< Por que?

Eu dei a resposta final:

Nada não, só curiosidade.

Depois disso Kevin guardou o papel e se concentrou a escrever no caderno. E eu também, tirando a parte da concentração.

Aquela garota estava certa! É uma pena que ela tenha parado de estudar… a … como é mesmo que ela disse ser o nome dela?

As palavras dela voltaram fortes, como se ela as tivesse dizendo neste instante, e não como uma lembrança da minha mente.

… Peça desculpas ao professor, se for o Marconyi. Ele tem pavor de gente que se atrasa, principalmente alunos novos. Seja bem vindo, Christian.

E então me ocorreu que eu não tinha dito meu nome a ela. E ela sabia. E a pergunta que não me saiu da cabeça até o final da aula foi:

Como???

Notas finais
Eu achei meio ruim, vou tentar melhorar nos próximos. Reviews? sugestões? Até logo (: