Uma Estranha No Meu Quarto
11 Capítulo 11 - Vítima
Notas iniciais
Christian enfrenta seu primeiro "trabalho" (não remunerado inclusive)
A noite chegou e lá fui eu escalar os muros da escola, munido apenas de uma lanterna, uma corda e um livro antigo sobre exorcismos que peguei emprestado da biblioteca central da cidade. Vestido todo de preto saltei do topo como um ninja, rolando no chão. Me sentei próximo da entrada esperando Jaynet chegar, observando o grande prédio que de dia é cheio de vida. Agora todo apagado, sem os jovens gritando ele tinha uma atmosféra totalmente diferente, do tipo que não me animava de entrar lá sozinho.
— BUUUUUU!!! — Levantei num sobressalto, Jaynet riu — Aff to me sentindo tão fantasmagórica, você se assusta muito fácil..— Tenho uma novidade pra você meu amor, você é um fantasma..— Ah que bom que se convenceu disso, aleluia irmão.. — Ela levantou as mãos pro céu — Me mostra onde acharam o corpo... Quanto antes melhor...— Por que Jaynet? Está com medo?— Não fui eu quem se assustou... Depois desse argumento tudo o que pude fazer foi ler ela e meu ego ferido ao local em silêncio. Chegando lá apontei pra onde antes estava o corpo e ela flutuou 2 andares graciosamente como um anjo.. Fiquei admirando ela secretamente do térreo, enquanto ela analisava a estrutura totalmente compenetrada.. Imaginando se teríamos nos conhecido se ela não estivesse morta. Provavelmente eu não teria coragem nem de esbarrar nela, quanto mais puxar uma conversa coerente, marcar um encontro... — E ai Sherlock achou alguma coisa? Ela flutuou até mim.— Não..... Mas eu tenho um palpite...— Diga.— Se a morte dele foi tão traumática como você disse..— Porra pode apostar que foi — Eu falei escondendo minha irritação por ela insinuar que eu sou exagerado. — O cara foi pregado de cabeça pra baixo, com o corpo aberto de dentro pra fora, foi horrível..— Então ele está aqui ainda. Precisamos falar com ele antes que o assassino resolva matar mais alguém. — E entrou dentro do prédio, atravessando a parede.— Jaynet volta aqui !! — Gritei pra parede — Pode ser perigoso... JAYNET!!— OI!!! — Ela pos a cabeça pra fora da parede me assustando — Vem logo Chris, é só um prédio.. Eu tirei minha blusa e enrolei na minha mão dando um soco na vidraça, torcendo que o prédio não tivesse alarme, e abri o trinco. Pulei a janela entrando dentro de uma das salas do primeiro andar, só conseguindo enxergar as carteiras por causa da luz de emergência fraca do corredor. Nenhum sinal dela. Eu peguei a lanterna na mochila, só me lembrando agora de usar e sai pelos corredores olhando de sala em sala. Ao entrar na sala de informática, eu ouvi um barulho que me assustou. Percebendo que só se tratava da janela que tinha se aberto por causa do vento eu caminhei até ela e fechei.— Jaynet... — Sussurrei.— Oi — Ela se materializou na minha frente — Não tem nada nessas salas já olhei, acho melhor a gente subir..— E eu acho melhor a gente voltar outro dia, a gente tem que treinar mais antes, eu nem sei o que fazer..— Besteira, a gente só vai interrogar ele.. — Ela agitou a mão — O máximo que pode acontecer é você morrer e virar um fantasma também..— Ah que bom, nada demais então... Nós caminhamos subindo as escadas. Jaynet subia silenciosamente, enquanto os degraus rangiam sobre meus pés alertando nossa presença a quem estivesse ali. O corredor do segundo andar não estava mais iluminado que o do primeiro, e após examinar algumas salas ouvimos um ranger de cadeira.. Eu me virei na direção da escada pra ir embora e ela teimosa como sempre, se virou na direção de onde vinha o ruído e correu adentrando o cômodo, sem abrir a porta.. Eu desisti de ir embora e a segui girando a maçaneta.. Recostado no parapeito da janela estava um garoto alto e pálido, com cabelos pretos compridos presos em coque.. Vestia uma calça preta jeans, uma blusa do metálica e um coturno do exército preto. Seu braço tinha uma tatuagem de caveira, escrito "Suicide Silence" em letras desenhadas. Meus olhos subiram pra os alargadores de ouvido, e os vários piercings na boca, no nariz e nas sobrancelhas grossas. Se não fosse pela aura brilhante que indicava que estava morto eu poderia pensar que ele estava ali pra fazer algum ritual gótico. Seu semblante estava sério, com cara de poucos amigos, não pareceu ter sido uma boa pessoas quando vivo. Eu fiquei parado perto do quadro desejando ter trago uma faca, como se pudesse resolver. Foi Jaynet quem se aproximou e falou parada no meio da sala:— Oi!! Eu sou Jaynet. O meu amigo na porta é o Chris.. — Ela esboçou um sorriso tentando ser simpática. — Como você se chama?— Marcus. — Ele respondeu simplesmente me encarando.— Marcus... ótimo... Tudo bem com você? — Ela perguntou debilmente.— Tudo ótimo.... — Ele deixou transparecer o sarcásmo e a irritação. — Não poderia estar melhor...— Eu sei... Me desculpe.. — Ela ficou séria. — Eu vou direto ao ponto então, estamos procurando pelo garoto que morreu na parede... é você? Ele re remexeu inquieto e deu um passo pra frente.
— Sim. — Ainda me fitando, acrescentando depois de um longo tempo — Por que?— Bem.... — Ela deu um passo pra trás — Geralmente quem fica aqui... humm.... No plano dos vivos é quem tem um problema não resolvido em sua vida, nós queríamos te ajudar a ir embora... o meu amigo é um mediador, ele exenrga os mortos e resolve as pendências deles.— Você está morta? — Ele perguntou abruptamente. Ela piscou.— Claro.— E continua aqui. — Ela assentiu com a cabeça — Então seu amigo não é muito eficiente, não é?— Não tentei solucionar o caso dela ainda. — Eu disse. — Na verdade nós também queremos saber quem fez isso com você pra ele não fazer mais vítimas.. Se você souber dizer quem foi, ou alguma coisa importante...— Então vocês querem informações minhas. — Ele voltou seu olhar pra Jaynet — Eu te conheço, você é a estudante assassinada dentro de casa.. Eu conto o que vocês quiserem saber, se me der um beijo. Jaynet deu um passo pra trás e ele um pra frente..— Isso está fora de questão. — Eu respondi me sentindo farto dele.— Tudo bem, eu concordo. — Jaynet respondeu fazendo minhas mãos fecharem em punho. — Só um beijo. — E fechou os olhos. No instante seguinte ele rompeu o espaço entre eles e puxou os cabelos dela pra baixo com, olhando seus lábios com luxúria. Puxou sua cintura com a outra mão, fazendo com que ela colasse nele. Eu quis virar o rosto, mas me forcei a olhar a cena. Ele me fitou vitorioso e com um sorriso de canto.— Sabe Jaynet — Ele falou com a voz rouca, os lábios próximos aos dela. — Eu sempre quis beijar uma líder de torcida linda assim como você, mas vocês estão sempre atrás dos atletas, caras saídos de capa de revista, como seu amigo. Nós temos chance? Não. Os nerds então, nunca. Mas hoje...... Você é minha. E encostou os lábios vagarosamente nos dela, explorando com a língua cada canto externo de seus lábios. Jaynet permaneceu imóvel, não demonstrando qualquer emoção. Então ele partiu pro beijo em si, suspirando, aproveitando cada segundo. Eu virei o rosto pro lado sentindo minha garganta seca, desejando que ele parasse logo, me segurando pra não afastá-lo.... Um tremor de raiva percorreu meu corpo.. Depois do que pareceu ser uma eternidade ouvi sua voz, podendo enfim soltar o ar que eu prendia sem perceber. — Eu não sei quem me matou, tudo que eu sei é que era um fantasma..— Homem ou mulher? — Perguntou Jaynet, tentando se desvencilhar dos braços dele.— Homem.— Tem certeza?— Sim.. — Ele apertou ela mais no seus braços — Agora amor que tal a gente continuar hm...— Não!! — Ela empurrou ele — Já nos beijamos, foi o combinado.— Sim, mas nós estamos mortos. — Ele puxou ela com mais força, plantando beijos no pescoço . — As regras da sociedade não se aplicam mais a nós, você não precisa ficar acanhada, nem preocupada com a sua reputação. Eu sei que você gostou do beijo, eu sei que você quer.. — Ele foi mais longe, forçando um beijo, passando a mão pelo seu corpo. — Nós podemos transar aqui mesmo, agora, se solta gata.. E então eu perdi a paciência rompendo a distância entre nós e lhe acertei um soco, fazendo ele cair nas carteiras. Ele pôs a mão no nariz torto incrédulo, botando-o no lugar. Se ele estivesse vivo teria que ir pro hospital, eu sorri de satisfação.— Você pode me tocar! Como??? — Ele disse com a voz trêmula, parecendo intrigado. Depois gritou furioso — Você me bateu seu filho da puta!— Vamos Jaynet. — Eu a puxei pela mão, ignorando a sensação estranha que o toque me causava e puxei ela em direção a porta. Pro Marcus eu falei sem olhar pra trás. — Você mereceu. Então quando eu pensei que estava tudo acabado um objeto grande de ferro me atingiu na cabeça, fazendo com que eu cambaleasse pra frente, caindo com as duas mãos no chão. Eu botei a mão na cabeça, fitando a cadeira que tinha me atingido, me sentindo ficar tonto. Marcus já estava de pé e levantando Jaynet no ar com uma só mão, colocou-a sentada na mesa abrindo suas pernas com a outra. Ela estava completamente paralisada, sem pronunciar uma palavra, seus olhos arregalados me fitando.— Christian — Ela sussurrou. — Sua cabeça..— Olha pra mim vagabunda! — Ele forçou o rosto dela em sua direção.— Vá embora Jaynet, use seus poderes.. — Engatinhei no chão sentindo a sala rodar — Vai!!— Não!!— Não seja teimosa, não agora. Eu me levantei pegando a cadeira nas mãos, torcendo pro cômodo parar de girar. O Marcus chutou a barriga de Jaynet com força, fazendo ela cair e voltou sua atenção para mim, vindo em minha direção. Eu dei um golpe certeiro com a cadeira, quebrando a perna dele, esperando que ele não descobrisse que na verdade a dor dele era psicológica, uma lembrança da alma. Ele caiu no chão urrando de raiva, e estendendo a mão na minha direção.— Seu desgraçado, eu vou te matar !! Uma força invisível me atingiu, me jogando contra o vidro da janela, que não aguentando o impacto do meu corpo se estraçalhou em mil pedaços, me deixando em queda livre. Cai no chão do pátio por cima do meu braço sentindo ele dobrar e estalar, gemendo de dor. Gritei alto quando os estilhaços da janela perfuraram minha pele, expondo minha carne por toda a parte. Do térreo dava pra ouvir Jaynet e Marcus brigando, ela parecia furiosa. Então eu avistei a ponta do livro que eu trouxe na minha mochila aberta e me arrastei em sua direção, com o braço que não estava quebrado. Sentindo os vidros perfurarem mais minha carne abri na página que eu queria, pegando o sangue do meu próprio corpo e reproduzindo o simbolo no chão. Pensei em Jaynet, sabendo que ela sentiria meus pensamentos e torcendo pra que ela trouxesse ele pra cá.— Christian!! — Ela se materializou na minha frente — Meu deus!! Ela esticou a mão pra me tocar e Marcus se materializou atrás dela, prendendo-a pelo pescoço com o braço. Ela pegou o braço livre dele e torceu, se livrando e fazendo ele ficar preso dentro do desenho de sangue.— Jaynet... — Eu sussurrei por causa da dor. — Segura ele ai.. Ela não compreendeu o que eu queria, mas atendeu meu pedido, usando toda sua força de espectro conseguiu mantê-lo parado. Eu me certifiquei de que ela estava fora do desenho e li num sussurro quase inaudível as palavras em latim.— Você está me exorcizando seu imundo!! — Marcus berrou, fazendo força pra se soltar. — Esta merda não funciona.. — Ele riu alto — Eu vou te matar e foder com ela!— Funciona sim, sabe por que? — Eu sussurrei, torcendo pra que funcionasse realmente — Porque eu sou o mediador. — E terminei de ler. Uma luz muito forte contornou o desenho, fazendo Jaynet o soltar, mas ele já não se movia, apenas gritava de desespero enquanto era sugado pra baixo, desaparecendo pelo que eu esperava ser pra sempre. Piscando os olhos como se saindo de um transe Jaynet se apressou em minha direção..— Christian, Christian.... — Ela se abaixou tocando meu braço de leve. Eu soltei um grito — Você precisa ir ao hospital consegue levantar? ai meu deus... sua cabeça.. Vamos logo.. Eu cambaleei com dificuldade conseguindo chegar até o carro. Jaynet tentava me segurar mas acho que ela estava cansada demais pra segurar ou mover qualquer coisa física. Abri a porta sentindo minha visão escurecer e me joguei no banco do passageiro, me rendendo a dor.
Notas finais
Agradeço muito a quem leu, espero que tenham gostado, e perdoem qualquer coisa, não aguentei revisar postei logo
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