Uma Escolha Duvidosa
1 Prólogo
Notas iniciais
– Como você pôde? — Entrei no apartamento muito bem iluminado de Jonathan, meu namorado, e em breve ex.
– Como eu pude o que Marina? Você está ficando paranoica?
– Paranoica o caramba! Disse que eu sou paranoica para sua querida Letícia?
– Ahh... – a cor desapareceu de seu rosto. O que fora uma pele branca, agora estava mais do que eu poderia um dia imaginar, fato que ressaltava ainda mais seus brilhantes olhos azuis. – Ela não foi nada pra mim amorzinho, você sabe que só tenho olhos pra você. – Ele disse em som calmo, porém tremulo enquanto se aproximava lentamente de mim. Não conseguia disfarçar a verdade por trás daquela terrível mentira.
– Era tão nada quando você colocou a mão por baixo da blusa dela não é? — Ele se aproximou ainda mais, agora perto o bastante para tocar em meu rosto. E é isso que ele fez, porém paro sua mão no meio do caminho. – Para. Você não consegue me enganar, eu não sou trouxa o bastante para isso.
– Eu estava bêbado, Marina, você não pode me culpar...
– Como assim não posso te culpar? Se você se importasse comigo primeiro não sairia escondido de mim. Beber e beijar outra pessoa então, nem se fala seu babaca!
– Marina, eu te amo... – Ele continuou em tom de voz manso, porém dessa vez o medo era mais que palpável.
– Ah sim Jonathan! Você me ama tanto quanto eu faço fotossíntese. – Falei em som sarcástico, mas não esbocei nem sequer um sorriso.
– Marina, por favor... Não faz isso comigo. – Ele passou a mão em seu cabelo castanho claro encaracolado que um dia eu havia achado perfeito, e que hoje não conseguia nem mais olhar.
– Sinceramente você acha que eu vou acreditar em você assim como eu acreditei no seu “Claro que não meu amor, ficarei em casa fazendo trabalho”. Justificando não atender meus telefonemas no clássico: “Eu dormi estudando”. Se bem que isso pode ser realmente verdade, não a parte de você estar estudando. Só se for anatomia feminina.
– O que? Você está insinuando que eu transei com ela? Eu mal beijei a Le.
– Ah, que intimidade! A “Le” gostou dos seus beijos?– Comecei a gritar instantaneamente. Aquele tinha sido o meu fim. Quando pronunciei o nome dela fiz gestos de aspas com as mãos, sem conseguir controlar o nível de ironia que estava presente em minha voz.
– Foi ela que me agarrou. Por favor Mariana, em perdoa. Eu amo você...
– Se me amasse mesmo teria pelo menos a dignidade de assumir seu ato. Além de mentiroso é covarde, quem me dera! Palavras bonitinhas não vão consertar a burrada que você fez. Pensasse antes de ter mentido e de ter sido tão idiota. Por que você estava comigo? Pra poder se gabar pros seus amiguinhos de ter sido o primeiro menino que ficou comigo? Pois é né Jonathan, você foi. E ainda pensei que tinha valido a pena. Mas na primeira oportunidade que surgiu você me trocou por uma loira bunduda qualquer.
– Não fala assim da Letícia, ela não fez nada pra você.
– Não fez nada para mim? — Não resisti ao impulso que me dominava e bati palmas. — Você tem problemas mentais ou fumou maconha? Daqui a pouco acha que eu sou uma planta mesmo, e que sobrevivo transformando oxigênio em gás carbônico. Acorda! Você a beijou mesmo me namorando, tem mesmo certeza que isso é nada? Por que isso ta bem longe de ser nada.
– Era? Peraí, você tá terminando comigo? — Seus olhos se esbugalharam. Como algum dia eu pudia ter caido nos encantos daquele babaca? Como eu pudia ter pensado que ele realmente me amava? Aqueles olhos que um dia tinham me conquistaram já não passavam mais do que olhos de um traidor. Não conseguia ver nada mais do que isso. — Não Jonathan, tô terminando com o meu cachorro. Na verdade nem compensa terminar com ele, ele pelo menos me ama de verdade e não fica me trocando por qualquer piranha que vê pela frente.
– Mari, eu te amo, não me deixa.
– Você não me deu outra opção. Ah e o apelido é para os íntimos, para você Marina Fontanive. – Virei as costas de maneira que minhas longas ondas castanha se espalhassem no ar e comecei a andar em direção a porta.
– Não vai, por favor. – Jonathan deu um passo e disse, enquanto pegava meu braço me impedindo de sair.
– Se você não me soltar até eu contar até cinco, eu... eu..
– Você vai o que? Virar o Hulk e me espancar? Convenhamos, todos sabem da sua “incrível” força. – A ironia em sua voz só fez com que eu me irritasse ainda mais, se isso ainda era possível. Meu olhar decorreu pela sala inteira, e caiu sobre o vaso de violeta que estava sob a mesa, apoiada nos livros de literatura e gramática da escola.
– Jonathan, me solta. Eu estou avisando. – Ele começou a gargalhar da minha cara.
– Poxa moreninha, não se estressa não, vamos lá pro quarto e esqueçamo-nos disso. – Ele se virou e começou a se aproximar do meu corpo, me puxando pela cintura.
– Eu já disse que não sou mais trouxa. — Em um rápido momento de fraqueza dele, peguei o vaso de violeta e joguei em sua cabeça. Infelizmente (ou quem sabe, felizmente) acertei bem a base de plástico nos olhos dele. Não era minha culpa ele ter 1,90 e eu ter meus míseros 1,65, de modo em que eu com o movimento desajeitado tivesse conseguido mirar em algum lugar. Mas foi esse movimento que me libertou de seus braços, fazendo com que eu pudesse fugir enquanto ele cuidava no olhinho ferido dele.
– Au revoir. – Sai correndo e bati a porta do apartamento que ele dividia com os pais dele logo atrás de mim. Terminando algo que nunca deveria nem ter começado.
Andei todos os seis quarteirões que separavam a minha casa do apartamento dele com a música no volume máximo. Em situações normais eu teria me importado com a saúde do meu tímpano e teria que lidar com o medo de ficar surda. Mas ali eu não estava me importando com nada. Muito menos com ele. Ou com os olhos dele. Ou com o cabelo dele. Ou pelo fato de ele ter beijado outra menina enquanto ele ainda me namorava. Nada que me ligava a ele fazia sentido mais. Todos os 2 anos e 3 meses que passamos juntos do nada parou de ter toda a importância para mim. Percebi o quanto de tempo que eu tinha desperdiçado. Que eu havia jogado pelo ralo me prendendo a um babaca como ele, porque era isso que ele era, e não um príncipe encantado como eu imaginava nos meus mais profundos sonhos. Agora eu tinha certeza que essa situação deveria ter sido repetida inúmeras vezes, eu sendo feita de boba enquanto ele ficava com todas que ele quisesse. Eu dando fora em meninos que muitas vezes eram muito legais dizendo “desculpa, eu amo ele”. Xinguei ele mentalmente a cada passo que eu dei, e lembrando de cada momento em que havíamos estados juntos. Cada momento que eu pensei que era real. E que no final, não passava da mesma coisa de sempre: a menina bobinha sendo iludida pelo falso príncipe encantado.
Foi só depois que cheuguei em casa que me dei conta do que tinha acontecido, de tudo que eu disse e que pensei que nunca teria coragem de dizer. Me encarei atentamente no espelho pensando se era essa ainda a Marina que eu conhecia, a Marina calma e concentrada e que nunca perdia a cabeça. Mas pelo que me pareceu foi que uma nova Marina tinha sido criada, ou estava ali fazia muito tempo sem que ninguém tivesse nem notado.
Eu notei que eu estava diferente. E gostava disso.
Porém toda essa convicção se evaporou no segundo em que eu saí do banho e me deparei com todos os ursinhos que eu havia ganhado dele, e lembrei de todas as vezes que ele havia me trazido até a porta de casa, me beijado na testa e ter dito o famoso eu te amo.
Estava indignada comigo mesmo, por ter sido a babaca que fui. Por ter acreditado. Mas ali eu decidi, eu prometi. “Eu prometo que nunca mais vou me deixar cair na lábia de nenhum menino, seja ele quem for. Prometo que nunca mais serei a boba que fui, que serei forte.”
Demorei muitos minutos até que meu cérebro silenciasse e eu conseguisse dormir.
No meio da madrugada acordei com meu celular apitando. “Uma nova SMS” dizia o visor. Apesar de estar com sono a curiosidade falou mais alto, peguei ele e apertei em visualizar. O que apareceu em minha tela não foi nada menos do que uma mensagem anônima dizendo assim:
“Mari, eu te amo, dorme bem anjinho. As coisas vão melhorar.”
Sem nem assinar, sem nenhuma pista. Tentei dormir novamente, mas a curiosidade estava falando mais forte do que eu. O resultado foi nada menos do que gigantes olheiras emoldurando meu rosto quando levantei no dia seguinte para ir à aula.
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