Notas iniciais
ONE-SHOT NEGADA

Um dia normal, com a velha rotina caindo sobre mim.

Peguei o dinheiro na bancada, a fim de pegar o ônibus e me encontrar com meu amigo na casa dele. Na verdade, ele nem mora tão longe de minha casa... o problema é que eu simplesmente não conseguiria ir a pé até lá com esse sol típico do verão queimando minha cabeça.

R$1,50 deve bastar.

Fechei o portão de casa, dando de cara com o ponto de ônibus. Era realmente uma dádiva que o mesmo estivesse tão perto de onde eu morava.

Mas então eu a vi... meus problemas desapareceram. Ora, eu poderia ir a pé até meu amigo, finalmente.

Ela olhou para mim e sorriu. Sorriu de uma maneira que me fez quase flutuar. Borboletas dançavam em meu estômago, e eu estava paralisado. Era ela.

A Goiaba.

Sorri de volta, e tomei uma decisão: não pegaria o ônibus naquele dia.

Como em uma ópera, o homem por trás Dela gritava: “OLHA GOIABA! SÓ 1,50! PREÇO ESPECIAL! OLHA GOIABAAA”.

Aquilo só podia ser divino! Eu tinha exatamente R$1,50. Logo tratei de comprá-la. Não, ela não poderia ficar naquele cesto, rodeada de outras como ela — mas ao mesmo tempo tão sozinha. Ela tinha de ser minha.

O vendedor finalmente a deu para mim. Quando eu a toquei, o mundo pareceu parar. Tudo estava em câmera lenta. Pássaros não mais voavam, ou sequer cantavam. Os carros estavam parados, com seus motoristas irritados com a expressão congelada no rosto.

Eu estava prestes a fazer as honras. Ela seria minha, eternamente... quando dois caras ao fundo gritaram. Chamaram-me, despertando-me de meu transe.

“Ei, chega aí, chega aí, chega aí”, disseram.

“O que foi?”, pedi, me aproximando lentamente.

E o que um deles fez em seguida jamais sairá de minha mente... ele tascou a mão na Goiaba.

“Você pegou minha Goiaba!”, gritei, desesperado. Não podia ser verdade.

“Já era Goiaba, mano, já era Goiaba”, respondeu, enquanto seu comparsa ria. Então ele a mordeu.

Ele mordeu minha Goiaba.

“CARALHO MANO, VOCÊ MORDEU MINHA GOIABA!”

“JÁ ERA, JÁ ERA”. Sua expressão era de diversão.

Como aquele velho ditado popular que diz que a vida passa na nossa mente como em um filme no momento de nossa morte, eu tive um flashback.

Lá nas quebradas onde moro tem um ponto de ônibus e um vendedor de goiaba, né. E um dia eu tinha R$1,50, estava morrendo de fome e fiquei pensando “Caraca véi, será que eu pego o ônibus ou compro uma goiaba, né”. Aí eu comprei uma goiaba. Bicho, uma goiaba suculenta, uma goiaba gigante. Eu estava morrendo de fome, e na hora que eu fui morder aquela goiaba, aí dois malucos ali na frente me chamaram, e falaram:

“Chega aí, chega aí, chega aí, mano, chega aí”. Aí eu falei:

“Qual é mano, o que que foi”. Aí o cara tascou a mão na minha goiaba. O bicho pegou minha goiaba, e eu falei:

“Caralho mano, você pegou minha goiaba!”

Aí o cara falou:

“Já era a goiaba aí, mano, já era a goiaba aí”, e pegou e mordeu minha goiaba.

Eu falei “OLHA, VOCÊ MORDEU MINHA GOIABA, MANO!”

E ele falou “Já era, já era, sai fora, mano, sai fora”.

Aí eu saí fora, e eu pensei “caralho mano, o cara roubou minha goiaba”.

O cara roubou minha Goiaba.

Notas finais
Confesso que chorei escrevendo essa história de amor.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!