Uma Era De Ordem E Honra

24 23. Tudo é como um grande jogo, um que é terrivelmente difícil manter-se inserido, onde seus pensamentos as vezes devem ser deixados de lado.


07|10|1771 Palácio de Hampton Court

Era uma pintura para a imperatriz viúva do Santo Império, para Maria Theresa. Um retrato da bela família do marquês e da marquesa de Bristol, que ao mesmo tempo eram príncipe e princesa de Niedersieg.

Por isso mesmo havia na sala um famoso pintor. A realeza usando seus diamantes, vestida com sedas, e a marquesa usando um penteado chamaso pouf, um estilo que fazia do cabelo uma verdadeira escultura, no caso do cabelo de Elizabeth, uma escultura de cachos, pérolas e uma aigrette, a "tiara Howard".

Katherine, a primeira princesa, estava perto de uma mesa estudando livros e manuscritos; a pequena Charlotte, a terceira princesa, estava do outro lado da mesa, com uma flauta, mas olhando com atenção para sua irmã; a pequena Elizabeth, a segunda princesa, estava mais afastada, porém não sem destaque, ela estava sentada pintando. E por fim havia Alfred e Elizabeth, o marquês e a marquesa de Bristol, que estavam à frente da pequena Elizabeth, era eles que ela pintava.

— Familiaridade, conforto, beleza, dignidade e orgulho. Mostrem isso, sintam esses sentimentos com honra imperial.— Talvez conforto não fosse assim tão fácil mostrar.

— Sr. Zoffany, eu pensava que suas pinturas mostravam pessoas conversando, mostrava naturalidade, não sendo estátuas.— Com um certo cansaço nos olhos, Elizabeth comentou fitando levemente Alfred.

Johan Zoffany era um pintor célebre, muito apreciado por suas obras do gênero conversazioni, mas com um tom mais teatral. Esse gênero geralmente mostrava grupos em conversas ou ações, e Johan Zoffany era o mestre desse estilo, o melhor a pintar assim. Não era a toa que ele era um protegido da família real, e agora mesmo também fazia uma pintura de rei.

— Minha marquesa pode estar parada no momento, mas os que olharem no futuro para essa pintura irão ter a sensação de que todos estão em movimento, existe algo acontecendo. E esse é o objetivo.— Elizabeth revirou os olhos, fazendo um pequeno sorriso surgir nos lábios de Alfred.— É como As Meninas.

— Estou disposta a acreditar nisso, Sr. Zoffany.— Com um tom quase irônico a pequena Charlotte falou alto, chamando levemente a atenção dos pais.— Já que eu uso isso, então realmente tem algo acontecendo.

Charlotte se referia pulseira incrustada de diamantes que ela usava, havia sido um presente de Maria Theresa, e na pulseira havia ainda uma pequena pintura do arquiduque Maximilian Francis... o "prometido" (de 14 anos) de Charlotte. A princesa mais nova olhava para a joia com descontentamento, era compreensível.

— Não iremos julgar o motivo pelo qual você não gosta dessa joia,— Com uma voz doce Elizabeth começou a falar, sempre fitando Alfred, conforme as instruções do pintor.— Mas Charlotte minha filha, não fale mal dos diamantes, quando tinha 9 anos eu nem mesmo tinha permissão para ver os diamantes da família, e você tem os seus próprios.

— Ela tem mais diamantes até mesmo que eu, mamãe!— Katherine comentou com uma voz indignada, antes de curiosamente acrescentar sem qualquer vestígio dessa indignação:— Não que isso seja uma preocupação minha.

Charlotte revirou os olhos para a irmã mais velha por conta dessas palavras, e a reação de Katherine foi a encarar e sorrir irônica.

— O problema não são os diamantes, mas sim o que está entre os diamantes.— Ela falava do retrato.— Ele é tão... seu rosto é tão gordo! Não tem a mesma beleza que o grão-duque da Toscana, que o primo Leopold. Eles são irmãos!

— Charlotte, a beleza não é o que importa.— Alfred comentou se permitindo olhar para a filha mais nova. A posição social, o título, o sangue e em menor grau o interior, isso que importava.— Além do mais, pessoas bonitas geralmente não se casam com outras pessoas bonitas.

— Mas papai, o senhor e mamãe são bonitos.— Alfred sorriu tentando segurar o riso e voltou a olhar para Elizabeth, foi apenas uma coincidência.— Por que eu tenho que noivar do arquiduque?

A pequena princesa ainda estava reclamando, mas não pedindo mais uma resposta. Elizabeth olhou rapidamente para ela, e voltou para Alfred sorrindo.

— A medida que for crescendo, ela vai entender o motivo.— O marquês sorriu com as palavras da esposa. Mas o sorriso que ela mostrava, logo foi caindo.— Todas entendem, mas aceitar, isso já envolve outra coisa.

— Um Tudor-Habsburg sempre está disposto a fazer sacrifícios, e sacrificar a felicidade ao casar é um deles.— Lentamente Elizabeth assentiu, mas seu sorriso não voltou. Alfred se virou completamente para ela, e pegou seu queixo levemente, a fazendo olhar para ele nos olhos.— Ou as vezes não. Em certas ocasiões não é um sacrifício da felicidade, mas que traz a maior felicidade.

— Esse foi o nosso caso, nos trouxe muita felicidade, apesar... não importa.— Um sorriso enfim surgiu nos lábios de Elizabeth, toda vez que ela sorria o coração de Alfred aquecia.— Eu só quero nossas filhas partilhando dessa mesma alegria.

— Não precisamos nos preocupar com isso, apenas elas tem o poder de se fazer alegres.— E apenas elas.

Elizabeth assentiu fitando o marido, o rosto dos dois começou a se aproximar em direção a um beijo. Não era a intenção de nenhum dos dois, mas Alfred e Elizabeth acabaram se esquecendo quem estava na frente deles. E antes que o beijo pudesse ser concretizado, Johan Zoffany fechou em um estalo alto o seu estojo de pincéis, assutando o casal.

— Eu devo colocar isso na pintura?— Ironicamente o pintor perguntou, fazendo o casal corar.— Porque caso sim, isso irá escandalizar a sociedade.

— Nos distraímos, Sr. Zoffany, continue onde estava.

— Meu marquês, creio que por hoje está bom. Ainda tenho outros trabalhos a fazer.— Pois bem, Alfred não iria reclamar.

Apenas um anúncio da parte do pintor foi necessário, todos eles voltaram a se movimentar como antes, com Alfred e Elizabeth indo sentar-se em nos sofás. A pequena Elizabeth continuou em seu lugar, ela realmente estava pintando, enquanto Katherine pegou um livro para ler e Charlotte foi em direção ao cravo.

— Por que eu e Elizabeth temos que nos casar, mas Katherine não?— Alfred olhou para sua filha mais nova com uma expressão irritada, esse assunto não havia acabado?— Por que nós sim, e ela não?

Suspirando cansado, Alfred olhou para a esposa e sinalizou para ela explicar, Elizabeth com certeza iria fazer isso com mais calma que ele no momento.

— Charlotte minha rosa, imagine a Europa como um grande jogo de xadrez, um em que todas as realezas são peças, incluindo nós, vocês. Lembre-se que toda peça tem sua função.— Charlotte assentiu com atenção, e não apenas ela, mas também Katherine e a pequena Elizabeth olhavam a mãe com atenção.— E a função de vocês três, é casar, fazerem casamentos que irão trazer benefícios, assim como impedir que os Tudor-Habsburg saiam desse jogo.

— Tudo é uma questão de segurança e poder.— Elizabeth assentiu para Alfred. A atenção das três princesas se voltou para o pai.— Charlotte irá casar com a Áustria para manter nossos laços familiares com os Habsburg. Elizabeth irá se casar com o eleitor da Saxônia afim de expandirmos nossos laços com as grandes realezas católicas. Quanto a Katherine, ela deve se casar com o objetivo de trazer mais realeza e poder para nossa família.

— Deve ser por isso que ela é a única que não tem um pretendente.— A Elizabeth mais jovem comentou certeira.— Boa sorte para nós, Charlotte.

A princesa mais jovem até que iria responder, mas antes disso o visconde Kensington, um dos cavalheiros de Alfred, entrou na sala azul, fez uma mesura e foi até o marquês.

— Meu marquês, o rei está convocando o senhor.— Convocando? Alfred olhou para Elizabeth curioso, e depois olhou para o visconde sinalizando para ele continuar.— Na verdade o rei está chamando meu senhor para Windsor.

— Windsor? Não seria Kew?— Assim como Alfred, Elizabeth ficou muito surpresa com esse chamado a Windsor. Lord Kensington negou com a cabeça.— O que significa isso, Alfred?

— Não faço a mínima ideia.— Alfred nem mesmo sabia que George estava em Windsor, o lugar havia sido praticamente esquecido pelos antecessores de George.— Lord Kensington, o rei fala qual o motivo dessa convocação?

— Não, meu marquês. O rei apenas ordena que o senhor vá a Windsor, imediatamente e sem atraso.— O visconde falou sério.

Mas o que era isso? Alfred apenas percebia que era algo urgente, e de muita importância. Se levantando de seu lugar, Alfred olhou para Elizabeth.

— Elizabeth, mande Lady Lovell vestir nossas rosas para ver o rei e a rainha.— Ela inclinou levemente a cabeça.

— Também iremos a Windsor então?— Alfred assentiu pensativo.— Irei chamar minhas damas de companhia.

Novamente Alfred assentiu, mesmo com Elizabeth já se virando e saindo da sala. O marquês estava curioso, talvez apreensivo na verdade, e isso ficou bem visível durante a viagem ao Castelo de Windsor, Alfred não falou quase nada, permaneceu em silêncio, o que em consequência fez Elizabeth também ficar apreensiva pelo que estava acontecendo.

*****

A rainha Charlotte e Elizabeth caminhavam lado a lado, e de braços dados, pelo Terraço Norte do Castelo de Windsor, e atrás delas vinha um relativamente grande séquito de nove damas. As seis damas de companhia de Charlotte, a duquesa de Ancaster e Kesteven, a duquesa de Argyll, a condessa de Hertford e a viscondessa Weymouth, e atrás dessas vinham as três damas da marquesa, a condessa de Kent, a baronesa Barnander e a baronesa Eugenie.

— George planeja fazer o castelo voltar a brilhar, para assim ser um refúgio mais familiar.— Enquanto as duas consortes andavam Charlotte comentava com a distraída marquesa os planos do rei.— Confesso que não gostei muito disso no início, Windsor era tão... cheio de visitantes, mas com o passar do tempo eu me acostumei.

— Como assim "cheio de visitantes"?— Ainda olhando para a frente, e com uma voz quase distraída, Elizabeth perguntou.— Digo, eu sei que era possível visitar o castelo, papai mesmo nos trouxe uma vez, mas... não me diga que...?

— Qualquer um poderia entrar aqui.— Charlotte falou com certo desgosto. Elizabeth alguns tapinhas em sua mão para mostrar apoio.— Qualquer um, Elizabeth! Era necessário apenas pagar uma certa quantia, como se Windsor fosse uma espécie de New Spring Gardens, que pagando um simples xelim você pode aproveitar tudo que o lugar oferece.

— Por Cristo! Imagine quem já andou pelo mesmo lugar que andamos hoje?— As duas riram levemente. Andando mais alguns passos elas chegaram ao parapeito do terraço.— Pelo menos vocês não moram no castelo.

— Mas temos que suportar Henry em Ranger's House. Não sei o que é pior, ter que suportar Henry aqui, ou a princesa viúva, minha sogra, em Kew.— Elizabeth ouviu a rainha calada, a marquesa olhava para a frente, em direção a bela paisagem rural que o terraço mostrava.— Esse lugar tem uma visão impressionante do pôr do sol.

A rainha se apoiou no parapeito olhando para frente, tão calma e pacífica como se nada pudesse a fazer mal. Como Charlotte conseguia fazer isso? Elizabeth estava ansiosa, curiosa, apreensiva, o que ela mais queria era saber o que o rei e Alfred conversavam.

Tantas coisas estavam acontecendo na vida de Elizabeth, no ano passado Lady Rochford, Lady Gray e Lady Cambridge renunciaram de suas posições na casa da marquesa. Por conta disso Elizabeth Kent, a condessa de Kent; Jane Vane, a baronesa Barnander, esposa de Edmund Vane, o 3° barão Barnander, alguém que Elizabeth gostava muito por sinal, e Lady Theresa Francis, a viscondessa Lovell, esposa de Stephen Francis, o 4° visconde Lovell, um amigo da família (embora Lady Lovell fosse uma amiga de Elizabeth, do tempo que ela era Lady Theresa Gerald, filha do conde de Paston), iriam substituir respectivamente as três damas.

— Então não sou apenas eu com problemas na família?— Com um fraco risinho Elizabeth comentou ao lado de Charlotte.— Ah, Charlotte, você não suporta a sua sogra, e eu tenho meus desacordos com Frederick.

A rainha deu um pequeno sorriso, e elas ficaram caladas, embora atrás delas fosse possível se ouvir risadas. Eram as rosas dos Bristol que brincavam com as mais velhas das sete crianças do rei e da rainha. Ouvindo essas risadas, as duas consortes olharam para trás, em direção aos filhos.

— Que aproveitem enquanto podem, quando ficarem maiores as coisas não serão assim.— Os olhos da rainha pousaram em Katherine, que por ser a mais velha, ela tinha 12 anos, já não brincava tanto.— Suas filhas estão cada dia mais grandes, Elizabeth. Principalmente Katherine, aqueles olhos azuis angelicais ainda irão chamar muita atenção.

— Por isso mesmo nos preocupamos tanto com ela.— Katherine crescia muito rapidamente, o tempo estava passando muito rápido, isso preocupava Elizabeth.—... Charlotte, você não fica preocupada?

— Todos os dias eu penso como meus filhos serão no futuro, mas eu me lembro que...— O que? Elizabeth balançou a cabeça enquanto a rainha falava, não era isso. Charlotte enrugou a testa.— Me preocupar com o que exatamente?

— George convocou Alfred, dizendo que era urgente. Você não se preocupa com o que seria esse urgente?— Elizabeth falou exasperada.— Ou você sabe o que George está falando com Alfred.

Os olhos da rainha se arregalaram e ela se afastou do parapeito. Foi algum tipo de ofensa?

— Não! Sinto dizer, mas George nada me fala sobre as questões de governo. Ou melhor, eu não me envolvo nisso.— Então eram duas no escuro.— Quando nos casamos George deixou bem claro que eu não deveria me intrometer nas questões políticas, e sou muito feliz em aceitar esse preceito.

— Então é um assunto que envolve a política?— Elizabeth perguntou um pouco mais alto do que deveria, ela mesma percebeu isso e se acertou.— Perdão, estou apenas preocupada.

— O assunto da conversa é desconhecido por mim, eu retorno a dizer.— Charlotte voltou a pegar o braço de Elizabeth, e as duas voltaram a andar pelo terraço.— Mas ambas iremos saber, Elizabeth. Não se preocupe com isso.

— É difícil não se preocupar quando, apesar de desgostar de política e reuniões, você é obrigada a saber de tudo que está acontecendo no país e no continente, além de estar presente em todas as reuniões do conselho de seu marido.— Anteriormente foi Elizabeth que deu alguns tapinhas na mão de Charlotte, agora foi o contrário.— Acho que já posso até me considerar uma apoiadora política, de quem? Ninguém ao certo... de meu marido certamente.

— Talvez seja bom deixarmos a palavra política governamental de lado por um momento.— Elizabeth assentiu suplicante a sugestão da rainha.— Talvez sobre escravi... digo, a sua Sociedade de Ajuda aos Pobres e Desabrigados.

Charlotte falava sobre a sociedade antiescravista da qual Elizabeth fazia parte, e que tentando fugir das desnecessárias ameaças, assim como do excessivo ódio dos donos e comerciantes de escravos, adotou um nome que nada tinha em ligação com a escravidão.

— Estamos fazendo algo, no que diz respeito a se reunir, falar sobre o assunto, planejar alguma ajuda a essas pessoas... devo confessar que não estamos fazendo nada de prático, fazemos pouco.— E muito pouco, a escravidão era um mal muito grande para ser extinguido apenas com discussão informais.— Mas os Barnander se juntaram a nós, e que ajuda eles são! Lord Barnander está muito animado e desejoso em fazer algo de verdade.

— Que alegre. Uma ajuda muito boa eles serão com certeza.— A rainha comentou sorrindo, antes de olhar olhar para trás e aumentar a rapidez de seus passos. As damas da rainha não poderiam ouvir o que ela falaria.— Também gostaria de mostrar meu apoio, mas George não acha adequado. Somos o rei e a rainha da Grã-Bretanha, não devemos nos envolver em assuntos de teor político. Ainda mais quando muitos parlamentares são favoráveis a escravidão, iria causar uma atmosfera ainda maior de conflito entre o democrático parlamento e a autoritária casa real.

As duas riram da forma irônica que Charlotte usou ao se referir ao parlamento e continuaram andando em direção a entrada do castelo, mas quando elas estavam na metade do caminho, o rei e Alfred saíram para o terraço, e foram em direção ao grupo de damas.

Quanto mais perto eles chegavam, mais visível eram as suas expressões. Não eram felizes, nem alegres, mas sim insatisfeitas. As duas consortes se entreolharam preocupadas. Quando os dois se encontraram com elas, as damas fizeram uma mesura.

— Meu rei, meu príncipe.— George assentiu para a rainha. Depois de levantarem da mesura, Charlotte perguntou:— Como foi a reunião, George?