Uma Conexão
2 Capítulo 2- Quem eu sou?
Notas iniciais
Acordar nos braços de um garoto não era algo comum pra mim, aliás eu nunca o tinha feito. Tentei me levantar sem que ele percebesse.
– Aonde você vai ? — disse ele com os olhos entreabertos.
– É .. só ia procurar algo pra comer, estou com fome.
Não consegui achar nenhuma outra desculpa.
– A chuva acabou, vamos embora, no meio do caminho comemos algo.
Ao mesmo tempo que queria me livrar dele e fingir que nada aconteceu, queria ficar com ele o resto do dia. O jeito dele era tão encantador, a voz suave que me fazia ficar ainda mais arrepiada.
Saímos da biblioteca e fomos caminhando por aquela estrada molhada pela chuva de ontem, havia um homem com um chapéu e uma capa alguns passos atrás de nós, o que era incrível, já que eu não via alguém fora de casa à anos. Tudo começou a ficar estranho e quando esse homem começou a nos seguir, eu olhava para trás assustada a todo momento.
– Kristen ? Ta tudo bem ? — disse Arthur, com cara de preocupação.
– Na verdade não — eu tinha que ser sincera — Tem um homem seguindo a gente o caminho todo!
– Esse estranho com a capa aqui atrás? Não deve ser nada, só mais um bêbado! — disse com deboche.
O problema é que Arthur não sabia nada sobre essa cidade, não havia bêbados, ninguém nem saia de casa quando eu estava andando nas ruas. Mas se eu me preocupasse muito ele iria pensar que eu era uma louca, então preferi engolir o medo pra mim. Deixei ele em sua casa que por sinal era algumas após a minha, e segui caminho. O homem ainda estava atrás de mim. Minhas mãos suavam e meu coração estava acelerado. Olhava pra trás desesperadamente, então comecei a correr com esperança de chegar logo até minha casa. Para minha surpresa ele começou a correr também, isso só serviu para eu ficar mais assustada ainda.
Cheguei em casa e logo tranquei as portas. Estava segura. Até começarem a esmurrar a minha porta, que por sinal era bem velha.
O que eu faria agora? Não sabia me defender, então só tinha uma escolha: Me esconder!
Me refugiei atrás do único móvel da minha sala, o sofá. Minhas mãos estavam tremulas, minha respiração ofegante.
A porta foi aberta. O homem parecia estar me procurando. E então ele me encontrou.
Não sabia o que fazer, então só sabia que tinha que gritar. Arthur morava algumas casas após a minha, talvez escutasse.
– Quem é você ? Por favor não me machuca! — era a única coisa que me veio em mente —
– Meu nome é Mikael. Me desculpe, mas isso é necessário, eu preciso comprovar algo sobre você, e esse é o único jeito.
Ele tirou de seu bolso uma faca. O que ele estava pensando ? Não deixaria que ele me machucasse, por mais miserável que minha vida fosse eu ainda tinha muito o que viver.
– Não faça isso! Por favor , porque você está fazendo isso comigo? — eu disse, chorando e gritando muito alto —
– Você precisa descobrir quem você é, e eu também, é minha missão.
Quando ele veio com a faca em minha direção, eu senti uma tremenda força em mim mesma, um poder incrível, e então eu dei um grito agudo.
– Sai de perto de mim !
E nesse momento, eu me levantei, olhei pra ele com tanto ódio e fiz um gesto com a mão. Eu não sabia o que estava fazendo, mas no fundo eu sabia exatamente o que fazer. E então a roupa dele começou a pegar fogo.
O que haveria acontecido ali ? Como eu tinha feito isso?
E então Arthur apareceu.
– O que está acontecendo ?! — disse ele, tirando sua blusa e batendo com ela naquele homem afim de apagar o fogo que estava quase o matando.
– Eu não sei!
E não sabia mesmo, eu estava parecendo uma estátua, em choque, não sabia o que fazer ou o que falar.
Quando finalmente o fogo foi apagado do corpo do homem, ele pôde falar. E suas únicas palavras foram:
– Eu sabia. Eu confirmei o que já estava certo que era verdade. Muito obrigado garota. Vou me curar logo, e conversaremos.
Logo que ele foi levado para o hospital da cidade mais próxima, Arthur e eu pudemos finalmente discutir sobre o que aconteceu.
– Você tá legal? — disse ele com estranheza.
– To sim. Olha, antes que você pergunte, eu não sei o que aconteceu ok ? Eu não sei como coloquei fogo naquele cara só olhando pra ele, ou como gritei tão alto, enfim, eu não sei! — falei rapidamente e ofegante.
– Isso é muito estranho. — ele abaixou a cabeça — Olha, assim que ele ficar melhor nós iremos falar com ele e vamos descobrir o que você fez hoje, ou o que você é .
Como assim o que eu sou ? Se eu nunca tive sorte com nenhum garoto, com certeza não vou ter com ele, nem eu sei o que aconteceu, e ele deve pensar que sou uma psicopata, ou sei lá! As palavras que ele disse com muita arrogância me deixaram bem pra baixo.
Logo que aquele homem melhorou, fomos falar com ele na sala do hospital.
– Oi .. Mikael não é ? — eu disse, olhando nos olhos verdes dele. — Pode nos explicar o que aconteceu ? Porque eu não sei, e desde então eu não consigo parar de pensar nisso. Eu estava quase chorando, e Arthur se sentou ao lado da cama de Mikael e ficou prestando atenção em cada palavra.
– Garota.. Você tem um dom especial. Você é uma dos 6. Você precisa se juntar à eles antes que seja tarde demais. Eles precisam da sua força. — disse ele, com afirmação.
– Como assim ? Quem são os 6 ? Que dom ? — eu não estava entendendo nada.
– Você nunca se perguntou o porque de seu pai nunca ter aparecido? Da sua mãe ter falecido tão cedo? Ou o porque de todos na cidade terem medo de você ? Essa cidade é uma praga garota .. Todos sabem. Todos sempre souberam. Seu pai era um bruxo poderoso, somente 6 famílias no mundo ganham esse dom, e para te proteger, sua mãe fugiu com você, ela queria que você crescesse longe de todo esse mundo sobrenatural, que você tivesse uma vida normal. Mas quando descobriram o que ela tinha feito, uma bruxa de uma das 6 famílias foi atrás dela e a matou. Ela só te poupou porque você não tinha culpa de nada. Mas agora Kristen, todos os jovens das outras 5 famílias estão crescidos e desenvolvidos, falta você para completar o clã. Você precisa ir comigo e descobrir quem você é de verdade.
– O que ? Bruxa ?! Sério isso? Isso é loucura!
Eu sai do quarto abismada e pensativa, isso não era possível, essas coisas não existiam. Arthur veio atrás de mim enquanto eu corria pelo corredor.
– Kristen ! Espera!
– O que foi ? Nada disso faz sentido! — eu disse, chorando.
– Fica calma. — e então ele me abraçou. — Mesmo se você for o que esse homem diz, eu não vou te deixar, você é a pessoa mais legal que eu conheci naquela cidade, aliás, a única. Mesmo que isso pareça loucura.
E então eu beijei ele, sem nem pensar duas vezes. Dá pra acreditar que nosso segundo beijo seria em um hospital ? Mas então cai na real. Se eu fosse mesmo uma bruxa, não poderia colocar o primeiro garoto que eu conheci no meio disso. Seja lá o que eu for, eu quero descobrir.
– Vou te levar pra casa, fico lá com você.
– Não! — eu disse desesperadamente — Não quero voltar pra casa. E nem pra aquela cidade. Se o que Mikael disse for verdade, todos lá sabem a verdade. Eu não quero conviver em meio à mentiras.
– Tem um hotel próximo daqui, vou alugar um quarto para nós se você se sente melhor assim.
Na verdade, eu não estava me sentindo melhor. Era tudo uma loucura. Eu não conseguia aceitar isso. Mas eu estava com alguém que me fazia bem.
Fomos caminhando até o hotel, abri a porta que parecia ser feita de madeira. O quarto era lindo. A parede e a cama vermelha, tinha cheiro de rosas.
– Vai tomar um banho, você deve estar cansada. — disse Arthur, passando a mão em meu rosto.
Quando sai do banho, deitei ao lado dele e só conseguia pensar no quão estranho tudo estava sendo, e como ele aceitou toda essa loucura numa boa. Ele estava muito normal pra quem acabou de saber que a menina que ele beijou (duas vezes) é uma bruxa. Não resisti:
– Você não se sente estranho com tudo isso? Digo.. Você agiu tão normalmente!
– É que já passei por tantas coisas, que não me surpreendo mais com nada. Aliás, nunca duvidei da existência de um ser mágico.
Ser mágico ? Sério?! É isso que eu sou pra ele então ? Um "ser" ?
– Não precisa ficar comigo se não quiser. Desculpa se eu to forçando muito a barra, foi um erro ter beijado você, eu nem te conheço direi ..
E foi assim . Sem que eu terminasse a palavra ele me tascou um beijo! Aquele de tirar o ar. Nossas mãos se entrelaçaram, e então ele olhou pra mim.
– Quando eu disse que você era a garota mais legal que eu já conheci eu não estava brincando. E a mais bonita também. — ele sorriu, e voltamos a nos beijar. Meu coração acelerou.

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