Uma Chance para Duas
3 capítulo 3
Notas iniciais
Emma
Dirigindo de volta para o escritório não pude deixar de pensar na má sorte de Regina, e em como meu corpo reagiu ao ouvi-la pronunciar o meu nome “Em-ma”.
Por Deus, qual é o meu problema? Ela é a minha cliente e ainda por cima amiga da minha sócia.
Regina
Não pude deixar de notar o quão bem apresentável e simples era essa advogada, não que no geral eles não sejam, é claro, mas ela não tinha o ar arrogante que os acadêmicos de Direito tinham quando eu estava na Universidade, os que conheci pareciam querer monopolizar o oxigênio ao seu redor, mesmo a Lilith sendo minha amiga, devo confessar que ela tinha seus momentos em que demonstrava superioridade sobre alguns amigos nossos docentes. Mas a Emma não, ela parecia exalar algo mais natural, sem arrogância e prepotência. Ela foi uma boa aquisição para o escritório da Lilith.
Fui direto para o Hospital, ainda tinha algumas amostras para analisar, e apesar de não ir dar aula hoje na Universidade, não queria passar do meu horário pois tinha inúmeras provas para corrigir.
Anotação mental: Para o próximo semestre que eu for dar aulas as provas serão orais, para assim não precisar corrigir tantos papéis.
Focada nesse pensamento, passei distraída por a secretária do departamento laboratorial do hospital, afinal, precisava ocupar a minha mente nem que fosse com trabalho.
Distraída como estava, só percebi que havia alguém me chamando quando senti uma mão no braço.
—Se fosse um ladrão já teria perdido tudo. — Falou a secretária rindo.
—Desculpa, estava pesando no tanto de trabalho que me aguarda. —Falei em um suspiro. —Tem alguma coisa para mim?
—As vidraças que você tinha feito pedido chegaram há mais ou menos duas horas.
—Ótimo, vou ver se dá tempo conferi-las ainda hoje.
—E tem uma surpresa para você na sua sala.
—Surpresa? Que surpresa? —Já havia tido surpresas de mais para uma vida, não precisava de mais uma que fosse me derrubar.
—Aposto que você vai gostar. Vai lá na sua sala ver.
À passos largos me dirigi para minha sala.
Abri a porta de supetão como se esperasse encontrar alguém indesejado lá dentro, mas a visão que tive foi tão desagradável quanto.
Sobre a minha mesa estava um buquê de rosas vermelhas exageradamente grande com um cartão também da mesma cor, não precisei nem ler para saber de quem era. Na verdade, o mais próximo que consegui chegar foram alguns passos, que logo foram recuados. Era terrivelmente impressionante como qualquer menção a Marcela tinha o poder de me desestabilizar.
Voltei ao corredor e chamei a secretária.
—Leva essas flores daqui. —Ordenei.
—O que? —Perguntou ela sem entender nada.
—Da um fim nessas flores, joga fora.
—Mas são tão lindas. —Disse ela sem entender nada.
Sei que ela sabia que eram da Marcela e por isso a confusão, afinal não comentei nada sobre o ocorrido, até por que não havia necessidade.
—Então fique com elas. —Ela continuou me olhando confusa. —Já que as achou tão lindas, pode pegar, sério! —Falei tentando soar a mais estabilizada possível, não queria que ela fizesse mais perguntas.
—Levo elas então. —Disse levando as flores embora.
Tranquei a porta da sala e precisei respirar fundo incontáveis vezes para não destruir a sala. Eu odiava a Marcela ainda mais por isso. Quer dizer que ela acha que flores são a solução? Que flores irão resolver tudo? Que flores me farão esquecer tudo que vi e ouvi?
Precisei de muita força de vontade para me acalmar, jamais poderia entrar em um laboratório com vidro para todo lado e cheio de colônias de bactérias em placas de petri, não no estado em que eu estava.
Acho que só consegui esfriar a cabeça quando estava no carro voltando para casa. Cheguei em casa bem a tempo de atender o telefone fixo.
—Alô?
—Sou eu Zelena. Para que uma pessoa tem um celular se não atende?!
Suspiro — Zelena eu estava trabalhando e você sabe que não posso atender nem na sala de aula e muito menos no laboratório.
—Mas será que você não pegou esse celular um instante em algum intervalo?
Claro que eu peguei, a diferencia era que eu não queria atender ou retornar. Mas é claro que eu não falei isso para ela.
—O que você quer?
—Eu quero saber como você estar. Não graças a você, mas nós já sabemos o que aconteceu. Porque você não nos contou? Porque você não me contou, Regina? Achei que as coisas entre nós tivessem mudado e que você confiasse em mim.
—É claro que eu confio em você, eu só não estava pronta para falar sobre isso.
É claro que meus pais e a Zelena já sabiam o que tinha acontecido entre mim e Marcela, por isso as milhares de ligações e mensagens não lidas no meu celular, não tenho dúvidas de que ela já tinha ido chorar aos pés da minha mãe pedindo algum tipo de conselho. O pior deles saberem o que aconteceu, é eles saberem a versão dela e não a minha, na cabeça da minha mãe eu com toda certeza estou sendo a insensível que não quer dar uma chance de deixa-la se explicar.
—Mas já fazem três dias, eu sei de todos os nossos problemas, mas nós somos a sua família. Família, tá aí uma palavra que nós os Mills não usávamos com frequência.
—Você me conhece, você não esperava que eu chegasse aí chorando, pelo menos não com a mãe que temos.
—Eu sei, mas... O nosso pai está preocupado com você, ele pensou em ir aí, mas como você trabalha demais ele pensou que poderia não encontrar você em casa ou que você não quisesse recebe-lo. — Aí está alguém que realmente parece me conhecer nessa casa, meu pai.
Suspirei mais uma vez. — Ele sabe o que faz.
Comecei a ouvir um murmurinho do outro lado da linha.
—A nossa mãe quer falar com você.
—Não Zelena... — Era tarde demais.
—Regina eu sei que o que você viu não foi uma das coisas mais agradáveis, mas você tem que entender que relações tem disso, tem seus altos e baixos. Você tem que deixar a Marcela falar.
—Primeiro, oi para você também mãe, e segundo, eu não tenho que deixar nada. Eu não sei o que ela falou para você, mas garanto que não faz jus ao que ela me fez passar.
—As coisas não vão se resolver assim, sem você deixar que ela se explique.
—Olha, eu tenho pilhas de provas que não vão se corrigir sozinhas.
—Regina...
—Avisa para o meu pai que talvez eu ligue mais tarde para ele. Tchau.
Se eu também evitei contar para minha família o que tinha acontecido comigo? Obvio que sim, preferi eu mesma lidar com isso. Não precisava das maravilhosas palavras da minha mãe que seguem sempre o mesmo roteiro, “ A Regina está errada e qualquer outro seja lá o que tenha feito está certo”, ou da pena da minha irmã hétero, bem casada e feliz, que apesar com certeza ficar indignada com o que aconteceu, imagino que ainda sim me diria para pensar melhor e não jogar tudo fora. Talvez o meu pai me entendesse, mas eu sei que não chegaria nele sem antes passar por a Dona Cora.
Apesar de me sentir desgastada, havia uma premissa que eu não abria mão, que era “primeiro os afazeres, depois a diversão”, com algumas exceções concedidas a Marcela. Tudo que eu mais queria fazer nessa noite era tomar um banho quente e dormir, e foi exatamente o que eu fiz depois de trabalhar mais um pouco.
Amanhã seria um novo dia, e quanto a ligação para o meu pai, amanhã eu faço.
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