Uma Chance para Duas
24 Capítulo 24
Notas iniciais
Emma
Passei o dia pensando em todos os momentos que eu e ela tivemos e nas coisas que para mim não se encaixavam, repassando os fatos e as conversas e me convencendo cada vez mais de que eu deveria ir procurar a Regina, e foi exatamente o que eu fiz. Eu tinha ouvido coisas horríveis dela, mas não era a isso que eu ia me prender.
Não percebi o tamanho da falta que eu sentia dela até vê-la.
Regina veio cheia de si até mim, mas à medida em que eu investia e demonstrava não aceitar aquela situação, ela ia se desmontando, se despindo de todas aquelas capas. E foi aí que eu vi que talvez a coisa fosse maior do que eu pensava, a todo instante ela me mandava ir embora, se ali, naquele momento fosse a Regina que disse para mim uma enxurrada de coisas no meu escritório, ela teria usado de palavras depreciativas para me machucar e me fazer ir embora, mas ela parecia estar preocupada. Talvez eu tivesse descobrido o que era, caso a Marcela não tivesse aparecido.
Quando a Marcela a abraçou foi como se algo tivesse se quebrado mais uma vez, a proximidade das duas, a Marcela a tomando como se fosse sua, como se ela lhe pertencesse, não saía da minha mente. Mas Regina não parecia feliz para quem tinha retomado o casamento, muito pelo contrário, foi seca e mentiu para ela, eu não tinha ido até lá à trabalho coisíssima nenhuma.
O que estava acontecendo? Que detalhe eu estava deixando escapar?
Por algum motivo, mesmo desconfiando da veracidade da promessa de que a Regina me procuraria para conversar, eu esperei, talvez até inconscientemente, mas eu controlei meus impulsos de procura-la novamente e esperei por alguma resposta que surpreendentemente veio.
Em uma tarde de folga recebi a ligação de um número desconhecido, como alguns clientes costumava ligar diretamente para nós advogados em vez de ligar para empresa, eu atendi.
—Emma, Emma Swan?
—Sim, com quem eu falo?
—Com a Zelena, irmã da Regina.
—Pois não, Zelena. — Falei estranhando aquela ligação.
—Então Emma, eu não sei o quanto isso vai soar estranho para você, mas eu preciso que você esteja no endereço que eu vou enviar para você por mensagem no dia e na hora marcada.
—Hã? Eu não estou entendo bem, Zelena.
—Nem eu Emma, mas a Regina que me pediu para fazer isso.
—Você falou com a Regina? O que ela te disse?
—Falei, mas ela não me disse muito, ela pediu que eu marcasse esse encontro com você em uma região afastada, e que fosse a mais discreta possível, e pediu que você não comentasse nada com ninguém, que para todos os efeitos, vocês continuam afastadas.
—Ela não falou mais nada?
—Não.
—Por um acaso só eu que sinto que tem alguma coisa errada aí, Zelena?
—Não, eu e a minha mãe também achamos, sabe, se fosse a Regina de alguns meses atrás que estivesse fazendo isso, eu não iria ter o que questionar, mas nesse meio tempo eu vi a minha irmã se transformar, e essa atitude não condiz com quem ela é hoje, ou era, não sei. Espero que nessa conversa ela possa contar algo para você.
—Eu também espero. Obrigado, Zelena.
—Não foi nada.
O endereço que Zelana me deu era do outro lado da cidade, em uma área distante e que eu particularmente pouco conhecia. O local dito por ela era um pequeno hotel de luxo. Quando entrei no prédio um funcionário me direcionou para um quarto, esperei encontrar a Regina nele, mas ele estava vazio, não havia ninguém lá.
Regina
Eu tinha decidido de que iria procurar a Emma, mas ainda não sabia ainda o que iria falar. Todo esse peso que eu estava carregando estava acabando comigo, mas eu temia por a segurança dela e do Henry.
Eu não podia entrar diretamente em contato com ela, tinha receio de que a Marcela pudesse descobrir, então pedi ajuda a Zelena.
—Está ocupada? — Perguntei entrando em sua sala no hospital.
—Um pouco. — Ela disse sem tirar os olhos do computador.
—Achei que você já tivesse entrado de licença.
—Ocorreram alguns imprevistos e eu vou vir essa semana ainda. — Falou sem olhar para mim.
—Mas você tem condições ainda de continuar trabalhando?
—O que você quer Regina? Eu sei que você não veio aqui só para saber o porquê de eu ainda estar trabalhando. Não finja que se importa.
—É claro que eu me importo, você é a minha irmã e está grávida, grávida do meu sobrinho e afilhado, ou sobrinha e afilhada, enfim, mas você tem razão, eu não vim só por isso.
—Eu sabia.
—Eu preciso da sua ajuda, Zelena.
—Você não precisa de ajuda, você pode resolver tudo sozinha, bom, pelo menos é isso que você tem demonstrado, já que eu sei que algo está errado.
—Eu preciso da sua ajuda agora tanto quanto eu precisei quando pedi para você ser a minha testemunha no processo de divórcio.
—Divórcio esse que não serviu de nada.
—Zelena, por favor!
—O que você quer?
—Primeiro eu quero que você não faça perguntas e nem questione o que eu vier a dizer. —Ela não me respondeu, apenas me olhou com cara de insatisfeita. — E segundo, eu preciso que você marque um encontro com a Emma para mim.
—O que? E porque você não faz isso?
—Eu não posso, por isso estou pedindo a você.
—E porque você não pode? É por causa da Marcela?
—Não faça perguntas, lembra?
—Porque você não conta o que é?
—Eu só preciso que você marque esse encontro com ela, mas que seja discreta. Não conte nada para ninguém, nem para o Hades ou para a mamãe, e peça para Emma fazer o mesmo. Vou te dar o número dela. — Então anotei em um bloco de folhas que estava sobre a mesa.
—Ok, eu não estou entendendo nada, mas vou ajudar você. Esse encontro vai ser onde?
—Você também vai ser responsável por isso. Procure um lugar distante, e que de preferência não tenha sido construído por a empresa da Marcela. — Zelena ia abrindo a boca para algum questionamento, mas eu a interrompi. —Por favor, sem perguntas. Você vai fazer o que eu te pedi?
—Vou, mas que fiquei bem claro que eu não estou nada satisfeita com as suas últimas ações.
Então Zelena fez como eu pedi, marcou com Emma um hotel distante e quando estava próximo do dia me avisou.
Devido ao transito me atrasei um pouco e quando cheguei no quarto Emma já estava lá.
—Achei que você não viesse. — Ela disse assim que entrei no quarto.
—Eu acabei me atrasando, desculpa.
—Devo dizer que eu estou curiosa pelas respostas que você tem para me dar.
—Eu não tenho respostas Emma, vim aqui para dizer pela última vez que acabou e pedir para que você me procure mais.
—E você realmente acha que eu vou acatar a isso? Você acha que vou concordar com isso quando eu sei que tem algo errado? — Ela falou se aproximando de mim.
I want you
Yeah I want you
And nothing comes close
To the way that I need you
I wish I can feel your skin
And I want you
From somewhere within
—Mas você deveria.
—Porque eu deveria, Regina? No dia em que fui te procurar na sua casa o tempo inteiro você me mandava ir embora, porque?
—Porque você continua insistindo? Eu te falei coisas horríveis, fiz com que você se sentisse usada...
—Você fez com que eu me sentisse um lixo, por dias eu me senti suja, como se algo viscoso estivesse preso a minha pele e que banho nenhum resolvia, você me retalhou Regina, me deixou em pedaços.
—E porque você continua insistindo?
—Porque eu sei que tem algo errado e porque eu quero acreditar que tenha, porque a Regina que eu conheci não iria fazer isso.
—Como você pode afirmar isso?
—Porque eu conheço você, e eu vou repetir quantas vezes forem necessárias que eu vejo quem você realmente é. E além do mais, eu não saberia mais viver sem essa mulher.
—Não diz isso, por favor. Eu peço que acredite em mim quando digo que estou fazendo o certo, que estou fazendo o melhor.
—O melhor para quem? Para mim ou para você? Porque eu sei que nenhuma de nós está feliz com isso.
It feels like there's oceans
Between me and you once again
We hide our emotions
Under the surface and tryin' to pretend
But it feels like there's oceans
Between you and me
—O melhor para você e para o seu filho. —Falei aflita
—Como assim o melhor para mim e ele? —Falou se aproximando ainda mais.
—Tudo que eu tenho feito é para proteger vocês. — Eu já não aguentava mais carregar aquilo comigo.
—Proteger de que, Regina?
—Da Marcela. Ela ameaçou vocês, ameaçou o Henry, disse que poderia dar um sumiço no menino e que nós nunca mais o encontraríamos. Falou que facilmente poderia manda-lo para outro país, a menos que eu a aceitasse de volta.
—Ela chantageou você, e você aceitou! Você deveria ter me contado, afinal era sobre o meu filho que isso se tratava, Regina!
—Eu não podia.
—Podia, podia sim! Aliás, nós poderíamos ter tentado resolver isso juntas, mas você não quis, optou por resolver isso sozinha. — Ela disse se afastando de mim e passando a mão nos cabelos.
—Emma...
—Chantagem é crime, você sabia? Dá cadeia! Mais um motivo para você ter me contado, mas não, você trabalha sozinha! —Falou se virando para mim.
—Você não a conhece como eu, Emma. A construtora da Marcela é conhecida por conseguir inúmeras licitações públicas, ela tem influencias nas instâncias públicas e com um telefonema poderia fazer uma pena de meses ser convertida em dias ou até mesmo em ações sociais.
I want you
And I always will
I wish I was worth
But I know what you deserve
You know I'd rather drown
Than to go on without you
But you're pulling me down
—Tá bom, supondo que sim, supondo que ela tem toda essa influência, como que ela não ganhou o caso do divórcio?
—Porque ganhar aquela ação não era tão importante para ela, não quando ela tinha um trunfo na manga. Ela não queria apenas voltar comigo, ela queria que eu te machucasse para que você nunca mais quisesse me ver, porque ela já me tinha sobre controle, mas ela precisava de algo mais que afastasse você de mim.
—E por muito pouco ela não conseguiu.
—Você deveria me odiar e não vir atrás de mim como você fez.
—Você realmente queria que eu te odiasse?
—Se isso ajudasse a manter você e o Henry seguros, sim.
—Em parte, eu estou decepcionada com você por ceder a essa chantagem.
—Eu tive medo Emma, tive medo de que algo acontecesse com vocês, eu já vi a Marcela resolver problemas impertinentes em um estalar de dedos. Eu faria qualquer coisa para manter vocês a salvo.
—Uma parte de mim está decepcionada, mas outra está imensamente tocada por você aceitar perder a sua liberdade em troca da segurança do meu filho. —Ela falou voltando a se aproximar. —Mas ainda acho que você deveria ter me contado e assim poderíamos ter tentado resolver isso juntas.
—Emma, se você estivesse em um time, jogaria no time dos heróis e os heróis jogam limpo, já a Marcela estaria no time dos vilões e eles não se importam se vão passar por cima de alguém para conseguir o que querem.
—Mas nos filmes os heróis sempre vencem.
—Sim, mas a que custo? Eu já perdi um filho e eu sei que você faria de tudo por o seu.
—Eu faria porque eu o amo.
It feels like there's oceans
Between you and me once again
We hide our emotions
Under the surface and try to pretend
But it feels like there's oceans
Between you and me
—E eu amo vocês!
—Você o que?
—Eu te amo Emma, e afinal é isso que o amor verdadeiro é, não é? Faz com que você sacrifique tudo por a pessoa que ama.
—Regina...
—Sinto muito que eu tenha decepcionado você, mas a minha mente se fechou e eu não consegui ver outra saída, a não ser entrar no jogo dela. — Falei sentindo as primeiras lágrimas caírem.
—Eu também te amo. —Ela falou se aproximando e me dando um beijo tenro. Antes eu me sentia como Atlas, o titã mitológico responsável por carregar todo o peso do céu sobre os ombros, um fardo pesado, porém necessário, mas agora estando com Emma tão próxima, o peso havia aliviado.
—Eu me odiei em cada segundo por ter que te dizer aquelas coisas. —Falei dentro do seu abraço. —Obrigado por não desistir.
—Nós já passamos por tanto, não seria agora que eu iria desistir de nós. —Ela disse fungando.
Emma
Nos sentamos na cama que tinha no quarto e ficamos um tempo distraídas mexendo uma na mão da outra, cada uma imersa em seus pensamentos. Eu me sentia um pouco zonza e ainda absorvia tudo que eu tinha descoberto. Imaginei que houvesse algo errado naquela história toda, mas não que fosse algo desse calibre. Que tipo de pessoa ameaça tirar o filho de uma mãe por puro capricho? A hipótese da existência desse tipo de gente sempre me assustou, é como ver humanos, mas não ver humanidade.
E ainda tinha o que a Regina fez e porque ela fez, agora com a mente menos embaçada eu podia ver mais claramente. Foi precipitado? Foi! Mas por um motivo nobre, o meu Henry.
—Emma? — Ela me chamou me tirando do meu torpor e enlaçando os seus dedos aos meus.
—Oi?
— Como está o Henry?
—Sapeca como sempre, ah, e já não anda mais como um pequeno bêbadozinho.
—Eu sinto tanto a falta daquele sorriso com poucos dentes.
—Eu acho que ele sente a sua falta também.
I want you
I want you
And always will
It feels like there's oceans
Between you and me
—E o que nós fazemos agora? —Falou dando ênfase no “Nós”.
—A respeito da Marcela? Você sabe que a minha primeira alternativa seria ir até a polícia, não sabe?
—Eu sei, mas acho que esse não é meio mais eficaz no momento.
—Eu não me conformo com isso, Regina!
—Eu sei que não. Eu vou continuar vivendo com ela até que pensemos em algo.
—Não, você não pode! Você não pode dividir a mesma cama que essa mulher.
—Bom, nós não dormimos juntas.
—Não?
—Não, eu durmo em outro quarto.
—Ok, acho que eu posso respirar um pouco mais aliviada. —Falei encostando minha testa na sua. —Mas nós ainda não sabemos o que fazer.
—Mas nós vamos pensar em algo, sei que vamos. Afinal, você entende de leis e eu a conheço.
—Você poderia ter pensado assim antes.
—Desculpa.
—Tudo bem, vamos focar as nossas energias em encontrar algo que ajude a nos livrar dela. Tem algo que você possa me contar, algo à margem da lei?
—Bom, acho que se formos encontrar algo com certeza será relacionado ao trabalho dela.
—Ok, então vamos começar por aí.
—A Marcela é engenheira e é quem administra a construtora da família porque os pais dela vivem viajando. A maioria das vezes, se não todas, sempre que abre o edital de alguma licitação pública e a construtora concorre, ela ganha.
—Isso costuma acontecer porque as obras ficam a preço de banana.
—Mas esse não é o caso. Tive a oportunidade de ver alguns contratos, os valores fechados eram quantias exorbitantes.
—Tem algo estranho aí! Você chegou a ler alguns desses contratos?
—Não, normalmente eu via apenas os valores. Ela gostava de comemorar quando fechava contratos milionários. — Ela falou em um tom mais baixo.
—Se eu pudesse ler algum desses contratos...
—Eu posso pegar para você.
—Não quero que se arrisque, essa mulher já demonstrou ser capaz de muita coisa.
—Eu posso procurar nas coisas dela quando ela sair para trabalhar.
—Ótimo, mas tenha cuidado.
—Ela não faz mal a mim, pelo menos não diretamente.
—Você se confia nisso? Olha o que ela já fez para te ter do lado.
—Para isso dar certo eu preciso confiar, mas é você que precisa tomar cuidado, consigo e com o Henry. Você não deve entrar em contato comigo, espere que a Zelena te procure, ou qualquer outra pessoa por ordem minha.
—Tudo bem, mas não demora muito.
—Não vou demorar, e eu também não conseguiria. —Ela disse me puxando para um beijo. —Se cuida, por favor. — Falou roçando o nariz no meu.
E assim ficamos combinadas, ela procuraria os contratos da empresa para que eu pudesse lê-los e procurar algo que nos ajudasse a tirar a Marcela das nossas vidas, e depois alguém às suas ordens me procuraria. E eu, deveria me manter no meu canto e fingir que para a Marcela, eu e o meu filho não existíamos.
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