Uma Chance para Duas
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Regina
A audiência terminou no início da noite e eu me sentia esgotada, tudo que eu queria era chegar em casa. Quando Emma me disse que esse processo seria invasivo eu não imaginei que seria tanto. Eu sentia uma dor de cabeça excruciante e quando cheguei em casa logo me despi e entrei no banho, deixei que a água morna relaxasse os meus músculos tensos.
Não imaginei que a Marcela levaria aquele assunto ao tribunal, algo tão meu, tão pessoal... Pensar nisso fazia meu sangue ferver.
Meus dedos já estavam enrugados quando decidi sair do banho, vesti uma camisola mesmo, apesar de ainda estar cedo da noite, eu não iria mais sair de casa e muito menos receber visitas.
Penteava os cabelos quando a empregada bateu na porta.
— Pois não?
— Desculpa incomodá-la, mas gostaria de saber se eu devo pôr o jantar à mesa.
— Não precisa, aliás, por hoje você já está liberada.
— Boa noite então, Sra. Regina.
Ouvi seus passos se afastarem.
Desci para cozinha e servi o meu jantar, e para acompanhá-lo uma dose de uísque. Comer sozinha até então nunca tinha me incomodado, mesmo quando eu e a Marcela estávamos juntas eu ainda acabava realizando as minhas refeições sozinha, devido aos nossos trabalhos muitas vezes só nos víamos na hora de dormir ou de acordar. Mas hoje eu sentia algo me incomodar, não sei se era falta dela, mas eu estava impaciente, inquieta.
Quando terminei de jantar, lavei a louça que tinha sujado e segui para sala com a garrafa de uísque, sim, minha meta era bebê-la inteira.
Eu não podia estar sentindo a falta dela, podia? E se eu estivesse, por que raios estava levando aquilo para frente? Emma me perguntou tantas vezes se eu tinha certeza... Emma. Emma. No último mês aquele nome parecia não sair dos meus pensamentos. Pensar nela era o mesmo que pôr o dedo na tomada, fazia com que uma corrente elétrica percorresse todo o meu corpo. Há dias eu pensava no que tínhamos feito no elevador, se eu fechasse os olhos e respirasse fundo poderia sentir o seu cheiro. Ela tinha tentado conversar comigo sobre o assunto, mas eu a cortei imediatamente. Foi o certo a se fazer, não foi? Aliás, porque ela iria querer tocar naquele assunto, afinal foi só sexo.
Não que eu tivesse me relacionado com muitas pessoas, mas eu nunca havia encontrado alguém como ela, apesar de dedicada ao seu trabalho, não se fechava para vida, tinha coragem e o seu filho era a maior prova disso, era altruísta, já me salvara a vida uma vez e além de tudo era uma linda mulher, sua beleza era algo natural, o máximo que ela parecia fazer eram pequenas coisas para realça a seus traços naturalmente lindos.
Céus, no que eu estava pensando, eu não podia, eu não queria, minha vida estava uma completa bagunça, a traição, o divórcio e agora essa mulher, que para onde eu me virava ela parecia surgir.
Eu não podia estar sentindo nada por ela, não era certo, eu deveria ainda amar a Marcela, não? Nenhum sentimento se acaba de uma hora para outra, e nenhum sentimento surge do nada, ou surge?
Emma me perturbava, era ela que me inquietava e não era de hoje.
No tribunal quando ela tocou no meu braço para fazer com que eu me sentasse, mesmo por sobre o blazer, eu senti a minha pele queimar.
Sei que era o álcool que estava me fazendo pensar essas coisas, tinha que ser.
A garrafa de uísque acabou antes do que eu esperava, mas eu queria mais, então peguei uma garrafa de vodka que estava mais perto e me sentei no sofá.
Aqueles olhos límpidos, céus, aqueles olhos... Eles pareciam poder enxergar através das mais maciças portas. Me perguntava o que ela enxergava ao me olhar, e por algum motivo eu tinha medo do que ela poderia ver, tinha medo de que ela pudesse ver até mesmo o que eu não queria saber.
Se amanhã eu acordasse com ressaca, que fosse por causa do álcool, deus me livre de uma ressaca moral. Me levantei de uma vez do sofá e toda a sala saiu de foco, seria difícil subir as escadas e eu também não queria tentar. Peguei no sono ali mesmo no sofá, e a última coisa que me lembro de ter pensando era em como Emma pareceu um anjo no dia em que me tirou daquela tempestade, com seus cabelos loiros e aqueles olhos verdes da cor que água do adota perto da Costa.
Nós duas já tínhamos mais histórias juntas do que eu gostaria.
Emma
Depois que saí do tribunal passei no escritório, precisava pegar os papéis de outros casos que eu pretendia estudar, só pretendia mesmo.
Quando cheguei em casa, como que por uma obra divina, Grace tinha conseguido pôr o Henry para dormir cedo, ela disse que tinha o levado para tomar um ar no parque em frente ao nosso prédio e ele tinha chegado enfadado. Ele que já estava entrando nos oitos meses de idade, não parava quieto, queria estar direto no chão engatinhando. Grace corta um sobrado com ele. E para alegrar o meu coração ela também tinha feito uma garrafa de café.
— Quer que eu faça mais alguma coisa, Emma?
Grace era uma adolescente adorável, trabalhava como babá para dar um up na renda da família, desde o primeiro dia que ela começou a cuidar do Henry, pedi que não houvesse cerimônias, ela poderia me chamar de Emma sem problema algum.
— Não precisa, pode ir para casa. Imagino que o seu namorado deva estar lhe esperando.
— Acho que sim, tenha uma boa noite. — Se despediu sorrindo.
— Você também. — Sorri de volta.
Espalhei os papéis sobre a minha mesa de trabalho e com a minha generosa xícara de café comecei a lê-los.
Mas fui devaneando, devaneando, até chegar em uma zona perigosa, Regina. Fiquei pensando nessa história que a Marcela contou no tribunal, de início achei que era blefe, mas quando vi o jeito que Regina ficou, estava mais do que comprovado de que era verdade.
Jamais poderia imaginar que ela tivesse passado por algo do tipo, só a ideia de que algo possa acontecer com Henry já me deixava sem chão, quem dirá perdê-lo, ela deve ter sofrido muito quando tudo isso aconteceu.
Claro que eu não iria falar isso na frente de Regina, não quando ela foi tão enfática ao dizer que eu não devia sentir pena dela, mas achei de extrema maldade a Marcela levar esse assunto a júri. Se a audiência fosse uma luta, o que ela fez teria sido um chute nas bolas.
Não consegui evitar não me sentir mal por ela, mas também não era pena que eu sentia, porque pelo que já pude perceber, essa mulher era mais do que capaz de superar e contornar qualquer situação. O que eu sentia era compaixão, por ser mãe me solidarizava por a causa.
Não sei onde ela foi arranjar aquela mulher, mas afirmar que não tinha "forças" para ajudar Regina foi a gota d'agua para mim, sentia raiva só por pensar que Regina precisou passar por essa perda praticamente sozinha.
Mas como advogada eu tinha que admitir que aquela tinha sido uma tacada de mestre, já tinha estado presentes em outros casos que Gaston, o advogado da Marcela, tinha atuado, a tática dele era a mesma, invalidar a fala da outra parte. Eles queriam mostrar que naquele momento a faculdade mental de Regina não operava bem devido ao acontecido, mas no momento que ela teve a oportunidade de falar novamente, aquilo caiu por terra.
Eu precisava me desligar um pouco desse caso, precisava me desligar de Regina, eu tinha outros clientes e outras defesas para formular, mas meus pensamentos insistiam em segui-la. Eu precisava dar um basta nisso, hoje ela deixou claro o suficiente que nada disso tem fundamento, eu só estava caçando sarna para me coçar e me machucando.
Mas aquela mulher tinha algo que me prendia, algo nela me atraía, talvez ela inteira me atraísse, inclusive o seu ímpeto.
Onde você está se metendo Emma?
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