Uma Chance para Duas
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Emma
O dia da audiência tinha chegado e eu ainda não tinha falado com Regina desde o que acontecera entre nós, bom, pelo menos não pessoalmente. Ela dizia que estava ocupada com uma batelada de testes que estava fazendo para sua pesquisa, então só nos falamos através de ligações. Devo confessar que não achei de todo mal, ainda não sabia como seria olhá-la nos olhos depois do que tinha acontecido entre nós.
Cheguei ao fórum mais cedo para saber como as coisas estavam por ali, e ao que me parece ela tinha tido a mesma ideia.
— Boa tarde, Regina. — A audiência tinha sido marcado para o início da tarde.
— Boa tarde, Swan. — Regina usava uma saia lápis de couro cintura alta que lhe ia até a altura dos joelhos, uma camisa cor vinho e um blazer preto, e como sempre, tinha os cabelos sempre muito bem penteados.
— Vejo que chegou cedo.
— Imaginei que você também chegaria.
Levei Regina para uma sala do tribunal usada para separar as partes quando o processo é conflitante. Ela parecia ansiosa.
— Você acha que temos boas chances? — Perguntou enquanto se sentava na cadeira do meu lado.
— Acho, você tem um motivo para querer a separação, e é nele que vamos nos atar, pelo menos por ora.
Um silêncio esmagador reinou entre nós, mas dessa vez eu que o quebrei.
— Regina, acho que deveríamos conversar sobre o que aconteceu entre...
Ela me interrompeu antes mesmo que pudesse terminar a frase.
— Além desse divórcio, nós não temos nada sobre o que falar, Emma.
— Como não, Regina? — Ela parecia já ter a palavras ensaiadas.
— Foi só sexo, Emma. Supere. — E dizendo isso se levantou e foi até um bebedor do outro lado da sala.
As palavras de Regina caíram como pedras no meu estômago. Como ela poderia banalizar tanto o que tinha acontecido? Eu queria não me importar, eu juro que queria, mas não conseguia. Eu precisava me pôr no meu lugar, eu era apenas a advogada dela, só isso.
Continuamos na sala sem dizer uma palavra, e quando chegou a hora, fomos para o tribunal.
Quando saímos da sala topamos com a Marcela e seu advogado. Eu nunca tinha a visto pessoalmente, ela exalava poder e altivez assim como Regina. Vestia-se com um macacão preto social e tinha por sobre os ombros um blazer vermelho, seus cabelos castanhos um pouco mais curtos que os meus caiam perfeitamente sobre os seus ombros, perto daquelas duas mulheres eu me sentia extremamente sem graça dentro da minha blusa preta e do meu suit azul.
Percebi os olhos de Marcela procurarem os de Regina, e ela não os negou, Regina a encarou. Os olhares trocados entre elas poderiam fatiar qualquer um que atravessasse aquela zona, senti o ar ficar rarefeito, toquei o braço de Regina e indiquei que ela entrasse na sala.
A sala onde aconteceria a audiências era caracterizada por a existência de uma espécie de mesa, onde cada uma das partes sentava em cada lado da mesa e a cabeceira era ocupada por a mesa do Juiz.
— Boa tarde Sra. Mills, boa tarde Sra. Barcello. Nesta tarde damos início ao Processo de Divórcio Litigioso. — Pronunciou o Juiz Gold ao tomar posse do seu assento. — Primeiro de tudo eu gostaria de saber se não há a possibilidade de reconciliação, para assim podermos evitar uma tarde tão longa e cansativa, Sra. Mills?
— Não, não há, Excelentíssimo Sr. Juiz. — Regina respondeu sem deixar dúvidas de que aquele processo iria a diante.
— Gostaria de saber se pode haver a existência de terceiros lhe instigando a ir a diante com esse processo.
— Eu não estou sendo coagida, se é isso que o Sr. quer saber. Esse divórcio parte única e exclusivamente de mim e da minha vontade de separação.
— Sra. Mills, você poderia relatar brevemente o que a levou ao seu pedido de dissolução do vínculo?
— Pois não. O motivo pelo o qual eu quis a separação foi que eu descobri que a minha esposa me traía.
— A Sra. poderia nos contar em que condições descobriu isso?
— Na noite em questão Marcela tinha desmarcado um compromisso comigo e com alguns amigos, sob o pretexto de que precisaria trabalha até mais tarde em um projeto. No final da noite passei em sua empresa para lhe fazer uma surpresa e para depois irmos para casa juntas, mas no final eu que acabei me surpreendendo. — Regina encarou Marcela e disse: — Eu a encontrei transando em cima da mesa com a secretária.
— Então diante dessa situação para Sra. é inviável continuar a relação?
— Excelentíssimo, eu não fui enganada ou traída uma única vez. O que eu vi naquela noite já acontecia há anos, dois anos para ser mais exata. Eu jamais poderia conviver com isso, nem se eu quisesse.
— Um relacionamento de quantos anos?
— Cinco anos de casamento civil, mas são dez anos de convivência.
— E não há nada que a Sra. possa fazer para recuperar essa relação?
— Eu não consigo conviver com o que eu sei agora. — Qualquer um podia sentir o pesar na fala de Regina. Será que ela ainda amava aquela mulher?
— Sr. Juiz, gostaríamos de trazer ao tribunal uma testemunha. — Me pronunciei.
Automaticamente o advogado da Marcela argumentou: — Mas nós não fomos avisados previamente sobre essa testemunha, peço que o Sr. não a aceite. — Gaston o advogado da Marcela era um monte de músculo que parecia comer a carne dos advogados menos experientes no café da manhã.
— Excelentíssimo, o motivo da testemunha é apenas dar cunho a afirmação da minha cliente, provar que é verídico o que ela acabou de relatar. — Sim, e o intuito daquele testemunho era realmente esse, mas nos meus anos de advocacia eu aprendi que devemos dar provas sobre a verdade.
Pedi para o meirinho chama-lo. A testemunha se sentou na cabeceira livre da mesa.
— Sr. Mendes, o senhor poderia nos dizer o que aconteceu e o que o senhor viu na noite em questão? — Jorge Mendes era o vigia que trabalhava no prédio na noite em questão, imaginei que ele não aceitaria comparecer ao tribunal por ser um funcionário da Marcela, mas Regina deu o seu jeito.
Flashback On — Regina
— Então seu Jorge, o senhor poderia me ajudar com isso?
— Dona Regina, eu gostaria muito de ajudá-la pois sei que o que ela fez não foi certo, mas eu sou funcionário da dona Marcela, se eu fizer isso ela me coloca no olho da rua e eu tenho filhos para criar.
— Se o problema é esse, então o que o senhor me diz sobre trabalhar em um hospital, ou em uma universidade ou talvez até em escritório de advocacia exercendo a mesma função e ganhando até mais, e de bônus não ter mais uma Marcela histérica gritando com você todos os dias?
Flashback Off
Emma
— Eu ouvi uma gritaria e quando fui ver o que era, vi que a dona Regina mandava que a dona Marcela largasse ela, ela dizia que elas tinham que conversar e que a dona Regina tinha que se acalmar. — Ele olhou receoso para nós. — Mas ela dizia que não queria, a dona Marcela largou o braço dela e a outra foi embora. Quando eu ouvi os gritos já imaginei o que fosse.
— Porque o Sr. diz isso? — Perguntei
— Não queria maldar sobre a minha chefe, mas não era a primeira vez que a dona Marcela ficava até tarde no prédio com senhorita Marian. — O Sr. Mendes foi de mais ajudava do que eu esperava, não só tinha confirmado o que Regina tinha dito como tinha deixado claro que a traição não era recente.
— O Sr. Gaston gostaria de fazer alguma pergunta a testemunha? — Perguntou o juiz.
— Não Excelência.
O agradeci por as palavras da testemunha e o meirinho o levou.
— Sra. Barcello, poderia tecer algum comentário a respeito do que foi perguntado a Sra. Mills e do que foi visto aqui? — Marcela passava a mão nas têmporas, claramente incomodada com o seu ex-funcionário.
— Sr. Juiz não há o que negar, eu sei o que fiz, mas eu me arrependo. Eu amo essa mulher que está aqui na minha frente. — Vi Regina cerrar os punhos.
— E é por esse motivo que a Sra. se negou em dar o divórcio? — O juiz Gold perguntou.
— Exatamente, ah se eu pudesse voltar no tempo, nunca, jamais teria feito o que fiz. — Enquanto dizia isso, a expressão de Marcela mudou como a mudança da água para o vinho, e ela agora tinha toda a atenção do juiz. — Não há um dia sequer em que eu não me arrependa.
— Se arrepende porque eu descobri. — Regina vociferou quase se debruçando sobre a mesa.
— Calma Regina. —Falei pondo a mão em seu braço e fazendo com que ela voltasse a se encostar no espaldar da cadeira.
— Eu sei que eu falhei com você agora, mas eu fiz o possível para estar ao seu lado antes e você só me afastou, e infelizmente eu não fui forte o suficiente para continuar insistindo.
Marcela tinha começado o seu show e o juiz era a sua plateia.
— Ao que a você se refere como “antes”, Sra. Barcello?
Marcela respirou fundo encarando dramaticamente Regina e depois se voltou para o juiz.
— Há mais ou menos dois anos e meio eu e Regina decidimos que queríamos ser mães, aumentar a nossa família, então optamos por a inseminação artificial, nessa nossa tentativa Regina decidiu que iria tentar primeiro. — Do que aquela mulher estava falando? Pensei — Ficamos tão feliz quando o resultado do teste de gravidez deu positivo. — Ela sorriu tristemente com os olhos marejados. — Tudo correu bem até o terceiro mês, estávamos felizes e fazíamos inúmeros planos onde todos incluíam o nosso filho. — Olhei para lado para fitar Regina, mas me surpreendi com que o que vi, a mulher que estava ao meu lado estava pálida, parecia não haver uma gota sequer de sangue em seu rosto. — Mas então ela sofreu um aborto espontâneo e quase morreu por causa da hemorragia decorrente do aborto, ela precisou receber uma transfusão sanguínea com urgência. Regina tinha atrofiamento uterino. Foi uma perda muito grande para nós duas, já sabíamos o sexo do bebê e já tínhamos pensado até no nome, Henry. — Eu mesma não podia acreditar no que ouvia. — Mas Regina ficou muito abalada, não falava com ninguém, nem com seus pais, com a sua irmã ou comigo, ela se isolou e se afundou no trabalho, e foi aí que eu conheci a Marian. Eu fui fraca, eu sei, eu deveria ter feito mais para te tirar daquela situação. — Disse olhando para Regina. — Mas eu não consegui, você criou uma redoma em volta de si que só te cabia, e isso durou meses. — Falou finalizando e olhando para o juiz.
Eu ainda tentava absorver tudo que eu tinha ouvido, jamais poderia imaginar que ela tivesse passado por algo desse tipo, mas eu precisava ser rápida e não deixar que a mesa virasse.
Confesso que se eu não fosse a advogada de Regina teria glorificado a Santa Marcela.
Regina por sua vez tinha o olhar voltado para Marcela, mas não com se tivesse a encarando, era um olhar sem foco, como se estivesse perdida.
— Juiz Gold, peço encarecidamente cinco minutos de recesso para minha cliente. — Regina não tinha condições de permanecer naquela sala.
— Acho que todos nós precisamos Swan. Voltaremos em vinte minutos para encerrar a sessão. — Bateu o malhete.
Esperei que Marcela e o seu advogado saíssem para poder sair com Regina. Ela não esboçava reação alguma, estava perdida em algum lugar que eu jamais poderia entrar. Peguei-a pelo braço e a levei para sala que estivemos mais cedo.
Regina se sentou na cadeira mais próxima e eu me virei para pegar um copo de água. Quando me virei de volta ela tinha os cotovelos apoiados nos joelhos, o rosto enterrado nas mãos e o seu corpo tremia, ela estava chorando. Eu não admiti naquele momento, mas vê-la daquela forma me doía, e doía ainda mais lembrar do que ela tinha me dito mais cedo.
— Regina. — Falei me agachando perto dela. — Toma essa água.
—E u não quero que sinta pena de mim, Emma. — Falou levantando o rosto e pegando o copo d’água.
— Eu jamais me atreveria sentir pena de você, Regina. — Ela me fitava com aqueles olhos tão profundos que agora estavam tristes e vermelhos. — Você deveria ter me contado.
— Ter te contado o que? Que eu sofri um abortou ou que eu sou incapaz de gerar alguém? Heim? — A Regina petulante tinha voltado.
— Regina, eu deveria saber porque era óbvio que ela iria usar isso contra nós, iria se vitimar e responsabilizar você por ela ter te traído.
— Eu não esperava que ela fosse falar sobre isso, Emma. — Eu podia sentir que cada palavra sua saía com muita dificuldade. — Não achei que ela fosse me expor ou expor o que aconteceu.
— Mas ela expos, Regina, e você sabe que ela fará novamente. Então eu preciso que você me conte tudo para que possamos nos preparar e ter com o que contra-atacar. Eu sou a sua advogada e estou aqui para te ajudar, mas só poderei fazer isso se você deixar, então se você quer realmente levar esse processo adiante, terá me ajudar a te ajudar. Temos um acordo?
— Temos um acordo.
Regina se levantou e foi ao banheiro existente na sala para lavar o rosto, e eu me levantei e sentei na cadeira que antes ela estava sentada. Respirei fundo, por muitos motivos aquele seria a ação judicial mais difícil que eu enfrentaria.
— Estou pronta, podemos ir. —Regina falou me despertando dos meus pensamentos.
Sua expressão havia mudado completamente, e ali estava a mulher que há alguns dias tinha entrado na minha sala me pedindo a todo custo uma medida para tirá-la desse casamento.
— Espero que você seja tão boa atriz quanto a Marcela foi.
— Daremos continuidade ao Processo de Divórcio Litigioso entre as Sras. Mills e Barcello.
— Com licença Excelentíssimo, eu gostaria de dizer algumas palavras para minha esposa, se o senhor permitisse. — Marcela pediu a juiz.
— Não vejo porque não. — E fez sinal para que ela fosse em frente.
— Minha querida, eu sei que nós podemos passar por tudo isso, mas desde que estejamos juntas, como fizemos durante todos esses anos. — Regina a olhava impassível.
— Sra. Mills, gostaria de responde-la?
— Na verdade eu gostaria de falar a respeito do que ela disse antes do intervalo.
— Sinta-se à vontade.
— Sim, aquele foi um período bem difícil e que durou meses como você mesma disse, o que não justifica uma traição de anos como foi a sua. Depois que tudo aquilo passou nós retomamos as nossas vidas e voltamos a fazer os nossos planos, inclusive Sr. Juiz, ela começou a fazer um tratamento de fertilidade para ser ela a responsável por gerar o nosso filho dessa vez. A Marcela possui um problema em suas células sexuais, por isso o tratamento. Mas se as coisas tinham entrado nos trilhos e já fazíamos até planos de termos outro filho, porque continuar me traindo? Por pura falta de caráter. — Regina tinha a razão a seu favor e se fazia ser entendida. — Eu entreguei anos da minha vida para viver uma mentia e...
— Isso não significou nada Regina, nada. — Marcela a interrompeu.
— Se isso não significou nada então porque durou tanto tempo? Foi prazer em me enganar que você sentiu? Você se sentia superior fazendo isso? Sabe que eu acho que essa opção é a mais próxima da verdade. — Diferente da marcela, Regina não optou por uma cena dramática, muito pelo contrário, ela era firme no que falava, deixava claro o que queria. — Excelência, é essa pessoa que eu quero tirar da minha vida.
Gold parecia refletir sobre as palavras de Regina, e isso era bom, era muito bom.
— Devo avisar as Senhoras que já me sinto inclinado para um dos lados. A próxima audiência ocorrerá daqui a vinte dias. A sessão está encerrada. — Bateu o malhete.
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