Uma Carta para Eleonor
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Baseada no titulo da música Words Don't Come Easy de MAMAMOO
Julie acordou cedo naquela manhã de sábado e como de costume, subiu em minha cama para me acordar, seu minúsculo corpo de menina de seis anos não fazia muito peso sobre meu corpo, ainda assim era o suficiente para me despertar. Seus finos cabelos loiros estavam emaranhados, sua carinha amassada esboçava um sorriso animado, e só poderia significar que ela queria panquecas para aquela manhã.
“Mais um dia sem ele” — pensei — “Levante-se, você consegue!”
Sentei, espreguicei-me de forma sutil, acariciei seu rosto, depois a puxei para mim, fiz uma rápida sessão de cócegas, cuidei da nossa higiene matinal para por fim e preparar nosso café da manhã.
Todos esses meses que sucederam a morte de meu marido, ainda não consegui dormir de forma tranquila, as vezes acordo no meio da noite questionando-me se tudo não passava de um pesadelo, e que ele continuava vivo lutando no Iraque.
Julie sentou-se em seu costumeiro lugar na mesa, cantava músicas infantis enquanto aguardava, vê-la assim tão calma e tranquila era tudo o que importava para mim. Era ela que me fazia ficar firme, aguentar seguir em frente, caso contrário certamente estaria em um quarto escuro ainda lamentando a pior perda da minha vida.
Sabia que criar Julie sozinha não seria fácil, mesmo minha mãe implorando para ir morar com ela — certamente ela temia que as primeiras semanas de luto se repetissem e não houvesse ninguém para me apoiar — bati o pé e tomei a primeira decisão espontânea em meses. Minha filha seria criada na casa que meu falecido marido tanto se esforçou para comprar antes dela nascer, mesmo sem ele, aquilo deveria acontecer.
Aquele parecia ser mais um sábado comum, após um lento café da manhã comecei a tradicional faxina semanal, Julie me ajudava na sua maneira, apesar de na maior parte do tempo me atrapalhar. Quando terminei os quartos do andar superior comecei a limpar a cozinha. Esfregava a chão no momento em que ouvi a campainha, não esperava ninguém. Então desfiz-me do avental e pedi a Julie que ficasse me esperando.
“Não é ele!” — disse a mim mesma. Na fase da negação do luto, eu sempre corria para atender a porta, torcia que de alguma forma o corpo mutilado que enterrei não fosse de Erick, que tudo foi um erro. E que era ele chegando em casa — “Não é ele!” — disse mentalmente, respirei fundo, antes de abrir a porta olhei rapidamente para o espelho da sala, meus cabelos loiros completamente bagunçados em um rabo de cavalo frouxo, meus olhos estavam inchados, o que era resultado de mais uma noite longa de lamúrias. Arrumei minha aparencia da melhor forma que pude, além de fingir que não estava cheirando a produtos de limpeza.
Um homem desconhecido esperava do outro lado da porta, era alto, tinha pele escura, e um avantajado porte físico, trajava roupas causais, mas devido a sua constante rigidez corporal e seu corte de cabelo, pude concluir que ele era do exército americano.
— Essa é casa do Capitão Erick Hawkins? — perguntou
— Sim! — respondi hesitante, talvez ele fosse uma dos homens comandados por meu marido. Novamente a fracassada esperança dele estar vivo apertou meu peito mais uma vez.
— É a senhorita Eleonor? Esposa do Capitão?
— Sim, o que deseja? — já estava começando a ficar impaciente, ele parecia mais temeroso do que eu.
— Me chamo Matheus, trouxe uma carta para você, o Capitão Hawkins a escreveu e pediu para que lhe fosse entregue.
Cruzei os braços, será que havia alguma confusão? Erick nunca me escreveu uma única carta, meses e meses fora servindo o nosso país, falávamos através de ligações, mas jamais através daquele meio de comunicação.
Para começar ele nunca era bom com palavras, sempre ia direto para o que era mais importante, até mesmo quando foi pedir minha mão ao meu pai ele não enrolou, simplesmente foi lá e pediu. Já durante nosso tempo juntos não havia troca de bilhetes, ele dizia uma ou outra coisa romântica, mas nada muito elaborado, justamente por esses e outros motivos que receber aquela carta quase nove meses depois de sua partida me surpreendeu.
— Tem certeza que foi escrita por meu marido? —perguntei ainda surpresa
— Com toda certeza!
— Quer entrar? — dei espaço para que ele pudesse entrar — desculpe a bagunça, hoje é dia de faxina, a casa está de cabeça para baixo…
— Não tem problema, serei breve! — ele interrompeu e entrou, o acomodei no sofá, ofereci café e ele aceitou.
Julie havia derramado toda a água do balde, criando uma pequena piscina na cozinha, parecia se divertir com sua própria imaginação, totalmente alheia ao turbilhão de pensamentos que afligiam minha cabeça naquele momento. Pensar que Erick havia deixado algo escrito para mim, era animador ao mesmo tempo preocupante, poderia ser algo importante demais para não ser dito pelas ligações que trocamos.
Agradeci mentalmente o fato de ainda ter café, com minhas mãos tremendo o servi e levei para o soldado, o mesmo esperava calmamente na sala, fitando um porta-retrato com a foto de minha família.
— Essa deve ser Julie! — ele disse — assim como me contou seu marido, ela se parece muito com a senhora!
— De fato! — coloquei a bandeja na mesa de centro, ele voltou a colocar o objeto em seu devido lugar, sentou-se distante de mim, pegou a xícara e bebeu um pouco do café.
— Sinto ter demorado para entregá-la! — começou ele, aparentando estar envergonhado — um dia antes dele partir para a missão que o matou, o Capitão ordenou que enviasse essa carta para a senhora, havia machucado meu tornozelo em um exercício, caso contrário teria ido com ele, e possivelmente morrido. Quando fiquei sabendo de sua morte tomei a decisão de que eu mesmo lhe entregaria essa carta, tinha medo enviá-la e nunca chegasse em suas mãos, demorou mais do que pude imaginar, mas finalmente posso executar a última ordem de meu Capitão.
“Ele está morto” — conclui pela milionésima vez. Por quanto tempo minha mente iria pregar esse tipo de peça em minha vida?
Ele tirou do bolso de sua calça o envelope amarelado e amassado, entregou-me, logo que ele estava em minha mão reconheci a letra de meu amado marido.
— Obrigada! — murmurei
— Ele foi um bom soldado
— Também era bom pai, e marido… Muito obrigada por ter tido toda essa preocupação! — “Ele faz mais falta a mim do que ao exército dos Estados Unidos”, acrescentei mentalmente
— Não precisa agradecer, é uma honra para mim…
Ele foi embora cerca de uma hora depois, conheceu Julie completamente molhada e conversaram por um bom tempo, vê-lo interagindo com ela, por pouco não me fez perder o controle naquele momento, eu só queria que ele estivesse aqui para fazer o mesmo. O restante de dia pareceu se arrastar, terminei de arrumar a casa, coloquei em dias as atividades escolares de minha filha, porém as vezes eu me flagrava imaginando o que teria naquela carta.
Lembrei da última vez que o vi com vida, ele calçava seus coturnos, ajustava seu uniforme e dizia que não podia chegar atrasado. Beijou o alto de minha testa e abraçou Julie, disse que voltaria depois. Porém voltou sem vida, não pude ver seu corpo, pois a mina terrestre onde ele pisou o deixou aos pedaços. Seu caixão ficou fechado durante todo o funeral.
Depois de colocar minha filha para dormir, aconcheguei-me na cama de casal, mais uma vez analisei o envelope lacrado e amassado temendo seja lá qual fosse o seu conteúdo. A ferida que a morte de Erick havia aberto ainda não foi fechada, dependendo do que ele houvesse escrito ali poderia até piorar, não sabia se poderia aguentar ainda mais dor. Devia voltar a ser forte, por Julie.
Finalmente criei coragem e abri, lá havia uma folha de papel com a letra feia e desorganizada do homem por quem me apaixonei. Respirei fundo e comecei a ler.
Querida Eleonor
Certamente deve ter sido surpreendida por receber essa correspondência, mais do que ninguém sabe o quanto as palavras são difíceis para mim, ainda assim decidi gastar minhas miseráveis horas de sono para escrever algo decente para minha amada esposa ao menos uma vez.
Há alguns dias, um vilarejo foi bombardo, deparei-me com a cena de um homem que se lamentava pela morte de sua esposa e filha. Não resisti ao impulso de me colocar em seu lugar. Então só de imaginar perder a ti, e nossa amada Julie, senti uma dor indescritível. Quando relembrei nosso momentos juntos, percebi que em nenhum deles expressei da devida maneira o quanto te amava. É o que estou prestes a fazer nesta carta.
Saiba Eleonor, que você atraiu minha atenção desde aquele momento em que a vi discutindo com o seu ex namorado Augustos, não me arrependo de ter intervido e a defendido daquele maldito. Me apaixonei na medida que a conhecia, descobri que você era uma garota divertida e ao mesmo tempo responsável e aos poucos percebi que já não podia mais viver sem você.
Quando apoiou meu desejo de servir nosso país soube no mesmo momento que deveria me casar contigo. Me fez o homem mais feliz do mundo quando disse “sim” diante do padre e todos os nosso familiares, depois daquele momento achei que não poderia ser mais grato a ti, eis que você me deu a Julie, o melhor presente que poderia ter me dado. Ela parece tanto contigo meu amor, isso só a torna ainda mais perfeita.
Peço perdão por só lhe dizer isso enquanto não estou ao seu lado, ou até mesmo por nossos telefonemas, mas creio que irá adorar o fato de que pela primeira vez escrevi algo elaborado que não fosse um relatório para meus superiores. Confesso que foi algo difícil e terrivelmente lento de se fazer e por mais que não esteja lá essas coisas, acredite, cada palavra é o reflexo do amor que sinto por você.
Queria poder te escrever algo melhor, é verdade, mas, talvez você entenda que sou um homem simples, sempre fui e não é tão fácil mudar do nada não é? Mas por você posso tentar.
A amarei até meu último suspiro… Te amo
Seu Erick
Agarrei o travesseiro e cobri meu rosto para gritar aos prantos, aquelas palavras rasgavam meu peito, o deixando aberto e exposto para a dor consumi-lo como um verme. Soluçava com o rosto escondido para que minha filha não ouvisse meu desespero.
Erick esteve sempre presente para mim, quando sequer o conhecia ele me defendeu do meu namorado violento, esteve lá quando decidi que carreira seguir, me esperou no altar, e na sala de espera quando tive que dar a luz. Mesmo que para ele as palavras fossem difíceis, ele estava lá por mim.
Foram necessários quase quatro anos para pensar em Erick sem sentir vontade de chorar, mais dois anos para conseguir casar novamente, e uma vida inteira para esquecê-lo.
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