Uma Carta aleatória para um Cara aleatório

5 Aquela primeira Carta da quarentena para um Cara aleatório


Notas iniciais
Das cartas que nunca serão entregues ou lidas. Perdidas em algum lugar entre as folhas amareladas de um caderno, livros empoeirados e uma capsula viajante do tempo. A primeira das cartas da quarentena. Para alguém que nunca sonhou e nem sequer sonhará encontrar.

Querido P.,

Já tem algum tempo que não nos vemos, ou entramos em contato, 35 dias, não sei bem se é o numero exato. Hoje, ainda é provavelmente o 35º dia que minha quarentena começou. Decidi te escrever porque sinto falta de você, escrever assim porque você provavelmente nunca vai ver, quem sabe aqui finalmente diga as coisas que quis dizer. Talvez deixe perguntas que sempre quis fazer e talvez tenha a resposta algum dia ou não.

Sinto sua falta valendo, da sua voz, do seu olhar, seja com aquele brilho de que ama algo e se encanta ou aquele de menino que sabe que trelou, um meio zombeteiro que te provoca a afirmar que foi ele, mas com toda a cara de pai diz um “não fui eu não” e “que provas tem disso”. Sinto falta do seu sorriso, do bico que repousa em seus lábios mesmo sem querer, num meio sorriso, numa brincadeira infantil, numa piada ou enquanto come. Sim, você faz bico para comer e quando faz birra, com certeza também o faz.

Esperei uma mensagem sua pelo menos seis dias atrás, era meu aniversario, sabe. De verdade esperei, mas não porque gosto de você – Okay, talvez sim. Meu coração saltitaria. 90% sim, mas... – e sim porque parecíamos próximos de alguma forma, mais amigos talvez. Você é meu amigo não é? Porque para mim você é. Mas não chegou mensagem alguma. De certa forma sei do seu receio, da barreira que coloca entre si e evita relacionamentos, mas poxa não somos amigos?

Me veio a mente N. dizendo “ele não vai notar!” em outra ocasião, me lembrando o quão desatento você pode ser para uma porção de coisas. Mas sei lá. Queria ser capaz de conversar com você. Já é complicado pessoalmente, mas por mensagem parece impossível. Apesar de que quando o assunto é violão, você se deixou aberto: “Qualquer coisa me pergunta” por mensagem. Me explica de novo aquele lance das cordas, da tensão das cordas.

Poxa sinto saudades de você, e seu que não posso te dizer. Talvez você não fosse me entender e por isso se afastaria. Quero perguntar como você está, mas é tão complicado. Sei que pode me achar, ou já me acha, estranha com aquela historia de gravar a nossa turma cantando, mas é que amo essa sensação, a energia de quando todos estão juntos, das vozes, do violão, das risadas, sabe? Sinto tanta falta disso e as gravações tem me ajudado um pouquinho, a dormir até.

Tem uma conosco sentados naquele lugar bagunçado de costume, sabe. Você tocando, G. e sua voz maravilhosa cantando com o meu mano – cara, eu mo a voz dela, G., em conjunto com o seu dedilhado e o tom baixo do meu irmão. Você tem noção? – Ai você começa a dedilhar um solinho no final, em meio ao barulho mesmo, então pergunta se tá bom. Quase posso ver a careta que está fazendo. E por falar nas suas caretas, como me fazem falta.

“O melhor de P. são suas caretas”. Concordo com isso. Em meio a um dedilhado e outro, as caretas. Um “Oh” de achei o acorde ou o ouvido quase grudado no violão de “Será esse?”. Uma explicação como seu fosse expert, como você, no violão, meu sorriso de “P. não tenho ideia do que está falando”, mas e dai? Você continua. Amo te ouvir tocando. Amo o som do violão, sabe? E de uns tempos pra cá noto que cada um tem seu som, no violão. O seu não se parece com o de ninguém que eu conheço, exceto com você. E eu gosto dele. E muito E sinto sua falta.

Será que quando a quarentena acabar você toca para mim?

Com carinho e muita saudade,

— Eu.

Notas finais
Alô? Alguém por ai? Algum coleguinha de insonia nessa madrugada? Tem alguém ai do outro lado da tela desse mundo caótico? Se tiver alguém, você já sentiu tanta saudade de alguém, que quis chorar, que nem mesmo conseguia dormir?