Uma Carta

1 Para meu companheiro, meu amigo


Sou uma jovem adulta de 23 anos, e sempre tive um grande carinho por animais, como muitos, meu sonho era ser veterinária, mas esse sonho mudou quando descobri que tenho fobia de animais mortos. Mas isso não me impediu de ter bichinhos de estimação, antes de completar 5 anos já tinha tido um hamster e pelo menos um peixes beta, além uma cadela Beagle, a qual dei o nome de Pink, mas meus pais tiveram que doar ela para um abrigo, pois aquela cadelinha não iria se encaixar bem vivendo em um apartamento. Ela comia todos os móveis e toda vez que brincava com ela eu acabava me machucando. Lembrando que nos anos 2000 a maioria das pessoas não sabia da importância de adotar um bichinho, então todos com meus bichinhos foram comprados.

Por fim, no ano de 2003 eu estava em casa, na sala assistindo TV, meu pai estava no quarto quando minha mãe chega, com uma coisinha peluda de 4 patas, essa coisinha já tinha nome, Skol, ele era um Shitzu, ele usava um lacinho na cabeça, um lacinho azul, para que o pelo não atrapalhasse a sua visão. A antiga dona dele precisava se mudar para Curitiba e não poderia leva-lo com ela, então ela vendeu o Skol para minha família. Ele tinha 6 meses.

O Skol era o completo contrário da Pink, ele era quieto, dormia o tempo todo e quase não latia, ele se apegou a minha mãe, e ela não queria um cachorro, ironicamente. Eu e meus pais costumávamos brincar, dizendo que o Skol era um gato em corpo de cachorro. Quando criança eu aprontava bastante com ele, puxava o rabo dele, pisava nele sem querer (parecia um tapete quando deitava), enfim, na época eu só tinha 5/6 anos e não sabia que poderia machuca-lo fazendo o que fiz. Ele sempre foi muito bonzinho. Mas ensinei ele a pular, no sofá, na cama, mamãe ficou brava quando percebeu o que eu tinha feito. E o Skol ficou um cachorro digno de ser chamado “Cachorrinho de Madame.” de tanto que mimávamos ele.

Com 10 anos, eu recebi a responsabilidade de passear com ele todas as tardes, eu fiquei muito feliz, afinal também era a primeira vez saindo sozinha de casa, sozinha não, com o Skol. Então faça chova ou faça Sol, lá estava eu passeando com meu cachorro, feliz da vida. Lembro-me que perto de nossa casa existia uma loja que vendia pintinhos, e esses pintinhos sempre ficavam em um galpão que ficava com os portões abertos, nossa, quando o Skol ouvia os pintinhos ele ficava desesperado para alcança-los e come-los.

Com 12 anos me mudei para uma casa, em um condomínio fechado, a casa era gigante, com um jardim maior ainda, mas nem eu nem o Skol usávamos o jardim, nem para brincar, nem como banheiro. Nesse condomínio existia uma cadelinha, da mesma raça que o Skol, volta e meia aquela cadelinha (acho que se chamava Mel) estava lá em casa, comia toda a ração do Skol, ficava lá um pouco e depois ia embora. Meu cachorro também fugia de casa e ia pra casa dela, principalmente quando ela estava no cio. Inevitavelmente Mel ficou gravida. Meu Skol teve no total 26 filhos com 6 cadelas diferentes, na época não sabíamos a importância de castrar um animal e também era uma cirurgia de risco, principalmente para animais adultos.

Lembro-me que nessa casa foi a época que ele mais fugiu, como não tinha portões, eu e minha família sempre pegávamos ele correndo pra algum lugar. O dia mais desesperador foi quando o portão do condomínio estava aberto e ele correu para a rua, eu peguei meu patinete e fui atrás dele, o achei correndo no meio fio, gritei seu nome três vezes e ele se encolheu. Foi um alívio tê-lo no colo aquele dia, sorte que morávamos em um bairro tranquilo. Tempo vai tempo vem, e nós nos mudamos de novo, para um prédio bem no centro da cidade, e eu, por sempre estar acima do peso, sempre fui alvo de zombaria, o famoso bulling, na época não tinha esse nome. Isso eu tinha 13/14 anos.

Era com o Skol que eu desabafava, não tinha coragem de contar nem para minha mãe, nem para meu pai o que acontecei, eu não consegui contar, e com o Skol eu podia chorar, só chorar, sem explicações ou perguntas, só desabafo. Era disso que eu precisava. Meu cachorro sabia de todos os meus amores platônicos (mostrava pra ele, e só pra ele meu diário). Era minha companhia de dança, ficava comigo quando eu estava doente, ele pedia pra subir no meu colo quando estava com medo. E claro, conforme eu crescia minhas responsabilidades com ele só aumentavam.

Podia escrever páginas e mais páginas de como era viver com o Skol, de como era estar com ele e das aventuras que vivemos. Mas vou dar um salto no tempo, o ano é 2017, meus pais se divorciaram (não foi um evento traumatizante pra mim, afinal já tinha 19 anos e o relacionamentos deles já tinha acabado muito tempo antes). Skol já estava com seus 14 anos, e basicamente era eu que cuidava dele, dava comida, água, levava pra passear, veterinário, dava banho, sem esquecer do amor e carinho. E como minha mãe praticamente em um novo relacionamento, era somente eu e o Skol, acho que foi a época que mais me senti livre.

— A partir daqui meus relatos ficam mais pesados, então se você está passando por um momento ruim na vida, ou acha que o relato aqui pode acionar algum tipo de gatilho, por favor, pule para os três últimos parágrafos –

Dois anos se passaram, e a saúde do Skol só piorava, descobrimos que ele tinha sopro no coração, suas articulações tinham calcificado, tinha bico de papagaio na coluna, enfim várias outras complicações normais pra idade dele. Fui quando um certo dia, eu estava com meus 22 anos, e o Skol tinha 17, eu percebi que ele não estava comendo, quase não bebia água, no veterinário descobrimos que ele tinha perdido toda a musculatura da mandíbula, ele ficou internado por 2 ou 3 dias, não me lembro direito. Mas lembro que me culpei, me culpei por não ter cuidado dele direito, me culpei por não ter percebido antes.

No fim, ele não comia nem bebia nada, ele passou os últimos dois dias comigo e com minha mãe. Lembro de juntar todas as coisas dele para doação, lembro de segurar ele pela última vez no caminho da clínica veterinária, para fazer a eutanásia. Skol morreu, na clínica que nasceu, no colo da minha mãe, a mesma que trouxe ele pra minha vida. Eu não consegui mais segura-lo, por causa da minha fobia, mais tarde me culpei por não ter conseguido segura-lo.

Dia 11 de setembro de 2020, meu cachorro faleceu, meu companheiro. Nesse dia meu namorado não saiu do meu lado, mas eu não chorei tanto, eu não queria chorar, eu queria parecer forte, para que minha mãe pudesse desabar naquele momento. Apesar de eu achar que ele teve a mesma ideia. Um pouco porque, a ficha ainda não tinha caído completamente. Foi depois de alguns dias, quando eu dei falta da cama dele do lado da minha, que eu chorei o dia inteiro, abraçado no bichinho de pelúcia, que ele usava como brinquedo, a única coisa que eu guardei de recordação do Skol.

Eu sinto falta do som das patinhas dele, quando andava pela casa, sinto falta do ronco dele, de ter que acordar de madrugada para abrir a porta do quarto para ele ir beber água, saudade do calor dele no meu colo quando estou no computador, daquele pesinho a mais na minha cama quando dormíamos juntos, até do cheiro que ele tinha (graças e esse cheiro meu olfato não funciona perfeitamente). Eu não tenho mais coragem de arrumar qualquer outro bichinho, não quero me apegar tanto e ter que me despedir, apesar de ser um ciclo normal da vida.

Agora tudo que sinto é gratidão por ter tido o Skol na minha vida, por ele ter me ensinado a empatia, a tranquilidade, e que as coisas não são eternas, elas vem e se vão rápido, devagar, não importa. O importante é que você aprendeu algo, e é isso que você deve levar com você. Essa é minha carta de despedida. Obrigada Skol!

Ass.: Sua companheira, sua amiga.

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