Notas iniciais
- Feliz Natal!

Era véspera de Natal.

Estávamos no dia vinte e quatro de dezembro de dois mil e vinte e quatro.

Dois mil e vinte e quatro.

Há quase duas décadas eu conhecera o amor da minha existência.

Bella.

Há dezoito anos minha pequena havia nascido.

Renesmee.

E, hoje, minha existência estava completa.

O vento frio soprava através das árvores altas da floresta, fazendo com que as luzes suaves da atual casa Cullen tremulassem com um brilho gentil.

O silêncio da noite era interrompido apenas pelo som das teclas de piano, uma melodia suave que dançava pelo ar.

Eu estava sentado ao piano, observando a minha filha Renesmee, que tocava com um talento natural que sempre me impressionava. Ela tinha dezoito anos agora, e havia se tornado uma jovem cheia de energia e curiosidade.

Era uma noite tranquila.

Carlisle e Esme estavam na sala ao lado, se preparando para a ceia de Natal.

Alice, como sempre, estava criando algo extravagante para o evento.

Jasper, como bom estrategista, preparava-se para acalmar os ânimos e manter a paz.

E Bella, minha eterna amada, estava ao meu lado, com seu olhar brilhando com um amor silencioso e eterno.

Era uma dessas noites raras, onde a paz parecia se estender por todo o nosso mundo, como se os anos de luta e sofrimento finalmente tivessem dado lugar à felicidade.

Mas, enquanto Renesmee tocava, algo dentro de mim se agitou.

O som das teclas era familiar, mas não no sentido que ela conhecia.

Era como se, de repente, eu fosse transportado de volta no tempo.

Os anos humanos, a minha infância, os momentos com minha mãe… Elizabeth Masen.

Tudo começou a se formar em minha mente, como um quadro desbotado que, com o toque do piano, se tornava mais vívido.

Fechei os olhos por um instante, e deixei que o som me envolvesse, enquanto minha mente me guiava de volta para a minha vida humana.

Eu estava sentado ao piano, não mais naquela casa imponente, mas na sala de estar em nossa casa de campo em Chicago.

Eu não devia ter mais do que 13 ou 14 anos, ainda tão humano, com um futuro pela frente que, agora, eu sabia que nunca se realizaria.

Minha mãe, Elizabeth Masen, estava ao meu lado, suas mãos delicadas correndo pelas teclas com a mesma maestria que eu via em Renesmee.

O piano sempre fora o coração da nossa casa, a fonte de alegria e consolo.

Lembro-me da suavidade de suas mãos. Dos dedos longos e delicados. De como a aliança de noivado dada por meu pai cintilava em seu dedo anelar.

Como cintilaria por toda a eternidade agora na mão de minha Bella.

Elizabeth Masen era uma mulher de uma delicadeza encantadora, mas de uma força interna que me sustentava, mesmo que eu mal compreendesse o peso que ela carregava.

Ela não fora apenas a minha mãe.

Ela fora a minha primeira professora, minha primeira amiga, a pessoa que ensinava a arte de viver, mesmo nas dificuldades da vida.

Naquela época, eu tinha um amor incondicional pela música, muito por causa dela.

A sala de música da nossa casa estava sempre cheia de notas flutuando no ar, e eu me perdia nelas, absorvendo cada acorde que ela tocava.

Ela me ensinava a ver a música não como uma simples sequência de sons, mas como algo que poderia transformar uma pessoa, curar, alegrar, fazer com que esquecêssemos o sofrimento, mesmo que por um breve momento.

— Edward, você já reparou como cada acorde se entrelaça com o outro? Como cada nota se conecta, mesmo quando não conseguimos ver o padrão? A música é assim, meu querido, uma história contada em silêncio. Mesmo que não falemos, ela fala por nós. — Ela dizia enquanto tocava, seus olhos suaves e atentos ao som.

Naqueles dias, eu não conseguia entender completamente o significado daquelas palavras, mas sempre soubera que a música tinha um poder que escapava ao entendimento racional.

Era algo transcendental. Algo eterno.

Deixei que as memórias nubladas me tomassem e me recordei de outra noite em particular, uma noite fria de dezembro, talvez por volta de 1917, quando a neve cobria as ruas de Chicago, e as luzes de Natal decoravam os cantos da cidade.

Minha mãe estava ao piano, tocando uma melodia suave, uma peça de Chopin, que ela dizia ter sido a favorita de seu pai, meu avô.

Ela me chamou para sentar ao seu lado, e, como sempre, coloquei meus dedos sobre as teclas, tentando seguir sua orientação. O som das teclas preenchia a casa, mas eu não conseguia deixar de sentir uma tristeza no fundo da minha alma.

Algo estava prestes a mudar.

A guerra… a doença.

— Não se preocupe com o que não podemos controlar, Edward. O tempo é uma parte de nós, mas a música… a música é nossa. É a nossa maneira de atravessar tudo isso.

Aquelas palavras ficaram comigo por muito tempo, e, embora meu coração humano tivesse se partido com sua morte precoce, eu sabia que ela estava certa. A música permanecia, assim como o amor que ela me deu, que agora ecoava em cada acorde que tocava com minha filha.

Enquanto Renesmee tocava, os ecos de minha mãe e da minha infância me envolviam novamente.

Eu podia sentir a leveza da sua presença, como se ela estivesse ali, ao meu lado, ouvindo a melodia, sorrindo para mim.

Renesmee, com sua natural habilidade, não sabia, mas estava repetindo as notas que minha mãe e eu compartilhamos tantos anos antes.

Era como se o presente e o passado se entrelaçassem, e eu, agora com 123 anos, ainda carregasse a presença de minha mãe em meu âmago… em minha… alma.

Eu a sentia ali, em cada nota que Renesmee tocava, em cada olhar que ela me dava enquanto tocava.

A saudade de minha mãe era profunda, mas, ao mesmo tempo, eu sentia que algo nela ainda vivia, algo que eu podia transmitir à minha filha.

Renesmee não era minha mãe, mas de alguma forma, ela carregava em si a mesma essência de bondade e compreensão, a mesma conexão com a música, com a arte de expressar sentimentos sem palavras.

Quando ela terminou de tocar, fiquei em silêncio por um momento.

Eu sabia que minha mãe, Elizabeth Masen, estaria orgulhosa de ver como a música continuava a ser a ligação entre as gerações.

Eu ainda era seu filho, e ela, ainda estava comigo — não em forma, mas em espírito, em cada acorde, em cada melodia.

— Isso foi lindo, Nessie. — Eu disse, a voz trêmula. Ela sorriu para mim, os olhos brilhando com a mesma serenidade que eu lembrava em minha mãe.

“Eu não sei como fazer isso, pai, mas sinto que estou tocando para algo maior.”

Ela me disse ao tocar meu rosto com as pontas dos dedos.

E, enquanto ela me olhava com aqueles olhos que tanto me lembravam de minha mãe, eu senti uma paz profunda, como se tudo estivesse exatamente onde deveria estar.

O amor da minha mãe, a música, a memória dela, nunca se perderia.

Ela continuava viva em cada melodia que tocávamos, e eu sabia que, de alguma forma, ela ouviria tudo o que eu tinha para dizer.

Renesmee havia terminado a melodia e, ao se afastar do piano, um silêncio acolhedor se estendeu pela sala.

Eu continuei olhando para ela, admirado pela facilidade com que ela transbordava talento e graça.

Sua música parecia tocar não só os nossos ouvidos, mas o fundo da minha alma.

No entanto, minha mente estava distante, perdida na lembrança de algo que, até aquele momento, eu quase tinha esquecido: a dança.

A ideia me veio como uma visão repentina, quase como uma lembrança de algo que estava profundamente enraizado em meu ser, mas que eu raramente permitia emergir.

Eu olhei para Bella, que estava ao meu lado, com um sorriso tranquilo e acolhedor, seus olhos dourados brilhando à luz suave das lâmpadas de Natal.

— Poderia me conceder o prazer desta dança, senhora? — Perguntei, com a suavidade de uma provocação, mas também com a urgência de querer criar um momento, algo imortal, algo que nos unisse ainda mais. Bella me olhou com um sorriso, os olhos preenchidos com ternura e compreensão.

— Agora? Aqui? — Ela perguntou, mas sua voz estava cheia de carinho. Ela sabia que, em qualquer momento com ela, mesmo o mais simples, eu encontrava uma eternidade.

— Sim. — Respondi, com um leve sorriso. — Aqui. Agora.

Ela se levantou, e com sua nova agilidade, foi até mim.

Sem hesitar, coloquei uma das mãos em sua cintura e a outra em sua mão, guiando-a suavemente.

Nós começamos a dançar, não havia necessidade de música — embora a melodia tocada por Nessie envolvesse toda a casa — o simples movimento dos nossos corpos parecia preencher o espaço com uma melodia única.

O contato, o toque de suas mãos, a suavidade de seus passos... era como se o tempo desaparecesse e só existisse nós dois, em uma dança que falava de nossa história e do que ainda viveríamos juntos. Por toda a eternidade.

Enquanto a dançávamos, a leveza da noite envolvia nossos corpos e, por um momento, a melodia de Renesmee, que ainda ressoava suavemente, se fundiu com a dança, criando algo mágico, uma conexão invisível, mas palpável, entre todos nós.

Eu olhava para Bella, sentindo a batida do seu coração — esse coração que, embora imutável, continuava a bater por mim, mesmo quando eu sabia que não era mais possível para ela. E nesse espaço de tempo, algo em mim se desfez e se reconstruiu.

Foi então que a lembrança me atingiu com força. De repente, eu estava de volta à minha infância, de volta à sala de música em nossa casa de Chicago, com minha mãe. O calor da lareira não podia competir com o calor humano que ela irradiava, a suavidade do toque dela, o som da sua voz que ecoava em minha mente.

Lá estava eu, com 12 anos, aprendendo as primeiras notas de uma valsa clássica.

Eu era um menino tímido, introvertido, mas a música parecia me trazer algo que eu não conseguia encontrar em nenhum outro lugar.

Minha mãe, sempre tão delicada e atenciosa, me ensinava a dançar, como se aquele gesto simples fosse uma extensão da música que preenchia nossa casa. Ela ria suavemente quando meus passos estavam desajeitados, me corrigia com um toque suave nas minhas mãos e uma palavra gentil de encorajamento.

— Não tenha pressa, Edward. A dança, assim como a música, deve ser sentida. Cada movimento é como uma nota, cada passo, como uma respiração.

Lembro-me claramente de como ela me fazia sentir que, naquele momento, o mundo inteiro poderia desaparecer, e a única coisa que importava era estarmos ali, dançando juntos. Ela me guiava com tanta graça que eu sentia que poderia levá-la a qualquer lugar, como se nós dois estivéssemos em um lugar onde apenas a dança e o amor existiam.

Enquanto dançávamos, as memórias de minha mãe tomaram conta de mim.

A sua delicadeza, a suavidade de seus passos, a luz nos seus olhos quando olhava para mim — tudo isso parecia se fundir com a imagem de Bella, a mulher que agora era minha eternidade.

E, enquanto eu girava com Bella, não pude deixar de pensar que, de alguma forma, minha mãe havia me preparado para ela.

O amor incondicional que minha mãe me deu, a música que compartilhamos, tinha me moldado para amar Bella da mesma maneira.

— Você está quieto, Edward. — Bella disse, seus olhos espreitando os meus com curiosidade. — No que está pensando?

Eu sorri, segurando-a mais firme, sentindo o peso de nossas vidas se entrelaçando.

— Creio que esta seja uma frase minha, meu amor. — Ri e suspirei. Sua testa estava franzida, como se estivesse preocupada. — Pensando na minha mãe.

Respondi, a voz baixa, quase um suspiro.

— E em como ela me ensinava a dançar assim, com a mesma paciência, a mesma graça... e a mesma música.

Bella olhou para mim, com uma expressão que era ao mesmo tempo ternura e compreensão.

— Eu sei que ela está orgulhosa de você. — Ela murmurou, e por um momento, senti uma presença reconfortante — minha mãe, de alguma forma, ainda aqui.

A dança continuou, e a lembrança de minha mãe ficou mais viva do que nunca.

Eu percebi, então, que a música e a dança, em toda a sua beleza, sempre foram pontes que ligam o que foi e o que será.

Enquanto dançava com Bella, eu sabia que, de alguma forma, minha mãe estava lá, compartilhando aquele momento, como se ela me dissesse, em cada passo, que o amor não se apaga.

Ele se transforma, evolui, mas permanece.

Renesmee observava de longe, seus olhos brilhando com um entendimento que era além da sua idade. Ela tocava as teclas com a mesma destreza, mas agora a melodia parecia diferente — era uma melodia de união, de gerações, de tudo o que havíamos sido e seríamos.

Enquanto girávamos, as palavras de minha mãe ecoavam na minha mente:

"A música é nossa. É a nossa maneira de atravessar tudo isso."

E naquele momento, eu soube que ela estava certa. A música, a dança, o amor — tudo isso atravessava o tempo, as gerações.

E eu estava exatamente onde deveria estar: com minha família, com minha filha, com Bella, e com o amor eterno de uma mãe que jamais se afastaria.

Porque o que ela me ensinou, eu passava adiante, em cada acorde, em cada passo.


Notas finais
- Caso tenha gostado, não deixe de comentar. - Grande abraço!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!