Uma Canção para nos Dois.
14 O Dia da Partida.
Notas iniciais
Os meses passaram-se de maneira assustadoramente rápida, após a viagem das férias nos concentramos para deixar tudo em ordem.
A banda estava indo muito bem, mas, já havíamos informado sobre a longa pausa que se seguiria.
Lyah e eu estávamos realmente muito felizes e vivíamos cada segundo como se fosse o último, eu tinha tanto receio do que estava por vir e como todos sabemos o futuro muitas das vezes é assustador.
—O ENEM já é semana que vem. – Começou Martim enquanto corrigia um simulado de matemática que eu fiz, ele era realmente muito inteligente. – E ao que parece julgando por esse simulado você está preparado pra conseguir a vaga em Lisboa.
—Às vezes bate um medo sabia. – Comecei olhando pela janela do quarto, uma chuva fina começava a cair lá fora. – De que Lyah se canse de esperar.
Ele suspirou de leve e começou a fechar os livros.
—Quanto a isso só tenho uma coisa a te dizer meu velho, Lyah não é como Alice.
Falou ele diretamente enquanto guardava os livros na mochila.
—Pare de se torturar com isso e se concentre em voltar logo pra casa.
Conversamos ainda sobre o futuro até a chuva passar, Martim era meu melhor amigo, meu confidente e conselheiro. Sou muito grato por ter um amigo como ele.
Naquela noite o acompanhei até o ponto de ônibus e depois resolvi visitar Lyah para aliviar um pouco a mente com seus carinhos.
Quando bati na porta ela abriu rapidamente, usava um short jeans curto, na verdade até demais, uma camiseta preta e os cabelos presos em um coque.
—Oi amor, entra. – Disse ela me beijando. – Tudo bem?
—Sim, e agora melhor com você.
Haviam vários livros espalhados pelo chão alguns rabiscos de formulas e questões resolvidas, era logico que ela também estaria estudando.
—Você está se esforçando. – Falei orgulhoso enquanto pegava um livro de história. – Estudando segunda guerra?
Ela deixou os ombros caírem enquanto soltava um suspiro.
—Odeio história! – Exclamou ela caindo no sofá. – É tão complicada!
Não pude deixar de rir.
—Sabe na verdade ninguém odeia história, a não ser a própria. – comecei copiando uma frase de Robert Langdon. – E também não tem segredo amor.
Particularmente eu gostava bastante de história, era minha matéria predileta.
—Quais são suas dúvidas, talvez possa te ajudar.
Falei examinando os rascunhos dela com algumas questões de provas anteriores.
—Na verdade estou encontrando dificuldades com as guerras. – Começou ela. – Tudo o que sei e como começou a primeira, tipo o assassinato do duque sei lá o que.
Falou ela emburrada.
Não pude deixar de rir, aquilo era tão simples.
—Bom na verdade não foi somente a morte do Arquiduque Francisco Ferdinando por ativistas do grupo mão negra em Sarajevo que provocou a guerra, ele foi só o estopim que explodiu o barril de pólvora que era a Europa naquele período.
Comecei explicando, realmente ela precisava de ajuda.
—Você faz parecer tão simples. – Falou ela conferindo um comentário na internet. – Foi desse jeitinho que você disse.
—Você precisa para de tentar gravar datas. – Comecei enquanto peguei uma folha de questões no chão. – Vamos fazer o seguinte, vou te ensinar o que sei e depois vamos fazer esse questionário. – Sentei-me no sofá ao seu lado enquanto explicava. – talvez assim você consiga enfim entender.
Ela assentiu com a cabeça enquanto a chuva ficou forte lá fora.
—Você me diz que preciso parar de tentar gravar datas, então como quer que estude história?
Perguntou ela com uma sobrancelha arqueada.
—Amor, você precisa se concentrar nos fatos. – Comecei. – Por exemplo, o que aconteceu de importante em 1945?
—E eu vou saber. – Respondeu ela tentando encontrar a resposta, ela estava uma pilha e por isso não estava conseguindo se concentrar. – Nossa que ódio, eu sei a resposta, mas, ela me fugiu da memória agora.
Resolvi comprovar minha teoria sobre os fatos.
—Quando terminou a segunda guerra amor?
Ela me olhou e respondeu de imediato.
—1945... – Os olhos dela se arregalaram de surpresa. – Então é essa a resposta, ao falar a data não lembrei, mas quando falou o fato imediatamente lembrei-me da data.
—Agora entendeu o que eu quis dizer?
Estudamos juntos até tarde, a chuva estava torrencial lá fora.
O telefone então tocou e Lyah foi atender, fiquei de frente a janela observando as gotas baterem furiosamente no vidro imerso em pensamentos.
—Meu pai não vai vir para casa hoje. – Começou ela. – Vai ficar na casa de uns tios em Ananindeua.
Talvez fosse a hora de me retirar.
—Bom sendo assim, acho melhor eu ir. – Comecei levantando.
Ela se interpôs entre a porta e eu.
—Nem pense nisso. – Falou ela. – Primeiro meu pai sabe que você está aqui, me disse que se a chuva estivesse forte como está que poderia ficar aqui essa noite. – Ela enumerava nos dedos o que o pai havia dito. – Segundo ele ficaria mais aliviado. – Ela se aproximou de mim suas mãos se enroscaram em meu pescoço me levando até ela, um beijo quente se seguiu. – Terceiro... Eu estava mesmo pensando em te chamar.
Finalizou ela me mostrando a mensagem digitada.
—Lyah, não me tente desse jeito. – Comecei sentando no sofá. – Não vou ficar me segurando.
Ela me olhou maliciosamente.
—É exatamente o que eu espero que faça.
Continuamos no sofá trocando abraços fortes e beijos.
—Vamos para o meu quarto. – Começou me puxando pela mão. – E mais confortável.
Decidi me deixar levar, afinal de contas eu queria aquilo também.
Seguimos pela escada até a porta do quarto, notei que ela estava tremendo.
—Já te falei que não precisa ter pressa. – disse segurando as suas mãos. – Você não precisa me provar nada.
Ela continuou me conduzindo até o cômodo bem organizado.
—Não quero te provar nada... Só quero te dar um lugar para voltar.
Percebi então que não se tratava de um capricho ou os nossos hormônios a flor da pele não, realmente nós estávamos prontos para um relacionamento extremamente sério.
—Você já me deu isso. – Falei enquanto deitávamos trocando um beijo. – Como te falei... Não vou resistir.
Beijei seu pescoço como no dia em que ela me tentou pela primeira vez, senti um arrepio subir pela minha nuca enquanto tirei sua blusa.
—Você também está nervoso...
Falou ela se aproximando e retirando minha camisa.
—Tenha paciência tá... É a minha primeira vez.
Continuamos a nos beijar, minhas mãos desceram apertando seu bumbum ela soltou um suspiro e então soltei seu sutiã.
—Já te disse que também é minha primeira vez.
Depois de algumas caricias e amassos estávamos completamente nus.
Meu corpo magricela me deixou envergonhado diante de Lyah que tinha um corpo belo e sarado.
—Sinceramente não sei o que você viu nesse espantalho. – Comecei enquanto tremia de nervosismo. – Tipo, você é tudo que um cara poderia querer e...
—Você é tudo o que eu sempre quis.
Ao dizer essas palavras seus olhos se encheram de lagrimas.
—Parece até que estou sonhando. – falou ela botando sua mão em meu peito. – Tenho medo de acordar.
Eu abracei forte.
—Sonhos não tremem de nervosos.
Trocamos um beijo enquanto nos dirigimos a cama, ela deitou-se primeiro e se preparou.
—Eu amo você João.
Deitei-me sobre ela esforçando-me para não me tornar pesado.
—Poderia simplesmente dizer eu também. – Comecei olhando em seus olhos, senti certa humidade se formando em minhas pálpebras enquanto minha voz embaçava. – Mas, você foi a melhor coisa que já me aconteceu Lyah, um feixe de luz que trouxe cores a meu mundo preto e branco... E eu não me imagino mais sem você. Eu te amo.
Naquele momento nos tornamos um só, sentia como se o mundo ao meu redor tivesse parado, podia sentir que estava verdadeiramente completo.
A chuva torrencial abafou nossos gemidos e juras de amor, mas nosso amor poderia ser sentido a quilômetros de distância.
***
O tempo passou rápido e o dia do Enem finalmente havia chegado Infelizmente todos nós caímos em lugares separados, ou seja, era literalmente cada um por si.
O primeiro dia de provas passou rápido e sai da sala de provas com a certeza de ter feito um bom teste.
Quando avaliava o caderno de questões senti meu celular vibrar, uma mensagem de Lyah despontava no visor.
“Como você foi?”
Digitei rapidamente dizendo que fui bem, decidimos não nos encontrar para podermos nos concentrar para o próximo dia.
Já em casa depois de um bom e demorado banho deitei-me em minha cama.
—Olá – Começou meu pai entrando no cômodo. – Como vai?
Perguntou ele sentando-se ao meu lado.
—Ansioso e confuso.
Não havia segredos entre meu pai nós sempre tivemos uma relação madura e consistente.
—Compreendo ansioso pelo futuro e confuso porque não quer se afastar de Lyah, certo?
É incrível como meu pai consegue me ler tão facilmente.
—Exatamente. – Continuei enquanto sentava. – Eu quero ir para Portugal, mas ao mesmo tempo não quero deixar Lyah aqui.
Falei e ao mesmo tempo me repreendi por ser tão egoísta.
—Sabe filho, ela te apoiou mesmo sendo isso penoso para ela acredito que você também deva apoia-la agora, respeitar suas decisões e fazer o seu melhor para que vocês possam desfrutar do fruto desse sacrifício que estão fazendo juntos.
Eu sabia que ele já havia matado a charada.
—Você já havia notado o que eu queria fazer não é?
Ele sorriu.
—Claro que sim, mas você acha justo convencer Lyah a ir para Portugal mesmo a contragosto?
Aquela pergunta me abriu os olhos.
—Realmente sou um animal.
Falei caindo na cama.
—João, ela jamais deixaria Guilherme sozinho, eu tenho sua mãe e a sua irmã, porém agora são somente eles dois. – Começou ele ternamente – ela vai querer passar esse tempo com ele, pois quando você voltar e eu sei que vai voltar. – Continuou ele gesticulando. – vocês vão se casar e construir uma vida juntos.
Levantei-me e fui até minha mesa onde o notebook estava ligado.
—Muito obrigado pai, precisava ouvir isso. – Falei enquanto acessava a pagina que queria lhe mostrar. – Veja isso.
Ele levantou-se e ficou surpreso com o que viu.
—Nossa filho, a sua loja já está com tantos pedidos? – Falou ele com os olhos brilhantes. – Isso é maravilhoso!
—Consegui isso tudo graças ao senhor.
E ficamos ali até altas horas preparando o envio dos produtos.
No dia seguinte as provas foram massivas, porém conseguimos alcançar o esperado e depois saímos para nos divertir, toda a trupe.
Percebi que entre Alice e Felipe estava pintando um clima e isso me deixou aliviado.
Martim e Helen estavam se entendendo também, já Eduardo não saia do celular e então descobrimos que ele tinha uma namorada em São Paulo que também iria para Coimbra estudar direito.
—Tá explicado à razão da sua escolha! – Falou Helen rindo.
—Qual é sou um rapaz aplicado gente. – Respondeu ele rindo. – Digamos que isso é somente um incentivo a mais.
Cada um dos casais decidiu esticar a noite para algum lugar Edu se mandou para casa e ficamos somente Lyah e eu.
Decidimos ir até a estação das docas. Ao chegar lá comemos alguma coisinha e ficamos assistindo alguns músicos populares que estavam se apresentando e então decidimos ir olhar o rio.
—Quanto tempo ainda nos resta? – Perguntou ela enquanto nos abraçávamos na orla.
—Bom assim que sair o resultado do Enem dou entrada no pedido isso vai acontecer em algumas semanas. – Comecei explicando o processo. – Depois disso terei que escrever uma carta de apresentação e dependendo disso recebo a resposta positiva ou negativa, se positiva deverei imprimir e legalizar alguns documentos, passaporte e pagar às taxas e também encontrar um bom apartamento que caiba no meu orçamento, graças a Deus a loja tem ido bem então vou conseguir e é claro vou precisar converter meus reais em euros.
Ela me deu um beijo no pescoço.
—Nossa quanta burocracia.
—Sim muita, poderia morar no campus, mas prefiro um quarto meu afinal me dará mais privacidade.
Expliquei enquanto começamos a caminhar pela orla, o vento soprava gostosamente e o som das águas era relaxante.
—Então entramos na contagem regressiva.
Falou ela me olhando.
—Sim entramos.
Percebi que estava ficando meio pra baixo e foi ai que Lyah me surpreendeu.
—Então não temos tempo para tristeza! Vamos nos divertir a beça, sair todas as noites e aproveitar ao máximo, afinal, ficaremos separados por quatro anos e meio e isso é muito tempo.
Aquela alegria me contagiou e decidi seguir aquele conselho.
E assim se sucederam os meses, como esperado, fui aceito e por coincidência viajaria no mesmo dia em que Edu e Helen.
Consegui resolver todas as burocracias e conseguimos um apartamento bem simples e econômico Lyah e eu aproveitamos cada dia daqueles meses intensamente, porém havia chegado o dia da partida.
Naquela manhã nos reunimos no aeroporto à banda, nossas famílias e estávamos prontos para ir.
Sentia um nervosismo sinistro afinal em algumas horas estaria longe das pessoas que amo e principalmente longe de Lyah.
—Você lembrou-se de pegar tudo João? Passaporte documentos o mapa da cidade. – Minha mãe estava uma pilha. – Converteu mesmo os reais em euros?
—Mãe calma tá tudo bem.
Falei a abraçando forte.
—Está tudo sob controle.
Felipe e todos os integrantes que ficariam vieram falar conosco.
—Se cuidem seus malucos. – Falou ele abraçando nos três ao mesmo tempo. – Voltem logo.
—Voltaremos chefinho. – Falou Helen.
—Espero mesmo que volte senhorita. – Começou Martim abraçando Helen e a beijando. – Não vá me trocar por nenhum gringo viu?
—Seu bobo. – Respondeu ela o abraçando.
—Suspeitei que vocês estivessem juntos! – Falou Lyah rindo. – Que lindo agora já tenho com quem dividir o sentimento de estar longe do meu amor né Martim?
Todos rimos e então nosso voo foi anunciado.
Edu foi logo despedir-se de seus pais e seguiu para oi embarque, Helen levou Martim par junto do pai para despedir-se o voo dela sairia no mesmo horário porem seria diferente do de Edu e eu.
—Chegou a hora. — Falei abraçando Lyah fortemente, tremíamos de uma maneira que não se explicava. – Estou com medo.
Meus pais se aproximaram.
—Eu também. — disse ela deixando as lagrimas caírem. – Promete que vai voltar pra mim?
—Eu vou voltar. – Disse segurando choro inutilmente. – Me espere, por favor, eu prometo que vou voltar.
Meu pai interveio quando a ultima chamada foi anunciada.
—João, está na hora filho.
Lyah abraçou minha irmã enquanto virei de costas para ir ao portão de embarque.
Sentia um peso enorme se formar nos ombros.
Já no avião sentei-me ao lado de Edu, havíamos comprado às passagens juntos ele ia a Lisboa encontrar-se com a namorada e de lá iriam a Coimbra.
—Momento difícil não é.
Falou ele enquanto os procedimentos de decolagem começavam, não respondi palavra.
E então o avião decolou me levando a um futuro incerto.
—Fica a vontade que te dou cobertura. Falou Edu me deixando sentar do lado da janela. – Pode mandar ver, não é vergonha chorar por amor.
E foi isso que fiz, chorei enquanto a cidade sumia lá embaixo e as nuvens tornavam-se a paisagem do meu futuro.
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