Uma Canção Para Você
2 Capítulo 2 - Acalento
Notas iniciais
Eli não bateu na porta quando finalmente chegou ao quarto de Umi. Ela notou que a porta estava semiaberta e foi terminando de abri-la silenciosamente, colocando apenas parte do seu corpo para dentro do quarto. Umi ainda estava dormindo, mas tossia de vez em quando. O olhar de Eli era preocupado. Foi então que ela teve uma idéia.
A loira deixou a porta entreaberta como ela havia encontrado e foi até a cozinha. Esperava que a mãe de Umi não fosse se importar, mas Eli imaginava que seria bom preparar algo gostoso e fácil de comer para a outra. Ela colocou o avental verde claro e começou a preparar o mingau de arroz que haviam lhe ensinado e que diziam ser muito bom para pessoas doentes. Ao perceber a si mesma, Eli deixou um risinho escapar. Ela parecia uma mãe assim. Ou talvez uma esposa... Eli corou de leve com esse último pensamento e decidiu focar-se apenas no que estava fazendo.
Depois de alguns minutos o mingau estava pronto. Ela retirou o avental e deixou todos os utensílios sujos na pia. Ela voltaria para lavá-los antes da mãe de Umi chegar. Colocou o prato com o mingau em uma bandeja com uma colher e então seguiu seu caminho para o quarto de Umi. Quando ela finalmente entrou, Umi havia acabado de despertar. Ela estava meio sentada e tomou um susto ao ver a loira. Parecia um pouco melhor.
– E-Eli?! O que está fazendo aqui? – Umi ficou bastante corada, mas Eli imaginou que ainda era por causa da febre.
– Ah, olá pra você também, Umi. – Eli sorriu, aproximando-se – Eu vim te ver, é claro. Soube que você estava doente.
– Mas... hoje não tinha ensaio depois da aula? – A garota perguntou, vendo Eli sentar-se num espaço livre da cama e colocar aquela bandeja com o mingau em seu próprio colo.
– Eu gravei um vídeo com uma coreografia nova. Deixei as meninas ensaiando e disse que vinha te visitar. Todas queriam vir, mas não é bom tanta gente em cima de uma pessoa adoentada, né? E também, no próximo ensaio todas já estarão sabendo, só vai faltar você. – Ela sorriu.
– Me desculpe... Eu não queria preocupá-las... – Umi baixou um pouco a cabeça.
– Não seja boba. É claro que ficaríamos preocupadas, nós te amamos. – E quando ela disse isso, Umi ficou ainda mais vermelha.
– V-Você que fez? – Umi perguntou, voltando o olhar para o mingau.
– Ah, sim. Imaginei que estivesse com fome. – Eli pegou um pouco do mingau com a colher e foi levando até a boca de Umi. – Diga “ahh”.
– E-Eli!! – Umi queria esconder seu rosto de tão envergonhada que a garota estava. Chegou até a puxar um pouco das cobertas, sem perceber que quando fazia isso ficava ainda mais adorável para Eli. – E-Eu consigo comer sozinha... N-Não precisa...
– Umi. – A loira disse firmemente, olhando-a bem séria. – A sua mãe disse pra eu cuidar de você e é isso que eu vou fazer. Agora vamos... “ahh”. – E ela abria a boca como queria que Umi abrisse.
A garota viu que não adiantaria de nada discutir com a loira. Umi baixou as cobertas e abriu a boca, ainda um tanto hesitante. Eli levou a colher até entre os lábios da outra, voltando a sorrir. Umi mastigou por alguns segundos e então engoliu.
– Está muito bom, Eli... Mas tem algo diferente, não é? – A garota perguntou.
– Sim. Eu coloquei um pouquinho de gengibre para aliviar a sua tosse. – Ela parecia um tanto orgulhosa por ter pensado nisso.
Umi ficou observando-a em silêncio. Eli era mesmo incrível, ela pensava em tudo. Umi continuou comendo, deixando que Eli cuidasse dela como tanto queria. Mesmo estando bastante sem graça, ela também se sentia muito feliz. Estava tendo a atenção da mais velha toda para ela. Na maioria das vezes tinha vergonha desse sentimento egoísta. Mas naquele momento não queria pensar nisso. Era realmente muito bom ter Eli cuidando dela.
Depois que Umi comeu tudo, Eli colocou a bandeja sobre uma mesinha ali perto e então voltou a sentar-se.
– Deixa eu ver como está sua temperatura. – E então, sem aviso prévio, ela encostou a testa na de Umi. – Ainda está bem quente... – Mal sabia ela que estava tão quente justamente por Eli estar assim tão perto. Umi sentia como se seu coração fosse explodir de tão forte e rápido que batia. Ela era capaz de sentir o hálito gostoso de Eli tocando seu rosto e isso fazia com que ela sentisse que ia perder a consciência se ficassem naquela posição por muito tempo. – Tive uma idéia. – Eli disse finalmente, se distanciando um pouco para o alívio (e desapontamento) de Umi.
Umi ficou olhando-a curiosa para saber o que a loira faria. Eli então foi deitando-se lentamente na cama e puxando Umi para deitar o rosto sobre seu peito.
– E-Eli!! O que... o que está fazendo...? – Umi voltou a sentir o coração acelerar.
– Minha avó costumava me abraçar assim e cantar para mim quando eu era pequena e ficava doente enquanto estava na casa dela. – Eli explicou como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Cantar? Eli iria cantar para ela? Não demorou muito para Eli começar. Ela fechou os olhos, ainda abraçando Umi, e deixou que sua voz ocupasse o vazio daquele quarto. Uma voz tão linda. E Eli cantava algumas partes em russo e outras em japonês, como se estivesse fazendo uma tradução para a outra. Aquela sensação era realmente boa. A voz de Eli a acalmava tanto. Sem perceber, Umi a abraçou de volta, aconchegando-se junto ao corpo de Eli como uma criança. Ela queria que aquele momento durasse para sempre. Ao final da canção, Umi ergueu um pouco o rosto, sendo capaz de olhar a outra nos olhos sem ficar mais tão envergonhada.
– Eli... obrigada por ter vindo. – Ela agradeceu, sorrindo.
– De nada. – Eli respondeu de volta.
Durante o restante da tarde as duas permaneceram naquela posição e ficaram conversando sobre as amigas, os shows e qualquer outra coisa que lhes fosse de interesse. Umi finalmente caiu no sono nos braços de Eli quando já estava anoitecendo. A loira afastou um pouco de cabelo que cobria o rosto de Umi para poder vê-lo melhor. Ela aproximou os lábios dos de Umi, mas parou. Não seria certo fazer aquilo com a outra inconsciente. Ela apenas depositou um beijo suave na testa da mais nova e foi se soltando com cuidado para não acordá-la.
Eli cobriu o corpo de Umi e depois saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Foi até a cozinha, lavou tudo que havia sujado, e foi bem nessa hora que a mãe de Umi voltou para casa. A senhora agradeceu por tudo e Eli se despediu educadamente, seguindo para sua casa.
No meio da noite, quando todos os outros da casa já haviam se recolhido para dormir, Umi acordou. E ela se sentia muito bem, se sentia melhor do que nunca. E o mais importante... ela se sentia inspirada. Umi correu para a mesa que havia em seu quarto e começou a escrever. O bloqueio havia acabado, as palavras fluíam facilmente. A canção estava pronta.
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