Uma Breve História do Amor
6 Velocidade Angular
Notas iniciais
“Como foi na prova?” Perguntou Newt, no dia em que Thomas recebeu sua avaliação.
“Não muito bem,” respondeu o calouro. “Quem quer que tenha dito que Cálculo era a matéria mais difícil dos cursos de exatas com certeza não teve Geometria Analítica.”
Newt apenas riu. Sabia o que seu querido Thomas estava passando. Ser calouro não é moleza. O veterano deu um beijo na cabeça de Thomas para confortá-lo. Depois do quase escândalo que Minho e Gally fizeram dois meses atrás, o mais novo casal não se preocupava em se esconder. Seus amigos da faculdade os aceitaram, então tudo estava bem. Os pais seriam um problema, mas os dois iriam lidar com isso mais para frente.
O veterano queria animar Thomas. Hoje fazia dois meses que eles estavam juntos e, mesmo não sendo muito tempo, esse período foi muito mágico para os dois.
“Ei, eu tava pensando...” Começou Newt. “Hoje de noite tem aquela festa que o pessoal de História tá organizando.”
“Sim, eu soube,” disse Thomas.
“Então, já que hoje faz dois meses desde que a gente começou a ficar, eu queria saber se você gostaria de ir na festa comigo,” perguntou Newt, falando quase rápido demais e ficando vermelho logo em seguida. Thomas fez um pouco de esforço para entender o que o veterano havia falado.
“Os ingressos já não acabaram?” Perguntou o calouro.
“Sobre isso,” Newt mexeu no bolso e retirou dois pedaços de papel. “Eu meio que já tinha comprado nossos ingressos. Eu ia te convidar como amigo, mas, felizmente, as circunstâncias mudaram.”
“Alguma vez eu já te disse que você é louco?”
“Já, e logo depois você me beijou,” disse Newt, rindo.
“Newt, eu nem tenho roupa pra ir!” Thomas também estava rindo.
“Relaxa, é só colocar alguma roupa velha, fazer uns dois ou três furos e tá tudo bem. O tema é Idade Média mesmo. A gente pode ir de camponeses.”
“Claro! E logo em seguida nós vamos ser perseguidos pela Inquisição e jogados na fogueira! Não poderia ser mais romântico.”
“Nossa, seu humor é muito mórbido.”
Thomas ficou encarando Newt por alguns segundos, até que Newt fez a sua cara de cachorrinho que caiu do caminhão de mudanças e disse:
“Por favor, Tommy. Por favor.”
O calouro tentou permanecer sério, mas em dois segundos ele começou a rir e não resistiu mais aos encantos de seu parceiro.
“Tá bom, eu vou com você.”
Quando Thomas disse isso, os olhos de Newt brilharam. Olhar para os olhos de Newt era como olhar para um pedacinho do universo. Um pedacinho muito pequeno, mas que era apenas de Thomas. A melhor descrição que o calouro tinha era de que os olhos do veterano se pareciam com a imagem de um planeta marrom qualquer brilhando num telescópio.
“Ótimo! A festa começa às nove. Eu passo te pegar às oito.”
Thomas mal teve tempo de resmungar um “ok”, e Newt já havia lhe dado um beijo na testa e ido embora correndo. O veterano era muito animado, diferente de Thomas, que era mais calmo.
E talvez fosse justamente por isso que os dois se gostavam, pensava Thomas enquanto ia para sua casa. Newt era um pouco mais agitado que ele, e, ao contrário do que as pessoas pensam, era um nerd e adorava ir em festas tanto quanto gostava de jogar Pokémon. O veterano fazia Thomas sair de sua zona de conforto, mas não de um jeito ruim. Passar seu tempo com Newt era diferente, era incomum, e isso fazia Thomas se sentir muito bem. E talvez fosse por esse mesmo motivo que Newt também gostava de ficar com o calouro.
Thomas não gostava muito de festas e ainda tinha uma lista de exercícios de Cálculo para entregar, mas mesmo assim ele estava pronto às 8 da noite quando Newt chegou para busca-lo.
Assim como Thomas, o veterano também usava roupas velhas e surradas e estava com o cabelo bagunçado, mas, ao contrário de um camponês da era feudal, ele havia tomado banho e cheirava muito bem. E estava lindo.
Para a surpresa do calouro, Newt trazia um pequeno embrulho consigo, e o entregou a Thomas, sorrindo.
“Newt, eu... Eu... Eu não comprei nada,” disse Thomas, totalmente desconcertado.
“Não tem nenhum problema,” disse Newt, rindo. “Você pode me compensar com uns beijos.”
Thomas apenas olhou para Newt e riu enquanto abria o pacote. O calouro quase teve um infarto quando viu o presente. Newt havia comprado “O Universo Numa Casca de Noz”.
“Como você sabia?” Perguntou Thomas enquanto abraçava o veterano, quase pulando de alegria.
“Bom, acho que você mencionou umas duas ou quinhentas vezes que queria esse livro.”
Thomas riu e beijou Newt, sussurrando um “obrigado”.
“Não tem de que, você merece,” disse o veterano, dando uma piscadinha safada para o calouro. “Então, quer comer antes de ir pra festa? Eu trouxe Burger King.”
Para muitos casais, essa seria a comemoração mais cafona que existe no mundo. Comida de fast food e uma festa universitária. Mas para Thomas e Newt estava perfeito. Parte de Thomas ainda se sentia mal por não ter comprado nada para o veterano, mas ele parecia ter sido sincero quando disse que não havia problema. O calouro podia sentir que Newt só queria que os dois ficassem juntos e fodam-se os presentes.
Era algo pequeno, mas o fato de o veterano ter se lembrado de pedir o lanche de Thomas sem salada o deixou muito feliz.
“Contente?” Perguntou Newt.
“Muito!” Respondeu Thomas, com um sorriso. “Muito obrigado, por tudo.”
O veterano apenas sorriu, meio tímido.
Os dois acabaram comendo e conversando mais do que o que podiam durante o jantar, e acabaram saindo da casa de Thomas apenas às 21h45min. Quando chegaram ao local da festa (que era um galpão gigante meio afastado da cidade), ela já havia começado há um tempinho e já estava cheia.
Como os dois não bebiam, eles pegaram uma latinha de Coca-Cola e foram para fora do galpão, sentando-se em um banco a céu aberto.
“Seus olhos brilham e você morde seu lábio de um jeito muito fofo quando olha para as estrelas,” disse Newt, passado algum tempo.
“Mas isso não te faz pensar também? O quão pequenos e insignificantes nós somos? Nós somos, literalmente, um mísero pontinho azul na imensidão do universo.”
“Realmente, você fica muito fofo quando fala das coisas que gosta,” disse Newt e os dois riram.
Thomas riu. “Eu podia ficar com você aqui para sempre.”
De repente, ou por ação do universo, uma música começou a tocar. Uma música que Thomas gostava muito. Newt devia conhece-la também, porque, se não conhecesse, não teria feito o que fez.
“Vem comigo,” disse Newt, oferecendo a mão para Thomas.
Os dois deram alguns passos para se afastarem dos bancos.
E então Newt começou a girar. E Thomas começou a rir.
“O que você está fazendo?” O calouro perguntou, rindo e tentando não pisar nos próprios pés, enquanto servia de ponto fixo para Newt.
“Girando,” o veterano respondeu.
“Isso eu percebi. Mas por que?”
“Física, meu caro. Física.”
Por mais que amasse física, Thomas não compreendeu o que Newt estava fazendo. “Explique-se,” pediu o calouro.
“Movimento circular, Tommy. Se eu girar, eu diminuo o momento angular da Terra, diminuindo a velocidade angular também.”
“Ainda tô boiando.”
“Se a Terra girar mais devagar, a gente tem mais tempo junto,” disse Newt.
De repente, Thomas parou de girar, e puxou Newt para perto dele.
“Você é louco,” disse o calouro. “Mas eu te amo.”
E foi assim que os dois giraram e se beijaram ao som de Favorite Record.
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