Uma Batalha sem Vencedores
1 Capitulo I - Uma Visita
Notas iniciais
Capitulo I – Uma Visita
- Bastian, olha o café da manha. Venha comer filho — fala o seu pai da cozinha.
O mesmo ainda estava adormecido em seu sono matinal, contudo, com esse contratempo começou a despertar e respondeu ao seu pai.
- Já estou indo, me de um tempo só de despertar.
- Ah! Desculpe-me, pensei que já estivesse acordado.
- Pensou mal, mas agora não adianta, estou acordado mesmo e de forma alguma vou conseguir voltar a dormir – disse com certa impaciência.
- Bem, como não dá para voltar atrás, venha tomar café comigo.
Mas ele não foi tão rápido assim, em sua cabeça começou a relembrar o sonho que tivera agora a pouco, tratava-se de Fantasia, a imperatriz-menina pedindo sua ajuda, o Aurin brilhando como nunca e ele tendo de partir para uma nova aventura, que a principio ele não desejava nem um pouco que acontecesse. Por fim levantou-se foi até o Aurin, o mesmo permanecia intacto, imóvel em seu lugar, como qualquer outro objeto ali presente, deixou onde estava.
Foi bem devagar, não estava com nenhuma pressa, seu pai também não, já que era sábado e ele ia trabalhar mais tarde. Chegando à cozinha e sentando-se à mesa o seu pai lhe passa um prato de ovos com bacon e um copo de suco de laranja.
- E então garotão, pretende sair hoje?
- Pela manhã não, mas a tarde pretendo ir à livraria.
- Livraria, qual a livraria?
- Como assim pai, qual outra livraria eu ia senão a do Senhor Koreander.
- A do Sr. Koreander? Existem tantas outras, porque não escolhe uma delas, porque não escolhe outra?
- Você sabe por que, eu gosto muito bem daquela livraria em questão – disse zangado.
- Mas... está bem, se é assim você deseja eu não irei mais discutir sobre isso – disse o pai impaciente, mas pronto para acabar com essa discussão.
- Ótimo, é bom que o senhor entenda – disse ainda irritado.
Não é que o pai de Bastian não gostava do Sr. Koreander, mas é que desde daquele dia de chuva, correndo de alguns garotos, aonde entrou em uma livraria, cujo nome nem sabia qual era, pois o que importava naquele momento era se proteger dos garotos e chegou a conhecer o mesmo, o próprio dono da livraria, que a principio quis expulsa-lo, mas ao ver que estava diante de um também assíduo leitor começaram a conversar. Depois disso o livro que o Sr. Koreander estava lendo chamou a atenção do menino, se chamava “A História sem Fim” e que ainda possuía na capa um alto-relevo de duas cobras, enroscadas uma na outra e mordendo cada uma o rabo da outra.
Fora ele ter saído correndo daquela livraria com o livro, enquanto o Sr. Koreander atendia ao telefone, depois para trás um senhor feliz, ele não sabia que estava prestes a partir em um novo mundo repleto de aventuras, de novos amigos, de um lugar para descobrir, de inimigos para derrotar. Mas parte de sua vida agora estava preso a aquele livro e não havia como escapar disso, a não ser... bem a não ser que ele viesse a falecer por causa de algum problema ou morte natural.
Em suma o pai não gostava nem um pouco do fato dele ter encontrado aquela livraria, ter falado com aquele senhor, ter pego o livro, mesmo deixando um recado de que iria devolvê-lo, mesmo sabendo que isso não seria possível, não por enquanto e que agora precisava disponibilizar parte do seu tempo para os perigos que cada vez Fantasia apresentava. Os ferimentos que mesmo cicatrizando ou já cicatrizado, sempre aparecia um ou alguns novos, enfim tudo isso pelo que o filho estava passando agora.
- Eu não sei qual o seu problema pai, de não querer concordar com isso. Eu faço parte desse mundo agora – falou depois de algum tempo em que ficaram sem falar.
- È claro que eu nunca vou concordar com uma coisa que põe em risco a vida da única pessoa que mais amo nesse mundo que é o meu próprio filho.
- E qual o problema? Não é você que tem de enfrentar todos aqueles perigos, e ninguém menos que eu mesmo.
- Eu sei muito bem que é você, mas mesmo assim eu também fico preocupado, eu também fico sofrendo daqui. Isso é uma agonia sem fim.
- Então concorde, aceite a idéia de que isso faz parte de mim agora, faz parte do meu mundo, da minha vida.
- Não sei filho, por enquanto acho que não consigo, está difícil de acreditar, está difícil de digerir, me de mais um pouco de tempo.
- Por enquanto acho que é a única escolha que tenho.
- Agora vou para o trabalho, juízo viu e se cuide. Se precisar ir... para você sabe aonde, não se esqueça de me avisar.
- Porque você quer que eu avise?
- Para o caso de eu precisar dar desculpa para seus amigos, o pessoal do colégio e quem venha aqui lhe procurando.
- Tudo bem, caso seja necessário eu deixo um recado.
- Ótimo, mas realmente eu vou indo – e beijou o filho na cabeça. – Tchau Bastian.
- Tchau pai, bom trabalho para o senhor.
- Obrigado filho, um bom dia – disse saindo pela porta.
Ele ainda escutou o motor do carro ligando, o som da ré e o carro disparando pela rua. Terminou de tomar café, subiu para o seu quarto, passou por lá, pegou sua toalha e seu estojo de higiene. Escovou os dentes, depois tomou banho e se enrolou na toalha, passou alguns produtos pelo corpo e guardando tudo novamente no estojo, volto para o seu quarto. Abriu seu armário, sempre foi repleto de roupa, escolheu uma calça azul e uma camisa sem manga de cor preta, um boné virado para trás e seu tênis favorito, assim já estava pronto para sair. Entretanto como dissera para o seu pai pela manhã ele havia dito que ia ficar mesmo em casa e como estava com o tempo ocioso resolveu ficar estudando, colocar o assunto e a matéria em dia e se tivesse algum exercício ou trabalho a fazer ele iria terminá-lo nesse dia.
Bastian havia mudado muito, do garoto baixo e gordinho tinha ido para um garoto alto e magro como um graveto, olhos continuavam iguais ao de sua mãe, o cabelo um pouco maior, caído para baixo. Deixará de ser aquele menino medroso, triste e sem amigos, agora tinha coragem para tudo, ninguém mexia com ele, tinha amigos fora e dentro de fantasia, havia melhorado no colégio, era um bom aluno, estudioso, uma pessoa normal como qualquer outra.
É verdade que Karl Konrad Koreander havia ido também para Fantasia e vivido todas aquelas aventuras, como também deixará de ser o escolhido, ou melhor o portador do Aurin, não por está velho, isso não importava nem lá e muito menos no nosso mundo, mas o fato é que ele havia passado essa nova missão para outra pessoa, nesse caso Bastian Baltasar Bux, ou a história era por ai, pois ainda existia muita coisa para se contar.
Pela tarde com todo o dever já pronto, esquentou o almoço, digeriu o que estava no prato, e só colocou perfume, penteou o cabelo e já ia saindo, quando tateando os bolsos, viu que sua carteira estava lá, com dinheiro e seus documentos pessoais, mas estava esquecendo de uma coisa muito valiosa e que não ia necessariamente no bolso, esse objeto era o Aurin, que colocado no pescoço, repousava em seu peito. Por falar nisso ele ganhou esse objeto na primeira vez que visitou o mundo de Fantasia, a imperatriz-menina tinha outro e por fim Atreyu tinha o seu. E só assim finalmente ele pode partir.
A viagem foi tranqüila, nada demais aconteceu, até ele chegar no ponto de descida, ou melhor, na parada que ia descer, junto com alguns passageiros que desceram também. O ônibus quase na porta, só foi descer e ir entrando.
- Boa Tarde Sr. Koreander, como tem passado?
- Boa Tarde, vou muito bem, mas espera ai, você é o Bastian que conheço?
- Sim, sou eu. Porque, mudei tanto assim.
- Pode-se dizer que houve mudanças significativas. Está até mais educado.
- Acho que de alguma forma aprendi com o senhor.
- E como vai no colégio?
- Muito bem, agradeço por perguntar.
- Certo, e pratica algum esporte?
- Natação, um pouco de futebol e mais o que der.
- Realmente mudou e muito, até cresceu mais um pouco. Contudo o que o trás de volta aqui a minha humilde livraria?
- É que desde nosso último encontro, e mesmo voltando várias vezes...
- Isso é verdade, como tínhamos combinado, mas prossiga, por favor.
- Vou direto ao ponto, esqueci de lhe perguntar, mas se existem vários mundos, como eu nunca vi nenhumas das outras pessoas que entram por ele?
- Nunca, você tem certeza? Será que você nunca olhou direito?
- Eu tenho certeza, fora Atreyu, a imperatriz-menina e o conselheiro dela, não havia mais ninguém lá, só aquelas criaturas, o próprio povo de fantasia.
Koreander não respondeu, só deu aquele sorriso sindico, de como se o próprio Bastian tivesse respondido a sua própria pergunta.
- Espera ai, mas como? Porque fizeram isso?
- Que tal pelo simples fato de que nunca quiseram voltar, que gostariam de ter ficado lá.
- Mas como é possível, eles não deveriam voltar ao mundo real?
- Sim, mas um dos pedidos dele foi ficar lá. O que existe de mal nisso?
- E a família aqui nesse mundo? Os pais? Os irmãos? Os amigos? Se esqueceram disso tudo?
E se por algum motivo eles estivessem fugindo desse mundo, querendo nunca mais voltar para cá.
- Quer dizer então? Eles só podem ser...
- Órfãos, ou vivendo na rua, esquecidos pela sociedade, pela vida, pelo mundo, pessoa sem lá, amigos, família, sem nada. Que fugindo desse mundo foram para aquele de lá, e nunca mais quiseram sair de lá.
- E existe alguma maneira de voltar?
- Pode ser que sim, pode ser que não, nunca se sabe meu garoto, nunca se sabe.
- Mas como é que o senhor sabe de tudo isso?
- Bem, primeiro Atreyu passou perto de minha livraria, pensei em ajudá-lo, depois foi a vez de Elisabeth, que você conhece como imperatriz-menina. Mostrei a eles esse mundo e quando fizeram parte dele, bem... o resto você já sabe.
- Pensei que ele tivesse sido criados por nós, ou melhor, pela pessoa que criou essa história sem fim.
- Pode até ser, ou melhor, pode ser o que você quiser.
- Como assim, o senhor não acabou...
- Nós temos imaginação e ela acaba se tornando uma arma poderosa quando a pessoa quer. A verdade acredito que não importa muito, o que importa é que vivencie-a, que a torne-a real, e não somente um fruto da sua imaginação.
- Eu sei, mas é que cada vez que tento entender aquele mundo, mais complicado fica.
- Mas um dia você vai entender tudo, só tenha paciência e continue vivendo essa história.
- Uma outra coisa, porque todos em fantasia nunca envelhecem? È algum tipo de magia?
- Eu já disse que pode ser o que quiser, basta você querer, no meu caso eu quis que eles nunca envelhecessem. E você já decidiu o que vão acontecer com eles?
- Como assim, eu posso decidir se eles continuam como estão ou se envelhecem?
- Mas é claro que sim, naquele lugar as coisas não só seguem o seu curso natural de vida como também podem ser modificados por você, por mim, por qualquer um que venha a ser o portador desse livro.
- Mas que foi que criou esse livro? Foi algum feiticeiro?
- Quem sabe, ninguém nunca sabe. Pode ser somente um livro comum ou um livro mágico. Tudo sobre o mundo de fantasia ainda é um mistério.
- Certo, e antes do senhor? Já existiu alguém que era portador do livro?
- Sim vários, e por falar nisso, quando você estiver no castelo da imperatriz, veja o mural de antigos portadores do livro.
- E existe um mural lá?
- Sim, desde que apareceu o primeiro portador até você, esse mural existe desde então.
- Acho que começo a entender, realmente fantasia não é tão difícil assim de entender.
- Ótimo, que bom que você pensa assim. Mas vejam só, você trouxe o Aurin com você – disse vendo o objeto repousado sobre o peito de Bastian.
Bastian olhou para o objeto ali parado, às vezes se esquecia que carregava-o, por ser tão leve, tão bonito como ele era. Nunca soube como continuava a usá-lo fora de fantasia.
- Sr. Koreander, o senhor também usava o Aurin fora de fantasia?
- Sim, mas é claro. E antes que você pergunte, existe mais de um sim.
- Como assim existe mais de um, por falar nisso eu não ia perguntar isso e sim outra coisa.
- Era? Acho que me precipitei um pouco. Pois é o que você ouviu, existe mais de um Aurin e por quê? Porque as pessoas desejaram e como todo e qualquer desejo em fantasia, eles se realizaram. Sendo assim, com toda certeza, devem existir pessoas nesse momento andando por ai com ele em mãos.
- Então quer dizer que muita coisa em fantasia acontece por causa de desejos, é só a pessoa desejar que acontece?
- Não é bem assim, o desejo tem de vir do fundo do seu coração, tem que ser algo bom. Algo que você realmente queira que aconteça.
- Sei, tem algumas regras é claro, como qualquer coisa nessa vida.
- Sim, para tudo nessa vida existem algumas regras, então não adiantar reclamar, o jeito é cumprir mesmo.
- È eu sei disso.
- Diga-me, seu pai ainda não aprova sua vinda até aqui não é? – parecia mais uma resposta do que uma pergunta.
- Como o senhor sabe?
- Não sei como mais dá para ver nas feições do seu rosto. Mudaram quando eu perguntei isso.
- Não, ele ainda continua sem querer aprovar, acredito que aos poucos ele vai amolecer ou um dia vai acabar aprovando ou aceitando pelo menos.
- Espero, mas mudando um pouco de assunto, tenho um livro especial para você – e entregou um todo envolto em uma capa preta e de alguma forma sem título.
- Mas isso está sem título. Tem certeza de que é um livro?
- Está duvidando de mim garoto, se estou dizendo que é um livro, é porque se trata de um livro.
E Bastian o fez, abriu o pesado e grosso livro e lá estava escrito em cima da sobrecapa do livro:
O Livro sem Título – Autor Desconhecido.
- Obrigado mais uma vez Sr. Koreander, mas diga-me do que trata o livro?
- Você quer que eu conte ou quer deixar a surpresa conduzir você pelas páginas desse livro.
- Tem razão é melhor não contar nada, deixa que eu descubra por conta própria.
- Sabe Sr. Koreander, ás vezes chego a acreditar que você seja um feiticeiro ou coisa do tipo, porque me empresta cada tipo de livro.
- De onde tirou essa idéia Bastian – disse dando uma tragada em seu cachimbo e uma gargalhada. – Na verdade existe um pouco de magia envolvida sim, mas não é a minha.
- Como assim, então é do que? Ou quem?
- Ora, do que mais seria, do próprio livro é claro, e de sua imaginação, essa é uma magia muito forte e que ninguém pode tirar de você.
- Tchau Sr. Koreander, agradeço pela conversa esclarecedora, me ajudou muito a entender melhor fantasia.
- De nada, mas lembre-se Bastian, as vezes a verdade está aonde menos se espera, só que não compreendemos como podemos chegar até ela.
- O senhor que dizer que a resposta para isso tudo está mais perto do que se espera?
- Sim meu garoto, muito mais perto do que parece – e deu outra tragada em seu cachimbo. Eu é que agradeço por transformar os meus dias solitários em plena alegria, ensolarando-os com sua presença.
- Eu é que fico feliz em ter achado uma companhia como o senhor.
- Por falar nisso, aqueles garotos continuam lhe amolando?
- Não, eu fiz o que o senhor pediu, aprendi a me defender sozinho, eles não me amolar mais, depois do que eu fiz com os três.
- Bem e se eu dissesse que isso não foi tão legal quanto parece. A coisa certa a se fazer.
- Não se preocupe, é sei que brigar não leva a canto nenhum, por isso mesmo eu não bati e nenhum dos três.
- Mas você acabou de dizer que... o que fez então?
- Fiz com que parassem com isso, leve eles até a diretora e se eles não quisessem ir ia acabar levando uns sopapos no rosto.
- Garoto inteligente, é assim que gosto de ver.
- Queria saber onde conseguir aprender tudo isso.
- A minha primeira fonte são os livros e a outra é o senhor que me mostrou o caminho para este vasto conhecimento.
Entretanto Bastian não conseguiu ir embora, pois ainda havia muita coisa para conversa com o velho Koreander, até porque essa conversa acabou durando o resto da tarde. Depois da despedida e com um voto de que ele iria retornar em outra ocasião, o dono da livraria voltou para o interior da mesma e Bastian pegou uma condução para ir para casa, onde acabou cochilando, segurando o livro em seu braço. Um livro que nem tão cedo ele iria ler, pois uma coisa em especial iria atrapalhar sua leitura.
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