Uma Batalha sem Vencedores

7 Capítulo VII – Diante do Conselho


Notas iniciais
Atreyu, está diante do Conselho, decidiu enfrentá-lo, em nome do amor que possui por Bastian, será que ele merece tanto assim, mas o pior é que o Conselho de Anciões finge que vai na conversa de Atreyu, mas no momento certo parece que... e ainda por cima haverá uma reviravolta, como será possível revertê-la?

Porque o mundo é tão complicado como as pessoas falam? Porque existem tanto problemas e tão poucas soluções? — pensava a Imperatriz-Menina.


Talvez seja porque as pessoas assim querem, fazem por onde, pois em vez de facilitar o máximo possível às coisas da e na vida, parecem que gostam de complicar as coisas, as situações, as vidas de outras pessoas. Pois não são as mesmas que dizem que é fácil acabar com a fome, com a desigualdade social, melhora o sistema viário (o que ainda não é um grande problema em Fantasia) e de transporte, sim, tudo isso e muito mais são fáceis de resolver, entretanto o ser humano, ou sua maioria gosta de ir ao contrário, fazer da forma mais difícil, talvez por algum prazer que tenha ao realizar isso, talvez esperando que seja bonificado por isso, ou ainda que receba uma medalha, um reconhecimento pela boa ação que realizou, como se fazer por fazer não trouxesse nenhum ânimo, nenhuma alegria, não trouxesse aquela disposição, a vontade real de fazer, como se tivesse que está ligada a alguma coisa. Por isso que de forma alguma, a humanidade vai evoluir ou poderá evoluir se pensa dessa maneira, e por mais que se diga que existe uma evolução, na verdade a humanidade está retrocedendo, não em relação à ciência, tecnologia, saúde, mas sim em relação ao social, ao pensar no próximo, ao ajudar o próximo, em não ficar tão interessado na vida alheia. Isso no mundo de Bastian era corriqueiro, mas parece que em Fantasia existiam pequenos focos e a princípio, nesse momento, parece que o mesmo estava se dirigindo para as colinas dos búfalos roxos, onde Atreyu, o Conselho de Anciões e o resto da tribo viviam.


A imperatriz sempre soube montar a cavalo e cavalgar nele, parecia mais um desfile, ou pareciam que estava disputando uma corrida ou ainda que estivessem se juntando a um grande grupo ou teria ou já tinha ocorrido o início de uma grande guerra, por a mesma ia à frente e logo depois vinha uma comitiva de 20 soldados atrás dela, cavalgando dia e noite, sem nenhum momento ou muito pouco para comer e nenhum para descansar. Era um desejo de a mesma encontrar Bastian antes que o mesmo chegasse “As Colinas Roxas” como também era chamado o local de moradia de Atreyu, isso só foi conseguido no segundo dia de viagem, onde encontraram em um local descampado, mas seguro um menino dormindo e ao seu redor, para esquentá-lo, um dragão da sorte. Mesmo parecendo está dormindo, ambos estavam bem atentos a qualquer menção do perigo, qualquer coisa que pudesse vir a ocorrer de estranho, eles estavam atentos, na verdade a tudo ao seu redor. Quando a imperatriz foi se aproximando, Bastian disse:


– Imperatriz o que faz aqui? Pensei que estava sozinho nessa missão.


– Estava, mas agora a situação mudou, estou lhe escoltando até o local, para que chegue seguro.


– Tem certeza que é somente isso que está fazendo? Não está pensando e fazer alguma coisa está?


– Talvez esteja, mas não é nada demais.


– Eu espero que sim, mas obrigado por vir, pelo menos não estarei sozinho nessa viagem.


– Só vou lhe fazer mais uma pergunta, não encontramos um amigo pronto para ceder ao nosso lado, estamos?


– Nem consigo imaginar essa possibilidade, e talvez você nem deve-se pensar nele como amigo, mas sim como inimigo, por isso mesmo que estou aqui, tentarei resolver o problema de forma diplomática, caso não consiga o objetivo que almejo, pretendo uma minha força e minha hierarquia como imperatriz para fazer eles cederem ao meu comando.


– Quer dizer que o estamos prestes a fazer é algum tipo de salvamento, um regaste a Atreyu.


– Eu diria que é mais do que isso, o que estamos prestes a fazer é mais do que um salvamento, seria mais tirar um prisioneiro de um campo de concentração.


– Será que está tão perigo assim a situação? — pensou Bastian, talvez realmente estivesse.


Não é de se esperar que a opinião da imperatriz e o pensamento de Bastian estava incorretos, de fato estava sendo um campo de concentração para Atreyu, o mesmo fazia tempo que não saia para passear com Atrax, o seu fiel amigo de passeio e que cavalo, que o mesmo amava tanto, mesmo que sempre que tinha tempo gostava de dizer que um dia livre iria pegar o mesmo para um maravilhoso passeio durante a tarde, mas o cavalo estava até aquele momento esperando que Atreyu cumprisse sua promessa, mas o mesmo não cumpria, sempre dava a desculpa de que naquele momento não podia e que ficaria para outro dia, e esse dia nunca chegava, nunca chegou. Mal podia ou conseguia sair da tribo, sempre tinha algum serviço, alguma tarefa, alguma coisa da qual ocupava sua mente e corpo, mesmo que fosse a coisa mais simples a fazer, ele era chamado para isso, mal tinha um tempo para uma parada ou um descanso, estava mais magro do que de costume, ou mais do que já é, parecia que olheiras começavam a rodear seus olhos, era como se ele não pudesse pensar nos seus amigos, e esse era realmente o objetivo, que Atreyu esquecesse que Bastian e a imperatriz existiam, e a raiva e tristeza que cresciam dentro de si e que somente era aumentado pelas palavras dos anciões ou da Anciã-Chefe, faziam efeito, começando Atreyu a pensar que seus amigos não gostavam mais dele, que não se interessavam por ele, que não tinha nenhum interesse em vir resgatá-lo, que ele ficaria para sempre naquele lugar, que os amigos não pensavam mais nele, que o amor de Bastian por ele, não era tão recíproco quanto o de Atreyu. E pouco a pouco Atreyu parece que vai esquecendo-se deles ou já esqueceu quase que por completo, não sabe quem é um ou quem é outro, é como se somente tivesse ouvido falar, mas não sabem quem é ou muito menos se lembra do rosto. Será que era somente um preconceito da tribo e do Conselho de Anciões, em que um garoto não podia se gostar e muito menos amar outro garoto? Ou tinha algum outro objetivo nisso, uma total submissão de Atreyu ao resto do seu povo, e que um garoto de outro mundo não poderia interferir? Bem, uma coisa era certa, alguma coisa de errado estava acontecendo, mas antes disso, como foi à conversa de Atreyu com o conselho, primeiro não foi como Atreyu queria ou pensava que iria ser e segundo, o resultado, como pode ser visto, foi o pior possível.


Atreyu voltava da Torre de Marfim, inacreditavelmente havia mandado um mensageiro na sua frente, para que desse o recado ao Conselho de Anciões e realmente este chegou antes do rapaz, mesmo que ambos cavalgassem dia e noite sem parar, já que a mensagem era um pouco mais urgente, quando soube da notícia, Brigidit, uma amiga desde a infância, que Atreyu conseguiu conhecer e desde então sempre que podiam conversavam e sempre que a conversa se desenvolvia, acabavam por contar seus maiores segredos, e que um prometia ao outro não contar para ninguém, brincavam juntos e um dia, quando repousavam a sombra de uma árvore e eis que Brigidit lhe faz uma pergunta:


– Atreyu você gosta de alguém?


Isso era um assunto que nunca havia passado pela cabeça de Atreyu, mas que parecia que já havia passado por seu coração, pois esse estranhamente não parava de bater mais forte. Por isso comentou:


– Eu nunca tinha parado para pensar nisso, mas talvez eu goste de uma pessoa sim.


Por um momento Brigidit pareceu se exaltar de emoção, mesmo disfarçando isso diante de Atreyu, interessada de alguma forma no assunto, continuou:


– E essa pessoa mora aqui conosco?


– Não, na verdade mora um pouco longe daqui – dava para ver um pouco de decepção estampado no rosto da menino. – Agora nem sei se gosto tanto dela assim e se ela sente o mesmo por mim.


– Como assim, não estou entendendo, você gosta ou não?


– Pode ser que sim, é que de alguma forma nos conhecemos há tanto tempo, e eu sinto meu coração bater um pouco mais forte quando estou perto dessa pessoa, acho que aos poucos começo a gostar dessa pessoa.


– E essa pessoa em relação a você? Gosta ou não?


– Talvez sim, talvez não, estou sem saber o que fazer e sem saber se essa pessoa gosta ou não.


– Afinal de contas, sem querer invadir muito a sua privacidade, será que eu poderia saber quem é? Já que essa pessoa ou criatura mora tão longe.


– Em primeiro lugar não se trata de uma criatura, para que eu iria querer namorar uma criatura e em segundo lugar, trata-se de uma pessoa, que mora muito longe, além de Fantasia. Na verdade, sendo sincero com vocês, eu estou gostando mesmo é de Bastian Baltasar Bux.


– Aquele garoto que vem nos ajudando, que também é muito amigável com a imperatriz, que conseguiu mudar e criar uma nova e boa fantasia de se viver?


– Sim, é ele mesmo.


– E você pretende fazer a loucura de contar isso para o Conselho de Anciões?


– Sim, eu já havia conversado sobre isso com a Anciã-Chefe, a mãe suprema e conselheira superior de nossa tribo.


– E acredito que nessa conversa ela mandou que você tomasse cuidado no uso de suas palavras em frente ao conselho, que pensasse muito antes de fazer uma loucura.


– E eu pensei muito nisso, por isso mandei um mensageiro em minha frente, para que pudesse avisar o conselho de que iria querer uma conversa com o mesmo, que por sinal já deve está esperando a minha chegada.


– E o que você pretende ganhar com isso, o amor do conselho, o amor de todo mundo aqui? Um respeito ou simplesmente pretende declarar o seu amor por esse garoto?


– Quando lhe disse que não sabia se ele gostava de mim, é porque muita coisa aconteceu, desde o momento em que voltei para cá, pode ser que nunca voltemos a nos falar, mas se eu pelo tentar uma nova aproximação, para mim já é suficiente.


– Quer dizer que vocês brigaram?


– Pode-se dizer que sim, ou melhor, brigamos sim, e eu passei um período muito conturbado em relação a isso.


– E então você não voltaria para casa para somente esquecê-lo?


– Sim, a princípio era minha intenção, mas com o passar do tempo percebi que era impossível esquecer tudo o que aconteceu entre nós.


– Meu conselho seria o de que não fizesse essa loucura, contudo como sua melhor amiga e digo que faça o que o seu coração mandar, é minha opinião final.


– Obrigado, muito obrigado mesmo Brigidit, você realmente é uma pessoa inesquecível em minha vida, acho que se não tivesse gostado de Bastian, com certeza a outra pessoa da qual eu teria gostado com certeza seria você.


– Isso é uma grande elogio vindo de você Atreyu – disse dando um sorriso belíssimo e ficando com o rosto levemente corado.


Depois levantou-se, respirou fundo, deu um beijo na bochecha de sua amiga e adentrou no recinto, lá o conselho o esperava, todos estavam sérios, ninguém parecia está do lado ou disposto a ficar do lado dele, mas isso não assustou Atreyu e para destruir o clima de silêncio e do clima pesado no local, a Anciã-Chefe falou:


– Jovem Atreyu, qual o motivo no qual vossa senhoria pediu para que esse conselho se reuni-se?


– E gostaria de fazer uma declaração, um pedido e por fim um conselho, e gostaria que vocês respeitassem e pensassem a respeito.


– Dependendo do que pretende argumentar a esse conselho, poderemos pensar em ambos os pedidos que você vem propondo. Então, pode começar o seu relato. Apesar de que eu saiba parcialmente o que você pretende diante desse conselho – falou Calext.


– Sim a senhora sabe muito bem do que se trata, mas preciso assim mesmo falar para esse conselho, o fato é que gosto, mas muito de Bastian Baltazar Bux, já faz um bom tempo.


– E o que esse conselho tem a ver com a sua opção de quem você escolheu para namorar? E porque tem de ser logo esse humano, que nem nos domínios de fantasia o mesmo reside? Não poderia ser outra pessoa?


– Até que poderia, mas isso é um sentimento que brotou dentro de mim, é algo que não posso controlar, se é que vocês me entendem, é uma alegria que sinto ao seu lado, o fato de minha boca ficar seca e meu coração bater involuntariamente mais rápido, tudo bem que ele não reside em Fantasia, mas tudo se dá um jeito, haverá como ficarmos juntos.


– Tem certeza Atreyu, não foi esse mesmo garoto que foi embora, deixando uma promessa sem ser cumprida, um coração destruído, um garoto triste, desolado, sem saber que rumo tomar? Estou errada em minhas argumentações?


– Nenhum um pouco Matriarca Calext, mas mesmo assim acredito que ele não fez isso por mal, está sobre certa pressão, talvez não tenha percebido ou escolhido os sentimentos deles por mim, é somente uma questão de tempo.


– E se ele nunca mais voltar? Se disser que realmente não gosta de você? Continuará alimentando essa ilusão? Continuará achando que esse amor ainda existe?


– Quem falou que tudo isso é ilusão, que tudo é uma mentira, não estou alimentando nada de errado e além do mais, se ficar comprovado que ele não gosta mais de mim, tudo bem, irei me redimir diante da tribo e diante desse conselho, se é o que vocês desejam que eu faça.


– Não é que desejamos, mas é o mais correto a se fazer, apesar de que não vai adiantar em nada mesmo, pois o estrago já está feito mesmo.


– Eu não vejo isso como um estrago, mas como uma coisa normal, só quero mostrar que não sou aquela figura, aquela imagem perfeita de um jovem caçador, um dos mais forte da tribo, mesmo sendo ainda tão novo, quero mostrar que sou como qualquer outro, e que não preciso me transformar em ídolo para ninguém.


– Mesmo que de alguma forma, você já está sendo um, há muito tempo? O que não consigo entender também é o que você pretende ganhar com isso.


– Nada, eu não quero ganhar nada, se for para perder, que seja. Eu só quero está bem comigo mesmo, ter felicidade, uma paz espiritual, é o que importa.


– Você disse que iria fazer três realizações diante desse conselho, quais os outros dois.


– Realmente vim para realizar três tarefas diante desse conselho, o primeiro foi a declaração, já o segundo que desejo fazer, trata-se de um pedido, na verdade são três.


– Diga então quais são os três pedidos.


– Quem me ajudem, se quiserem, em desmistificar o Atreyu guerreiro que existe no pensamento de todas as pessoas, depois que não se intrometam em nenhum assunto que envolva a mim e a Bastian e que o pacto realizado com a antiga imperatriz seja totalmente anulado, que não tenha mais nenhum efeito.


– Que petulância, com que autoridade, você acha que pode vim a esse conselho, desrespeitá-lo de alguma forma e ainda exigir que certas obrigações sejam realizadas? Você é somente mais um moleque insolente, que não sabe qual é o seu lugar.


– Na verdade ele tem certa razão, Calext. Você sabe muito bem que não fui nem um pouco a favor sobre a resposta que você enviou para a imperatriz, como também não vejo impedimento algum em relação aos pedidos deles, mesmo que seja a única, estou a favor das exigências dele – disse a Sra. Amalet.


Um outro membro do conselho levantou a mão, depois um terceiro, um quarto e quase a metade do conselho foi a favor do pedido de Atreyu.


– Muito bem, espero que saiba o que está fazendo, garoto – disse a Anciã-Chefe num tom bastante severo.


– Sei perfeitamente o que estou fazendo Matriarca.


– E qual o seu último pedido mesmo, para que desapareça de uma vez da frente desse conselho e para que possamos voltar aos nossos afazeres que por sinal são mais importante do que está aqui com você.


– A última coisa que gostaria de pedir ao conselho é isso mesmo.


– Isso o que? — disse rispidamente Calext.


– Um conselho é claro.


– E qual o conselho que você deseja que esse conselho lhe disponha?


– O que estou fazendo aqui é certo? Minha relação com Bastian é a coisa mais correta a se fazer? E o que vocês pretende fazer diante de tudo isso que ocorreu nesse dia?


– Vejo que você pediu mais de um conselho, mas tudo bem, já está tudo devidamente anotado, em relação ao nível dessas perguntas, você sabe perfeitamente que precisaremos de um tempo para pensar, para que depois possamos responder.


– E nem é meu objetivo receber essa resposta hoje de vocês.


– Então esse conselho entra em recesso até segunda ordem, e voltará quando assim decidir, não se preocupe que você será informado com antecedência da nova audiência diante desse conselho, do qual terá de comparecer – e por fim bateu o martelo.


Os conselheiros sairam por uma porta especial, que fica atrás da mesma principal, onde se reúne o conselho, pode não parece, mas Atreyu estava sentado em uma cadeira, que fica diante do conselho, levantou-se sorridente, de um certo modo vitorioso, poderia não conseguir o que queria, mas pelo menos tinha desafiado o conselho, parecia uma burrice, uma loucura, ele sabia muito bem disso, mas de alguma forma, precisou-se ter feito isso, ele acha que era um objetivo, uma tarefa, um passo para sua glória pessoal. Ninguém do lado de fora realmente sabia o que havia se deliberado lá dentro, mas sabiam que Atreyu havia pedido que o conselho se reuni-se, o que é quase impossível de ocorrer, pois as reuniões ocorrem mais quando os mais velhos pedem, não quando crianças ou jovens fazem isso, salvo se tem algo importante para dizer, será que isso se estendia para Atreyu, pensavam os outros, se não, o que então, bem, mais cedo o mais tarde todos iriam saber mesmo. Do lado de fora esperava Brigidit, um tanto nervosa, mas alegre quando o viu sair inteiro.


– Realmente você é louco ou deseja aparecer de alguma forma, porque diabos pensou em fazer uma loucura como essa?


– Talvez uma coisa de cada, talvez seja meu objetivo fazer isso que você disse, não sei ao certo o que ou porque fiz, só sei que deveria ter feito, era algo que precisava ser feito, estou feliz e em paz comigo mesmo, estou com a sensação de ter tirado um peso enorme de minhas costas. Você vai ver, um novo Atreyu está prestes a nascer e a surgir.


– E tudo isso graças a um garoto, que veio de fato para mudar sua vida e sua forma de pensar.


– Mas não é somente a ele que tenho que agradecer, mas a você também, por todo o apoio que tem me dado e por ser minha melhor amiga, ao qual posso contar quando quiser e a qual posso contar o que quiser, pois sei que ela guardará esse segredo para sempre – disse dando-lhe um beijo na bochecha.


– Eu é que fico feliz em ser sua amiga. E pode contar comigo para todos os momentos de sua vida, como também os piores.


– Obrigado mais uma vez Brigidit.


– Disponha sempre que quiser.


Mas toda a glória que Atreyu estava tentando ostentar, o mito que estava tentando destruir, o plano perfeito que pretendia colocar em prática se desfez em poucos segundos, na verdade, uma semana depois de ocorrido a primeira reunião, quando numa quarta-feira normal, no fim da tarde, quando recebeu a notícia com antecedência, um dia antes, sua excitação foi a melhor possível, a alegria transbordava em seu rosto e falou para Brigidit:


– É amanhã Brigidit, é amanhã que os meus dias de glórias irão começar a dar frutos.


Mas mal sabia Atreyu, que essa árvore que daria bons frutos, nem brotar consegui, e muito menos crescer, render e dar bons frutos. Já diante do conselho, tentou esconder sua alegria e sua felicidade, tinha que se mostrar o mais calmo possível.


– Vejo que está calmo demais, mesmo com certeza explodindo de excitação por dentro, deve está agoniado para saber qual será nossa resposta diante daquilo que nos pediu, não é verdade jovem Atreyu? – disse Calext tentando ver se ele demonstrava fraqueza diante do conselho e dela, que era o que era mais queria que acontecesse.


– Estou o mais calmo possível, um pouco nervoso eu estou, mas mais do que isso, acredito que não faz parte do meu eu – disse revidando e não caindo no plano da outra.


– Temos um jovem filósofo ou um grande mentiroso e ainda por cima insolente como sempre, se achando o máximo, somente porque os outros o idolatram tanto.


– Calma, Calext, como Vice Anciã-Chefe, peço que meça melhor sua palavra, e sobre o que o jovem é ou deixou de ser não compete a esse conselho discutir, salvo se for o caso, e peço que vá direto ao assunto – comentou Amalet.


– Desculpe Amalet, e o resto do conselho, acho que me exaltei um pouco, tenho certeza de que isso não voltará a se repetir, sei perfeitamente que o respeito é um dos pilares dessa tribo e assim deve continuar, e assim será feito. Bem, sem mais delongas, sobre o seu primeiro pedido, o problema é seu, você faz o que quiser da sua vida e de seu corpo, se gosta tanto desse garoto, que seja, nos acatamos a sua declaração, mesmo não tendo nenhum valor para nós, acho que isso também responde a sua última pergunta, já em relação a segunda pergunta, sobre você deixar de ser o Atreyu que é, isso não será possível, não iremos permitir que faça isso, pode querer manchar a imagem dessa tribo, mas não permitiremos tal coisa, terá que fazer o que faz em segredo, ninguém poderá saber do que gosta e de que gosta, você é um ícone para essa tribo e assim irá continuar e se ousar nos contrariar, iremos desmentir o que você disse e você ainda passará por mentiroso, é isso que deseja?


– Quer dizer então que você acataram a decisão parcialmente? Como podem fazer isso? Não pensa nos que as outras pessoas pensam ou querem? — disse levantando-se da cadeira, exaltado e com certa razão.


– Parece que a máscara que escondia a pouco finalmente apareceu — disse Calext num tom de vitória.


– Não é o que está pensando, você sabe perfeitamente bem que só estou tentando defender o que é melhor para mim.


– Se pensamos assim, como você, é claro que sim acatamos essa decisão parcialmente, mas não se esqueça que somos mais velhos do que você e dessa tribo, então sabemos o que é melhor para você, ainda é muito imaturo e não tem condições de pensar por si só, por isso, para saber realmente o que você pretende fazer e se pretende cumprir com aquilo de aqui decidimos, o jovem Arcalt, vai ser com a um fiscal para nós, e para qualquer descumprimento que você fizer, tomaremos as medidas cabíveis – e um sorriso malicioso apareceu no rosto de Calext e Arcalt.


– Não acato a decisão, peço uma revisão sobre o assunto.


– Pedido negado, o que já foi discutido, discutido está e não fará nós voltarmos atrás em nossa decisão, por isso fique feliz com nossa decisão e fim de reunião – disse batendo o martelo pela última vez.


O pior é que a partir desse dia, além da derrota, o outro garoto, o Arcalt, mal saia da cola de Atreyu, para onde ele fosse, o mesmo ia atrás dele, exceto quando ia ao banheiro ou quando conseguia despistá-lo e ficava um pouco sozinho, mas isso lhe rendia um cascudo na cabeça, uma anotação num caderno que o mesmo levava sempre consigo e que certamente seria levado ao Conselho e também uma nota de protesto por parte de Atreyu.


– Cuidado, isso dói.


– Problema seu, ordem são ordem — e começava a anotar no seu caderno, alguma coisa que atreyu não conseguia ver.


– O que está escrevendo?


– Não é da sua conta — dizia num tom rispido.


– Não precisa dizer com tanta grosseria — e mostrava a língua para o garoto, recebendo um outro cascudo, mais uma anotação e outra nota de protesto.


Quando despistava o garoto e conseguia ficar um pouco a sós e em paz consigo mesmo, sempre que podia ou achava necessário ia ao encontro de sua amiga Brigidit, que parecia não lhe ajudar muito, apesar que lhe confortava de alguma maneira.


– E não aguento mais isso Brigidit, para onde eu vou, aquele idiota vem atrás de mim, não tem nem sossego quando estou dormindo, é como se ele fosse um pai me vigiando.


– Eu não irei dizer que é bem feito, pois sou sua melhor amiga, mas praticamente foi você que pediu isso, ou acabou pedindo, foi muito longe em suas escolhas.


– Nossa, isso me conforta muito, obrigado pelo apoio – disse num tom de ironia.


– Eu estou sentindo pena de você, se pudesse fazer alguma coisa por você, eu faria, mas o que eu lhe prometi, eu estou cumprindo, não posso fazer mais nada e não adianta confrontar o conselho, isso só iria piorar as coisas, não somente para mim, mas para você.


– Realmente, mesmo não parecendo, mas você anda me apoiando nesse momento ruim da minha vida. E eu não gostaria que nada de ruim acontecesse com você — disse acariciando carinhosamente o rosto da amiga.


– Fico agradecida da maneira como você deseja sempre me proteger, é como se fosse um irmão para mim.


– O mesmo digo de você, é mais do que um ombro amigo onde posso me encostar, é como uma irmã, na qual posso me apoiar sempre que quiser.


– E Bastian, o que você acha que ele está fazendo? Onde ele está? Ainda acha que vem para ajudá-lo?


– Sim, certamente que sim, muita coisa aconteceu entre nós e não vai ser uma briga a toa que irá desmanchar tudo isso, ele virá até mim, para me ajudar, mais cedo ou mais tarde.


– Que confiança, e diga-me, como punição, o que o Conselho obriga você a fazer?


– Tarefas simples, como limpar algum lugar, mexer com a plantação, cuidar do animais, qualquer serviço que venha a existir e ainda mais na companhia daquele idiota, que só fica olhando.


– E porque isso afinal de contas?


– Eles estão tentando fazer com que eu não tenha tempo para me divertir, faz tempo que não passeio com Atrax, e ele está começando a me pedir isso, talvez não queria que eu fique perto de alguém e coloque meu plano em prática.


– Quer um conselho, você deveria esquecer esse plano afinal de contas, ele só está lhe trazendo prejuízos e dor de cabeça.


– NÃO! Eu não posso, isso não é nem pelos meus amigos, e por mim mesmo, pelo amor que sinto por Bastian e acredito que o mesmo dele por mim, é porque quando você sonha em realizar algo, deve ir até o fim por esse sonho, nunca desistir, e é isso que eu vou fazer, não desistirei nunca de conseguir aquilo que quero.


– Você acha que esse garoto merece todo o empenho que você está dando em nome dele, mesmo ele, talvez nem sabendo pelo que você está passando e muito menos, se ainda gosta de você?


– Sim, ele merece tudo o que estou tentando fazer por ele e tem mais, se ele não gosta de mim, pois bem, já disse que irei me redimir diante de quem quiser e se for caso, bem feito para mim, seria como uma punição por eu não ter ficado quieto em meu lugar.


– Então pode ter certeza que terá todo o o meu apoio, o que quiser que eu faça estarei disposta a fazer, somente para ajudá-lo nesse empreitada, mas mudando um pouco de assunto, é minha impressão ou você anda um pouco magro demais?


– Acho que emagreci um pouco desde que esse idiota anda na minha cola, mal tenho tempo para comer, e com as tarefas que tenho a cumprir, estou gastando as poucas energias que tenho.


– Não se preocupe, a partir de hoje irei preparar as refeições para você e ficarei por perto, para ver se está comendo.


Nisso vinha novamente o garoto, pronto para lhe dar um cascudo, ou algo pior.


– Nem ouse bater nele, senão você vai sofrer as consequências se o fizer – disse Brigidit, olhando severamente para o outro garoto, que não fez nada com Atreyu. — E se eu souber que você bateu nele, você vai odiar o dia em que nasceu.


Nisso, pelo menos das batidas, Atreyu estava livre de receber do menino, mas sua vida mesmo assim não iria se tornar a melhor possível. No dia seguinte lá vinha Brigidit com um almoço, mas antes teve uma nota de protesto.


– Você não pode dar isso a ele — comentou normalmente Arcalt.


– E porque não? Só estou trazendo uma refeição para um pessoa que parece está precisando dela.


– Mesmo assim, o Conselho dos Anciões não aprova tal medida, e como representante dele não permitirei que faça isso.


– Que você e o conselho vão todos para o inferno, e quero ver quem vai me impedir – disse entregando a marmita e vendo um sorridente Atreyu comer tudo, sem a intromissão do outro.


O garoto simplesmente fez uma anotação em seu caderno, certamente aquilo iria ser levado ao Conselho, mas Brigidit não estava nem um pouco preocupada com isso, com as consequências que isso teria, estava preocupada simplesmente em ajudar Atreyu, fosse como fosse, no que estivesse ao seu alcance, mas isso teria uma consequência posterior, em mais um reunião entre os dois, com o garoto longe deles, Atreyu não parava de mexer uma mão com a outra, e de passar a mão pelas suas costas, parecia impaciente e assustado, temendo que algo de pior acontecesse, seja lá o que fosse e Brigidit estranhou esse fato.


– Algum problema Atreyu, você não para de mexer nas suas costas.


– Não é nada, é somente uma coceira – disse mentindo, pois quando tocava, para ver uma ponta de dor estampada em seu rosto.


– Você não me engana Atreyu, tire a camisa, por favor.


– O que?


– Eu já disse, tire a camisa, eu quero ver sua costas.


– Mas eu já disse que não é nada demais, só uma coceira.


– Mesmo assim eu quero ver, pois dependendo da coceira eu tenho um remédio perfeito para ele.


Mesmo não querendo, mesmo a contragosto, Atreyu teve de fazer o que sua amiga tinha pedido, e abaixou a camisa. Toda a costa estava vermelha, vários arranhões, como se o mesmo tivesse se atracado com um cacto, estava realmente uma desgraça.


– Eu posso saber o que é isso.


– Nada demais, deve ter sido somente uma queda que levei faz pouco tempo, mas já está sarando.


– Você mente muito mal Atreyu , diga logo que aconteceu.


– Quer saber então, isso foi alguma chicotada que levei, não quis dedurar você.


– Como assim, não posso acreditar que estão torturando você, como podem fazer isso, é loucura, estão ficando doído?


– Doído ou não, eles ainda mandam na gente.


– Quer dizer que isso foi por causa das marmitas, aquele dedo duro idiota, ele vai ter o que merece – disse se levantando.


– Não faça isso, eu não quero que você se machuque e muito menos que se envolva, mais do que já está – disse segurando-a levemente pelos braços.


– Não se preocupe Atreyu, eu pensei melhor, não pretendo fazer isso agora, mas em um momento oportuno.


– Não, você não vai fazer nada, eu lhe proíbo disso, me prometa que não fará nada.


– Eu prometo, que não vou fazer nada.


– Promete mesmo.


– Sim, prometo pelos nossos deuses.


E pareceu que realmente os deuses estavam do lado de Brigidit, pois naquela noite, o jovem Arcalt levou a maior surra de sua vida, nunca tinha visto uma fúria feminina de perto e nunca saberia quem fez isso com ele, só se sabe que no dia seguinte Atreyu teve o melhor dia de sua vida, estava livre até o dia em que o garoto se recupera-se. Atreyu sobre que tinha sido Brigidit que tinha feito aquele estrago, mas preferiu não perguntar, para não brigar com ela e ele nem sequer recebeu qualquer tipo de punição por isso, pois como o Conselho não tinha nenhuma prova para culpá-lo, ele ficou livre dessa. Mas mais cedo ou mais tarde ou seu supervisor voltaria para encher seu saco, contudo pouco tempo ele ficaria com Atreyu, pois o plano do conselho estava começando a ser cumprindo, e uma peça primordial precisava se descartada desse tabuleiro, isso significava que algo pior estava por vir.


Durante um bom tempo Atreyu deixou de ver sua amiga? Para onde tinha ido ou o que estava fazendo? Com certeza o conselho fez alguma coisa para mantê-la o máximo distante possível de Atreyu, fora isso visitas para fora da tribo, somente por supervisão e visitar a Torre de Marfim ou um local circunvizinho também tinha a mesma regra. Pouco a pouco ambos foram se esquecendo, ninguém podia comentar nada sobre esse lugares, o conselho tinha proibido a todos. Em uma grande festividade, vendo os dois juntos e vendo uma oportunidade única, a Matriarca Calext se aproximou dos dois.


– Olá meus jovens, o que estão achando da festa?


– Perfeita Matriarca Calext, melhor impossível – falou Brigidit.


– Além disso, vindo da pessoa mais importante dessa tribo, só poderia ser coisa boa – comentou Atreyu.


– Obrigado os dois, vejam só, estou pensando em mandar duas pessoas para uma reunião importante que irá ocorrer perto dos riachos floridos (um local perto da Torre de Marfim, com um rio extenso e com várias bifurcações e devidamente florido, fora o fato de terem muito lagos por perto, o que dá um beleza inestimável ao local), vocês conhecem esse lugar?


– Eu não consigo lembrar que lugar é esse – falou Atreyu, tentando lembra ou imaginar que lugar era esse.


– E muito menos eu, não sei que lugar é esse.


– Não tem problema, valeu pela intenção de vocês, vou procurar quem saiba aonde fica, preciso que essas duas pessoas me acompanhem — e se afastou dos dois.


– O plano foi perfeito Deferick, eles não se lembram de nada, é como se tudo o que eles passaram desde que Atreyu voltou da Torre de Marfim nunca tivesse acontecido.


– Mas como isso é possível Matriarca Calext?


– Simples, o uso de uma Magia Antiga da tribo e uma poção que os nossos antepassados, feiticeiros deixaram para nós, colocado na comida de Atreyu e posteriormente na de Brigidit, eles simplemente eram como fantoches para nós, e aos poucos fomos extraindo todas as informações que queriamos.


– Isso realmente aconteceu?


– Sim, eles nem se lembrar de quando se separaram um do outro e quando a garota voltou misteriosamente para perto dele e vice-versa.


– Você realmente é mal Calext.


– Má, nem um pouco, eu somente estou fazendo o que é certo para essa tribo e nada, nem ninguém, nem que essa pessoa seja o nosso jovem Atreyu, o melhor caçador que temos, queira destruir, algo que construimos ao longo de muito tempo.


– Mas tudo isso por causa de um garoto?


– Devo dizer que é mais do que isso, não é só pelo garoto, mas o que ele é, o que ele criou, a imagem que ele possuir, são todos esses fatores ligados a ele que contam, e isso eu não quero perder por nada.


– Mas você acha que o que ele desejava fazer poderia prejudicar e estragar tudo o que foi construido com o passar do tempo.


– Não, mas prejudicaria de alguma maneira, e isso eu não posso permitir.


– Mas a senhora sabem como as notícias voam, certamente daqui a pouco a Impeatriz estará aqui, ela pode estragar nossos planos.


– Sei perfeitamente bem disso, Deferick, contudo ela que venha, pois estarei preparada para recebé-la, certamente não virá sozinha, trará uma comitiva dos seus melhores soldados e espero, tendo quase certeza que Bastian Baltazar Bux também virá.


– E o que pretende fazer? Confrontá-los? VocÊ acha isso possível?


– Eu tenho meus truques, deixe comigo, agora vamos comemorar, não quero mais pensar nisso — e voltaram para dentro da festa.


Tudo isso só parecia mostrar que o plano estava sendo um sucesso, se eles nem se lembrava de um local perto da Torre de Marfim, quanto mais se lembrariam do castelo onde residia a imperatriz, e muito menos se lembraria ou se lembravam dela, e como fazia muito tempo, lembrar de Bastian era impossível e de tudo que Atreyu fez com ele. Mas será mesmo que o plano de Atreyu estava por um fio, se ele nem mesmo se lembrava o que era? Será que tudo tinha ou estava indo por água abaixo, ou não? Será que Bastian e a Imperatriz conseguiriam algum resultado? E isso tudo motivado pela raiva depositada em um garoto? E na fama que o outro tinha conquistado? De um sucesso que o mesmo possui, uma imagem que ele criou e que era a coisa mais importante para tribo das terras dos búfalos roxos? O fato é que isso era verdade, contudo isso vai muito além do preconceito de eles não quererem que ninguém sabe que Atreyu gosta de um menino, e sendo esse logo, Bastian Baltazar Bux, vai da história que envolveu eles dois e que desencadeou esse grande problema. Mas o certo é que nada ainda estava por ter um fim, uma solução, tudo poderia mudar, tanto para um lado, como para o outro.

Notas finais
Próximo Capítulo - Capítulo VIII - Começo de Tudo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.